Matt
Matt olhou inquieto para o mar de homens amontoados firmemente no bar. Ele não conseguia realmente dar uma boa olhada em qualquer um deles, com as luzes fracas e pulsantes.
Passando a mão sobre sua calça cáqui, uma consciência dolorosa apareceu, lembrando-o de que ele não tinha ideia do que deveria estar vestindo em um lugar como aquele. Embora pelo que ele pudesse ver, o traje variava de vistoso a casual a shorts tão curtos que deveriam ser ilegais usar em público.
Ignorando seus nervos, ele se aproximou do bar e acenou para chamar a atenção do barman. O barbudo nem solicitou seu pedido, ele apenas empurrou dois tiros em sua direção e foi embora.
Shots de gelatina. Quão ruins eles poderiam ser?
Ele apertou o conteúdo de uma embalagem de papel na boca e seguiu com a outra.
Muito bom, na verdade. Ele mal conseguia sentir o gosto do álcool. Apenas aroma de cereja. Ele ergueu a mão e pediu mais, desta vez colocando uma nota de vinte dólares no balcão.
Depois de engolir mais dois, um belo homem loiro se aproximou dele. — Quer compartilhar um desses com um novo amigo?
— Fique a vontade. — Ele entregou um, esperando que sua bravata não saísse tão forçada quanto era.
O loiro tomou seu tempo, passando a língua sobre a dose e enrolando a gelatina em sua boca. — Primeira vez aqui, querido?
Ele acenou com a cabeça, observando com fascínio quando a língua do homem deslizou outro tiro em sua boca.
O cara deu uma risadinha. — Pegue o último e venha dançar. — Ele deslizou a mão sobre o braço de Matt. — Não fique tão assustado. Eu não vou morder. Não no primeiro encontro.
Ele veio para isso, certo?
Ele engoliu a última dose e seguiu seu novo amigo para a pista de dança. Demorou apenas alguns segundos para lembrar que ele não sabia dançar.
Mas, parecia, ele não precisava.
O loiro o segurou pelo quadril e pelo ombro oposto e moveu seu corpo no ritmo da música. Logo, Matt poderia pegar o ritmo por conta própria, e seu parceiro se aproximou ainda mais.
Ter o corpo de um estranho pressionado contra ele era estranho, mas ficou um pouco mais fácil quando ele fechou os olhos. Ele tentou dividir as
sensações e não pôde negar o prazer físico de se mover com a música e a proximidade de outra pessoa.
Ele se permitiu imaginar por um momento que estava dançando com Robby, o que funcionou quase muito bem. Porque quando ele abriu os olhos e viu um estranho, foi pior do que não sentir nada. Foi meio nojento.
Sem mais fingimentos. A partir daquele momento, concentrou-se totalmente no parceiro, que, aliás, parecia um pouco o ator de uma novela de sua mãe. O homem em forma preencheu seus jeans skinny nos lugares certos. Ele tinha maçãs do rosto altas e bem definidas. O homem provavelmente poderia ter modelado um pouco.
Então, quando o cara se inclinou em direção a ele, em busca de um beijo, ele deixou acontecer.
E isso o deixou positivamente frio.
Os lábios do estranho esmagaram-se contra ele, sua língua fazendo um jogo insistente para entrar na boca de Matt. Foi terrível. Nada como o que ele compartilhou com Robby.
Ele deu um passo para trás e balançou a cabeça em um pedido de desculpas silencioso, mas não conseguia pensar em nenhuma explicação onde não insultasse o cara.
— Está tudo bem. — O homem soprou um beijo no ar. — Muitos peixes no mar.
Grato por uma saída fácil, ele correu de volta para o bar. Mais doses de gelatina se seguiram. E mais homens se aproximaram.
Homens altos, baixos, negros, brancos, asiáticos, magros, gordos e musculosos.
Ele dançou mais uma ou duas vezes, mas não conseguiu fazer outra coisa.
Seu experimento terminou como um fracasso abismal.
Pelo menos ele aprendeu que gostava de doses de gelatina.
Era quase meia-noite quando seu motorista Lyft o deixou em casa. Ele caiu na cama e sonhou em voltar para a pista de dança. Só que desta vez, Robby se aconchegava em seus braços, e o beijo foi um que abalava seu mundo.
Robby
Robby tinha acabado de se preparar para seu jantar congelado padrão na frente da TV na noite de terça-feira quando uma batida na porta forçou sua atenção para longe de uma velha reedição da Teoria do Big Bang. Ele fez uma careta enquanto colocava a bandeja de plástico na mesa de café. Provavelmente alguém tentando vender algo para ele. Do jeito que estava, ele já tinha mais biscoitos das escoteiras do que ele jamais saberia o que fazer.
Ainda assim, ele não podia ignorar quem quer que fosse, não importava o quão nojento sua torta seria quando esfriasse. Talvez ele pudesse
educadamente mandar o garoto embora fingindo estar doente.
Ele tossiu ao abrir a porta. — Eu sinto muito. Eu... Parker?
Seu velho amigo lançou lhe um sorriso de Cheshire9 e passou por ele como se tivesse sido convidado. — Eu não conseguia parar de pensar em você depois que você saiu do clube. Eu só tinha que rastreá-lo e ver sua incrível nova vida por mim mesmo.
Fechando a porta, Robby se sentiu agudamente ciente do espaço pequeno e espartano onde morava. Comparado ao apartamento que ele dividiu com John, parecia mais um barraco do que algo que seu velho amigo consideraria incrível. — Como você me achou?
Parker torceu o nariz por uma fração de segundo antes de se acomodar no sofá. Com seu cabelo perfeitamente estilizado e camisa de seda azul royal de grife, ele teria ficado muito mais adequado em algum lugar sofisticado. Ele descartou a pergunta. — Um amigo de um amigo tem uma conta LexisNexis e me ajudou a rastreá-lo. Fizemos um jogo de bebida com isso.
Robby se sentou na beirada da almofada do sofá ao lado dele. Ele não conseguia pensar em nada para dizer.
Parker não sofria do mesmo problema. — Sair juntos de novo parecia um pouco como nos velhos tempos.
— Não foi.
9 O Gato de Cheshire, Gato Risonho, Gato Listrado ou Gato Que Ri é um gato fictício famoso através do livro Alice no País das Maravilhas de Lewis Carroll. A personagem é principalmente caracterizada pelo seu sorriso pronunciado
— Você quer dizer por que você não está mais com John? Vocês dois sempre pareceram feitos um para o outro. A maneira como ele sempre te bajulava e comprava coisas. Como seu PlayStation e todas aquelas roupas bonitas. — Parker se inclinou para frente como se estivesse compartilhando alguma fofoca suculenta. — Eu vi você sorrindo com ele outra noite. E eu vi vocês dois escorregando para um canto escuro.
Robby cerrou os dentes. — Você está brincando comigo? Quando você nunca me viu sorrindo? É o que eu faço. É o que todos nós fazemos.
O sorriso lascivo de Parker se dissolveu.
— Foi uma das primeiras lições que aprendi. Bem, a primeira lição foi procurar um cara de camisa de botão e calça comprida, certo? —
— E um blazer, — Parker murmurou.
— Sim. Levei uma noite nas ruas e três no abrigo até que o cara no beliche ao meu lado me deu uma pista sobre como as coisas funcionam.
Sorrir. Não importa o que aconteça. Não importa o que eles peçam para você fazer. Faça isso e sorria.
O conselho o havia servido bem.
— Ele me disse: 'Apenas mostre aqueles olhos de cachorrinho e role quando eles mandarem.' Ele estava certo. — Ir para casa naquela noite com o cara que se chamava de Tex pode ter significado alguns minutos desagradáveis no quarto, mas deu a Robby um lugar seguro para dormir pela primeira vez desde que seu pai o expulsou.
— Claro que ele estava certo. — Parker recostou-se na cadeira. — A Mãe Natureza fez os bebês parecerem tão inocentes e fofos por um motivo.
Robby assentiu. — As pessoas querem cuidar deles. É um imperativo biológico. Mesmo os animais feios são fofos quando são bebês.
— Sim, bem, seu amigo deveria ter avisado você para tomar cuidado com os predadores. — Parker sorriu afetadamente. — Na selva, eles comem os bebês primeiro.
Robby esfregou a tensão crescendo em seu pescoço. A lição chegou um pouco tarde. — Por que você está realmente está aqui, Parker? John disse que ele me rastreou no trabalho?
— Ele rastreou? — Os olhos de Parker se estreitaram. — O que aconteceu?
— Eu disse a ele para sumir. — Qual parte dele queria fazer com Parker agora. — Agora vou perguntar de novo. Por quê você está aqui?
Seu velho amigo deu de ombros. — Acho que queria ver como vive a outra metade. Como minha vida teria sido se eu tivesse saído do jeito que você saiu. — Parker olhou em volta, mal tentando esconder seu desdém. — Eu tenho que ser honesto. Não vejo o apelo.
Não. Ele não iria. Mas Parker não conhecia a pequena parte da alma de Robby que ele sacrificou para chegar aqui. Mantendo as memórias sombrias na baía, Robby se levantou e voltou para a porta da frente. — Foi legal da sua parte aparecer.
Ele sorriu e os dois conheceram a expressão familiar para a mentira que era. — Talvez possamos conversar mais tarde.
Parker deu um beijo na bochecha ao sair.
Robby passou a próxima hora tentando empurrar velhas memórias de volta para a caixa onde ele as manteve trancadas, mas por alguma razão, elas não cabiam. John o encontrou no trabalho. Parker foi ao seu apartamento. A velha vida que ele trabalhou tão duro para escapar estava perto demais para seu conforto.
Ele compassou o chão. Por duas vezes, ele quase se serviu de uma bebida.
Então ele pegou o telefone. Olhou para ele. E fez a ligação.
Matt atendeu no primeiro toque.
Robby reuniu coragem. — Você pode vir? — Ele odiava o quão pequena sua voz soou.
— Acabei de sair da aula. Estou a caminho. — Sem perguntas. Sem atrasos.
Ele estava lá em dez minutos. — Me diga o que você precisa.
Robby rosnou. Sua própria fraqueza o fez querer enfiar o punho na parede. Em vez disso, ele afundou no sofá e colocou a cabeça entre as mãos. — Eu preciso ser outra pessoa. Alguém melhor.
A almofada ao lado dele cedeu com o peso de Matt. — Não. De jeito nenhum. Eu gosto de quem você é.
Só era verdade porque Matt realmente não sabia quem ele era. Robby ergueu os olhos. — Minha própria família não gostava de quem eu era.
Pelo menos não depois que souberam a verdade sobre ele.
— Eu cresci em uma família muito religiosa. Cidade pequena. Quase uma relíquia do passado. Era tudo que eu sabia, no entanto. Meus pais, meus irmãos e minha irmã. Éramos todos próximos, sabe? Mas eles não sabiam que eu era gay.
Matt coçou a nuca. — Eles nunca suspeitaram?
Robby abraçou um travesseiro contra o peito. — Quem sabe? Meu pai parecia chocado o suficiente para me encontrar beijando Luke Potter no celeiro quando eu tinha dezesseis anos. Ele me expulsou na hora. Eu não tinha nada além das roupas do corpo e vinte e três dólares na carteira.
— E foi assim que você acabou sozinho em Atlanta. — Matt acenou com a cabeça como se algo tivesse clicado em sua cabeça.
Ele nem sabia o pior. Nenhum de seus amigos sabia.
Eles só viram o Robby que ele queria que vissem.
O prazer doce das pessoas era uma segunda natureza. Sete anos atrás, na verdade, era a única maneira que ele conhecia. Amoroso, inocente e sério. Esse garoto era a melhor versão de si mesmo. Mas, ao contrário de seu eu de dezesseis anos, a versão adulta experimentou todas as emoções no outro lado da moeda. Ele sabia como era o ódio. Desolação. Ele estava cansado antes de completar dezoito anos.
As coisas que ele fez, apenas para sobreviver, chocariam e horrorizariam as pessoas que o conheciam agora, as pessoas que o amavam.
Esses lados de Robby: o prostituto, o ladrão, o camaleão, o viciado... e pior... essas facetas dele ainda permaneciam sob a superfície. Mas se ele os empurrasse com força suficiente, poderia fingir que eles não estavam ali. Como nunca antes.
Como se ele nunca tivesse cometido o pecado final.
Seu pai nunca estaria certo sobre ele.
— As coisas estavam difíceis. Não quero entrar em tudo, mas no final, as drogas me ajudaram a superar o pior. — Olhando para trás, ele se odiava por isso. Pelas drogas e muito mais.
— Quer falar sobre o que aconteceu?
— Não. Eu quero esquecer tudo. Eu faria, mas, de repente, meu passado está bem aqui, e é como se ele me quisesse de volta. Eu não quero ir. — Ele queria agarrar Matt com as duas mãos e segurar até que todo o resto fosse embora.
— Seu ex parece um bastardo.
Sim, bem, o limite de Robby para bastardos era muito alto. — Eu já conheci coisas piores. Não quero falar sobre John. Não quero pensar em John ou na pessoa que eu era quando estávamos juntos. Quero ser melhor e mais forte e ser capaz de lidar com o estresse sem querer me afogar no esquecimento.
Matt agarrou sua mão. — Você está melhor e mais forte, porque quisesse ou não, você não escolheu o esquecimento. Você me escolheu.
Se você fosse meu, eu sempre escolheria você.
Robby olhou para suas mãos dadas, apertou e se afastou. Matt não era dele, pelo menos não da maneira que ele queria. Ele estava aqui, no entanto, o que contou muito. — Você quer verificar esses novos downloads de mapas?
Matt pegou o controle da mesa de centro. — Sua conta ou minha?