1.3 Fundamentos da prevenção e da repressão do abuso do processo
1.3.4 O respeito às finalidades institucionais do processo
A história do processo civil já passou por três fases metodológicas168:
163 Lezioni sul Processo Civile, p. 71.
164 Nesse sentido, na doutrina nacional: PORTANOVA, Princípios do Processo Civil, p. 127.
165 Comoglio, Ferri e Taruffo (Lezioni sul Processo Civile, p. 72) mencionam a igualdade substancial das
partes como um dos requisitos que asseguram a efetividade mínima do contraditório e da ampla defesa.
166 NERY JUNIOR, Princípios do Processo na Constituição Federal: processo civil, penal e administrativo,
p. 244.
167 PICÓ I JUNOY, El Principio de la Buena Fe Procesal y su Fundamento Constitucional, in Revista de Processo, nº 196, pp. 156-157.
168 DINAMARCO, Instituições de Direito Processual Civil, vol. I, § 98, pp. 259-262; CINTRA;
a) período de sincretismo: o sistema processual não tinha autonomia, pois era encarado como um simples capítulo do Direito privado. O processo era confundido com o procedimento e era definido como uma mera sucessão de atos, sem que se mencionasse a existência da relação jurídica entre os sujeitos processuais, nem a conveniência política do contraditório. A ação era entendida como um direito adjetivo, ou seja, como algo inerente ao direito subjetivo material (teoria imanentista da ação); era o próprio direito subjetivo material que, após ser lesado, recebia forças para que seu titular comparecesse em juízo para ter seu dano reparado. Não se pode afirmar que havia, nesse período, uma ciência do processo civil porquanto os conhecimentos eram empíricos, não havia princípios, nem conceitos próprios e nem mesmo um método;
b) período autonomista (ou conceitual): teve início em 1.868, com a obra “Teoria dos pressupostos processuais e das exceções dilatórias”, na qual Oskar Von Bülow defendeu a existência de uma relação jurídica especial entre os sujeitos processuais e a distinguiu da relação jurídica substancial litigiosa, em razão dos seus sujeitos (o juiz, o autor e o réu), do seu objeto (os provimentos jurisdicionais) e dos seus pressupostos (os pressupostos processuais). A partir de então, o Direito processual ganhou autonomia e foi elevado à categoria de ciência, uma vez que passou a ter seu próprio método e seu objeto material, que eram as categorias jurídico-processuais, ou seja, a jurisdição, a ação, a defesa e o processo. Em seguida, os doutrinadores identificaram os elementos caracterizadores da ação (partes, causa de pedir e pedido), elaboraram a teoria das condições da ação e dos pressupostos processuais, formularam princípios e também desenvolveram estudos acerca do objeto do processo. Ocorre que o empenho dos estudiosos dessa época em desvincular o processo do Direito material resultou numa teorização do processo como técnica justificável em si e por si, minimizando-se quase por completo a função reservada ao processo no plano da atuação do direito material violado169;
c) período instrumentalista (ou teleológico): começou em meados do século XX, quando alguns autores (dentre eles, Mauro Cappelletti e Vittorio Denti) propuseram a adoção de um método de estudo do processo civil que desse importância aos resultados da prestação da atividade jurisdicional na vida das pessoas. Esse modo de pensar o processo civil levou a doutrina processual contemporânea a superar o dogma da natureza exclusivamente técnica do processo, entendido como mero instrumento do direito material, e a reconhecer que ele possui também escopos metajurídicos.
De acordo com a visão instrumentalista do processo, hoje vigente, o processo tem três finalidades institucionais170, quais sejam:
a) o seu escopo social, que abrange:
1) o intuito de pacificar pessoas por meio da eliminação de conflitos com justiça. Parte-se da constatação de que as insatisfações são estados psíquicos inevitáveis na vida dos indivíduos. Elas comprometem a felicidade das pessoas e possuem a tendência de se multiplicarem, promovendo a desagregação social. Por causa disso, o Estado tem a missão e o dever de eliminar esses estados de insatisfação. Obviamente, não é possível satisfazer a todos, uma vez que a satisfação de um dos sujeitos em conflito necessariamente implica a contrariedade dos interesses do outro. Porém, para o litigante é preferível a decepção derivada da derrota na demanda a continuar sofrendo em decorrência da indefinição de sua relação jurídica com o vencedor; e
2) o fim de educar as pessoas para a defesa de seus próprios direitos e para o respeito aos direitos alheios. A esse respeito, Dinamarco171 ensina: “Onde a Justiça funciona mal, transgressores não a temem e lesados pouco esperam dela”;
b) os seus escopos políticos, que são três:
1) o de contribuir para a estabilidade das instituições políticas. O ordenamento jurídico é uma projeção positivada do poder estatal. Então, quando o Poder Judiciário aplica os preceitos legais na solução das demandas jurisdicionais, generalizando o respeito à lei, ele reafirma a autoridade do próprio Estado;
2) o de permitir a participação dos cidadãos na vida e nos destinos do Estado. Essa participação política se dá por meio de alguns instrumentos legais, como a ação popular, a ação direta de inconstitucionalidade (art. 5º, LVIII; c/c art. 102, I, “a”, e art. 103 da CF) e as ouvidorias de justiça (art. 103-B, § 7º, da CF); e
3) o de preservar o valor liberdade, por meio da proteção dos indivíduos e das entidades em que se agrupam contra os desmandos do Estado. O ordenamento jurídico prevê diversos meios para possibilitar a reação a abusos do Estado: o “habeas corpus”, o mandado de segurança, o mandado de injunção, o “habeas data” etc.; e
c) o seu escopo jurídico, que é o de atuar a vontade concreta do direito (teoria dualista172).
170 DINAMARCO, Instituições de Direito Processual Civil, vol. I, §§ 47-51, pp. 129-140. 171 Instituições de Direito Processual Civil, vol. I, § 49, p. 133.
172 Quando se discute o objetivo do processo perante a ordem jurídica, duas teorias metodológicas digladiam-
A problemática do abuso de situações jurídicas processuais revela-se totalmente contrária à realização da instrumentalidade do processo173, uma vez que solapa cada um dos três escopos supracitados.
O escopo social de pacificar os litigantes com justiça fica prejudicado quando se verifica que, em muitos casos, o abuso de situações jurídicas processuais causa a demora na outorga da prestação jurisdicional, o que aumenta o desgaste financeiro e psicológico das partes e pressiona aquelas que são menos resistentes a abandonar a causa ou a aceitar acordos por valores inferiores àqueles a que teriam direito174. Com isso, também fica comprometido o escopo de atuar a vontade concreta do direito (escopo jurídico do processo)175.
Quando o litigante ímprobo desrespeita o dever de dizer a verdade, igualmente obsta a concretização do escopo jurídico do processo, pois impede que o magistrado realize a subsunção da situação fática que efetivamente ocorreu à norma jurídica176.
Ademais, as práticas abusivas estimulam as pessoas a inadimplirem suas obrigações, uma vez que os devedores confessos sabem que é economicamente muito mais vantajoso esperar uma decisão judicial desfavorável, a ser prolatada em um processo que pode ser retardado o máximo possível por meio de atos abusivos, do que realizar a a) a teoria unitária do ordenamento jurídico: parte do pressuposto de que o direito material positivo é insuficiente para reger as situações conflitivas concretas (ou seja, para compor a lide). O direito material e o processual compõem uma só unidade e não há direitos nem obrigações antes da sentença, uma vez que a norma que rege cada conflito só pode-se considerar perfeita e acabada com a prolação da decisão. Desse modo, a função do juiz é a de completar o trabalho do legislador, formando a norma do caso concreto e, assim, criando direitos e obrigações entre as partes;
b) a teoria dualista do ordenamento jurídico: considera que os ordenamentos jurídicos de países de origem romano-germânica se dividem em dois planos, o substancial e o processual. Sempre que ocorre na vida concreta os fatos previstos no suporte fático da norma (ou hipótese de incidência), esta incide automaticamente, produzindo os efeitos previstos em seu preceito (ou disposição). Assim, o surgimento de direitos e obrigações depende apenas da observância, no mundo fático, dos fatos narrados no antecedente da norma e da consequente incidência desta. O juiz não cria normas jurídicas substanciais, de modo que a jurisdição tem o escopo apenas de atuar a vontade concreta da lei.
Ao tratar desse assunto, Dinamarco (Instituições de Direito Processual Civil, vol. I, § 51, pp. 137-140) constata que, na realidade, a maior parte dos direitos e obrigações nascem, desenvolvem-se, modificam-se e extinguem-se sem que haja qualquer intervenção jurisdicional. Cumprir as obrigações e respeitar direitos constitui a “vida fisiológica” dos direitos, enquanto os descumprimentos e as transgressões são a “patologia”. Para o autor, o único bem jurídico que os pronunciamentos judiciais acrescentam à situação jurídica material é a segurança jurídica, para evitar novos questionamentos a respeito do assunto.
Diante disso, o jurista chega à conclusão de que a segunda corrente (a de que o escopo jurídico do processo é a atuação da vontade concreta do direito) está correta, pois as sentenças de mérito apenas revelam direitos e obrigações, mas nunca os criam. Isso também vale para as sentenças constitutivas porque a nova situação jurídica material preexiste à sentença que a cria. Quando a sentença de mérito não é adimplida voluntariamente pelo obrigado, a execução forçada garante que o direito do credor seja satisfeito no mundo da realidade.
173 ABDO, O Abuso do Processo, pp. 82-86.
174 Nesse sentido: CASTRO FILHO, Abuso do Direito no Processo Civil, p. 213.
175 PUOLI, Os Poderes do Juiz e as Reformas da Lei Processual Civil Brasileira, pp. 190-191. 176 CASTRO FILHO, Abuso do Direito no Processo Civil, pp. 102 e 131.
prestação pontualmente177. Essa mentalidade desleal se mostra manifestamente incompatível com o outro escopo social do processo – o de educar as pessoas para que respeitem os direitos alheios –, bem como com o escopo político de contribuir para a estabilidade das instituições.
Portanto, para que seja possível alcançar os escopos sociais, políticos e jurídico aventados pela doutrina processual instrumentalista, é de suma importância que haja a prevenção do abuso de situações jurídicas processuais, bem como a repressão dos atos abusivos que eventualmente forem praticados.