A empresa para a qual Mark Fairchild trabalhava chamava-se Edgebrook Financial. Como Chloe esperava, o prédio estava quase todo no escuro quando ela e Rhodes passaram pela porta frontal e chegaram ao hall, às 9:35. A única pessoa na recepção era um segurança, com expressão entediada, sentado atrás de uma mesa.
Quando ele viu Chloe e Rhodes entrando, levantou-se e sorriu.
- Posso ajudar, senhoras? – ele perguntou.
As duas mostraram seus distintivos ao mesmo tempo, e Rhodes se apresentou.
- Rhodes e Fine, FBI – ela disse. – Estamos trabalhando em um caso que envolve um funcionário da Edgebrook. Estamos em
acordo com a polícia local, caso você queira saber.
O guarda olhou para os distintivos e assentiu, concordando.
- Em qual andar vocês vão?
Essa era uma informação que elas tinha visto nos relatórios da polícia, nos arquivos sobre o trabalho de Mark.
- Quarto andar – Chloe disse.
- Certo. Os elevadores ficam ali no fundo. O quarto andar está totalmente vazio essa noite, então vou desligar o alarme. Não quero aquela coisa apitando sem motivos.
- Obrigada – Chloe disse quando ela e Rhodes afastaram-se da recepção e seguiram em direção aos elevadores.
No quarto andar, elas encontraram o corredor principal escuro e em silêncio, iluminado apenas por uma luz fluorescente fraca e
apenas uma lâmpada no teto, no que parecia ser uma pequena sala de recepção. Ao fim do corredor ficava um escritório grande, que estava com a porta fechada. Uma placa de vidro grande na porta dizia Mark Fairchild. Chloe usou a chave que Nolan havia entregue a elas e as duas agentes entraram no escritório sem problemas.
Chloe acendeu a luz ao pressionar o interruptor na parede. A luz revelou um escritório quase tão grande quanto o apartamento de Chloe inteiro. Havia uma mesa enorme na parede da esquerda, quase nos fundos da sala. Uma pequena sala de reuniões ficava no centro da sala, com TVs nas paredes dos dois lados.
- Alguma ideia do que nós estamos procurando? – Rhodes perguntou.
- Não. Algo que pareça não pertencer a esse lugar. Cacete, seria bom se essas coisas tivessem adesivos colados nelas avisando.
A parte ruim era que Mark Fairchild parecia manter seu escritório muito limpo. Chloe imaginou que aquele era o tipo de empresa que tinha uma equipe de limpeza contratada para deixar os escritórios intactos pelo menos uma vez por semana. Todos os equipamentos dele—monitor, teclado, mouse e porta-canetas, eram prateados ou brancos.
Chloe sentou-se à mesa e olhou em volta. Havia um quadro branco enorme na parede ao lado da mesa. Nele, estavam escritos o que pareciam ser centenas de nomes, datas, locais e anotações variadas. Enquanto ela olhava em volta da mesa, Rhodes tirou uma foto dos nomes e números no quadro branco.
Chloe abriu a primeira gaveta da mesa. Estava perfeitamente organizada, como tudo no escritório. Canetas, clips, alguns pen-drives e outros acessórios. O lado direito da mesa continha três gavetas. Ela abriu a primeira e encontrou apenas papeis em branco.
Na segunda, viu várias pastas de arquivos, cada uma com uma data na parte superior direita. A mais recente era de dois anos antes. A última gaveta estava vazia. Era a maior de todas, mas não parecia estar sendo usada já há algum tempo.
Ela fechou a gaveta, mas então parou. Pensou ter visto algo ao fechá-la. Abriu-a novamente e olhou no fundo. Havia um vinco no fundo da gaveta, como se alguém tivesse feito um corte.
- O que é isso? – Rhodes perguntou, aproximando-se para olhar.
- Uma gaveta falsa, eu acho. – ela pôs a mão para sentir o corte.
Era, definitivamente, parte do design original da gaveta. Ao
pressioná-la no fundo, sentiu um movimento. Depois, pressionou no outro lado do fundo da gaveta e escutou algo. Ainda pressionando, colocou seus dedos dentro do corte e tentou levantá-lo, mas nada aconteceu. Depois, tentou mover a parte menor, e conseguiu. O fundo falso moveu-se, revelando outro compartimento dentro da última gaveta.
Isso revelou um espaço com cerca de quinze centímetros de fundura. Dentro dele havia um único pen-drive, um celular, e o que a
primeira vista pareceram ser cerca de uma dúzia pilhas de notas de cem dólares.
- Uou! – Rhodes disse. – Achamos o tesouro, ein?
Chloe assentiu, folheando as notas. Havia, na verdade, dezesseis pilhas ao todo, cada uma com cinquenta notas: oitenta mil dólares.
Mas não era no dinheiro que Chloe estava mais interessada. Ela pegou o pen-drive e o celular. O celular era descartável, do tipo que se podia comprar com um chip pré-pago em qualquer conveniência ou farmácia.
- Não me parece o tipo de coisa que um milionário fica guardando, né? – Chloe perguntou.
- Não – Rhodes concordou. – Fico pensando para que ele usa isso.
- Vamos descobrir.
Chloe ligou o celular e esperou que carregasse. Então, não perdeu tempo, indo até os contatos e navegando pela lista. Não havia nomes salvos junto aos nomes, o que tornava seu trabalho mais difícil, mas também deixava tudo mais suspeito. Havia cinco números ao todos, que se repetiam.
- Vamos tentar falar com o Garcia – Rhodes disse. – Talvez ele possa mandar alguém investigar esses números.
Chloe concordou, sentindo que o envolvimento do diretor
assistente no caso era uma pista de que finalmente estava havendo um progresso. Ela precisou se controlar para não simplesmente telefonar para aqueles números. Sabia que, se fizesse isso, talvez estivesse avisando Mark de que ele estava sendo investigado mais a fundo.
Chloe ouviu Rhodes falando com Garcia. Ela foi colocada em espera e então começou a olhar em volta do escritório—para as prateleiras e para o quadro caro, com uma pintura abstrata de uma cidade na parede. Alguns minutos depois, começou a falar
novamente. Nesse momento, ativou o viva-voz do celular e largou-o sobre a mesa de Mark Fairchild.
- Kim Moxley, você está no viva-voz comigo e com a agente Chloe Fine. Chloe vai lhe passar cinco números de telefone e nós precisamos investigá-los o quanto antes.
- Claro – disse a voz confiante de uma mulher no outro lado da linha. – Sabemos se são linhas internacionais?
- Parece que pelo menos uma é – Chloe respondeu.
- Essa pode levar um tempo a mais. Mas posso conseguir os resultados dos outros números para você em alguns segundos.
- Perfeito – Chloe disse. Então, ditou o primeiro número. Ela tinha quase certeza de que o código de área era de Nova York, e logo soube que estava certa.
- Esse número é de um homem chamado Julio Alejos. É de Nova York, de algum lugar perto de Buffalo.
- E esse aqui? – Chloe perguntou, ditando o segundo número.
Cerca de dez segundos depois, a voz de Kim Moxley respondeu.
- É um número de Boston. Uma empresa chamada Polson &
O’Neal Investments.
Chloe digitou os nomes enquanto Moxley lhe informava. Quando terminou de digitar o nome da empresa, seguiu com os outros
números. O terceiro era um número desconhecido, que Moxley não pode rastrear.
- Mas não se preocupe – ela disse. – Vou trabalhar nisso assim que essa ligação terminar e posso conseguir os resultados em poucas horas.
Chloe então lhe ditou o quarto e o quinto números. Os resultados dessa vez foram mais do que suficientes para fazê-la ter certeza de que algo errado estava acontecendo. Mesmo que não fosse algo diretamente ligado à morte de Jessie Fairchild, parecia que Mark Fairchild certamente estava fazendo algo errado.
O quarto número era internacional, e Moxley, como já tinha
alertado, levou um pouco mais de tempo para conseguir resultados.
Mesmo assim, não levou mais de trinta segundos até que ela trouxesse uma resposta.
- O que posso garantir é que é de algum banco offshore. Mas tem dois listados aqui, UXB Banking e West Bore Banking. Olhei o
quinto número enquanto esperava, e esse é de um lugar chamado Collins Holdings.
- Uma empresa de participações e um banco offshore – Rhodes disse.
- Parece que sim – Moxley disse. – Com sorte eu terei as informações do número desconhecido em algumas horas.
- Obrigada pela ajuda – Rhodes disse. – Por favor nos diga se você descobrir mais alguma coisa.
Ela encerrou a ligação e guardou o celular no bolso.
- As coisas estão começando a ficar feias para Mark Fairchild – ela disse. – Mesmo que essas ligações tivessem sido feitas do telefone dele, e não desse escondido, já seria estranho.
- Isso me faz pensar o que tem nesse pen-drive – Chloe disse.
Ela ligou o computador e colocou o pen-drive na pequena porta, ao lado do monitor. Esperava encontrar uma tela protegida por senha, mas isso não aconteceu. A tela se acendeu normalmente e ela pode abrir o pen-drive sem problemas.
Havia um arquivo de vídeo nele. A miniatura estava nomeada apenas como VÍDEO. Tinha quarenta e três minutos. Chloe abriu-o e percebeu do que se tratava em menos de dez segundos. Havia uma mulher em uma cama grande. Ela estava totalmente nua, com exceção de uma tanga que mal podia ser vista. Havia um quadro gigante acima de uma cabeceira decorada, mostrando o suficiente para que Chloe percebesse que aquilo não havia sido gravado na casa dos Fairchild. Chloe pulou algumas partes do vídeo para ter certeza de que a mulher não era Jessie Fairchild. Pela forma do corpo e das pernas, era impossível ter certeza.
Quando Mark Fairchild apareceu na cena, à esquerda, ele estava vestindo apenas uma cueca. Quando a mulher na cama se mexeu, agarrou-o e começou a puxá-lo de um jeito sensual, Chloe
finalmente pode ver seu rosto. Teve quase certeza de que não era Jessie.
- Me pergunto se essa é uma das prostitutas caras – Rhodes comentou.
Chloe parou o vídeo e retirou o pen-drive. Ela não tinha intenção de descobrir quem era a mulher. Então, perguntou-se se todo
aquele dinheiro escondido na gaveta seria para pagar essas prostitutas.
- Já vi o suficiente – Chloe disse. – Tudo bem por você, Rhodes?
- Sim. Acho que já vimos o suficiente. Só temos que esperar o pessoal de Washington fazer o trabalho deles.
Elas saíram da sala de Mark, fechando e trancando a porta.
Voltaram ao corredor e, ao chegarem aos elevadores, Chloe não pode deixar de sentir que o caso estava caminhando para o fim.
Com certeza aqueles números suspeitos levariam a algum lugar. E ela tinha cada vez mais certeza de que algo revelaria que Mark Fairchild tinha matado sua esposa.