Capítulo 6 – Propostas
6.3 PROPOSTAS
6.3.1 Bloco 1
6.3.1.1 Alienação Antecipada de Bens
102 Segundo o Plano Estadual de Educação em Estabelecimentos Penais do Estado do Mato Grosso do Sul, p. 10, a população prisional é predominantemente jovem, de baixa escolaridade e baixa profissionalização e para quem falharam todas as instâncias tradicionais de socialização e tem na prisão uma última oportunidade para completar seu processo de desenvolvimento humano. Esta postura também responde a um imperativo da sociedade que, por um lado, entende o trabalho e a Educação como principais fatores de reabilitação do preso ao convívio social, mas que tem a prisão como uma universidade do crime.
Como já exposto no capítulo 5, o parágrafo 5O do artigo 120 do Código de Processo Penal estabelece que os bens apreendidos poderão ser vendidos no curso do processo quando forem de fácil deterioração.
Porém, considerando as condições dos depósitos policiais e judiciais, a leis e projetos de lei mais modernos permitem a alienação antecipada de bens qualquer que seja o grau de deterioração a que estejam sujeitos, de forma que, logo que apreendidos ou sequestrados, os bens poderão ser objeto de alienação.103
A alienação antecipada de bens é a melhor solução para o Estado e também para o réu em processo penal, uma vez que a mesma preserva o valor do bem àquela data da realização do leilão. Atualmente, se absolvido, o réu recebe seus bens extremamente desvalorizados em relação à data em que foram constritos. Já em caso de condenação, o Estado recebe bens que muitas vezes não são nem vendidos tamanha a deterioração dos mesmos.
6.3.1.2 Utilização dos recursos provenientes de medidas assecuratórias após o julgamento do processo em segunda instância
O atual sistema recursal brasileiro permite o julgamento de uma determinada material por até quatro instâncias distintas, além dos incidentes processuais104. Tal fato gera demora na prestação jurisdicional e insegurança jurídica entre os cidadãos.105
Segundo dados da Assessoria de Gestão Estratégica do Supremo Tribunal Federal (STF), entre janeiro de 2009 e maio de 2011, considerando todas as matérias, foram protocolados 133.754 (cento e trinta e três mil, setecentos e
103 Nesse sentido, PLS 3443, e 6578 (Projetos de Lei referentes a Lavagem de Dinheiro e Organizações Criminosas).
104 Segundo pesquisa realizada pela FGV-RJ, disponível em: <http://portal.mj.gov.br/main.asp?Team={DFCC BE36-4D36-4650-B6DA-E68546FD1E4E}>. Tramitaram cerca de 1.200.000 (hum milhão e duzentos mil) processos pelo STF desde 1998, dos quais 91,69% (noventa e um vírgula sessenta e nove por cento) são recursos extraordinários ou agravos de instrumento e mais de 90% (noventa por cento) dos casos já havia passado por ao menos dois julgamento.
105 Já percebendo os problemas trazidos pela existência de mais do que o duplo grau de jurisdição, o Conselho da Europa produziu a Resolução R/95, a qual afirma que há problemas decorrentes do aumento do número de apelações e da duração dos procedimentos de apelação, gerando procedimentos ineficientes e inadequados, sendo que o abuso de direito de apelar provocam demoras injustificáveis e podem levar ao colapso do sistema judicial, e recomenda aos países-membros de que o direito de recorrer a uma terceira instância, quando está existir, seja restrita o casos excepcionais.
cinquenta e quatro) Recursos Extraordinários ou Agravos, dos quais somente 5.252 (cinco mil, duzentos e cinquenta e dois), foram providos, 75.313 (setenta e cinco mil, trezentos e treze) foram negados pelo relator e 53.189 (cinquenta e três mil, cento e oitenta e nove) foram devolvidos ou com seguimento negado pela Presidência.
Em relação exclusivamente à matéria criminal, entre 2009 e 2010 foram interpostos aproximadamente 64.000 (sessenta e quatro mil) Recursos Extraordinários e/ou Agravos de Instrumento, dos quais 5.300 (cinco mil e trezentos) ou 8% (oito por cento) em matéria criminal. Houve 145 (cento e quarenta e cinco) provimentos (2,7% dos criminais ou 0,22% do total), sendo 77 (setenta e sete) em favor do Ministério Público e 59 (cinquenta e nove) em matéria de execução penal. Houve somente 9 (nove) provimentos de recursos de defesa antes do trânsito em julgado. Em 4 (quatro) casos a pena prevista era de prisão e em apenas 1 (hum) caso o réu foi absolvido. Ao mesmo tempo foram declaradas ao menos 177 prescrições, bem como foram impetrados cerca de 9.000 (nove mil) habeas corpus, com 842 (oitocentas e quarenta e dois) concessões totais ou parciais.106
O baixo percentual de reforma demonstra duas coisas: 1. A conformidade das decisões judiciais dos tribunais locais ao entendimento dominante; e 2. O principal interesse pelo recurso não vem da possibilidade de reforma, mas da prorrogação do momento da execução definitiva.
A fim de reorganizar nosso sistema recursal, foi proposta, com apoio do presidente do Supremo Tribunal Federal, a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 15/2011, a qual pretende o fim dos Recursos Extraordinário e Especial, os quais seriam substituídos por ações rescisórias originárias no STJ e STF. Posteriormente, foi proposto um substitutivo propondo a manutenção dos recursos na forma hoje estabelecida, mas sem obstar o trânsito em julgado, de forma que
106 Os dados apresentados foram expostos por representantes do Supremo Tribunal Federal em reunião do Grupo de Gestão Integrada da ENCCLA em reunião realizada em 27 de outubro de 2011, na sede do Departamento de Recuperação de Ativos e Cooperação Jurídica Internacional.
eventual provimento dos recursos terá efeito rescisório107. Até a data de hoje, a PEC permanece no Congresso Nacional aguardando apreciação.
Diante do exposto, verifica-se que na esmagadora maioria dos casos, a decisão dos tribunais de segunda instância não são alteradas pelos tribunais superiores. Os recursos às instâncias superiores ocorrem, na maioria das vezes, com objetivo apenas procrastinatório.
Considerando tal fato, a proposta que faz-se nesse trabalho é que após o julgamento proferido por tribunal de segunda instância, em caso de decisão condenatória, os recursos financeiros oriundos diretamente de apreensão, sequestro ou produto de alienação antecipadas possam ser transferidos para o Funpen para serem utilizados em ações educativas. Em caso de reversão da decisão nos tribunais superiores, o Funpen deverá ressarcir os valores devidamente atualizados.
A utilização dos recursos pelo Funpen logo após o julgamento de segunda instância justifica-se pelo baixíssimo índice de reversão das decisões condenatórias nos tribunais superiores. Não há qualquer prejuízo ao acusado uma vez que, em caso de reforma da decisão, terá seus valores devolvidos pelo próprio Funpen, o qual deverá fazer tal previsão em seu orçamento.