Menos de três horas depois de Chloe ter acertado uma bala na cabeça do homem que havia lhe atacado em seu apartamento, Julio Alejos pediu para conversar com ela. Ainda que ela estivesse de acordo, já que queria respostas, Johnson não permitiu o encontro.
Afinal de contas, seria difícil aceitar tal pedido já que Chloe estava recebendo tratamento no hospital.
Por fim, Chloe havia tido muita sorte. Ela tinha um machucado enorme nas costas e várias marcas de diferentes cores no pescoço.
Vários exames foram feitos, mas nada estava quebrado. Sua
traqueia tinha sinais de estresse, mas nada que fosse considerado sério. Os médicos haviam pedido que Chloe não falasse muito nos dias seguintes, e ela aceitou a recomendação sem problemas.
Ela estava esperando os resultados do último exame em sua garganta quando ouviu uma batida na porta. Olhou e ficou surpresa ao ver o diretor Johnson ali.
- Soube que você será liberada em breve – ele disse.
Chloe assentiu. Ela apontou para sua garganta, depois para a boca, e então balançou a cabeça.
- Sim, eu sei que você não pode falar. Os médicos já me disseram.
Chloe assentiu novamente e então conseguiu dizer uma única palavra.
- Rhodes?
- Acho que ela está pior que você. Um machucado sério na cabeça, concussão, sete cortes no braço. Ela disse que levou um vinho até sua casa porque queria te animar. Está tudo bem?
Chloe apenas encolheu os ombros.
- Bom, eu vim trazer boas notícias. Quando nós contamos para Alejos que você tinha sido atacada e que o agressor tinha sido morto, ele ficou mais aberto a conversar. Acho que por isso ele pediu por você. Estava um pouco mais disposto a conversar. Os resultados dos peritos também ajudaram.
Chloe levantou a cabeça e a sobrancelha.
- Peritos?
- Eles pegaram um fio de cabelo do agressor... o nome dele é Deacon Galimore, ao que parece. Ele tem um longo histórico de tráfico de drogas em Nova York e é conhecido por ser amigo de Alejos. De Mitchell Beck também, ao que parece. Enfim, Alejos disse que Mark Fairchild pecou pela ganância... tentou chantagear alguns dos homens dele e desviar uma parte do dinheiro.
Aparentemente, ele conseguiu. Alejos disse que era algo de
quinhentos mil, por aí. Pelo jeito, quinhentos mil compra a morte de uma esposa. Julio admitiu ter enviado Galimore para matar Jessie Fairchild... um jeito de se vingar de Mark. Em retribuição, algo assim. Enfim... o fio de cabelo de Galimore bate com aquele encontrado na cena do crime.
- Mas então o que aconteceu com— - Chloe tentou perguntar.
- Pare de falar – Johnson interrompeu. – Ele pediu mais algumas horas. Está tentando fazer um acordo... informações sobre o cartel em troca de informações suficientes não só para encontrar Mitchell Beck, mas para prendê-lo por muito tempo. Ele disse que Beck está por trás de vários assassinatos que aconteceram há dez anos e que ele também mexe com tráfico de pessoas. Alejos disse que tem muitas figuas públicas—políticos e artistas—ligados a Beck. Isso pode dar uma merda gigante... e por isso Alejos pode conseguir o acordo que quiser.
Chloe virou os olhos.
- Eu concordo. Enfim... seja o que for que ele decidir,
independente do acordo que for feito, o caso Jessie Fairchild acabou. Agora, só estamos tentando finalizar as condenações de Mark Fairchild e Alejos. Você fez um excelente trabalho, agente
Fine. Rhodes disse que você praticamente salvou a vida dela. Já é a segunda vez, certo?
- Quem está contando?
- Com certeza Rhodes está.
Com essas palavras, Johnson sorriu e saiu do quarto. Chloe o viu sair, tentando encontrar alguma felicidade nas notícias que havia recebido. O assassino de Jessie fora encontrado e estava morto.
Mark pagaria por seu envolvimento, e ela e Rhodes não só haviam ajudado a dissolver um cartel de drogas enorme, mas também
haviam feito algo que poderia expor pessoas importantes por envolvimento criminal com Mitchell Beck.
Sim, parecia um cenário bom e, em algum momento, Chloe conseguiria se orgulhar daquilo.
Mas sua mente já estava pensando em Danielle. Sua irmã ainda não estava atendendo o telefone, e a cada hora que passava, Chloe ficava mais e mais preocupada com ela.
Também não pode deixar de pensar em seu pai. Em algum momento, haveria um encontro duro entre os três. Talvez, ao resolver essa situação, Chloe poderia voltar a sua vida normal, trabalhando em casos violentos sem que seus próprios dramas a atrapalhassem.
Mas até que esse dia chegasse, ela precisaria saber lidar com a situação.
EPÍLOGO
À uma e quinze da manhã, enquanto sua irmã recebia alta de um hospital em Washington, Danielle cruzou a fronteira entre Oklahoma e o Texas. Ela estava cansada e com fome, mas sabia que não podia parar.
Seu pai estivera fazendo barulhos no porta-malas por mais de uma hora. Danielle havia aumentado o som do rádio, com músicas da época de sua adolescência, para silenciá-lo. Havia funcionado, e ela tinha se permitido dirigir em uma espécie de estado de hipnose a noite inteira.
Ela sabia que teria que parar para abastecer em breve. E tudo bem... pararia em um posto no meio do nada, em uma conveniência de uma cidade qualquer. Haveria menos movimento e muito menos chances de alguém ouvir os gemidos e reclamações do homem no porta-malas. Ela havia parado em Tennessee e fechado a boca dele com fita. Também reforçara a fita nas bordas da colcha. Pensara em dar água a ele, mas acabara decidindo que não. Ele sobreviveria sem.
E agora ele estava gemendo de novo, através da fita. Danielle podia ouvi-lo mesmo com o som alto ligado.
Ela abaixou o som e esperou um momento.
- Pai, você me ouve?
Não houve resposta do porta-malas. Danielle pisou no freio, parando no meio das duas pistas. Não havia trânsito em nenhuma direção, o que a permitiu ser um pouco imprudente. Claro, ela fez o caminho dentro dos limites de velocidade. Seria horrível ser parada pela polícia, levando em conta o que havia no porta-malas.
O barulho vindo dos fundos do carro no momento da freada a fez sorrir.
- Ei, você me ouve?
Dessa vez, houve uma resposta.
- Vou deixar você sair logo, logo – Danielle disse. – Estamos
quase lá. E quando chegarmos, eu e você vamos sentar e conversar cara a cara. Tudo bem?
Não houve resposta, mas tudo bem. Ela sabia que ele tinha ouvido.
- Aguente firme – ela disse, sorrindo.
Danielle apertou o acelerador e aumentou a velocidade
novamente. Se seu pai ainda estava gemendo, ela não escutou.
Voltou a aumentar o som, que a lembrava de seus tempos de
adolescente, quando ela não se importava com o mundo. Imaginou que, mesmo naquela época, já vinha planejando esse momento.
Sorriu ao pensar em tudo aquilo e dirigiu noite a dentro, com árvores por todos os lados e estrelas no céu.
A noite seria longa e interminável, mas isso não era uma
preocupação. Com seu pai no porta-malas e seu futuro mais uma vez em suas próprias mãos, Danielle estava se sentindo bem como há muito tempo não sentia.