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4 VOZES DA FRANÇA

4.3 PROCESSOS DE COMPRA

4.3.1 Perceber e criar

Os profissionais entrevistados têm um importante papel de mediadores do processo de produção e consumo no setor musique du monde. O primeiro critério que os profissionais apontaram na escolha do artista com o qual trabalhar, ou contratar, foi a emoção. A tranqüilidade em declarar a primazia da sensibilidade individual, revela certa autonomia no âmbito do processo de decisão. Entretanto, este profissional atua para atender o “cliente”, procurando entender e satisfazer os desejos da audiência. Muitos dos entrevistados colocaram claramente esta operação, a busca do equilíbrio entre atender a seu gosto pessoal e, ao mesmo tempo, atender à expectativa do mercado:

FG: Primeiro eu tenho que amar a música, eu sou um homem de paixão e sou músico também, para mim o importante é gostar da música do artista, eu não poderia vender um artista de que não gosto, tanto na questão musical, como o artista também. Depois, vem a escolha pela razão, quer dizer de mercado, de business. [...]

SD: Já há alguns anos, é mais um gosto pessoal, eu trabalho mais sobre a qualidade do artista, sobre a musicalidade e sobre o lado dançante, que corresponde um pouco à

expectativa do público francês, que pode agradar o publico francês.

Para satisfazer a essa expectativa o programador tem, primeiro, que perceber o que público deseja consumir. Esse processo está relacionado aos comportamentos miméticos descritos no capítulo 2, que criam e difundem padrões que vão adequar produção e consumo.

Um dos exemplos mais claros de atendimento a padrões instituídos pela sociedade, dentro do processo de programação artística, é a aplicação do critério de notoriedade. Os espetáculos de

musique du monde fazem parte do show business - mesmo tendo na França uma aura de arte alternativa - e, coerente com a lógica deste mercado, o sucesso já consolidado do artista, ou

do tipo de música que ele faz, é garantia de afluência de público. Alguns entrevistados irão adotar este critério, juntamente com sua sensibilidade individual na definição da programação artística:

poule56 [...]

JMB: Primeiro, meu gosto pessoal. Eu nunca apresentei alguém no festival que eu não gostasse. [...] programei, por exemplo, Jorge Ben, porque eu sabia que iria causar um impacto dançante, o show foi um sucesso, não é o meu artista favorito [...]

Segundo Elaine Norberto, a difusão e repetição desses padrões irá alternar-se, simultaneamente, com a necessidade que o ser humano tem de se diferenciar. “A necessidade social da instituição do novo, da diferenciação” vai ser a geradora das estratégias de inovação de diferenciação dos produtos a serem consumidos (NORBERTO, 2003, p.192).

Os programadores franceses percebem esta demanda por novidades por parte do público e que é, também, um desejo individual dos mesmos. Não se tratam, necessariamente, de novas formas musicais, ou da aparição de novos talentos. Muitas vezes pode ser a apresentação de artistas e tipos de músicas desconhecidas do público francês, como no caso da iniciativa tomada por Regina del Papa ao produzir o show de Marcos Sacramento na renomada casa de espetáculos New Morning, em Paris. O artista brasileiro interpreta um repertório de sambas dos anos 40 e a produtora apostou em apresentar “uma coisa nova” (para o público francês) em um espaço qualificado. Stéphane Delangenhagen também buscou apresentar uma proposta inovadora ao programar uma “noite baiana” no conceituado auditório da Cité de la Musique, em Paris, com capacidade para 1000 pessoas, durante o Ano do Brasil na França. A escolha de Delangenhagen reflete o desejo de apresentar ao público francês outro Brasil, no caso,

outra Bahia, atitude que causou estranhamento até a um representante da mídia baiana:

SD: (...) Na época eu fui entrevistado por uma pessoa da Bahia que queria saber por

que eu tinha escolhido Riachão e a banda Didá e porque não Ivete Sangalo, ou uma outra grande estrela, uma vez que Riachão não é conhecido. Ninguém entendeu a

escolha da programação, eu expliquei que minha escolha era por artistas completamente novos, eu estava visando pessoas que já conheciam um pouco da música brasileira e queria mostrar outras coisas da música da Bahia e, depois, esta música tem uma tradição de música tradicional e que não era pop. Então eu achei que estes grupos se enquadravam no que eu queria, eram grupos de percussão e um grupo de samba, eu não queria programar

o mais conhecido, eu queria um grupo que o público francês não estava habituado a ver. Eu queria um grupo de percussão e sabia da Didá, sabia do trabalho de Neguinho do

Samba.

Este processo não se desenvolve de forma fluida, ele não acontece sem algumas tensões. Enquanto alguns programadores, como Delanguenhagen e Regina del Papa apostam na

capacidade dos franceses de aceitar novas propostas, outros, como Bernard Aubert, não são otimistas quanto ao grande público e a expectativa do mesmo em relação à música brasileira:

BA: [...] Meu gosto não é sempre o mesmo do público, porque como organizador de

Festival posso estar interessado nos artistas mais antenados, mas não é sempre o que vai acontecer em relação do público [...]

Essa tensão, que ocorre nas relações público/programador, pode ser uma das causas para o surgimento das redes de operadores envolvidos com musique du monde. A fórmula associativa soluciona, em parte, a questão, ao validar os procedimentos adotados por seus pares, utilizando muitas vezes padrões de comportamentos miméticos.

Durante a pesquisa, percebemos que esta rede é muito ativa e tem um importante papel no processo de decisão de compra, ela opera tanto de maneira informal, em encontros em shows ou contatos telefônicos, como por meio de fóruns reais ou virtuais. No processo de escolha de um artista ou uma banda, as opiniões e recomendações dos amigos, músicos, diretores de festivais, enfim, pessoas que fazem parte do métier, são muitas vezes mais importantes que a opinião da crítica especializada e as informações divulgadas pelas produções dos artistas:

MR: [...](O processo de escolha de um artista) é um processo longo de avaliação, como acontece, normalmente, na maior parte das vezes. Voltei para Paris há 3 anos atrás, depois de morar 14 anos no Brasil, e eu vou muito pelas recomendações dos meus amigos músicos. [...] Então, eu vou pelas recomendações dos meus amigos músicos, dos meus

amigos managers brasileiros.

FM: [...]Todos os diretores de festivais, agentes etc desta música, nós estamos

conectados, podemos dizer, através de redes, mas a gente se encontra nos shows, trocamos idéias, eu digo “Eu vi tal artista, que é bom”. [...]

Nesta rede de relações, ressaltamos o papel dos agentes artísticos que realizam o contato pessoal com os programadores. A função do representante exige este tipo de relação de proximidade. Não significa necessariamente que o agente deva ser francês ou morar permanentemente na França, ele deve conhecer muito bem o mercado local, pertencer a uma rede de relacionamentos e investir em tempo e trabalho para conquistar a confiança dos contratantes. Ronan Corlay dá um exemplo de como as relações próximas com agentes dos artistas africanos facilitaram o trabalho de programação de um show:

da África que viveram algum tempo na França, conhecem muito bem a França, tem

amigos na França, tem a comunidade africana que pode dividir com eles. [...] Isto ajuda

muito no acesso a informação, nós fizemos um grande show com artistas africanos no ano passado e, de certa forma, o trabalho de programação foi simplificado, porque o acesso

a diferentes artistas foi mais simples.

JPB: Eu recebo as informações (sobre a produção musical brasileira) através de um

certo número de agentes artísticos ou tourneurs57 que são especializados.

Olivier Delsalle sintetiza a função do programador ao falar sobre a importância das sugestões dos colegas de profissão:

OD: Isto é inevitável, não podemos evitar, porque temos as relações, os conhecidos. O papel do programador é de não se apoiar unicamente nestas relações, mas antes de tudo, é sua capacidade de analisar, capacidade de audição. Os conselhos e sugestões das pessoas

que temos relações profissionais são razões anexas que no final vão dizer “fiz uma boa escolha”, porque as opiniões favoráveis nos confortam.