• Nenhum resultado encontrado

1.3 Fundamentos da prevenção e da repressão do abuso do processo

1.3.7 Os deveres gerais dos sujeitos processuais

1.3.7.2 O dever de lealdade processual

O dever de lealdade processual é uma manifestação do princípio geral de boa-fé objetiva404 que impõe aos sujeitos processuais a moralidade e a probidade necessárias para a consecução das finalidades sócio-políticas do processo405. Está expressamente previsto no art. 14, II, do CPC: “Art. 14. São deveres das partes e de todos aqueles que de qualquer forma participam do processo: [...] II - proceder com lealdade e boa-fé”406.

Apesar de as partes atuarem em juízo sempre em busca da vitória, elas agem em cooperação com o órgão jurisdicional porque é a sua atividade dialética no processo que garante que o provimento jurisdicional seja o mais próximo possível da verdade

402 Alvaro de Oliveira (Poderes do Juiz e Visão Cooperativa do Processo, in Revista da AJURIS, nº 90, pp.

56-57) esclarece que, no século XIX, quando predominava a concepção liberal e privatista de processo, acreditava-se que o próprio interesse do litigante no direito alegado estimularia a mais rápida investigação da situação jurídica controvertida. Por essa razão, impunha-se exclusivamente às partes o poder e o ônus de trazer ao processo a matéria de fato. Contudo, a experiência acabou desmentindo a crença na eficiência desse trabalho desenvolvido exclusivamente pelas partes do processo, pois se constatou que ele relativiza além do desejável a apreciação da verdade pelo juiz, já que o força a se contentar passivamente com a versão fática trazida pelas partes.

403 Deve-se ressaltar que, ao fazer essa observação, Castro Filho reporta-se ao “princípio dispositivo”, de

forma genérica. Ele não segue a teoria que distingue o princípio dispositivo em sentido material do princípio dispositivo em sentido processual, proposta por Cappellletti.

Porém, deduz-se que o autor brasileiro se refere ao princípio dispositivo em sentido processual (ou em sentido impróprio) porque é a ele, e não ao princípio dispositivo em sentido material, que alguns doutrinadores que não adotam a teoria distintiva de Cappelletti se referem quando afirmam que o princípio dispositivo não é absoluto, mas sim um mero “princípio de oportunidade” ou uma simples “diretriz de conveniência”, visto que a vinculação do juiz à iniciativa das partes no que concerne à técnica e ao desenvolvimento interno do processo (notadamente a iniciativa com relação à produção probatória) de fato não exprime uma consequência processual necessária do caráter disponível do objeto do processo, podendo, por isso, ser relativizada em prol de um melhor exercício da função jurisdicional (CAPPELLETTI, La

Testimonianza della Parte nel Sistema dell’Oralità, vol. I, p. 327, nt. 15; LIEBMAN, Fondamento del Principio Dispositivo, in Problemi del Processo Civile, p. 5).

404 BAPTISTA DA SILVA, Comentários ao Código de Processo Civil, vol. 1, p. 105. 405 CINTRA; DINAMARCO; GRINOVER, Teoria Geral do Processo, p. 73.

406 O Projeto de Lei nº 8.046/2010, que instui o novo Código de Processo Civil, contém dispositivo com esse

mesmo teor: “Art. 80. São deveres das partes, de seus procuradores, e de todos aqueles que de qualquer

processual407. Logo, os atos das partes são um fator relevante para o exercício justo da atividade jurisdicional. Se elas atuam de modo desleal, faltando com a verdade e empregando ardis fraudulentos, o processo deixa de ser um instrumento ético, destinado a pacificar os conflitos da sociedade com justiça408.

O dever de lealdade refreia a habilidade e a astúcia das partes e demais pessoas que participam do processo, estabelecendo a observância dos limites impostos pelo costume e pela moral social, bem como impondo o respeito, pelos advogados, das exigências de correção profissional409. Segundo Barbi410, o dever de lealdade estatui a obrigação de “obedecer às regras do jogo, no qual deve vencer aquele que realmente tem razão”.

Distingue-se do dever de veracidade porque “não mentir é uma coisa; ser estratego e astuto sem cometer deslealdades, ainda que seja bastante mais subtil, constitui outra muitíssimo diferente” 411.

Cintra, Dinamarco e Grinover412 denunciam a existência de alguns opositores do dever de lealdade no processo civil, os quais o considerariam um instituto violador de garantias constitucionais, pois seria inquisitivo, contrário à livre disponibilidade das partes e até um “instrumento de tortura moral”. Entretanto, os três juristas, acompanhados por Barbosa Moreira413, rebatem as críticas, afirmando que essa concepção é um reflexo processual da ideologia individualista do “laissez-faire” e que, consequentemente, ignora as conotações publicistas conferidas ao processo desde a promulgação do Código de Processo Civil de 1939414. Portanto, não há qualquer incompatibilidade entre o dever de lealdade e os princípios e garantias constitucionais.

407 GRINOVER, Abuso do Processo e Resistência às Ordens Judiciárias: o contempt of court, in A Marcha do Processo, p. 62.

408 Nesse sentido: DONDI; GIUSSANI, Appunti sul Problema dell’Abuso del Processo Civile nella

Prospettiva de Iure Condendo, in Rivista Trimestrale di Diritto e Procedura Civile, vol. 61, nº 1, p. 197; PUOLI, Os Poderes do Juiz e as Reformas da Lei Processual Civil Brasileira, p. 185.

409 LIEBMAN, Manual de Direito Processual Civil, vol. I, § 60, p. 124. Esse parecer é endossado por Barbi

(Comentários ao Código de Processo Civil, vol. I, § 154, p. 120).

410 Comentários ao Código de Processo Civil, vol. I, § 154, p. 121. 411 LUSO SOARES, A Responsabilidade Processual Civil, p. 172. 412 Teoria Geral do Processo, p. 74.

413 A Responsabilidade das Partes por Dano Processual no Direito Brasileiro, in Temas de Direito Processual, p. 16.

414 Machado Guimarães (Processo Autoritário e Regime Liberal, in Revista Forense, vol. 82, pp. 243-248)

afirma que o Código de Processo Civil de 1939 adotou o chamado “processo autoritário”, que é um corolário da tendência de socialização do direito, em contraposição ao “processo individualista”. Segundo o doutrinador, o “processo autoritário” tinha duas características principais: (a) o reforço da autoridade do juiz no processo; e (b) a abolição e proscrição dos princípios exclusivamente dispositivos, considerados típicos do processo de caráter individualista.