Chloe encontrou Rhodes na sala de Nolan. Ela estava analisando várias impressões, checando cada uma detalhadamente. Chloe não ficou surpresa ao ver que aqueles eram os mesmos relatórios
financeiros que elas haviam analisado mais cedo. Rhodes tirou os olhos dos papeis, assentiu rapidamente, e voltou sua atenção para os relatórios.
- Agente Rhodes, posso falar com você um segundo? – Chloe perguntou, tentando parecer o mais profissional possível em frente a Nolan.
Antes que Rhodes pudesse responder, Nolan levantou-se de sua cadeira e largou a pasta que estava segurando.
- Usem a sala – ele disse. – Preciso mesmo pegar um café.
Nolan levantou-se e saiu da sala. Rhodes largou os papeis e olhou para Chloe, claramente sem saber o que esperar. Aquela era a primeira vez em que as duas tinham opiniões diferentes desde que Chloe havia salvado a vida de Rhodes no primeiro caso das duas juntas. Havia, então, um sentimento estranho entre elas.
- Não vou a fundo nisso – Chloe disse, - mas você está certa.
Nós temos que investigar Mark Fairchild. Tem... bem, tem coisas acontecendo na minha vida pessoal que estavam atrapalhando meus pensamentos. Eu odeio admitir isso... mas me desculpe. Eu acho que você está certa. Mark Fairchild tem mesmo que ser considerado suspeito, e um suspeito e tanto.
- O que fez você pensar nisso?
- O fato de que ele sabia que eles estavam perdendo dinheiro e deixou a mulher continuar gastando horrores, enquanto também planejava se aposentar em poucos anos. Essa conta não fecha. Me faz pensar que ele andava planejando uma saída.
- Sim, eu continuo pensando nessa teoria, também – Rhodes disse.
Simples assim, a tensão entre as duas desapareceu. Houve um breve silêncio até que Chloe olhou para a pilha de papeis.
- Não temos uma cópia do seguro de vida de Jessie, temos?
Rhodes sorriu e balançou a cabeça.
- Não. Ainda não. Eu telefonei logo que saí da sala pedindo uma cópia.
- Nós sabemos pelo menos de quanto era o seguro? – Chloe perguntou.
- Nolan disse que na primeira conversa dele com Mark, eles falaram sobre isso. Mark pareceu não saber ao certo o total, mas era algo em torno de dois milhões.
- Isso é loucura. Fico imaginando se é normal entre os ricos.
- Escolha qualquer um nesse bairro e pergunte – Rhodes comentou. – Mas enfim, eu e Nolan pedimos que alguns agentes voltassem à casa dos Fairchild para analisar o lugar de novo.
Também estamos atrás dos registros de chamadas telefônicas. Mark já ofereceu as contas dele, que têm uma lista das chamadas que ele fez, mas queremos ir mais longe.
- É isso que me confunde – Chloe disse.
- O que?
- O fato de Mark Fairchild estar sendo tão aberto e transparente.
Ele está nos permitindo entrar na casa, está dando as informações por conta própria. Ou ele é muito bom em esconder as coisas, ou é inocente.
- Ele escondeu da esposa que estava gastando com prostituas caras – Rhodes pontuou. – E um problema sério com apostas também.
- Faz sentido.
As duas agentes voltaram a ficar em silêncio, dessa vez com ambas refletindo em direções diferentes. Chloe sabia que se
pudesse entrar na mente do assassino, poderia determinar se Mark Fairchild seria capaz de matar. Ela fez o possível para retirar a
inveja daquela conta... porque no fundo, não achava que nenhuma das mulheres no bairro dos Fairchild seria capaz de matar. Havia muito a perder: reputação, uma vida boa, toda a fachada de vida perfeita. Mesmo alguém como Evelyn Marshall, tão má quanto parecia, preferiria a riqueza e status ao invés da vingança.
Com a inveja fora da equação, Chloe pode pensar em coisas mais primitivas—nas necessidades e desejos mais básicos. Uma mulher, nova no bairro, poderia ser alvo de vários diferentes tipos de homens (e mulheres também).
- As mulheres no bairro tinham tudo a perder – Chloe disse em voz alta. – Matar alguém... elas perderiam tudo se fossem
descobertas. Elas teriam tudo a perder ao cometer um assassinato.
Mas Mark...
- Mark tem algo a ganhar – Rhodes finalizou. – Esse seguro de vida gigantesco. E sabe, Nolan disse que repórteres já começaram a bater na porta do Mark. É uma merda isso, repórteres são urubus em cima da carniça, mas se ele estiver mesmo escondendo algo, ele vai conversar com tanta gente agora que vai acabar entregando algo.
Nolan apareceu na porta, como se tivesse ouvido seu nome sendo citado. Ele deu um gole em sua xícara de café e assentiu.
- Os repórteres estão ligando para cá também. Querem detalhes, como se nós pudéssemos dizer algo.
- Precisamos dos detalhes da apólice do seguro de vida – Chloe disse. – Quanto tempo até conseguirmos uma cópia?
- Deve estar chegando já. Mas, sabe, eu estava pensando na outra sala agora. Ver a apólice em si não vai importar tanto. O que vocês precisam fazer mesmo é falar com o corretor do seguro dos Fairchild e descobrir se a apólice foi alterada recentemente.
- Nolan, você é um gênio – Rhodes disse.
- Eu faço o possível.
- O nome da empresa e do corretor estavam nos relatórios do caso, certo? – Chloe disse, já procurando. – Estão aqui.
Ela entregou a folha a Rhodes, voltando a se desculpar
silenciosamente, fazendo sua parceira perceber, sem palavras, que ela merecia o crédito por insistir naquela linha de pensamento. Era uma sensação de humildade que, na verdade, Chloe não se
importava em voltar a sentir. Rhodes pegou o papel, apontou para o número e colocou o telefone fixo da sala de Nolan no viva-voz. Ela discou o número e os três ficaram parados, como estátuas,
escutando o telefone tocar.
A chamada foi atendida ao primeiro toque por uma mulher com uma voz jovem.
- Seguros Ideal State – ela disse. – Tammy falando.
- Tammy, aqui é a agente Nikki Rhodes do FBI. Preciso falar com Brian Everson, por favor.
- Desculpe, mas o senhor Everson está com um cliente. Posso pedir para ele retornar a ligação?
- Não, Tammy, não pode. De novo... aqui é o FBI. Preciso falar com Brian Everson sobre a apólice de um seguro de vida, e é muito urgente. Preciso falar com ele agora, por favor.
- Claro – Tammy disse, claramente assustada com o tom forte, porém respeitoso, que Rhodes acabara de utilizar.
Houve um barulho na linha, e a chamada foi colocada em espera.
- Esse tal de Everson é um dos corretores mais populares por aqui – Nolan disse. – Ele parece ser um cara bom mesmo. Não acho que ele vai ter problemas em passar as informações que precisamos.
Menos de um minuto se passou até que a chamada fosse
retomada. A voz do outro lado da linha era agora de um homem, e parecia um pouco preocupada.
- Aqui é Brian Everson... posso ajudar?
- Senhor Everson, meu nome é Nikki Rhodes, e eu sou agente do FBI. Estamos em Falls Church para investigar o assassinato de uma de suas clientes, Jessie Fairchild. Nós já pedimos uma cópia da apólice do seguro de vida dela, mas estamos com um pouco de pressa. Você pode acessar o arquivo agora, enquanto conversa conosco?
- Passar esse tipo de informação pelo telefone é incomum – Everson disse. – Como eu vou saber que você é uma agente mesmo? Você sabe quanta fofoca e burburinho está rolando por causa desse crime?
Rhodes olhou para o telefone, irritada.
- Pegue um pedaço de papel, senhor Everson. Vou lhe passar o número do meu distintivo e o telefone direto do meu supervisor. Se você precisar ligar para ele, vá em frente.
- Só para que eu possa me proteger, me passe os números, pode ser?
Rhodes, claramente irritada, ditou a Everson o número de seus distintivo e o telefone do escritório de Johnson—que viu em seu próprio telefone.
- Tudo bem, então, o que exatamente vocês precisam? – Everson perguntou.
- Só precisamos saber se a apólice foi alterada de alguma maneira no último ano.
O som de alguém digitando algo em um computador foi ouvido por alguns instantes, até que Everson finalmente respondeu.
- Então, eles acabaram de se mudar para a cidade, então o que eu estou vendo são informações do corretor antigo deles—também da Ideal State. Posso ver que a apólice tem cerca de quinze anos. E pelo que eu vejo aqui, nada foi mudado recentemente. Houve um aumento na cobertura há seis anos, mas nada mais.
- E você poderia nos dizer se é comum apólices de seguro de vida serem tão altas nessas famílias mais ricas?
- Não diria que é comum, mas acontece.
- Você pode nos dizer quanto seria o pagamento dessa apólice, particularmente?
- Um pouco mais de três milhões.
Chloe, Rhodes e Nolan olharam-se, incrédulos.
- Mas você tem certeza de que não houve mudanças recentes? – Rhodes perguntou. – Nada que pudesse tornar a apólice um pouco mais...
- Vantajosa? – Everson perguntou. A voz dele estava baixa, como se ele estivesse contando um segredo sombrio.
- É uma boa definição.
- Não. Na verdade eu olhei a apólice ontem. O senhor Fairchild veio aqui e quando eu tentei explicar alguns procedimentos padrões, ele balançou a cabeça e saiu.
- Bravo? – Rhodes perguntou.
- Não. Ele estava fazendo o possível para não chorar na minha frente.
Rhodes hesitou por um momento e então encolheu os ombros.
- Obrigada pela ajuda, senhor Everson.
Ela finalizou a ligação e então voltou a olhar para a pilha de
papeis na mesa de Nolan. A sala ficou em silêncio por um instante—
tanto que Chloe pode praticamente ouvir uma potencial pista se destruindo.
- Ok, talvez não tenha sido ele – Rhodes disse. – Eu tinha tanta certeza de que tinha algo estranho acontecendo.
- Lembre-se de que ele tem todas aquelas outras contas em
bancos também – Chloe pontuou. – Ele pode estar escondendo algo nelas.
- Mas nós já investigamos isso – Nolan disse. – Jessie não era diretamente ligada a nenhuma dessas contas.
- Mesmo assim, ainda existe a possibilidade dele ter—
Chloe foi interrompida por uma batida na porta. A cabeça do Comandante Clifton apareceu na sala de Nolan. Ele parecia furioso, com os olhos apertados e as bochechas vermelhas.
- Nolan... Mark Fairchild disse algo para você sobre essa merda de coletiva de imprensa?
- Coletiva de imprensa? – Nolan perguntou, como se jamais tivesse ouvido aquelas palavras antes. – Quê?
- Bom, pelo jeito não.
- Que coletiva de imprensa? – Rhodes perguntou.
- Ele vai aparecer na TV, da casa dele, tem vários repórteres lá.
Acho que ele acabou decidindo que era melhor falar tarde do que nunca.
- Sem a presença da polícia? – Nolan perguntou.
- Idiota, eu sei – Clifton disse. – A TV está ligada aqui do lado.
Os quatro saíram da sala de Nolan, caminharam pelo corredor e juntaram-se a cinco outras pessoas em outra sala. A pequena tela ficava acima de uma mesa antiga, repleta de pastas e de um
notebook. Na tela, Mark Fairchild aparecia em pé, em sua varanda enorme, falando privadamente com outro homem. Ali perto, vários repórteres lutavam por uma boa posição. Não havia microfones ou um púlpito para Mark, apenas as pessoas em frente à varanda.
- Quem é esse com ele? – Chloe perguntou.
Nolan riu, olhando para a televisão.
- É Kenneth Holt, um advogado bem famoso.
- Como é que isso se tornou um circo midiático tão rápido? – Rhodes perguntou.
- Alguns repórteres já tinham nos ligado, como eu disse – Nolan respondeu. – Mas acho que muitos outros estavam tentando falar com o Mark. Mas ele nunca me disse nada disso.
Parece estranho, Chloe pensou. Ele está chamando atenção por algum motivo além de se sentir amado ou apoiado?
Eles assistiram às imagens por mais dois minutos, até que Mark e Kenneth Holt terminaram sua conversa em segredo. O grupo de repórteres e equipes da imprensa era pequeno, não mais do que três emissoras, se Chloe estivesse vendo bem. Por fim, Mark
caminhou até a beirada da varanda, onde começava a escada. Ele olhou para os repórteres com um sorriso falso e conformado.
- Serei breve – ele disse. – Só quero dizer algo para que os repórteres parem de me ligar e me caçar. Preciso de tempo para o luto, mas aparentemente nos dias de hoje isso não existe mais.
Não houve perguntas das pessoas da imprensa para quem ele estava falando. Chloe duvidou que eles estivessem de fato
escutando. Eles estavam muito focados em conseguir o melhor ângulo.
- Ainda não há pistas concretas na busca pelo assassino da minha mulher – Mark seguiu. – A polícia de Falls Church tem sido incrivelmente útil, trabalhando duro ao lado do FBI. Mas até agora, não temos respostas. Eu infelizmente também estou sabendo de que existem teorias por aí de que eu mesmo matei minha esposa, por conta do dinheiro do seguro de vida. Essa ideia me deixa triste e dolorido. Mas para acabar com essa teoria estúpida, eu vou doar cada centavo do dinheiro do seguro de vida para várias entidades de caridade das quais Jessica gostava muito.
Houve alguns murmurinhos entre os repórteres. Alguns tentaram fazer perguntas, mas Mark não respondeu a nenhuma. Ele disse as palavras seguintes em voz alta, e com um pouco de raiva.
- Por enquanto, essas serão minhas únicas palavras. Eu peço novamente para que a mídia me deixe em paz. Quaisquer distúrbios daqui para frente terão consequências legais, e eu não hesitarei em chamar a polícia. Obrigado.
Com isso, Mark virou-se de costas para as pessoas presentes e foi até a porta. Holt a abriu e os dois entraram. A mídia, obviamente, continuou na entrada da casa por algum tempo.
- Bom, foi um ato corajoso – Nolan disse.
- Foi – Chloe concordou. – E tenho certeza que ele acha que o que acabou de fazer vai facilitar as coisas, mas acho que ele vai se decepcionar.
- Como assim? – Nolan perguntou.
- Por cima, parece algo humilde e até nobre. Mas do ponto de vista investigativo, parece que ele está bem ansioso para se livrar desse dinheiro.
- Não sei se entendi – o Comandante Clifton disse.
- Também não entendi completamente ainda – Chloe disse. – Pelo menos por enquanto.
Ela olhou seu relógio e viu que já eram 5:15. Não tinha ideia de como o dia tinha passado tão rápido.
- Alguém já foi até o escritório dele? – ela perguntou.
- Tinha dois notebooks que ele nos entregou – Nolan disse. – Foi a única coisa que ele fez por vontade própria que pareceu
incomodá-lo um pouco. Mas eu imaginei que ele tivesse direito de se sentir assim, por conta de tudo o que ele passou.
- Temos ideia de que horas os escritórios dele fecham?
- De acordo com Mark, geralmente tem gente lá até por volta de meia-noite. Pessoas vão e vêm depois das seis, dependendo dos projetos e negócios que estão acontecendo.
- Os notebooks... ele te entregou ou eles foram confiscados?
- Ele entregou por conta própria. Me deu a chave do escritório também, sem problemas.
- Você ainda tem a chave?
- Na verdade, sim. Na loucura toda que aconteceu nos últimos dias, acho que ele nem lembrou de pedir de volta.
Para um leigo, Chloe imaginou que aquilo seria prova suficiente de que Mark Fairchild não tinha nada a esconder. Ou então ele era um gênio.
- Posso pegar a chave emprestada? – Chloe perguntou.
- Claro. Vou buscar para você.
Nolan voltou para sua sala, assim como Clifton, que também saiu pelo corredor. Chloe e Rhodes ficaram então sozinhas novamente, finalmente olhando na mesma direção.
- O que você está pensando? – Rhodes perguntou. – Talvez ele esteja escondendo algo no escritório?
- Acho que vale a pena investigar. Ele está entregando informações muito facilmente, e agora fez uma declaração em
público dizendo que vai doar todo o dinheiro do seguro de vida. Uma
coisa é ser bonzinho, outra é fazer o que lhe convém. E estou com uma sensação estranha disso tudo...
- E além disso Nolan disse que Fairchild ficou estranho quando entregou os notebooks da empresa.
Antes que Chloe pudesse comentar, Nolan voltou à sala. Ele entregou uma chave a Chloe. Ela a colocou no bolso, agradeceu, e seguiu para a porta.
Talvez fosse por ter sentido que tinha sido enganada pela
cortesia e luto de Mark Fairchild—ou talvez porque aquele bendito caso parecia não ter para onde ir. Mas por algum motivo, ao sair com Rhodes pela porta, Chloe sentiu-se absurdamente motivada por suas intuições. No entanto, era mais do que uma motivação apenas para finalizar aquele caso. Ela estava determinada a expor segredos... a iluminar e destruir completamente a escuridão.