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2 PADRÕES EM PAUTA

3 MÚSICA BRASILEIRA NA FRANÇA

3.1 REPRESENTAÇÕS DO BRASIL NA FRANÇA

3.1.3 Blaise Cendras e Darius Milhaud no Brasil

O período marca também o início do modernismo brasileiro, quando artistas e intelectuais brasileiros encontravam-se engajados em um projeto de construção da identidade brasileira. Muitos dos modernistas brasileiros, como Oswald de Andrade e Tarsila do Amaral, buscaram inspiração na vanguarda parisiense para a concretização desse projeto. Oswald de Andrade, no Manifesto pau-brasil, deseja “conciliar a cultura nativa com a cultura intelectual renovada”, ratificando a miscigenação étnica brasileira e combatendo, ao mesmo tempo, o exotismo da cultura nativa. Os modernistas defendem a antropofagia na cultura e na arte feita no Brasil, com o argumento de que as culturas estrangeiras não devem simplesmente ser assimiladas, mas digeridas e reconstruídas a partir de uma leitura nacional.

Neste cenário de fermentação da idéia da construção de uma identidade nacional, chega ao Brasil, em 1924, Blaise Cendrars. O poeta suíço-francês, um dos grandes nomes da vanguarda parisiense, foi o responsável pela edição na França, em 1921, da Antologia Negra, na qual reuniu mitos e lendas de todas as etnias africanas juntamente com poemas e contos de escritores modernos africanos. Ou seja, antes de voltar-se parar as “coisas brasileiras”, Cendrars já se interessava pelas “coisas negras em geral”(CENDRARS apud VIANNA, 1995), posição que corresponde ao fenômeno da négrophilie, vivenciado na França naquele momento.

Gilberto Freyre, um dos intelectuais mais atuantes na construção da identidade nacional, em artigo publicado no Diário de Pernambuco, em 19/09/1926, intitulado “Acerca da Valorização do Negro”, falava do movimento que acontecia no Rio de Janeiro e apontava como uma das causas de tal valorização a “influência de Blaise Cendrars, que vem agora passar no Rio todos os carnavais” (FREYRE apud VIANNA, 1995).

seguindo uma sugestão de Oswald de Andrade. O poeta foi recebido no porto do Rio de Janeiro por Graça Aranha, Ronald de Carvalho, Prudente de Moraes, Sérgio Buarque de Holanda, entre outros. Seu batismo brasileiro foi um almoço com comida afro-brasileira em um boteco do porto.

Movido pelo interesse em conhecer a cultura e o povo brasileiro, Cendrars faz incursões, sozinho, ao temido morro da Favela (contra as recomendações do prefeito da cidade), encontra-se com tipos populares e com músicos cariocas, como Donga. Os dois artistas tinham um amigo em comum, o compositor Darius Milhaud. A obra de Cendrars ficou marcada pelo contato com o Brasil, como em Feuilles de Route: le Formose18, editado em

1924, livro de poemas ilustrado por Tarsila do Amaral, descrito pelo poeta como “cartões postais destinados aos amigos” (AZEVEDO; CRUZ; EULÁLIO, 1969, p.19) onde relata episódios e impressões de sua primeira viagem ao Brasil.

Vianna considera que o movimento modernista divide-se em dois momentos, um inicial, de ruptura com o passadismo e de absorção das conquistas das vanguardas européias e um segundo momento, iniciado em 1924, quando se adota como prioridade a construção da cultura nacional. Para o autor, Blaise Cendrars agiu como um “cristalizador e catalisador” de tendências latentes nos intelectuais e artistas modernos brasileiros, que talvez não se dessem conta do desejo de valorização da cultura nacional que já existia entre eles. Oswald de Andrade dedicou seu livro de poemas Pau-Brasil “a Blaise Cendrars por ocasião da descoberta do Brasil”, fazendo referência à viagem a Minas Gerais, com um grupo de artistas modernistas, organizada pelo poeta francês. A influência de Cendrars também sofreu críticas dos artistas brasileiros. Mário de Andrade, com dissemos anteriormente, será um dos intelectuais a condenar a valorização do nacional como “‘puerilidade’ do exotismo, descrito como a ‘falsificação da entidade brasileira’ realizada por modernos locais que sucumbiram à ‘opinião do europeu’”. (ANDRADE, 1962 apud VIANNA, 1995).

A experiência do compositor francês Darius Milhaud, amigo de Cendrars, revela como a música brasileira fascina e intriga o visitante estrangeiro. Milhaud, também considerado por Vianna como “mais um mediador internacional na história da transformação do samba em música nacional brasileira”, morou no Rio de Janeiro, entre 1914 e 1918. Secretário particular do poeta Paul Claudel, embaixador da França no Brasil, Milhaud tornou-se amigo de Villa-

Lobos, que o levou para “macumbas” e choros. O músico francês encantou-se com a música carnavalesca (VIANNA, 1995).

Eu cheguei ao Rio em pleno carnaval e senti profundamente o vento e a loucura que se espalhava sobre toda a cidade [...] Os ritmos desta música me intrigavam e me fascinavam. Havia nesta síncope uma imperceptível suspensão, uma respiração despreocupada, uma pausa breve que era difícil de apreender. Eu comprei, então, uma quantidade de maxixes e tangos; eu me esforçava para tocá-los com suas síncopes que passavam de uma mão à outra. Meus esforços foram recompensados e eu pude enfim exprimir e analisar este “pequeno nada” tão tipicamente brasileiro (MILHAUD apud CARELLI et al, 1987, p. 153).

De volta a seu país, Milhaud compôs várias músicas sob a influência da música brasileira. Juntamente com o bailarino Nijinski e Paul Claudel, Milhaud criou o balé L’Homme et son

désir, um pequeno drama ambientado na floresta brasileira. Milhaud utilizou temas

brasileiros, o que gerou e gera ainda a polêmica sobre a possibilidade de esses “temas” serem, na verdade, plágios, como Le Boeuf sur le toit (1920), inspirado em O Boi no Telhado, de Zé Boiadeiro, uma das músicas que Milhaud incluiu na trilha sonora de um espetáculo de Jean Cocteau. Compôs também, já nos Estados Unidos, as três Danses de Jacaremim (1945). Os títulos Chorinho, Tanguinho e Sambinha atestam a influência que a música popular brasileira exerceu por longo tempo em sua criação. Este intercâmbio entre a cultura brasileira e francesa é descrito assim por Vianna :

Como se vê, a cultura popular brasileira, entre os anos 10 e 30 atravessou o Atlântico várias vezes, sendo apropriada pelos franceses de inusitadas maneiras, num fenômeno típico de transculturação [...] que gerou muitas redefinições de identidade para vários grupos sociais, tanto na Europa quanto no Brasil. (VIANNA, 1995, p.104).