1.3 Fundamentos da prevenção e da repressão do abuso do processo
1.3.7 Os deveres gerais dos sujeitos processuais
1.3.7.1 O dever de veracidade
1.3.7.1.1 Conceito e conteúdo
O dever de veracidade proíbe a parte de afirmar fato que sabe ser falso e de impugnar fato que sabe ser verdadeiro290. Também veda a descrição de fato existente, porém sem correspondência exata com a realidade291.
Afirma-se que o dever de veracidade refere-se apenas às declarações sobre circunstâncias fáticas, não às manifestações de direito292. Mas, não há como negar que algumas afirmações “de jure” também devem respeitar esse dever293. De acordo com o art. 14 do Decreto-Lei nº 4.657/42 (Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro) e o art. 337 do CPC, a parte que invocar Direito municipal, estadual, estrangeiro ou consuetudinário pode ter de provar o seu teor e sua vigência, caso o juiz assim determine. Se o litigante mentir a respeito do teor ou da vigência da norma de Direito municipal, estadual, estrangeiro ou consuetudinário que utilizou para sustentar sua pretensão, ele deve ser punido pela prática de litigância de má-fé, com fundamento no art. 17, II, c/c art. 18 do CPC. O mesmo deve ocorrer com a parte que cita precedente judicial inverídico com o intuito, por exemplo, de comprovar a existência de dissídio jurisprudencial a respeito da interpretação de lei federal que justifique o cabimento de recurso especial (art. 105, III, “c”, da CF c/c art. 541, parágrafo único, do CPC), ou com o escopo de demonstrar divergência jurisprudencial que fundamente o cabimento de embargos de divergência (art. 546, I e II, do CPC), ou ainda com o fim de mostrar que o recurso da parte contrária ou a decisão recorrida está em confronto com a jurisprudência dominante, legitimando a aplicação do art. 557, “caput” ou § 1º-A, respectivamente294.
289 Não merece ser endossada, portanto, a opinião de Grossmann (O Dever de Veracidade no Processo Civil
(exposição de direito comparado), in Revista Forense, vol. 101, pp. 287-289), no sentido de que a descoberta da verdade é o verdadeiro fim do processo.
290 LENT, Diritto Processuale Civile Tedesco, 1ª parte, p. 106.
291 BARBOSA MOREIRA, A Responsabilidade das Partes por Dano Processual no Direito Brasileiro, in Temas de Direito Processual, pp. 26-27.
292 Nesse sentido: ROSENBERG, Tratado de Derecho Procesal Civil, tomo I, p. 381; CASTRO FILHO, Abuso do Direito no Processo Civil, p. 130.
293 Segundo Grossmann (O Dever de Veracidade das Partes Litigantes no Processo Civil (aspecto
doutrinário), in Revista Forense, vol. 101, p. 482), o dever de veracidade “compreende toda declaração
processual, tanto no que concerne aos fatos como no que diz respeito aos argumentos jurídicos ou à produção da prova”.
294 No âmbito doutrinário, esse entendimento é sustentado por Calogero (Probità, Lealtà, Veridicità nel
O dever de veracidade diz respeito à verdade subjetiva295. Caso se exigisse a verdade objetiva, os sujeitos processuais teriam que expor no processo a realidade, ou seja, exatamente aquilo que aconteceu no plano fático. Contudo, nem sempre o ser humano tem acesso à verdade em si296. Cada um pensa, reflete, tira suas conclusões sobre o meio externo sob a influência dos seus próprios interesses e paixões, razão pela qual pode haver variação de opiniões ainda que concernentes ao mesmo evento fático297. Sendo assim, o art. 14, I, do CPC preceitua que os sujeitos do processo digam a verdade que eles conhecem, quer dizer, relatem a maneira como os fatos ocorreram do seu ponto de vista pessoal, sob o influxo de seu conhecimento cultural, sua vivência, sua inteligência, sua atenção, o seu poder de crítica e suas emoções298. Em regra, somente a mentira consciente, declarada com o propósito de desviar a vontade judicial, de prejudicar os interesses de outrem, é considera ilícita299. Quem afirma uma inverdade em juízo, mas o faz com honestidade, com convicção, não contraria o referido dispositivo do Código de Processo Civil.
desleal a conduta do advogado que, diante de um juízo de primeiro grau na província, inventa ou altera uma sedicente decisão inédita do Tribunal para fundamentar uma tese de defesa.
No âmbito jurisprudencial, essa tese foi encampada recentemente pela 2ª Turma do Superior Tribunal de Justiça:
“PROCESSUAL CIVIL. AGRAVO REGIMENTAL. DEFICIÊNCIA NA FUNDAMENTAÇÃO. SÚMULA
284/STF. DECISÃO QUE INADMITIU RECURSO ESPECIAL. FUNDAMENTO INATACADO. SÚMULA 182/STJ. INVERÍDICO O ACÓRDÃO CITADO COMO REPRESENTATIVO DA DIVERGÊNCIA JURISPRUDENCIAL. LITIGÂNCIA DE MÁ-FÉ. ARTS. 17, VII, E 18 DO CPC.
1. A fundamentação deficiente do Recurso Especial impede seu conhecimento. Aplica-se, por analogia, a Súmula 284/STF.
2. Não se conhece de Agravo Regimental que deixa de impugnar os fundamentos da decisão que inadmitiu o Recurso Especial. Incide, por analogia, a Súmula 182/STJ.
3. Hipótese em que o agravante citou como representativo da controvérsia acórdão inverídico,
configurando tentativa de induzir o julgador ao erro.
4. O acórdão recorrido afirmou: "a conduta da agravante é injustificável. Como é cediço, o Judiciário Paulista luta para vencer o número assustador de processos que correm, principalmente, na Segunda Instância, de modo a cumprir seu papel como Poder do Estado e satisfazer o anseio da Sociedade como um todo, que é o de solucionar prontamente as demandas, impedindo que se arrastem por anos a fio". Já o agravante sustenta não ter havido dolo na dupla interposição. Alega excesso de serviço, falta de condições de trabalho e substituição de Procuradores do Estado que oficiaram no feito.
5. Agravo Regimental não provido, com aplicação da multa prevista no artigos 17, II, e 18 do Código de
Processo Civil, arbitrada em 1% sobre o valor da causa” (destaques nossos)
(STJ, 2ª Turma, AgRg no REsp 1.239.748/PB, Rel. Min. Herman Benjamin, DJe 09/09/2011).
295 BUZAID, Processo e Verdade no Direito Brasileiro, in Revista de Processo, nº 47, p. 96; SOBRINHO, Dever de Veracidade das Partes no Processo Civil, pp. 118, 125, 127, 129, 133, 135, 136 e 138-139; ALVIM, Tratado de Direito Processual Civil, vol. 2, pp. 393 e 395.
296 MENEZES CORDEIRO, Litigância de Má-Fé, Abuso do Direito de Ação e Culpa “in Agendo”, p. 71. 297 BARROS, A Busca da Verdade no Processo Penal, p. 30.
298 Nesse sentido: ROSENBERG, Tratado de Derecho Procesal Civil, tomo I, pp. 381-382; LENT, Diritto Processuale Civile Tedesco, 1ª parte, p. 106.
299 MENEZES CORDEIRO, Litigância de Má-Fé, Abuso do Direito de Ação e Culpa “in Agendo”, p. 71;
DINAMARCO, Instituições de Direito Processual Civil, vol. II, § 528-A, p. 268; FERNANDES DE SOUZA, Abuso de Direito Processual – uma teoria pragmática, p. 116.
Mas, em alguns casos excepcionais, a inverdade embasada em imprudência ou negligência inescusável também pode contrariar o art. 14, I, do CPC300. Quando uma parte faz alegações inverídicas sem dolo, apenas por não ter ciência prévia de certas circunstâncias fáticas que vêm a ser provadas no curso do processo, deve-se verificar se ela não tinha o dever de conhecer tais fatos antes de ajuizar a demanda, hipótese em que há, sim, violação do dever de veracidade, mesmo que tenha agido em consonância com a verdade subjetiva. Como bem salienta Yarshell301, quando determinado ente é titular do poder-dever de investigar circunstâncias fáticas antes do ajuizamento da demanda – como o Ministério Público, nos limites das funções e competências que os arts. 127 e 129 da CF lhe atribuem –, o órgão judicial deve cobrar dele uma preocupação maior com a descoberta da verdade antes da opção por ingressar em juízo. Consequentemente, se um membro do Ministério Público dispensar a realização de inquérito civil (art. 129, III, da CF c/c art. 8º, § 1º, da Lei nº 7.347/85) ou de procedimento administrativo de investigação preliminar (art. 129, VI, da CF c/c art. 8º da Lei Complementar nº 75/93) e, sem qualquer justificativa aparente (v.g., urgência na propositura da ação por causa do risco de lesão grave ou de difícil reparação ao interesse transindividual), optar por ajuizar demanda embasada em fatos cuja inveracidade ele desconhece, o magistrado pode considerá-lo litigante de má-fé em razão de ter descumprido seu poder-dever de investigar as circunstâncias fáticas. Em suma, a parte que faz declaração inverídica por ter sido negligente ou imprudente na utilização do seu poder de descobrir a verdade objetiva, sem justificativa plausível, viola o art. 14, I, do CPC, ainda que tenha agido em consonância com a verdade subjetiva.
A afirmação de que a verdade exigida é, em regra, apenas a subjetiva poderia levar alguém a crer que o órgão judicial pode fiar-se tão somente no que os litigantes declaram saber para aferir se o seu modo de proceder em juízo é compatível com a norma prevista no inciso I do art. 14 do CPC. Todavia, a palavra das partes não é o único critério à disposição do magistrado. A aferição da verdade subjetiva também passa pela análise de eventuais elementos objetivos: as provas. Muitas provas não só demonstram que a versão fática alegada pela parte que as produziu é verdadeira, mas também que a parte contrária igualmente tinha conhecimento da existência dos fatos provados ou do modo de ocorrência deles, apesar de tê-los negado em juízo em defesa de sua pretensão. Dessa forma, cabe ao juiz, depois de analisar o conjunto probatório, fazer uma análise retrospectiva do que as
300 CUNHA, O Dolo e o Direito Judiciário Civil, p. 20. No mesmo sentido, Yarshell (Antecipação da Prova sem o Requisito da Urgência e Direito Autônomo à Prova, p. 155) ensina que viola o dever de veracidade quem alega fatos que, de antemão, sabe ou razoavelmente deveria saber serem inverídicos.
partes alegaram desde o início do processo para verificar se não existe qualquer incongruência com as provas produzidas. Caso haja, deve aplicar o disposto nos arts. 14, I, e 17, II, do CPC, mesmo se o litigante de má-fé replicar que não proferiu inverdades em juízo ou que desconhecia os fatos provados302. Aliás, alegações com esse teor reforçam a contradição com o conjunto probatório e apenas confirmam a conduta mentirosa antes praticada303.
Exemplos verídicos talvez permitam elucidar como deve ocorrer esse exame retrospectivo da veracidade das alegações dos litigantes à luz das provas carreadas para os autos. No julgamento da Apelação nº 7.717.921-2 (Relator Des. Jurandir de Sousa Oliveira), interposta em processo que tinha como objeto pedido de exibição de contrato bancário feito por cliente em face de instituição financeira, o Tribunal de Justiça de São Paulo realizou o referido exame e entendeu que esta havia alterado a verdade dos fatos,
302 Menezes Cordeiro (Litigância de Má-Fé, Abuso do Direito de Ação e Culpa “in Agendo”, p. 66) cita
julgado em que o Supremo Tribunal de Justiça de Portugal adotou esse entendimento:
“STJ 18-Dez.-2003: sendo dado como provado um facto de conhecimento pessoal das partes, que estas
expressamente negaram, não podem as mesmas eximir-se à condenação por litigância de má-fé, alegando que se exprimiram mal”.
303 Nesse sentido, afirmando que a prova confere conotação objetiva ao dever de veracidade: YARSHELL, Antecipação da Prova sem o Requisito da Urgência e Direito Autônomo à Prova, pp. 156-157.
No entanto, “data venia”, não parece correta a proposta do referido jurista de fazer derivar do dever de veracidade (art. 14, I, do CPC) e desse contorno objetivo que o conjunto probatório lhe confere uma espécie de dever geral de informação das partes, que justificaria a produção antecipada de provas além dos casos em que hoje ela é admitida (ou seja, desatrelada das hipóteses de urgência). Para Yarshell, esse dever geral de informação faz com que a prova produzida antecipadamente deixe de ser apenas um elemento apto à convicção do órgão julgador para ser também um fator de convencimento das partes, esclarecendo-as previamente acerca de fatos relevantes relacionados à situação substancial controvertida, o que permite que elas avaliem melhor os encargos, riscos e chances de seus comportamentos em futuro e eventual processo (e.g., ajuizamento de demanda no futuro, resistência a dada pretensão, prática de atos de autocomposição
etc.) e litiguem de forma mais responsável e segura (YARSHELL, Antecipação da Prova sem o Requisito da
Urgência e Direito Autônomo à Prova, pp. 159-163, 170-171, 179-180, 199-200 e 205-206). Essa teoria parte de duas premissas erradas:
a) não é correto afirmar que “não havendo prova pré-constituída (ou enquanto não se constitui a prova), não
surge o dever ético ou jurídico de considerar elementos objetivos de instrução e, como visto, não há sentido em se cogitar de dever de veracidade” (YARSHELL, Antecipação da Prova sem o Requisito da Urgência e
Direito Autônomo à Prova, p. 179). Na realidade, a ausência de prova nos autos apenas faz com que o órgão judicial não tenha elementos objetivos para aferir a veracidade das alegações das partes; não interfere em nada na existência do dever de dizer a verdade, que integra a esfera jurídica das partes desde o início do processo;
b) o dever geral de informação não é um corolário do dever de veracidade. Ele se relaciona com o dever de lealdade, especificamente com o dever de prontidão, cuja existência no ordenamento jurídico nacional pode ser inferida dos ônus processuais previstos nos arts. 282, III e VI; 283; 300-303; e 396 do CPC (ver o item 1.3.7.3 “infra”). Tanto é verdade que o dever geral de informação não tem uma ligação íntima com o dever de veracidade que o próprio Yarshell admite que o litigante que não produz prova antecipada e que, consequentemente, viola aquele dever geral não deve ser sancionado com espeque nos arts. 17, II, e 18 do CPC. De acordo com o jurista, nesses casos, a consequência processual consiste apenas na presunção de verdade de determinado fato, prejudicando a própria parte inerte na formação do convencimento do juiz. Em outras palavras, a “sanção” de quem não pré-constitui prova não vai além de eventual insucesso em juízo, o que está relacionado ao conceito de ônus, e não de dever (YARSHELL, Antecipação da Prova sem o
impondo-lhe sanção por litigância de má-fé. No início do processo, a instituição financeira alegou que não tinha ocorrido recusa administrativa ao cliente. Porém, em seguida, ela mesma desmentiu o fato, apresentando uma gravação de conversa telefônica mantida entre as partes, na qual uma atendente do banco confirmava a solicitação e o envio dos documentos, os quais nunca foram entregues. Situação análoga ocorreu nos autos da Apelação nº 1.158.237-0/05 (Relator Des. Artur Marques). Nesse processo, a parte credora requereu o início da execução para cumprimento de acordo, alegando que os valores devidos não estavam sendo depositados pelo devedor. No entanto, este demonstrou nos autos que o montante devido já se encontrava na conta corrente de titularidade do próprio credor, o que levou o Tribunal de Justiça de São Paulo a aplicar, também neste caso, as sanções previstas no art. 18 do CPC304305.
Especificamente com relação ao réu, existe outro critério objetivo que o juiz pode utilizar para verificar se ele atua em juízo de acordo com a verdade fática subjetiva. Trata- se da coerência lógica entre os fundamentos da defesa deduzidos na contestação. Os arts. 300 e 301 do CPC estabelecem que o réu tem o ônus de alegar na contestação todas as defesas que tiver para impugnar o pedido do autor, podendo cumular defesas de mérito e processuais, ainda que relativamente contraditórias entre si. O princípio da eventualidade da defesa autoriza que ele suscite defesas processuais, opondo-se ao julgamento do mérito, sem prejuízo de, em seguida, pedir que a demanda inicial seja rejeitada no mérito. Permite, outrossim, que o réu, ao alegar defesas de mérito, desenvolva uma argumentação escalonada, de modo que o acolhimento de um dos fundamentos prejudique o conhecimento do subsequente e assim sucessivamente. Mas, Dinamarco306 ensina que a liberdade inerente à eventualidade da defesa não é absoluta, pois grandes incoerências entre fundamentos cumulados podem significar que há mentiras ao menos em um deles, configurando litigância de má-fé (art. 17, II, do CPC). Por exemplo, em uma ação de cobrança, se o réu diz que não deve porque nunca negociou com o autor e, depois, alega
304 Tais exemplos foram retirados da obra de Yarshell (Antecipação da Prova sem o Requisito da Urgência e Direito Autônomo à Prova, p. 157, nt. 32; e p. 158, nt. 33).
305 Albuquerque (Responsabilidade Processual por Litigância de Má Fé, Abuso de Direito e Responsabilidade Civil em Virtude de Actos Praticados no Processo, pp. 57 e 58) cita dois julgados do Supremo Tribunal de Justiça português em que também se constatou o desrespeito ao dever de veracidade mediante o confronto entre afirmações das partes ao longo do processo e o conjunto probatório:
“STJ – 21-4-1983: tendo-se provado factos que foram negados pelos gerentes da ré e eram do conhecimento
dos mesmos, houve má fé processual”; [...]
“STJ – 9-6-2005 (Bettencourt de Faria): a embargante negou a verdade dum facto provado, quando não
podia desconhecer a sua veracidade, por ter caráter pessoal. Por isso, não merece censura a sua condenação por litigância de má fé”.
que pagou o débito, ao menos uma dessas asserções contraria o dever de veracidade. Em respeito ao princípio da cooperação (item 1.3.6 “supra”), quando o juiz constatar incompatibilidade lógica entre os fundamentos cumulados, ele deve determinar que o demandado esclareça sua defesa307. Se o litigante não se manifestar ou não esclarecer a defesa adequadamente, pode-se reputar desrespeitado o dever de veracidade previsto no inciso I do art. 14 do CPC.