O clima não estava mais tão tenso quando Chloe e Rhodes
sentaram-se com Mark Fairchild. Para começar, o irmão dele não na sala escutando a conversa. Além disso, apesar de claramente ainda estar no processo de luto, parecia haver uma certa aceitação no comportamento de Mark. Chloe pode perceber isso simplesmente na maneira como ele olhava para as duas agentes durante a
conversa. Ele estava com as ideias mais claras, porém ainda sofrendo bastante.
- Obrigado por voltar – Chloe disse. – Não queria ter que chamar você novamente aqui tão cedo, mas precisamos da sua ajuda.
- Tudo bem. Quero ajudar como puder... fico feliz em ajudar. Mas antes... sendo sincero... você pode me dizer tudo o que deu errado?
Eu sei que você e a polícia local estavam investigando várias coisas, mas você pode me dizer o que já descobriram?
- Não muita coisa, infelizmente – Chloe disse. – Mas posso lhe contar o que nós sabemos. Por exemplo, não havia digitais na
estola e no anel além das da sua mulher. Também tivemos algumas pistas nesses dias que acabaram não dando em nada. Ainda temos algumas opções e se alguma delas se mostrar interessante, com certeza vamos lhe contar.
Mark assentiu, refletindo sobre todas as informações. Ele olhou para a mesa, onde a maioria dos relatórios financeiros ainda
descansava.
- Imagino que as perguntas sejam relacionadas às minhas finanças – ele disse.
- Exatamente – Rhodes respondeu.
- Nada que lhe incrimine, claro – Chloe disse. – Mas tem algumas coisas aqui que nos fizeram precisar de outra conversa com você.
- Claro. – Mark encostou-se em sua cadeira, parecendo um pouco nervoso. Seu olhar mostrava que ele já sabia que aquilo aconteceria—mas talvez não tão cedo.
Chloe e Rhodes falaram sobre todas as descobertas que haviam feito. As duas foram muito cuidadosas para não parecerem estar acusando Mark de nada. Suas palavras foram de agentes que
simplesmente queriam mais informações. Aquilo pareceu deixá-lo mais confortável. Chloe já havia utilizado aquela tática antes. Ao invés de se sentir ameaçado, ele sentiu-se útil. Era uma maneira de tentar descobrir se alguém estava, de fato, escondendo algo.
Quando elas terminaram de mostrar a ele o que as fez
precisarem de ajuda, Mark juntou todos os papeis e olhou-os por um momento. Ele formou uma pequena pilha o olhou para ela,
introspectivo.
- Eu sei que isso não é moderno, ou certo, ou seja lá como as pessoas julgam isso, mas Jessie nunca soube muito sobre as nossas finanças. A última vez em que ela mostrou algum interesse nisso foi há cerca de um ano e meio. Eu tinha algumas ações
avaliadas em mais de cinco milhões, e cerca de dez milhões em conta. Ela casualmente perguntou como nós estávamos
financeiramente quando nós tivemos que nos mudar, mas foi só. Eu sempre cuidei do dinheiro, fiz as contas, tudo. Ela só... bom, ela só gastava um pouco de tudo. E eu não digo isso como se fosse um problema, porque ela nunca escondeu nada, sempre me perguntava se eu achava que estava tudo bem ela comprar isso ou aquilo. Eu só pedia que se ela quisesse algo que custasse mais do que um certo valor, que ela me avisasse antes.
- Quanto era esse valor? – Chloe perguntou.
- Vinte mil.
- E quando foi a última vez que ela disse que gastaria mais do que isso? – Rhodes perguntou.
- Faz um tempo. Dois meses, talvez?
- Isso chegou a causar discussões entre vocês?
- Não, nada sério. É que... bem, tudo parece estúpido agora, mas eu nunca me importei com os gastos dela. Eu sempre quis que ela estivesse feliz. E depois de um tempo, você se torna mais
dependente do dinheiro. Eu acho que nós nos fazíamos um ao outro feliz emocional e fisicamente, mas no final das contas, nós dois
estávamos muito acostumados a ter muito dinheiro, sabe? Mas agora que ela se foi, o dinheiro não tem sentido nenhum para mim.
- Me parece que ela usava o dinheiro de um jeito mais fútil que você – Chloe disse.
- Ah, às vezes. E não estou falando só porque ela não está aqui para se defender. Se estivesse, ela mesma te diria isso.
- Tudo o que nós descobrimos hoje de manhã... bem, nos levou a algumas conclusões que não somos exatamente treinadas para tirar. Você pode nos ajudar?
- Me parece que vocês são treinadas o suficiente – Mark disse, franzindo a testa. – Sim, nós estávamos perdendo dinheiro. Eu não diria que iríamos falir, mas se as coisas não mudassem logo, eu teria que considerar um pedido de falência.
- Para onde todo esse dinheiro estava indo?
- Não sei como responder essas perguntas sem chatear vocês.
São só investimentos. Se vocês quiserem, eu tenho relatórios no escritório com detalhes disso para vocês.
- Acho que não será necessário já, mas eventualmente podemos precisar.
Mark pareceu aliviado com aquilo, mas claramente era difícil para ele falar sobre aquele assunto.
- Algum dinheiro foi investido em um clube que um amigo meu estava abrindo em Nova York. Ele acabou devendo para outras
pessoas e quebrou. Eu nunca recebi meu dinheiro de volta e não sei nem onde ele está agora. Outra parte eu gastei com meu vício em aposta, do qual Jessie nunca ficou sabendo. Eu ganhei uma boa grana numa corrida ano passado e acabei ficando louco.
- Algo mais? – Chloe perguntou. Ela podia sentir quando alguém estava escondendo algo, e mesmo sabendo que era difícil para Mark compartilhar aquelas informações, parecia que ele tinha algo a mais para dizer.
- Não consigo... é muito difícil – ele disse, basicamente confirmando o pensamento de Chloe.
- São informações privadas, senhor Fairchild. Se for algo que não tem nenhuma relação com a morte de sua mulher, isso não sairá dessa sala.
- É que... bem, não é algo do qual eu me orgulho. Teve... um dia, dois anos atrás, quando eu viajei para outro continente. Fui para Tóquio por três semanas. Acabei bebendo demais uma noite e fui para casa acompanhado. Com uma companhia bem cara... E eu...
odeio dizer isso, mas acabei ficando com ela. Contratei ela mais
duas vezes no ano seguinte—paguei os voos dela nas duas vezes.
E depois ela se mudou para Nova York no ano passado e me perguntou se eu estaria interessado em sair com ela e com uma amiga ao mesmo tempo. Óbvio que o preço era maior...
- De quanto dinheiro estamos falando? – Chloe perguntou, totalmente ciente, no momento em que as palavras saíram de sua boca, de que aquilo não era de sua conta.
- Eu preferiria não dizer – Mark respondeu, olhando rapidamente para os papeis à sua frente. – É algo deplorável... Vergonhoso.
- Vou fazer uma pergunta idiota – Rhodes disse. – Mas sua mulher chegou a ficar sabendo disso?
- Não.
Ao responder, ele abaixou a cabeça e soluçou.
Chloe e Rhodes olharam-se. Havia culpa naquele olhar, mas também uma descoberta não dita: Mark Fairchild era totalmente capaz de manter segredos.
E se ele tinha conseguido manter aqueles segredos de sua esposa, que outros mistérios ele seria capaz de esconder?
***
Mark Fairchild deixou a delegacia quinze minutos depois,
deixando claro para Chloe e Rhodes que não estava chateado com elas. Aqueles eram pecados dele próprio, ele havia dito, e ele
precisava lidar com aquilo de uma maneira diferente agora que Jessie já não estava a seu lado. Mark deixou as agentes sozinhas na sala de reuniões mais uma vez, com novas perguntas rondando a cabeça das duas.
- O que você acha? – Rhodes perguntou. Era uma pergunta simples, mas também muito pesada, cheia de possibilidades.
- Acho que ele está confuso com as prostitutas—acho que admitir doeu mais do que ele pensava. Mas eu também sei que um homem que mente sobre uma coisa é muito mais propenso a mentir sobre outras. E você?
- Acho que precisamos investigá-lo mais a fundo. Ele perdeu dinheiro com essas decisões estúpidas e precisava de mais dinheiro. Matando a esposa, acho que ele eliminaria gastos
desnecessários e também ganharia um dinheiro considerável com o seguro de vida.
- Foi o que eu pensei a princípio, também. Mas o álibi dele é muito forte. Cinco pessoas confirmaram o paradeiro dele naquela manhã.
- Eu sei. Mas você pode estar esquecendo que esse cara é rico.
Se ele pode gastar muito dinheiro com prostituas estrangeiras, ele pode muito bem contratar alguém para matar a esposa.
- É algo perigoso de assumir sem nenhuma evidência.
- Concordo – Rhodes disse. Houve um tom de defesa na voz da agente, que caminhou em volta da mesa para alcançar as
impressões. – Mas temos muitas transações grandes nesse relatório que não sabemos para onde foram. Acho que se investigarmos a fundo, podemos encontrar algumas respostas.
Chloe pensou naquilo por um instante, mas depois balançou a cabeça. Simplesmente, não parecia certo para ela.
- Se ele de fato pagou alguém para matar a esposa—o que eu acho improvável—nós não vamos achar essa transação nos
relatórios dele. Ninguém seria tão idiota... especialmente alguém tão preocupado com as finanças.
- Sim, mas se alguma dessas transações foram simplesmente saques... não tem como saber o que ele pode ter feito com esse dinheiro.
- Exatamente. Ele admitiu que tem problemas com apostas e que não é nada incomum para ele contratar prostitutas. Então imaginar que algum desses saques foi usado para pagar alguém para matar a esposa dele é querer atirar muito longe.
Rhodes franziu a testa antes de responder.
- Eu vou dizer isso com todo respeito – ela falou, - mas para mim é estranho que você não esteja ao menos considerando essa
hipótese. Nós não temos muitas respostas até agora.
- É verdade. Mas eu não quero acusar um homem que acabou de perder a esposa da morte dela sem ter motivos suficientes.
- Eu acabei de te dar os motivos, Chloe.
- E na minha opinião esses motivos não são suficientes para que nós possamos investigar Mark Fairchild abertamente.
Algo um pouco mais sinistro do que uma franzida de testa tomou conta do rosto de Rhodes naquele momento. Ela balançou a
cabeça, indignada, e levantou-se, sem fazer questão de esconder que estava chateada ao sair da sala.
Chloe ficou em silêncio por um instante e encostou-se em sua cadeira, tentando entender porque estava se opondo tanto a uma investigação sobre o pobre Mark Fairchild. Ela sabia muito bem que havia algumas coisas erradas com ele, mas em sua opinião, não o suficiente para apontá-lo como suspeito.
Era mais do que intuição. Era algo que ela não podia entender—
algo que com certeza estava diretamente ligado a sua vida pessoal.
Chloe percebeu que Mark Fairchild estava praticamente na mesma situação em que seu pai estivera quase vinte anos antes: com a esposa recém assassinada, e com as autoridades começando a vê-lo como suspeito.
Talvez seja por isso que eu estou insistindo tanto na inocência de Mark, ela pensou. Talvez seja algo pessoal para mim.
Outro pensamento veio em seguida, dessa vez na voz de Danielle.
Sim, ela disse. E você estava errada desde o começo...
Ao pensar naquilo, Chloe ouviu uma batida na porta. Nolan
colocou a cabeça para dentro da sala. O olhar no rosto dele deixou claro que ele não estava trazendo boas notícias.
- Novidades? – Chloe perguntou.
- Sim, mas elas eliminam suas pistas. Os agentes que checaram as imagens de segurança de Evelyn Marshall descobriram que ela estava dizendo a verdade. Ela não saiu de casa na manhã em que Jessie Fairchild foi morta. Só saiu para dar água para as plantas cerca de nove e meia. Além disso... o cabelo... acabamos de
receber uma ligação dos peritos. Não é da Evelyn. Na verdade, eles têm quase certeza de que é de um homem. Precisam fazer mais testes para ter certeza, mas parece que é isso mesmo.
- Evelyn já foi liberada, então?
- Sim. E saiu gritando que vai nos processar.
- Duvido que ela faça isso. Ela é do tipo que ladra e não morde.
Envolver-se em qualquer processo seria ruim para a reputação dela.
- Eu pensei o mesmo.
- Obrigado pela atualização.
- Claro. Ei... está tudo bem? Eu vi a Rhodes no corredor uns minutos atrás e ela parecia estar com muita raiva de algo.
Sim, Chloe pensou. E a culpa é minha. No entanto, respondeu outra coisa:
- Ela está bem. Mas sem pistas, sem ter para onde ir... isso está nos irritando.
Nolan assentiu, entendendo.
- Me diga o que eu posso fazer para ajudar – ele respondeu, antes de sair sala.
Chloe levantou-se e também saiu. Ela não tinha um destino certo, mas precisava sentir que estava se movendo, como se estivesse progredindo de alguma maneira. A cada segundo, começou a sentir que estava errada sobre Rhodes. Obviamente elas precisavam investigar Mark mais a fundo. O segredo estava em deixar seus próprios demônios de lado e focar naqueles que interessavam naquele momento.