• Nenhum resultado encontrado

CAPÍTULO VINTE E DOIS

No documento v i z i n h o s i l e n c i o s o (páginas 128-132)

Chloe nunca fora a melhor quando se tratava de pedir ajuda.

Essa era uma tarefa difícil para ela desde criança, que havia piorado quando adolescente e se tornado uma marca sua na vida adulta.

Desde precisar de ajuda na faculdade até o primeiro pneu furado na estrada, Chloe sempre hesitara quando necessitava auxílio.

Por isso foi tão estranho estar sentada sozinha no carro do FBI que ela havia compartilhado com Rhodes nos últimos dias, pegar o celular e olhar para um número para o qual ela havia telefonado só uma vez. Chloe tivera tanta certeza que jamais ligaria para aquele número novamente que nem tinha se dado ao trabalho de salvá-lo em seus contatos.

Chloe havia conseguido o número da Dra. Fischer logo depois de ter entregado Ruthanne Carwile pela participação dela na morte de sua mãe. Ela não se lembrava com exatidão nem de quem havia lhe passado aquele contato—provavelmente Johnson—e, na verdade, nem se lembrava da médica há mais de dois meses.

A Doutora Robin Fischer era especialista em terapia

comportamental, mas também tinha ligação com o FBI, onde ajudava agentes que passavam por experiências traumáticas e tinham problemas em superá-las. As duas consultas que Chloe havia feito tinham sido forçadas e estranhas, mas por mais que ela odiasse admitir, haviam lhe ajudado a processar boa parte do luto e raiva não identificados que ela sentira desde a morte de sua mãe, aos dez anos de idade.

E agora ali estava ela, novamente, assombrada por seu passado

—por seu pai e por sua incapacidade de se afastar do homem que ele fora e dos crimes que ele cometera.

Perto dos trinta, era hora de encarar o fato de que ela não conseguiria lidar com aquilo sozinha. Respirando fundo, Chloe

telefonou para o número na tela. Seu coração pareceu se apertar ao ouvir os dois toques e então alguém atendendo a ligação do outro lado da linha.

- Consultório da Doutora Fischer – uma voz calma disse.

- Olá. Aqui é a Agente Chloe Fine, do FBI. Queria saber se a Doutora Fischer tem algum horário disponível hoje para uma

conversa rápida pelo telefone.

- Deixe-me ver – a voz amigável disse. Depois, o que se ouviu foi o barulho de vários cliques de um mouse. Chloe imaginou que ela estivesse olhando o calendário da médica.

- Não sei, na verdade – a recepcionista respondeu. – Ela só teria tempo no fim do dia. Poderia ser?

Chloe sentiu-se um pouco aliviada. Fischer retornaria a ligação ao fim do dia e, até lá, ela não sentiria mais a necessidade de falar com alguém. A bala seria desviada com sucesso.

- Claro, tudo bem.

- Tem certeza?

- Sim, obrigada – Chloe disse, desligando antes que a secretaria pudesse dizer algo a mais.

Ela olhou pelo retrovisor, enxergando a delegacia de Falls Church. Rhodes ainda estava lá, em algum lugar, provavelmente pensando que ela, Chloe, estava sendo teimosa demais. E na

verdade, Chloe percebeu que estava mesmo sendo teimosa demais.

Ela teria que se explicar e pedir desculpas. As duas coisas seriam tão difíceis quanto conversar com a Doutora Fischer.

Aparentemente, ela não tinha desviado de bala nenhuma.

Chloe colocou a mão na maçaneta da porta para voltar à

delegacia e procurar Rhodes, mas foi interrompida pelo toque de seu telefone. Quando viu o número para o qual havia acabado de telefonar, quase não atendeu.

Uou, eu não desviei da bala mesmo, pensou.

Relutante pela conversa que viria a seguir, atendeu.

- Agente Chloe Fine.

- Agente Fine, aqui é a Doutora Fischer. Me disseram que você ligou querendo um tempo para conversar. Eu tenho cerca de dez minutos agora. Pode ser? Claro, se você precisar de mais tempo, podemos marcar uma conversa aqui no meu consultório.

- Dez minutos está bem. Talvez nem precise de tanto.

- Bom, geralmente, eu não retorno ligações. Mas quando me disseram que foi você que telefonou, eu quis te procurar. Eu soube que seu pai foi solto, por fim. É sobre isso que você quer falar?

- De certa forma, sim. Ele se mudou para Washington, a menos de cinco quilômetros do meu apartamento. E eu recentemente

descobri algumas coisas sobre ele... sobre o passado dele. Não consigo tirar esse idiota da minha cabeça e temo que isso esteja começando a atrapalhar meu trabalho.

- De que forma? – Fischer perguntou.

- É difícil explicar. Inconscientemente eu estou usando meus sentimentos por ele em um caso no qual estou trabalhando.

- Bom, o fato de você saber disso significa que não é totalmente inconsciente. Acho que você sabe muito bem o que está passando, mas não está conseguindo encarar isso.

Foi um comentário duro, mas Chloe sabia que era verdade.

- Isso é normal?

- Depende do que você considera normal – Fischer disse.

- Eu nem sei como responder.

- Responda assim: você quer encarar isso tudo? No fundo do seu coração, você tem medo de encarar a ideia de se afastar do seu pai? Você disse que descobriu algumas coisas sobre ele

recentemente, então imagino que sejam coisas ruins. Esses fatos têm o mesmo peso de todos os anos que você passou gostando dele e tentando defendê-lo?

- De cara, não – Chloe respondeu, sem se dar conta da verdade até que as palavras saíssem de sua boca. Ela quase revelou

algumas das coisas que havia descoberto—sobre o diário de sua mãe e os segredos contidos nele. Mas por fim, não disse nada, sem querer envolver a psicóloga no que poderia vir a ser uma bomba.

Por fim, resolveu simplificar, dizendo: - Mas acho que agora sim.

- Então podemos dizer que tem uma espécie de guerra

acontecendo entre a sua mente e o seu coração. Você concorda?

Meio brega, Chloe pensou, mas ela concordava.

- Acho que sim – respondeu.

- Bom, a boa notícia é que você é quem vai decidir que lado vai vencer.

- Só que eu achei que fosse mais fácil decidir.

- Infelizmente, nunca é fácil quando se trata de família.

Especialmente na sua situação. Veja, eu odeio fazer isso, mas eu tenho uma consulta em três minutos. Você quer que eu marque um horário na semana que vem para que você venha até aqui?

- Obrigada, mas acho que não.

- Vou reservar um horário para você na segunda – Fischer disse.

– Marquei aqui. Se você não vier, sem problemas. Pode ser?

- Tudo bem – Chloe disse, mesmo pensando que a ideia de sentar em um consultório lhe assustava muito.

- Se cuide, Agente Fine. E não hesite em me ligar se você precisar de algo.

A ligação foi encerrada e, dessa vez, Chloe pode sair do carro sem interrupções. Ao fazer isso, sentiu-se um pouco mais tranquila graças a um único comentário que a Doutora Fischer havia feito: A boa notícia é que você é quem vai decidir que lado vai vencer.

Ela voltou ao prédio, completamente ciente de que precisava encontrar Rhodes e dizer que sua parceira estava completamente certa—que elas precisavam investigar Mark Fairchild mais a fundo.

Ao se aproximar da porta, Chloe começou a entender uma série de circunstâncias estranhas que ela tinha ou deixado passar, ou feito vista grossa de propósito.

Mark havia admitido que sim, devagar, eles estavam ficando sem dinheiro. Ele tinha total ciência disso. Mesmo assim, ao mesmo tempo, ele estava planejando se aposentar em poucos anos. Como ele poderia planejar tanto a não ser que soubesse que algo poderia mudar?

A obviedade era quase chocante.

E isso fez com que Chloe apertasse o passo em direção à porta, ansiosa para dizer a Rhodes que sua parceira estava certa o tempo todo.

No documento v i z i n h o s i l e n c i o s o (páginas 128-132)