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Breve histórico dos grupos de samba de roda de Cachoeira

2. Os grupos de samba de roda de Cachoeira

2.3. Breve histórico dos grupos de samba de roda de Cachoeira

Muitas vezes ouvi os sambadores falarem que no tempo antigo havia o samba de tal pessoa ou de tal bairro, porém nunca como um grupo formal, senão como um ajuntamento de pessoas que costumavam sambar juntas. É provável que havia vários coletivos de sambadores não institucionalizados em Cachoeira que apresentavam, porém, estabilidade a ponto de serem reconhecidos por sambadores de outros bairros por uma designação específica - como antes o Samba de Roda Suspiro do Iguape era simplesmente o samba de seu Domingos Preto.

Em 1958, no entanto, ocorre um fenômeno novo: a criação do Samba de Roda da Suerdieck por dona Dalva Damiana. O grupo foi criado dentro da fábrica de charutos Suerdieck, de quem herdou o nome. As sambadeiras eram as próprias charuteiras57 da fábrica, que já cantavam sambas enquanto faziam os charutos; os tocadores eram, a princípio, os homens que trabalhavam na fábrica em diversas funções. Dona Dalva já era conhecida por participar de sambas em carurus e rezas, bem como por organizá-los. Assim, ela já tinha uma ligação com o samba e já era reconhecida como sambadeira. Como a fábrica recebia das irmandades da cidade convites oficiais para as suas festas – como a Festa de Nossa Senhora d’Ajuda e a Festa de Santa Cecília58 -, dona Dalva conversou com os patrões e recebeu a permissão para organizar um grupo de samba entre os trabalhadores da fábrica para atender a esses convites. Da fábrica ela recebeu um pequeno apoio financeiro para comprar instrumentos e tecidos para costurar os figurinos, assim como a permissão para ensaiar no espaço fabril após o expediente. Em agradecimento ao apoio, dona Dalva assume o nome próprio da fábrica como o nome do grupo: Suerdieck.

Nos anos subsequentes, o Samba de Roda da Suerdieck participou intensamente das festas de largo de Cachoeira, levando o samba antes restrito ao espaço íntimo dos sambas de vizinho para o espaço público em que as irmandades realizavam as festas para os seus santos. Nas festas de largo, dona Dalva saía em cortejo com o seu grupo da fábrica da Suerdieck e caminhava até o local da festa,

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No Recôncavo Baiano a função de charuteira é, até hoje, exclusivamente feminina.

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onde o grupo formava uma roda e tocava sem sonorização. Ali, como nos sambas realizados nos carurus, todos os presentes podiam participar sambando, cantando ou apenas batendo palmas. É importante ressaltar que se os carurus e rezas eram feitos nas residências, terreiros e espaços comunitários dos bairros, as festas de largo eram eventos realizados nas principais igrejas da cidade e nas praças públicas, contando com a participação das autoridades e da elite cachoeirana.

Como afirma dona Dalva (Entrevista em 09/02/2017), “Cinquenta e oito (anos) de grupo que eu tenho realizado, conhecido para o povo, trazendo na rua, porque o pessoal não conhecia, sabia assim que o samba de roda existia”. A presença do samba nas festas de largo, portanto, era uma novidade e, em certo sentido, uma transgressão de dona Dalva. Se até os anos 1930 o Candomblé e o samba eram discriminados e perseguidos pela elite e pelas autoridades cachoeiranas, como mostra o trabalho de Santos (2009), cerca de duas décadas depois desse período de perseguição, dona Dalva leva o samba para o contexto elitizado das festas de largo. Segundo dona Dalva (Entrevista em 09/02/2017), as famílias ricas de Cachoeira

Não respeitava mesmo não porque achava que samba é de pobre, de negras, catingosas, charuteiras ou de cachaça e ponta de rua. Desfaziam muito, não privilegiava, acatar bem não, humilhava! Humilhava: “vou perder meu tempo em ver aquela mulher, samba nada, que nada tá tudo beba, não sei o quê”. Eu nunca fiquei beba, eu mesma nunca bebi na minha vida. Aí então com essas coisas, hoje em dia graças a Deus (o samba) é reconhecido, teve o reconhecimento de quem sabe e que vê o que é a verdade que é o samba.

Os convites para as festas de largo eram feitos para a fábrica, não para o grupo de samba. No entanto, ao adotar o nome Suerdieck para o grupo de samba e atender aos convites feitos a uma importante fábrica de charutos, dona Dalva legitima o samba para ocupar um espaço em que era vedado. Valmir da Boa Morte (Entrevista em 07/02/2017) faz uma analogia interessante para explicar o que significou, naquela época, dona Dalva ter organizado um grupo de samba de roda e o levado para as festas de largo:

E quando a gente vai fazer uma reflexão de dona Dalva a gente vai ver que dona Dalva era uma guerreira, uma fumageira, a gente pode sinalizar assim, ou uma trabalhadora do fumo, que na busca da sua sobrevivência, trabalhando nas fábricas de charuto par manter os seus filhos ela começa a criar o que a gente chama das mudinhas, das letras né. Começa então a fazer essa organização que não é a orquestra das filarmônicas, não é a orquestra de Tranquilino Bastos, mas é a orquestra de dona Dalva Damiana de Freitas. Por que ela começa a organizar isso e quando ela resolve tirar isso de dentro da fábrica e levar isso pras ruas, vira espetáculo, vira atração. Coisa de negro nunca foi espetáculo, coisa de

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negro era vagabundagem, coisa de negro era coisa de preto, era não se ouve, não se vê, não se fala, isso não se canta, entendeu? Tudo dentro daquele campo ainda, daquele universo ainda de preconceito, de racismo, de diferença, né? Mas no entanto, dona Dalva ela consegue trazer a força do seu trabalho, da sua resistência, do seu empoderamento, da sua forma de vida para o palco.

Dona Dalva é a primeira figura que, em Cachoeira, ocupa com uma expressão artística negra o espaço do espetáculo nos eventos da elite branca, desafiando o racismo das instituições políticas e religiosas de uma cidade que, até pouco tempo antes, criminalizava o samba e o Candomblé. Na interpretação de Valmir, trazer o samba para o palco é uma forma de resistência: o lugar do espetáculo era um território branco e ocupá-lo com uma forma de expressão negra era uma estratégia de empoderamento.

Dona Dalva fez mais que ocupar o palco com uma expressão artística: ela levou ao palco, ainda segundo Valmir, a sua forma de vida. Para tanto, ela assumiu uma forma de organização restrita à música dos brancos: o formato orquestral das bandas filarmônicas. É necessário ponderar que Tranquilino Bastos, brilhante compositor e maestro fundador da banda filarmônica Lyra Ceciliana no século XIX, era negro e abolicionista (Jorjão da Lyra, entrevista em 07/01/2019). Ademais, as bandas filarmônicas sempre tiveram alunos e músicos negros em suas fileiras, que inclusive tinham nessas instituições uma oportunidade de ascensão social, já que a partir delas podiam almejar a entrada nas bandas de corporações, sobretudo do Exército e da Polícia Militar.

Tratar a forma de organização social das bandas filarmônicas como branca, não quer dizer que essas instituições não fossem formadas e até dirigidas por pessoas negras. Nesse sentido, a história da Lyra Ceciliana demonstra a presença de músicos negros ao longo de sua história, sendo uma instituição que luta pela igualdade racial desde a sua fundação (idem). A questão é que as bandas filarmônicas eram instituições ligadas aos eventos cívicos e religiosos da elite branca da cidade e que correspondiam aos modelos das agremiações musicais europeias. Do mesmo modo, a música feita e ensinada nessas instituições se restringia à tradição da música ocidental, baseada na escrita e leitura de partituras. Dona Dalva, ela mesma filha de um músico de banda filarmônica, apropriou-se desse formato de organização social para o samba, ocupando com o seu grupo os mesmos espaços de elite que as filarmônicas: as festas de largo das irmandades católicas e os eventos cívicos do

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calendário cachoeirano. Transformar a sua forma de vida em espetáculo significou se apropriar de formas de organização da música profissional em Cachoeira. Por um lado, isso traria profundas transformações para o samba; por outro, modificaria a própria concepção local de espetáculo. Dona Dalva, obviamente, não foi a única responsável por esse processo, mas o seu protagonismo nele é praticamente um consenso em Cachoeira.

É com esse cenário que chegamos ao ano de 1972, quando a Bahiatursa organiza a primeira edição do São João Feira do Porto de Cachoeira, uma ação que fazia parte de um conjunto de políticas para fomentar o turismo no interior do estado. Com isso, a Bahiatursa transformou os festejos vicinais de São João de diversas cidades do interior baiano em megaespectáculos (Barros de Castro, 2012), criando, a partir daí, uma cultura de organização desse tipo de evento que seria absorvida pelas prefeituras municipais. No caso de Cachoeira, a equipe da Bahiatursa combinou a programação de shows de nomes expressivos nacionalmente - como Luiz Gonzaga, Genival Lacerda, Marinês e sua Gente e Trio Nordestino - com a elaboração de uma identidade local para a festa. Foi assim que, através da indicação de alguns de seus próprios funcionários, a Bahiatursa chegou até dona Dalva e ao Samba de Roda da Suerdieck.

Dona Dalva foi convidada por Roberto Pinho, responsável na Bahiatursa pela criação do São João Feira do Porto, para se apresentar com o seu grupo na Praça do Jardim Grande. A apresentação foi sonorizada, porém aconteceu no chão, já que o palco estava reservado para as quadrilhas e atrações principais. Essa apresentação do Samba de Roda da Suerdieck no São João Feira do Porto de 1972 foi um marco na institucionalização dos grupos de samba de roda de Cachoeira. Foi a partir dela que a presença do samba nos palcos do São João passou a ser obrigatória, fomentando o surgimento de outros grupos de samba de roda e a sua contratação para outras festas realizadas pelo poder público estadual ou municipal. Segundo me contou Antonio Moraes (Entrevista em 21/03/2018), que trabalhou na organização do São João Feira do Porto nos anos 1970, diversos grupos se organizaram em bairros de Cachoeira e São Félix com o intuito de se apresentar na festa, sendo, pouco a pouco, inseridos na programação.

Moraes (idem) lembra que o primeiro deles foi o Samba de Roda Filhos da Pitanga, organizado em Cachoeira por dona Mocinha e do qual seu Carlito fez parte.

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O grupo logo se desfez com o falecimento de dona Mocinha. Outro grupo que viria a surgir nesse processo foi o Samba de Roda do Varre Estrada, organizado por dona Mariá em São Félix e formalmente existente até hoje, embora estivesse desarticulado durante o meu período de campo. Também nesse período surge o Samba de Roda Filhos de Nagô, criado em 1970, em São Félix, por Mário e César do Samba.

O Filhos de Nagô surgiu em São Félix a partir de uma brincadeira que César e seus amigos faziam na praça em frente ao Banco do Brasil, ao lado do tabuleiro de uma baiana. Ali os amigos se juntavam para tocar e beber cerveja. Com o tempo, a brincadeira cresceu e começaram a surgir convites para carurus e festas, o que, como apontado na trajetória pessoal de César do Samba, levou a formalização do grupo. De modo similar, Bau do Samba contou a criação do Samba de Roda Filhos da Barragem e Zel do Samba a do Samba de Roda Filhos do Caquende, ambos em 1983. Também nessa época Dedão formava o Samba de Roda Amor de Mamãe, que compartilhava muitos sambadores com o Filhos da Barragem. Segundo Bau do Samba (Entrevista em 27/01/2017) me contou, por um período a formação dos grupos foi tão parecida que quando Dedão fechava a tocada, o grupo era o Amor de Mamãe; quando era Bau, o grupo ia com o nome de Filhos da Barragem. A formação, no entanto, era praticamente a mesma.

Em todos os casos, tratava-se de grupos de amigos e familiares que tocavam samba em eventos vicinais de seus bairros, comunidades e terreiros, e que, pouco a pouco, se institucionalizaram na medida em que surgiam convites para tocadas, sobretudo para aquelas com pagamento de cachês. Com isso, os grupos adquiriam instrumentos e figurinos e a sua formação se estabilizava ao redor do núcleo de fundadores acrescido de novos sambadores convidados. Se nos anos 1970 o São João Feira do Porto funcionou como o principal catalisador da criação de grupos de samba de roda em Cachoeira e São Félix, nos anos 1980 vemos já a formação de um mercado local de tocadas. Esse mercado era composto tanto de eventos organizados de cachoeiranos para cachoeiranos, como de eventos voltados para o atendimento do crescente fluxo de turistas na cidade.

É esse cenário que Oliveira Pinto (1991) encontra nas suas visitas à cidade em 1984, nas quais registra grupos de samba de roda fazendo tocadas para o público local nos bares de Cachoeira aos fins de semana, assim como tocadas feitas para turistas em hotéis e restaurantes. Sem embargo, o autor ressalta que um dos sambadores mais

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importantes de Cachoeira naquele período, Alcebíades, mesmo fazendo parte de grupos de samba de roda e participando de tocadas mediante o pagamento de cachês, normalmente sambava com seus companheiros em troca de uma quantidade generosa de comida e cerveja ou cachaça, como era característico do samba (idem). Desse modo, mesmo em um cenário de crescente institucionalização dos grupos de samba de roda e profissionalização dos sambadores, o samba nos anos 1980 não havia deixado de ser uma brincadeira com os amigos ou um evento vicinal.

Já nos anos 1990, temos em Cachoeira o surgimento do Samba de Roda Esmola Cantada da Ladeira da Cadeia. O culto a Santa Cruz e as saídas de esmola na Ladeira da Cadeia começaram no bairro no final dos anos 1950, passando por um período de interrupção a partir de meados dos anos 1980, principalmente por conta do falecimento de seu Nonô, que era o responsável pela esmola cantada. Cachoeira chegou a ter grupos de esmola cantada em diversos bairros da cidade, cada qual ligado a um santo ou culto de imagem específico. Entretanto, na década de 1990 não havia mais grupos de esmola cantada em atividade na sede do município. O grupo da Ladeira da Cadeia não deixou de existir, mas as saídas de esmola cantada cessaram por muitos anos e os cuidados e celebrações da imagem da Santa Cruz ficaram sob responsabilidade do juiz perpétuo da Festa da Santa Cruz, Cabo Alfredo, e alguns poucos devotos.

Na segunda metade da década de 1990, Cacai Lobo e outras lideranças do bairro resolveram retomar as saídas de esmola e organizar novamente a Festa da Santa Cruz, que havia sido reduzida, então, a um pequeno evento vicinal. Nessa época, Cacai ainda não era vereador, mas já era uma liderança comunitária com boas relações junto ao poder público municipal, que fizeram com que ele conseguisse uma

tocada para os sambadores do bairro no São João Feira do Porto de 1996, coroando o

processo de retomada da esmola cantada do bairro. No entanto, os sambadores do bairro não configuravam um grupo artístico de samba de roda, sobretudo um que fizesse tocadas. Pelo contrário, no contexto da esmola cantada, o samba era uma parte das saídas de esmola, assim como era tocado e cantado nas rezas de santo e

carurus do bairro. Diferente de outros bairros da cidade, cujos sambadores haviam

ser organizado em grupos ainda nos anos 1980, a Ladeira da Cadeia ainda estava às margens da institucionalização dos grupos de samba de roda.

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Sob as rédeas de Cacai Lobo, a institucionalização do Samba de Roda Esmola Cantada da Ladeira da Cadeia foi abrupto e verticalizado. Desse modo, aquele conjunto de sambadores que estava acostumado a cantar e tocar samba nas saídas de

esmola e nas festas do bairro, precisou se adaptar repentinamente ao formato de grupo

e às tocadas. À época de sua fundação, portanto, um desafio se impôs: como colocar aqueles sambadores pouco experientes nas tocadas para se apresentarem logo no principal palco da cidade, o São João Feira do Porto? A solução combinou duas estratégias que, com o tempo, demonstraram ser incompatíveis: de um lado, convidar o maestro Clarício para coordenar o grupo e os ensaios; de outro, chamar seu Carlito para fazer parte do conjunto, justamente por ser um dos sambadores mais respeitados da cidade e por já participar das recém-retomadas saídas de esmola com os moradores do bairro.

Clarício foi criado na Ladeira da Cadeia e já possuía uma larga experiência no ensino formal de música, sobretudo no contexto das bandas filarmônicas. Figura querida e respeitada na comunidade, ele havia sido convidado para ser o juiz provedor da Festa da Santa Cruz de 1996. Com isso, havia assumido os ensaios e a regência do coral para a missa da festa, no qual cantavam muitos moradores que viriam a integrar o grupo de samba de roda. Após a missa, os sambadores do bairro se juntavam para

sambar. Assim, Clarício aproveitou aquele momento de ensaio do coral para também

ensaiar o grupo para cantar alguns sambas, o que se tornaria a célula de criação do Samba de Roda Esmola Cantada. Quando Cacai propôs a criação do grupo e a realização de sua primeira tocada no São João Feira do Porto, ele foi criado a partir desse conjunto de devotos da Santa Cruz que já ensaiavam sob a regência de Clarício, ao qual foram agregados alguns sambadores de outros bairros para fechar a composição necessária.

Como vimos no caso da anedota que abre esse capítulo, com o registro do samba de roda pelo IPHAN, há um novo impulso para a criação de grupos de samba de roda no município, sobretudo nos distritos de Santiago do Iguape e São Francisco do Paraguaçu, onde não havia nenhum grupo institucionalizado até meados dos anos 2000. O primeiro grupo formal da região foi o Samba de Roda Suspiro do Iguape, criado em 2004 e que em 2009 seria dividido em dois, dando origem ao grupo Samba de Roda Geração do Iguape, para o qual seu Domingos Preto foi com os seus companheiros mais próximos. Ao longo dos anos seguintes, outros grupos surgiriam

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na região, como o Samba de Roda Juventude do Iguape e o Samba de Roda Sensação do Recôncavo. O Ponto Certo foi outro povoado da zona rural de Cachoeira que teria a criação de um grupo: Raimundo do Samba fundou o Samba de Roda Resgate do Samba a partir de um grupo de amigos que se encontrava aos sábados para beber e tocar juntos. Para fazer com que o grupo se tornasse “profissional”, Raimundo convidou seu Pedro Galinha Morta, que passou a atuar como uma espécie de coordenador musical do grupo.

Curiosamente, no período posterior ao registro do samba de roda apenas um grupo foi criado na sede do município, ao passo que diversos surgiram na zona rural. Assim, mais que fomentar o surgimento de grupos na sede, a patrimonialização teve como principal efeito a institucionalização de grupos de samba de roda na zona rural de Cachoeira. O único grupo surgido na sede de Cachoeira foi o Semente do Samba, criado por Nal Nego Bom. O grupo não chega a ser uma dissidência do Filhos do Caquende, mas, por ser do mesmo bairro, acabou atraindo sambadores daquele grupo, sobretudo os irmãos de Nal Nego Bom, levando a que alguns deles abandonassem o grupo de Zel do Samba. Nal conta que, desde 2002, tentava organizar um grupo de samba de roda, fazendo uma ou outra tocada e comprando instrumentos, mas ainda sem ter nome ou formação fixa. Foi apenas há cerca de quatro anos que Nal institucionalizou o Semente do Samba, fazendo a primeira tocada de grande porte no São João Feira do Porto de 2018.

Embora criados em bairros e a partir de contextos muito diferentes, todos os grupos de samba de roda apresentam uma importante característica em comum: trata- se da institucionalização de coletivos que já faziam samba nos eventos vicinais dos seus bairros, comunidades ou terreiros. O grupo de samba de roda, portanto, cristaliza tais coletivos em um formato de organização social adequado ao mercado local de

tocadas. Ao mesmo tempo, os grupos se tornam organizações capazes de colocar o