Quando Chloe chegou em seu apartamento, às 11:17 daquela noite, parou na porta por um instante e observou a bagunça restante da invasão de Danielle. Ela tinha pretendido ligar para sua irmã
naquele dia, mas o caso havia começado a progredir e a feito
simplesmente esquecer de suas intenções. Pensou em ligar naquele momento, apesar do horário, mas decidiu esperar. Afinal de
contas... ela veria Danielle em breve. Chloe pretendia aceitar a oferta de sua irmã, que havia dito que queria limpar o apartamento.
Chloe caminhou pelo apartamento e nem sequer pensou em
fazer algo além de tomar um banho rápido e dormir. Ela não foi até a geladeira procurar algo para comer ou uma taça de vinho, nem
pensou em ligar a televisão. Começou a tirar a roupa antes mesmo de chegar ao quarto, e estava pronta para o banho antes de ligar o chuveiro.
Enquanto tomava banho, perguntou-se novamente como havia podido deixar suas emoções lhe atrapalharem com tanta facilidade naquele caso. Mais do que isso, se seus sentimentos por seu pai haviam mudado tão drasticamente, por que ela ainda havia sentido alguma simpatia por um homem como Mark Fairchild, mesmo
quando tudo apontava para que ele fosse culpado?
Talvez ela precisasse mesmo de outra sessão com a Dra.
Fischer. Se quisesse mesmo deixar o passado para trás, a terapia seria algo a ser fortemente considerado.
Ela saiu do banho, secou-se, e deitou-se perto da meia-noite.
Não demorou muito para pegar no sono, mas antes de dormir, seus pensamentos voltaram-se para uma parte menor do caso—algo que quase havia passado despercebido: o anel que fora usado de um jeito sinistro para cortar o pescoço de Jessie Fairchild.
Chloe não conseguia deixar de sentir que alguém queria passar uma mensagem com aquilo, mas não sabia que mensagem era essa.
Esse foi seu último pensamento antes que ela pegasse no sono.
***
Mais tarde, Chloe foi acordada não pelo alarme de seu celular, mas sim por uma ligação. Ela buscou o telefone no criado-mudo e olhou para o relógio. Estremeceu ao ver que eram apenas 4:48 da manhã. Pegou seu telefone, acendeu a lanterna, e viu o nome de Rhodes na tela.
- Rhodes. É cedo. Espero que você tenha novidades.
- Tenho. Kim Moxley cumpriu sua palavra e telefonou com novidades. E ei, são novidades e tanto.
- Onde você está?
- A caminho do seu apartamento. Precisa de quanto tempo para ficar pronta?
- Pouco. Me conte o que aconteceu.
Chloe colocou o telefone no viva-voz e saiu da cama, de repente sentindo-se totalmente acordada.
- Bom, o número desconhecido é de um cara que foi acusado de crimes financeiros há alguns anos, mas acabou sendo inocentado:
Mitchell Beck. Esse nome te diz algo?
- Não.
- Para mim também não. Enfim, Beck trabalhava para um desses lugares que negociam com fundos de cobertura. Alguns caras aqui da sede lembraram do caso antigo de Beck e compararam com o que temos sobre Mark Fairchild, e temos várias semelhanças. Então eles investigaram e, depois de algumas ligações e uma rápida visita de um agente nosso de Nova York, podemos agora confirmar que Mark estava lavando dinheiro da Collins Holdings em um fundo de cobertura no qual ele entrou há algum tempo. E Mitchell Beck era o centro de tudo.
- Isso é mais do que suficiente para uma prisão. – Chloe estava agora colocando suas calças. Ela só precisava ter certeza de que seu cabelo estava apresentável antes de sair pela porta.
- É sim... mas melhora. O nome Julio Alejos—que Moxley nos passou ontem—é de alguém muito próximo do nosso amigo
criminoso, Mitchell Beck. Ele está na lista de investigados em Nova York há três ou quatro anos, sob suspeita de ser o coração de um cartel enorme. O agente de Nova York e alguns caras da polícia de lá o visitaram há cerca de duas horas. Para salvar a si mesmo, ele
começou a soltar nomes. A maioria tem relação com o cartel de drogas, então ele ficou surpreso quando o agente mencionou o nome de Mark Fairchild. Ele confirmou que conversou com Mark Fairchild recentemente, mas não disse sobre o que. Por causa disso, ele está sob custódia agora.
- Tudo isso é muito ruim – Chloe disse ao guardar sua Glock na cintura. – Mas o que diabos tem a ver com a morte de Jessie?
- Ainda não está claro. Mas temos lavagem de dinheiro e
envolvimento com um homem que é muito suspeito de ser o centro de um cartel de drogas enorme. O assassinato de um cônjuge não parece tão absurdo nesse cenário.
- Não mesmo – Chloe concordou.
- Então... estou chegando no seu apartamento. Pronta para visitar Mark?
***
No caminho para Falls Church, elas já haviam telefonado para a polícia local pedindo reforços. Por isso, quando Chloe dirigiu o carro pelas ruas da vizinhança de Mark Fairchild, não ficou surpresa ao ver duas viaturas estacionadas ao fim da quadra de Mark. Eram 5:37 quando o carro parou na calçada dos Fairchild, pouco menos de cinquenta minutos depois da ligação de Rhodes que havia acordado Chloe.
Não havia luzes nem sirenes. Quando Chloe e Rhodes saíram do carro, o oficial Nolan as seguiu. Os três fizeram o máximo de
silêncio possível ao se juntarem em frente aos degraus que levavam à porta frontal—os mesmos degraus que Mark havia utilizado para dizer à mídia que planejava doar todo o dinheiro do seguro de vida de sua mulher. Os três olharam-se brevemente, para ter certeza de que todos estavam prontos. Chloe tomou a frente, com Rhodes logo atrás e Nolan no fim da fila.
Chloe bateu na porta. Um som alto, contrastando com a vizinhança silenciosa. Ela imaginou que em pouco tempo todas aquelas mulheres saradas estariam nas ruas para suas corridas matinais. Outros estariam passeando com seus cachorros. Mas
naquele momento, quando o sol começava a aparecer para mandar a escuridão embora, a vizinhança estava completamente em
silêncio.
Trinta segundas se passaram, não houve resposta, e Chloe bateu novamente. Dessa vez, poucos segundos após bater, uma luz
apareceu na casa. Ela mal pode ver a claridade pela janela, que ficava a muitos metros da porta. Poucos segundos depois, foi possível escutar passos se aproximando da porta.
- Quem está aí? – Mark Fairchild perguntou, do outro lado da porta.
- Agentes Fine e Rhodes – Chloe disse. – E oficial Nolan, também.
O som da porta destravando foi ouvido imediatamente. Mark não abriu apenas uma fresta, e sim escancarou a porta. Ele olhou para os agentes com uma esperança silenciada. Ainda estava
acordando, mas pareceu quase feliz ao vê-los.
- Vocês descobriram algo? – ele perguntou.
- Sim – Chloe respondeu. – Senhor Fairchild, podemos entrar?
Mark hesitou, mas assentiu. Deu um passo para o lado e permitiu que as duas agentes e o oficial Nolan entrassem em sua casa. Ele levou-os até a sala, onde Chloe viu evidências de que ele vinha dormindo no sofá. Havia um travesseiro e dois lençóis bagunçados ali, enquanto um celular descansava sob mesa de centro.
Mark percebeu Chloe olhando para o sofá e riu, nervoso.
- Não consegui voltar para o quarto ainda... não consigo pegar no sono lá.
Chloe ignorou o pedido de pena e foi direto ao ponto.
- Senhor Fairchild, nós encontramos seu celular descartável. Na última gaveta na mesa do seu escritório, naquele fundo falso.
O rosto de Mark ficou totalmente sem expressão. Ele olhou para os três, um após o outro, como se seu pescoço estivesse
programado para isso.
- Isso... isso é ilegal. Aquele celular é da empresa e—
- Por que esconder algo que é propriedade da empresa? – Rhodes perguntou.
- O pen drive escondido com o vídeo era propriedade da empresa também? – Chloe perguntou.
Mark recebeu aquelas palavras como se tivesse sido atingido por um tapa na cara. Seu rosto estava demonstrando uma montanha russa de emoções. Era um olhar que Chloe já tinha visto centenas de vezes antes—o olhar de um homem que estava vendo toda sua história inventada desabar... seu mundo inteiro se abrindo em seus pés. Ele abriu a boca como se quisesse dizer algo, mas nenhuma palavra foi dita.
- Julio Alejos já confirmou que lhe conhece e quem vem conversando com você – Chloe disse. – Só isso já seria ruim o
suficiente, mas essa noite, o FBI descobriu uma ligação entre Alejos e um homem chamado Mitchell Beck. Mas me parece que você já sabe dessa ligação, porque eles de alguma forma andaram lidando com sua lavagem de dinheiro, não é mesmo?
- Julio foi um erro – ele disse. – Eu sei disso agora. Eu sei...
merda. – Mark sentou-se no sofá. Suas mãos estavam tremendo e ele não tirou mais os olhos do chão.
- Como tudo isso está ligado à Jessie? – Rhodes perguntou.
Mark olhou para eles novamente, balançando a cabeça.
- Eu juro para vocês. Eu juro pela minha vida que eu não matei minha esposa.
- As descobertas que fizemos nas últimas horas não me deixam propensa a acreditar em você – Chloe disse.
- As pessoas me viram no trabalho. Eu tenho álibis. Não posso estar em dois lugares ao mesmo tempo!
- Então quem você contratou? – Chloe perguntou. – Foi Alejos?
Talvez algum dos homens dele?
- Não! Com todo respeito, você está doida se acha que eu matei minha esposa. O motivo pelo qual eu estava fazendo essa merda...
a lavagem de dinheiro e o contato com Julio Alejos... era para ter certeza de que nós ficaríamos bem. Eu perdi muito dinheiro, e
Jessie estava acostumada a gastar muito. Eu precisava garantir que nós ficaríamos bem. Eu queria o melhor para ela, então por que diabos eu a mataria?
Ele estava quase gritando quando chegou ao final da frase.
Lágrimas rolaram por seus olhos e agora, olhando para as agentes, ele se parecia mais com uma criança que tinha se metido em
encrencas com crianças más na escola e estava esperando que alguém lhe perdoasse.
- Na primeira vez que você falou com Beck na Collins Holding, você sabia que eles eram de fachada? Você sabia desde o início que a empresa era uma fachada para o cartel que Julio Alejos comanda?
- Sim.
- Como você soube disso? – Nolan perguntou.
- Não posso dizer. É muito perigoso. Não posso...
- Julio Alejos já está dando nome aos bois para salvar sua própria pele – Rhodes disse. – A última coisa que eu soube, uma hora
atrás, foi que quatro prisões já foram efetuadas. Pessoas assim...
não existe muita honestidade e lealdade no mundo delas.
- Tem muita gente envolvida – Mark disse. – Não posso arriscar.
- Não importa – Chloe disse. Ela pôs a mão na jaqueta e pegou suas algemas. Quando Mark as viu, apenas franziu a testa. Ele pareceu já estar esperando aquilo desde a primeira menção a Julio Alejos e Mitchell Beck.
- Não sei o que aconteceu – ele disse. – Não matei ela. Eu juro.
- Mesmo assim – Chloe disse. – Mark Fairchild, você está preso por lavagem de dinheiro, fraude em investimentos, possível
conspiração com seguro de vida e pela possibilidade de, no mínimo, ter sido cúmplice no assassinato da sua mulher.
Mark balançou a cabeça o tempo todo, mas levantou-se e esticou seus punhos. Ele não lutou ao ser algemado, nem ao ser levado para fora da casa. Ele só disse uma frase, ao oficial Nolan, quando passou pela entrada de sua casa, a caminho dos carros.
- Quero que você e a polícia inteira se fodam. Pretendo criar um inferno para vocês com essa história toda.