Danielle fora sincera em cada palavra que havia dito a Chloe no dia anterior. Ela se arrependera profundamente de invadir o
apartamento de Chloe e estava envergonhada por ter jogado tão baixo para roubar o diário de sua irmã. Em sua ida ao apartamento, houve um momento em que ela quase deixara o diário na mesa de centro. Teria sido o ato mais responsável. Mas por fim, ela havia o segurado, e Chloe não tinha lhe pedido de volta.
Por isso o diário ainda estava com Danielle, entre suas pernas, enquanto ela estava sentada ao volante de seu carro. Estava escuro, e apenas as luzes das casas iluminavam o céu.
Ela olhou para uma das casas em particular. Uma luz fraca podia ser vista pela janela. Perto dali, um poste na rua iluminava quase toda a entrada da casa.
Os degraus que levavam à nova casa de seu pai lembraram Danielle do lugar onde ela e Chloe ficaram sentadas quando a polícia chegou à sua antiga casa, muitos anos antes, para retirar o corpo de sua mãe morta. Sorrindo ironicamente, Danielle pegou o diário de sua mãe e saiu do carro. Caminhou em direção a casa de seu pai, sentindo-se surpreendentemente calma.
Fazia apenas uma hora que ela havia decidido fazer aquilo.
Parecia simples, tão simples que ela não sabia porque não havia feito ainda. Mas ao ter aquela ideia, Danielle havia se lembrado de algo—de tempos obscuros, ou talvez de algo que ela estava
esquecendo.
Destemida, ela havia entrado no carro com o diário e agora
estava ali—subindo os degraus da casa de seu pai vagarosamente.
Chegou a sentir-se desconfortável por estar tão calma. Esperava estar se sentindo com medo, nervosa ou... algo assim. Mas não. No máximo, havia uma sensação de por que eu não fiz isso antes?
Aproximou-se da porta e bateu sem pensar muito. Deu um passo atrás e esperou. Sentiu, enfim, uma ponta de nervosismo enquanto esperava que a porta fosse aberta. Quando ela finalmente se abriu e Danielle viu seu pai a sua frente, não ficou mexida como esperava ficar.
Aiden Fine, por sua vez, parecia abalado. Seus olhos se
arregalaram por um instante e Danielle pensou que ele bateria a porta na cara dela. Depois do primeiro instante, no entanto, ele tentou sorrir e deu um passo atrás.
- Danielle... ei, querida.
- Oi, pai – ela disse. – Você... é... você tem um minuto?
- Claro – ele disse. Mas seu tom indicava que ele não estava certo sobre aquilo. Mesmo assim, deu um passo atrás e permitiu que ela entrasse. – Está tudo bem? – ele perguntou, ao ver Danielle passar e fechar a porta.
- Não. Não está nada bem.
- Posso ajudar de alguma forma? – ele perguntou.
Danielle não respondeu imediatamente, deixando que seu pai lhe levasse pela casa. Ele optou pela cozinha, que era o primeiro
cômodo depois da pequena entrada. Aiden encostou-se no balcão, claramente nervoso ao ver Danielle entrar. Ele abriu a boca para dizer algo, mas então viu o que sua filha tinha em mãos.
- Onde você conseguiu isso? – perguntou. Seu tom de voz não era acusativo, mas sim de alguém que estava com medo.
- Você não iria querer saber – Danielle respondeu. – Você já leu?
- Algumas partes – Aiden disse. Ele estava começando a se acalmar. Danielle poder percebê-lo pensando, tentando decidir o que deveria dizer.
Danielle moveu-se levemente para a esquerda. Ela deu mais um passo para dentro da cozinha, ficando em frente ao forno. Achou estranho que ele tivesse pimenta, sal, uma chaleira e alguns outros utensílios ao lado do forno. Quem ele achava que era? Uma pessoa normal?
- Você quer tentar se explicar? – ela perguntou. – Não que você precise. Eu sempre soube que você era um merda abusivo. Mas o adultério foi uma novidade—uma novidade que eu e Chloe
descobrimos recentemente.
- Sua mãe era dramática – ele disse. – Eu sei que ela escreveu sobre como ela tinha medo que eu a matasse. Como eu—
- Eu não sou a Chloe, pai. Eu nunca usei vendas, então você pode parar com essas besteiras. Eu só quero ouvir você dizer.
- Dizer o que?
- Você sabe o que eu quero ouvir. Eu quero que você me diga a verdade..
Com isso, Danielle jogou o diário no balcão. Seu pai olhou para ele como se fosse uma bomba. Devagar, no entanto, ele foi até o livro.
- Quer se lembrar do que está aí? – Danielle perguntou.
- Danielle, você precisa me dar uma chance de—
- Não, não preciso.
- Nada do que está aqui é o que parece. Você precisa acreditar em mim.
Danielle não disse nada. Devagar, ela afastou-se do balcão, muito ciente do espaço atrás de si—do forno e de todas as coisas ao lado dele. Ela viu seu pai pegar o diário e, então, se moveu.
Ela foi rápida. Colocou a mão para trás, pegou a chaleira e a puxou com força. Quando seu pai percebeu o que estava
acontecendo, já era tarde. Danielle não soube o que mais lhe divertiu: o olhar dele, sabendo que a dor estava por vir, ou o susto evidente em seus olhos.
A chaleira o acertou no lado da cabeça e fez um som que pareceu ter saído de um desenho. Aiden cambaleou para trás e, antes que ele pudesse fazer qualquer coisa, Danielle o acertou com a chaleira novamente. Dessa vez, o som que o objeto fez ao acertar o rosto dele não pareceu nada com um desenho animado. Houve o barulho de algo quebrando contra a chaleira.
O golpe fez com que Aiden caísse de joelhos. Ele tentou se
equilibrar, mas então caiu, com os olhos demonstrando tontura. Ele tentou segurar a perna de Danielle para poder se levantar e soltou um gemido de dor.
Danielle o olhou nos olhos. Ela sorriu e então levantou a chaleira novamente. Dessa vez, acertou-a com força na nuca dele. O som do golpe dessa vez fez parecer que ela tinha um instrumento de
percussão em suas mãos.
Aiden soltou a perna de Danielle e caiu de rosto no chão da
cozinha. Danielle, então, jogou a chaleira pela cozinha, em direção à sala.
Ela abaixou-se para checar o pulso de Aiden e, ao ter certeza de que ele ainda estava vivo e respirando, rapidamente vasculhou a
casa. Levou cerca de cinco minutos para encontrar o que precisava.
Guardada nos fundos do closet, encontrou uma colcha grande, ainda envolta em plástico, provavelmente nunca usada.
Aparentemente, ele havia comprado aquilo em alguma promoção, à espera do frio para usá-la. Danielle carregou-a até a cozinha e a abriu. Depois, enrolou seu pai nela. Ao fazer isso, ouviu Aiden murmurar algo que a fez perceber que talvez ele não estivesse tão nocauteado quanto ela achava. Fez o possível para rapidamente enrolar a colcha sobre ele, percebendo o quão estúpida era aquela ideia. Mas como era sua única ideia, ela seguiu.
Danielle encontrou fita adesiva em uma gaveta na cozinha.
Quando começou a enrolá-la em volta da colcha, fazendo o possível para cobrir a maior parte do corpo dele possível, ele murmurou
novamente. Ela usou a chaleira mais um vez, acertando-o na nuca.
Por um instante, temeu que o golpe tivesse lhe matado, mas tranquilizou-se quando percebeu o coração dele batendo sob a colcha.
Ela terminou de enrolar a fita e viu quão óbvia era a forma
daquela colcha. Por sorte, era noite lá fora. E seu carro estava bem perto da porta.
Danielle caminhou até a porta e a abriu. Havia apenas uma pessoa na calçada de concreto em frente às casas—uma mulher passeando com seu cachorro. Danielle esperou até que a mulher desaparecesse. Pegou as chaves de seu bolso e abriu o porta-malas. Então, começou a empurrar a colcha pelo chão. Por sorte, a colcha tornou mais fácil a tarefa de empurrar o corpo.
Na porta, precisou esperar que um casal passasse pelo estacionamento e entrasse em seu carro. Quando eles saíram, Danielle foi rápida. Ela empurrou o corpo enrolado pela varanda.
Tomou cuidado para não bater a cabeça de seu pai nos degraus e chegou à calçada.
Houve um momento em que ela achou que seria flagrada—
quando um homem saiu de sua casa e cruzou a rua. Ele virou-se para a direita imediatamente, de costas para ela, e seguiu até seu carro. O carro dele estava a menos de quarenta metros de onde Danielle estava segurando o corpo de seu pai, mas a escuridão e os
outros carros não permitiram que o homem a visse. Além disso, o homem parecia estar com muita pressa.
Mesmo assim, Danielle esperou ele sair para voltar a se mover.
Com o coração batendo mais forte, moveu-se mais rapidamente. Se alguém a visse, ficaria claro que ela não estava fazendo algo legal.
Com toda sua força, puxou a colcha até seu porta-malas. O atrito da colcha com o chão fez com que a fita adesiva em volta das pernas começasse a se soltar.
Quando por fim conseguiu levar seu pai até o porta-malas, colocou o corpo sentado. Seus ombros já estavam doendo, mas encontrou forças para finalizar o trabalho. Mais uma vez, ao colocar seu braços em volta do peito dele, ouviu-o gemendo sob a colcha.
Isso não lhe deixou com medo. No máximo, a irritou. Danielle fez toda a força possível para enfim, colocá-lo no porta-malas. Ao
levantar as pernas dele, dobrando-as para que coubessem ali, um carro entrou no estacionamento, com as luzes apontando em sua direção. Ao invés de congelar, ela seguiu posicionando o corpo, como se estivesse apenas colocando uma colcha velha ali.
Aiden gemeu mais uma vez. Danielle desejou que ainda estivesse com a chaleira. Ela fechou o porta-malas assim que o carro que havia entrado no estacionamento parou, várias vagas depois. O motorista estava no celular, totalmente indiferente ao que Danielle estava fazendo.
Danielle sentou-se ao volante e saiu do estacionamento, sem saber ao certo para onde ir. Ela só sabia que tinha feito mais nos últimos dez minutos do que ela e Chloe juntas haviam feito desde que seu miserável pai tinha sido solto da cadeia.
Danielle lidaria com aquilo sozinha. Ela tinha certeza de que Chloe não aceitaria a maneira como ela havia decidido fazer as coisas, mas não se importava. Ela havia parado de se preocupar com muitas coisas na última semana, e ter pena de seu pai era uma delas. Aos poucos, o que sua irmã achava dela também estava entrando naquela lista.