O diretor Johnson parecia ter acabado de correr uma maratona quando Chloe e Rhodes chegaram ao escritório dele, às 11:45 daquela manhã. Ele parecia cansado, mas muito animado, especialmente quando sentou-se atrás de sua mesa, poucos momentos depois de Chloe e Rhodes também se sentarem. Ele ajeitou-se em sua cadeira e depois inclinou-se para frente,
mostrando um sorriso cansado.
- Isso está indo mais rápido do que esperávamos – ele disse. – Primeiro, bom trabalho em começar tudo isso. Eu sei que pode ter sido uma descoberta acidental, mas essa pequena descoberta nos deu o suficiente para finalmente prender Julio Alejos.
- Qual a situação agora?
- A última novidade—que já pode ter fica velha, porque tudo está indo muito rápido—é que Julio Alejos com certeza vinha falando com Mark Fairchild. Ainda não sabemos porque. Também sabemos que Mitchell Beck vinha falando com Fairchild, mas não temos
evidências suficientes. Tem muitas pontas soltas ainda e eu sinceramente não sei se nós teremos o suficiente para derrubar Beck. Já tentamos outras vezes, mas esse cara é quase um mágico quando se trata de advogados e de encontrar brechas na lei.
- Nós queremos ajudar no que for possível – Chloe disse. – Mas no fundo, ainda estou atrás do assassino de Jessie Fairchild.
- Eu entendo – Johnson disse. – Essa é uma das camadas dessa história toda. Eu já falei com a equipe que foi responsável por
apreender Alejos e trazê-lo até aqui. Vocês duas têm preferência para falar com ele quando ele chegar aqui. Por mais duro que
pareça, a morte de Jessie Fairchild é o menos importante entre tudo que podemos fazer sobre Alejos e esse cartel.
- Então, o que nós podemos fazer agora? – Rhodes perguntou. – Não podemos ficar sentadas esperando.
- E vocês não vão ficar – Johnson disse. Ele entregou um papel para elas. – Aqui estão os registros de chamadas do telefone
descartável que encontramos na casa de Alejos. Foi desativado há três dias. Havia outro, mas ele destruiu antes de ser pego.
Rhodes pegou o papel e olhou-o junto com Chloe. Havia cerca de trinta chamadas ao todo, a maioria feitas para o mesmo número.
- Esses números já foram checados? – Chloe perguntou.
- Não. Recebemos essa lista há cerca de meia hora e eu quero vocês duas nisso. Já sabemos que um dos números aí é uma linha direta para o escritório de Mark Fairchild.
- Verei isso agora mesmo – Rhodes disse. – Trabalhamos com uma mulher chamada Kim Moxley para investigar os números que encontramos no escritório do Mark. Podemos usá-la como fonte?
- Por favor. Está todo mundo muito animado por aqui. Usem o que e quem vocês precisarem. Se nós conseguirmos derrubar esse cara, vamos destruir um dos maiores carteis da costa leste.
- Ou seja, sem pressão, certo? – Chloe disse.
Johnson riu, mas havia pouca alegria por trás da risada.
***
Nos noventa minutos seguintes, Chloe e Rhodes ficaram em um pequeno escritório subterrâneo com Kim Moxley. Moxley era, no mínimo, interessante. Ela tinha o cabelo curto e pintado de preto, que não escondia as raízes loiras. Era baixa em estatura, mas tinha uma personalidade enorme. Sua voz era alta e sua risada mais alta ainda. Chloe não demorou para decidir que gostava daquela mulher.
De um jeito estranho, ela a lembrava um pouco de Danielle.
Moxley estava fazendo mais do que simplesmente digitar os
números do celular descartável de Alejos em um software que Chloe não conhecia. Aparentemente, já que o telefone havia sido
desativado, estava sendo um pouco mais difícil fazer a ligação entre os números e as chamadas. Ela precisou fazer algumas ligações para verificar a autenticidade do telefone, diretamente para a loja em Albany, Nova York, onde o aparelho fora comprado.
Chloe e Rhodes não ficaram nenhum pouco surpresas ao verem que dois dos números eram exatamente os mesmos que também estavam no telefone de Mark Fairchild: o número do banco offshore e o outro, desconhecido, que fora apontado como sendo de Mitchell Beck. Os outros eram de um homem listado no banco de dados do FBI como irmão de Julio e uma linha pessoal, de um homem
chamado Luca Valenz. Valenz era um dos nome que Julio havia entregue, e estava atualmente em uma cela no norte de Nova York.
Traficante conhecido e condenado por estupro, ele tinha
envolvimento suficiente com o cartel para ficar preso por muito tempo.
O último número colocado no software acabou se mostrando outra linha desconhecida. As três mulheres respiraram fundo ao mesmo tempo ao encontrar aquele obstáculo.
- Quanto tempo levou para definir que o outro número desconhecido era de Beck? – Chloe perguntou.
- Cerca de três horas.
- Esse aqui vai levar o mesmo tempo?
- Provavelmente. Mas talvez podemos usar algumas coisas que descobrimos ontem para encontrar algumas pistas enquanto
esperamos.
- Como assim? – Chloe perguntou.
- O número pode ser desconhecido, mas nós podemos descobrir onde o telefone estava quando Alejos ligou para ele.
- Sim, isso pode ajudar – Chloe disse.
- É um tiro no escuro – Rhodes respondeu. – Mas sim, pode ajudar.
- Só um segundo – Moxley disse. Ela digitou algo no sistema e tomou um gole de sua xícara de café enquanto esperava. – Os
resultados estão aparecendo – ela disse, muitos segundos depois. – Ele ligou para esse número sete vezes no último mês. Em quatro vezes, a pessoa que atendeu estava em Nova York. Na quinta e na sexta, em Boston.
Nova York, Chloe pensou. Faz sentido, porque a base de Alejos é lá. Boston... não pode ser uma coincidência, é de lá que os Fairchild vieram. Se o próximo lugar da lista for...
- A sétima ligação foi feita de Nova York, e quem atendeu estava em Falls Church, Virginia.
- Temos a data? – Chloe perguntou, com um calafrio percorrendo sua espinha.
- Espere um segundo – Moxley disse, demonstrando animação em sua voz. Depois, ela sorriu e assentiu. – Cacete! A ligação para Falls Church foi feita na última sexta, às nove e cinco.
Chloe levantou-se. Ela não tinha para onde ir, mas aquela descoberta a fez perceber que ela não poderia ficar parada.
- Tem que ser o assassino. Precisamos descobrir de quem é esse número desconhecido.
- Vou colocar no topo da lista de prioridades – Moxley disse.
O telefone de Chloe tocou em seu bolso. Quando viu o nome de Johnson, ela sentiu algo diferente. Aquela ligação os levaria em direção ao fim do caso. De certa forma egoísta, Chloe esperava apenas que o fim lhe desse a sensação real de ter terminado.
Apesar das enormes descobertas sobre Alejos, Beck e Mark, Chloe não pode deixar de sentir que devia a Jessie Fairchild a descoberta sobre quem tinha sido seu assassino.
- Fine falando – ela atendeu.
- Venham para a sala de interrogatórios três – Johnson disse. – Alejos está aqui.
***
O diretor Johnson, o diretor assistente Garcia e dois agentes que Chloe não conhecia estavam do lado de fora da sala de
interrogatórios número três. Ela imaginou que os outros dois
agentes fossem de Nova York e tivessem trazido Alejos. Quando ela e Rhodes se aproximaram, todos os quatro homens olharam em suas direções.
- Agente Fine, Agente Rhodes, esses são os agentes Kelles e Labitski, de Nova York. Vocês podem agradecê-los por terem trazido nosso convidado até aqui.
- Por mim, vocês podem ficar com ele – o homem chamado Keller disse. – Ele é quieto, mas é um babaca. É difícil de lidar. Eu sei que parece clichê, mas eu sinto muito.
- Precisamos tomar cuidado com algo? – Rhodes perguntou.
- Ele entra na sua mente. O caminho até aqui foi longo. Por duas vezes, eu achei que ia simplesmente atirar na cabeça dele.
- Ele disse algo que pode apontar para uma possível culpa?
- Não – Labitski disse. – Nem sobre a lavagem de dinheiro, nem sobre o assassinato.
- Devo dizer que ele disse que estava ansioso para ver qual agente corrupto de Washington seria enviado para lidar com ele – Keller disse.
- Vamos mostrar a ele então – Chloe disse. Ela olhou para Johnson e perguntou: - Podemos?
- Sim. Mas escutem... vocês ouviram Keller. Esse cara vai tentar confundir, irritar. Se alguma de vocês perder a compostura, vocês saem. Tudo bem?
As duas concordaram e Chloe seguiu para a porta. Ao abri-la, sentiu uma ponta de nervosismo. Ela estava prestes a interrogar talvez o pior homem que já havia conhecido—certamente o pior que já havia interrogado. E saber que seu caso era o menor dos crimes na lista daquele homem a fez acreditar ainda mais que talvez ela não fosse a pessoa certa para aquele interrogatório.
Mas depois que Rhodes entrou, o som da porta fechando acalmou Chloe. Também ajudou o fato de que o homem sentado atrás da mesa de aço parecia alguém normal. Ele era hispânico, provavelmente tinha trinta e poucos anos, e vestia uma camiseta cinza e jeans escuros. Seu cabelo era curto e, se não fosse quem era, ele poderia até ser considerado bonito.
- É sério? – Alejos disse. – É isso que eu mereço? Duas
mulheres? Cacete, estão querendo colocar mulheres em tudo nessa cidade! – ele riu da própria piada e balançou a cabeça.
- Você tem algo contra mulheres? – Chloe perguntou.
- Não mesmo. Eu amo mulheres. Talvez até demais. Mas se
vocês estão aqui para tentar me fazer falar... essa é uma tarefa para a qual vocês jamais deveriam enviar uma mulher. Isso é trabalho para homem.
- Obrigada pela consideração, mas nós estamos bem – Chloe disse. – Além disso, sendo sincera com você, devo te dizer algo.
Pode ser que te surpreenda, mas acho que temos que ser sinceros.
Tudo bem por você?
- Você pode ser sincera o quanto quiser. Já eu não posso prometer nada.
- Bom, lá vai: eu não me importo com os motivos pelos quais o FBI está atrás de você. Você não é nada para mim. Eles acham que
você comanda um cartel grande em Nova York. Eu não estou nem aí. Não é difícil vender drogas em Nova York, é?
Alejos riu. Ele virou os olhos e encostou-se na cadeira.
- Se você está tentando usar essa coisa sem noção de psicologia passiva reversa, não vai funcionar comigo.
- Não é psicologia reversa. Como eu disse... estou sendo sincera.
A Agente Rhodes e eu não estamos nem aí para o que você faz lá no norte. Nós duas fomos colocadas em um caso em Falls Church vários dias atrás. Um caso onde nós conhecemos um homem chamado Mark Fairchild, cara a cara. Esse nome te diz algo?
- Diz, sim. Esse cara é muito idiota. No começo parecia promissor, mas ele se afastou de si mesmo.
- O que você quer dizer? – Rhodes perguntou.
Alejos ajeitou-se na cadeira. Chloe viu uma ponta de conforto no rosto dele. Ele estava começando a se sentir como ela queria.
Relaxado, pensando que aquela era mais uma situação onde
poderia simplesmente entregar alguém para se sair sem problemas daquela sala.
- Vamos dizer apenas que ele tem um problema com dinheiro – Alejos disse. – E acabou trombando com as pessoas erradas.
- Você é uma dessas pessoas? – Rhodes perguntou.
- Talvez.
- E Mitchell Beck? Ele também é uma dessas pessoas?
- Não sei nada sobre Beck. Não sei porque vocês ficam insistindo que eu tenho algo com ele.
- Mas você o conhece?
- Sim, infelizmente.
- Mark Fairchild o conhece?
- Sim. Beck me ligou para perguntar sobre ele.
- Para que? – Chloe perguntou.
- Ele queria saber se eu sabia quem era Fairchild. Se ele já tinha trabalhado para mim antes.
- Senhor Alejos, você sabe o que aconteceu com Mark Fairchild na última sexta?
- Os agentes que me trouxeram de Nova York disseram que alguém matou a mulher dele. Disseram que ainda não encontraram o assassino. – Ele fez uma pausa e então mostrou uma expressão
irritada. – Vocês acham que eu fiz isso ou algo do tipo? Isso é ridículo. Tenho pelo menos cinquenta pessoas que podem provar que eu estava em Nova York na sexta-feira.
- Tenho certeza que sim – Chloe disse. – E eu não disse nada disso. Mas o que eu gostaria de saber é para quem você estava ligando, em Falls Church, naquela mesma manhã de sexta... uma ligação que foi feita pouco antes do assassinato da mulher de Mark Fairchild.
O conforto no rosto dele tornou-se raiva.
- Você se acha muito inteligente, né?
- Às vezes.
- Senhor Alejos, pense nisso – Rhodes disse. – O FBI pegou seu telefone—um telefone descartável, que digamos, por si só já gera suspeitas. Nós temos os registros desse telefone. Sabemos quais ligações foram feitas, então nós sabemos que você ligou para Falls Church.
- E você também admitiu que conhece Mark Fairchild, que mora em Falls Church. Faça as contas. Essa situação não está nada boa para você.
- Se você diz.
Chloe sorriu e assentiu.
- Eu não entendo. Você já entregou tantas pessoas hoje. Parece não ter problemas com isso. Então por que não entregar só mais um? Me diga para quem você ligou.
- Diga – Rhodes disse. – Só um nome. Como a agente Fine disse... não estamos nem aí com suas drogas em Nova York. Nós só queremos encontrar o homem que matou Jessie Fairchild.
Alejos apenas balançou a cabeça.
- Eu não vou dizer mais nada para vocês.
- Não é o seu estilo, pelo que eu soube – Chloe disse. Ela inclinou-se para perto da mesa e voltou a sorrir. – Acho que isso quer dizer que eu te peguei, ein?
Ela pode ver Alejos lutando para não responder. Havia raiva nos olhos dele, de um jeito que ela ainda não tinha visto.
- Se eu fosse você, falaria – Chloe disse. – Porque com os registros do seu telefone, você vai ser acusado pelo menos de
cúmplice. E se você nos disser quem é o assassino, talvez nós possamos mudar isso.
Alejos sorriu educadamente para as agentes, e depois mostrou seus dois dedos do meio.
- Tudo bem – Chloe disse, indo em direção à porta. – Ficamos felizes em tem parte do crédito por ter ajudado a te colocar na cadeia.
Antes que Chloe e Rhodes saíssem, Alejos deixou escapar uma risada de leve.
- Que bonitinho você pensar assim, garotinha.
- O que foi? – Chloe disse, sem virar-se para ele.
- Eu serei solto logo. Provavelmente até amanhã de manhã.
Grave minhas palavras.
De alguma maneira, Chloe permitiu que aquelas palavras a
atingissem ao sair pela porta. Dessa vez, o som da porta fechando a irritou, e ela pode entender Keller. Alejos não tinha sido
desrespeitoso ou problemático, mas conseguira mexer com seus nervos.
Chloe e Rhodes caminharam até a sala ao lado, uma pequena sala de observação onde uma TV na parede mostrava o que acontecia nos interrogatórios. Johnson, Garcia, Keller e Labitski estavam em suas cadeiras, olhando para a tela.
- Agora eu te entendi – Chloe disse a Keller. – Eu queria meter uma bala nele a qualquer momento.
- Ei, vocês foram bem – Johnson disse. – Colocaram ele contra a parede e ele nem percebeu. Ele basicamente admitiu que de fato fez uma ligação para Falls Church na manhã em que Jessie
Fairchild foi morta.
- Mas sem um nome, não temos nada – Chloe disse.
- Tem várias coisas em andamento – Garcia disse. – Se nós conseguirmos colocar Mitchell Beck em um interrogatório e ele souber que Julio Alejos também está em um e que ele já entregou quatro nomes para salvar a própria pele... acho que nosso caminho é por aí.
- Alguma novidade na prisão dele? – Chloe perguntou.
- Tem uma caçada silenciosa por todo o estado de Nova York acontecendo nesse momento.
- Fine... Rhodes... vão para casa – Johnson disse. – Descansem e nos encontrem aqui pela manhã.
- Senhor, não são sem quatro horas ainda – Chloe disse.
- Eu sei. Mas vocês duas estão trabalhando demais. Tirem a tarde de folga e nos encontrem aqui amanhã, às oito. Se houver alguma novidade nesse meio tempo, vocês serão as primeiras a saber.
Chloe não viu porquê discutir. Pelo que havia sido dito, tudo o que ela poderia fazer era sentar e esperar até que Mitchell Beck fosse preso. E ela também já sabia que a prisão dele talvez nem acontecesse, porque Beck era um mestre na arte de burlar a polícia e as leis.
- Qual é – Rhodes disse, cutucando Chloe. – Ele está certo. Esse caso está mexendo com você. Comigo também. Acho que você tem que sair daqui antes que você volte naquela sala e diga ou faça algo do qual você vai se arrepender depois.
Chloe voltou a olhar para a tela. O homem sentado atrás da mesa de aço não era o assassino de Jessie Fairchild, mas com certeza sabia quem era. Ela poderia apostar até que ele provavelmente havia contratado alguém para cometer o crime.
E isso sequer o preocupava. Ele estava tão acostumado a estar sempre dois passos à frente da polícia e do FBI que tinha certeza de que poderia sair daquela situação sem grandes problemas. Sim, talvez o melhor para Chloe fosse mesmo ir para casa.
Além disso... ela tinha seus próprios problemas para lidar em casa. Precisava ligar para Danielle, para ter certeza de que ela estava bem depois da conversa de dias antes. E para que sua irmã cumprisse a promessa de limpar o restante da bagunça no
apartamento.
Mas ao sair da sala de observação com Rhodes a seu lado, Chloe olhou para a tela mais uma vez. Era improvável, mas ela poderia apostar que aquele idiota estava sorrindo para ela.
Chloe apertou os dentes e desviou o olhar. Decidiu então que faria o possível para que Julio Alejos fosse preso, mesmo que aquilo significasse ultrapassar os limites do profissionalismo.