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CAPÍTULO VINTE E NOVE

No documento v i z i n h o s i l e n c i o s o (páginas 175-183)

Chloe esperou até chegar em casa para ligar para Danielle. No caminho, permitiu a si mesma acalmar-se, ficando menos irritada com a arrogância total de Julio Alejos. Funcionou até certo ponto.

Ao chegar em seu apartamento, Chloe não tinha mais os

pensamentos homicidas sobre aquele homem. Pôs uma chaleira para esquentar para fazer chá e telefonou para sua irmã.

A chamada caiu direto na caixa de mensagens. Chloe virou os olhos, imaginando que sua irmã havia decidido tirar uma de suas sonecas vespertinas aleatórias. Perguntou-se se Danielle ainda estava procurando trabalho. Ela tinha algum dinheiro guardado de seu último emprego, mas não tinha se recuperado do trauma—de perder não só o emprego, mas também seu relacionamento.

Chloe preparou uma xícara de chá e sentou-se com seu

notebook. Acessou o Google e buscou pelo nome de Mitchell Beck.

Havia muitas informações sobre ele: era um milionário que,

provavelmente, se tornaria bilionário em menos de cinco anos se alguns de seus negócios não quebrassem. Encontrou apenas alguns artigos que o mostravam como alguém não-confiável. Ele havia sido acusado de conspiração e suborno com o conselho de Harvard para conseguir colocar seu sobrinho na universidade.

Também fora flagrado com prostitutas em duas ocasiões. Mas a notícia que parecia estar mais perto do caso atual era uma que

tentava conectá-lo a dois carteis de drogas diferentes—um em Nova York e outro no Arizona. De acordo com o artigo, Beck havia sido acusado, mas as queixas foram derrubadas dias depois de sua prisão. Nenhum dos artigos encontrados explicava porque ele tinha sido solto.

Após cerca de meia hora de pesquisa, Chloe fechou o notebook e começou a limpar a bagunça restante da invasão de Danielle.

Durante a tarefa, sua mente lembrou-se dos anos obscuros que sua irmã tinha enfrentado. Naquela época, dos quatorze anos até há apenas alguns anos, fazer algo como invadir o apartamento da irmã não seria algo tão difícil para Danielle. Mas Chloe tinha visto sua

irmã progredindo nos últimos tempos, especialmente depois que as duas juntaram-se para tentar descobrir a verdade sobre sua mãe.

Mas claramente algo estava diferente agora. Danielle estava, de fato, sendo a irmã parceira que Chloe sempre desejara. Porém, parecia estar voltando a seu antigo estilo. Chloe pensou no que poderia ter mudado e uma possibilidade surgiu em sua mente. Na verdade, mais do que uma possibilidade... era quase uma certeza.

Algo que fazia muito sentido para ignorar.

Será que Danielle parou de tomar os remédios?

Chloe lembrou-se de Danielle se irritando ao ter que tomar os remédios quando as duas começaram a se reconciliar. Aquilo sempre fazia Danielle pensar que havia algo de errado com ela mesma. Na verdade, havia: ela fora diagnosticada com transtorno de personalidade aos quinze anos.

Repentinamente muito preocupada, Chloe tentou ligar para

Danielle novamente. Pela segunda vez, a chamada caiu na caixa de mensagens. Seu primeiro instinto foi ir até o apartamento de sua irmã, mas ela sabia que seria um erro. Quando Danielle não queria ser incomodada, ela realmente não queria. Quando entrava no

modo introvertido, o fazia intencionalmente. Chloe supôs que aquele comportamento fazia sentido: provavelmente ela estava

envergonhada por ter invadido o apartamento e ainda estava tentando entender os sentimentos gerados pela invasão.

Para ocupar sua mente, Chloe seguiu limpando o apartamento.

Estava quase terminando quando o peso da preocupação atingiu um nível insuportável. Pegou seu telefone e simplesmente olhou para ele por um instante. Ligou para Danielle novamente, mas ouviu mais uma vez a caixa de mensagens. Depois, encontrou-se com raiva do Agente Moulton por não estar disponível para conversar.

Pensou também na Doutora Fischer, mas a ideia de telefonar em dois dias seguidos a fez desistir. Relutante, procurou o número de Rhodes e telefonou.

O telefone tocou três vezes e então a chamada caiu na caixa de mensagens. Chloe pensou em deixar uma mensagem, mas desistiu.

Rhodes provavelmente estaria aproveitando a tarde de folga depois de tanto trabalho. Deve ser legal, Chloe pensou.

Durante a hora seguinte, ela seguiu olhando para seu telefone, pensando em tentar ligar para Danielle novamente. Mas sempre que pensava nisso, a necessidade de ir ao apartamento da irmã

aumentava, e então ela desistia.

Quando seu telefone tocou, às 6:05, Chloe praticamente correu pela sala para pegá-lo no balcão da cozinha. Ficou triste ao ver que não era o nome de Danielle na tela. A tristeza, porém, tornou-se esperança e animação ao perceber que era Johnson quem estava ligando.

- Agente Fine falando – ela atendeu.

- Fine, é o Johnson. Olhe... eu queria ter notícias melhores e não queria precisar te dizer isso.

- O que foi? O que aconteceu?

- Temos que liberar Alejos.

- Que?

- Deu uma merda gigante em Nova York. Ainda estou recebendo os detalhes, mas parece que as evidências que nós achamos que tínhamos contra ele são muito fracas. Tudo está desmoronando como um castelo de cartas.

- E os registros do celular? – Chloe perguntou. – Aquilo é

suficiente para mantê-lo sob custódia por suspeita de assassinato.

- Você está certa. E nesse momento, estamos tentando fazer com que essa seja a primeira acusação. Se conseguirmos segurá-lo aqui por mais um tempo com essa premissa, esperamos que a merda em Nova York seja resolvida. Keller e Labitski estão trabalhando nisso agora mesmo.

- E o que você precisa que eu faça?

- Nada. Apenas espere. Talvez eu precise que você e Rhodes voltem a Falls Church para investigar onde exatamente aquela ligação foi atendida. Coloquei Moxley e uma equipe trabalhando nisso. Você pode ligar para Rhodes e contar tudo a ela?

- Claro – Chloe disse e encerrou a ligação.

Ela olhou em volta do apartamento e xingou em voz alta. Ligou para Rhodes novamente e, dessa vez, sua parceira atendeu.

- Você não consegue ficar longe de mim mesmo, ein? – Rhodes disse.

- Johnson acabou de me ligar. As acusações contra Alejos estão desmoronando.

- Que?

Então, Chloe repetiu tudo o que Johnson havia lhe dito,

enfatizando o fato de que ele só estava sob custodia ainda pelo possível envolvimento na morte de Jessie Fairchild.

- O sistema é uma merda – Rhodes disse.

- Você está sendo generosa.

- Quer tomar uma cerveja... ou dez? – Rhodes disse.

- Não. Eu só...

- Chloe... eu sei que você está lidando com algo a mais. Seja o que for, você não quis me contar detalhes. Se abra comigo... você está bem?

Chloe hesitou antes de responder. Ela não tinha mais porque mentir. Quanto mais mentia para os outros, mais fácil era para si mesma acreditar naquelas mentiras.

- Não sei. Acho que vou ficar bem. São problemas de família...

coisas que meio que se espelham ao caso dos Fairchild.

- Você quer falar cobre isso?

- Provavelmente eu deveria, mas ainda não estou pronta.

Houve um silêncio no outro lado da linha antes que Rhodes finalmente respondesse:

- Tudo bem. Mas... eu sei que pode parecer estranho, mas estarei aqui se você quiser falar.

- Eu sei. Obrigada.

Elas encerraram a chamada, e Chloe ficou sozinha no

apartamento vazio novamente. Ela pensou em Danielle, também sozinha, com seu telefone desligado. Pensou em Julio Alejos, provavelmente rindo de todos que entravam em sua sala de

interrogatórios. E depois pensou em seu pai, em vê-lo pela janela da cozinha, vivendo uma vida normal.

Por fim, a imagem de Jessica Fairchild veio a sua mente, com a garganta cortada pelo anel e asfixiada pela estola.

Chloe pegou a xícara de café que usara mais cedo e olhou para o objeto, pensativa. Depois, jogou-a com força pela sala, fazendo-a explodir contra a parede. Não foi a reação mais madura, mas o som

da xícara se quebrando provavelmente era o melhor tratamento terapêutico possível naquele momento.

No entanto, ela permitiu-se ter aquela sensação apenas por alguns segundos. Pegou sua vassoura e a pá e começou a limpar imediatamente, percebendo que aquela era uma ilustração perfeita do atual estágio de sua vida: sempre limpando uma bagunça,

sempre juntando os cacos.

***

Menos de vinte minutos haviam passado desde que Chloe

limpara a xícara quebrada quando alguém bateu em seu porta. Seu coração disparou imediatamente. Seu instinto de irmã sabia que era Danielle. Danielle tinha desligado o celular e, ao ligar, havia visto as três ligações de Chloe, percebendo que sua irmã claramente estava preocupada com ela.

Chloe correu até a porta e acalmou-se antes de abrir. Ela não queria que Danielle visse o quão ansiosa ela estava, quão

preocupada estivera nas últimas horas. Respirou fundo e, finalmente, abriu a porta.

Mas antes que tivesse a chance de olhar no corredor, a porta veio com força em sua direção. Seu braço esquerdo ficou preso,

esmagado contra a porta. A ação foi tão inesperada que Chloe não pode sequer entender o que estava acontecendo antes de cair no chão. Sua mente conseguiu apenas tirar as conclusões mais óbvias.

Não é Danielle.

Tem alguém me atacando.

O segundo pensamento foi o que lhe fez voltar à realidade.

Naquele momento, no entanto, a pessoa que havia batido a porta já estava em cima dela. Chloe sentiu um cotovelo em seu peito e

imediatamente ficou sem ar. Depois, sentiu o peso do agressor em cima de si. Os dois rolaram no chão, mas a surpresa do ataque e o fato de estar por baixo eram desvantagens enormes para Chloe.

Enquanto Chloe fazia o possível para ficar em uma posição vantajosa, o agressor a acertou com o joelho em seu quadril. Ela tentou desviar do golpe, mas então sentiu um cotovelo acertando sua costela. Novamente, ficou sem ar. Ao tentar respirar, sentiu o

peso do agressor se afastar, mas o alívio sequer foi percebido, já que logo as duas mãos dele estavam em sua garganta.

Chloe sabia muito bem que o agressor sabia o que estava

fazendo. O elemento surpresa no início, a habilidade para derrubá-la e deixá-la sem ar, e agora as mãos na garganta. Ele já havia feito aquilo antes—talvez várias vezes.

Chloe pode ver pela forma do corpo e força que o agressor era um homem. O rosto dele parecia congelado, olhando friamente para ela enquanto a estrangulava. Seu cabelo loiro estava amarrado em um rabo de cavalo que mal se movia.

Chloe sentiu seu corpo se enrijecendo. Levantou os braços, tentando acertar um soco no homem. Ao tentar acertar a mão no queixo dele, o viu inclinar-se para trás para desviar do golpe—mais uma prova de que ele sabia o que estava fazendo. Chloe tentou mexer os pés, fazendo o possível para que o agressor precisasse trocar de posição.

Mas não conseguiu. Seus pés acertaram o vazio, e seus dedos encostaram apenas nas banquetas de sua cozinha. Chloe tentou forçar seus cotovelos contra o chão para poder se sentar, mas ao fazer isso, o agressor a pressionou com mais força, causando apenas mais dor em seus cotovelos.

Chloe sentiu algo comprimindo sua garganta. Uma dor horrível tomou conta de seu corpo quando ela tentou respirar. Viu pequenos pontos brancos diante dos olhos enquanto seus pulmões buscavam ar. Estremeceu ao temer que o homem quebraria seu pescoço antes de asfixiá-la.

Sentiu sua força indo embora. A dor no pescoço só perdia para a dor em seus pulmões, já desesperados por ar.

Então, de alguma maneira, milagrosamente, o agressor soltou seu pescoço. Ao mesmo tempo, Chloe foi mergulhada em algo molhado, com um cheiro amargo. Mas ela não teve tempo para entender o que tinha acontecido. Ao perceber que estava livre, usou seus cotovelos para se afastar dele. Foi mais fácil do que havia imaginado porque ele estava, aos poucos, caindo e se afastando dela.

Que porra é essa?

Então Chloe viu o que aconteceu. Poderia ter sido engraçado em qualquer outro momento, mas naquela hora, sequer teve tempo de rir.

Rhodes estava sobre o agressor. Ela segurava a ponta de uma garrafa de vinho, que pingava vinho tinto. O restante da garrafa

estava quebrado pelo chão e em cima do agressor. A maior parte do vinho estava no chão, mas uma boa porção escorria pela nuca dele.

Chloe então percebeu o que havia acontecido: Rhodes tinha vindo até sua casa com uma garrafa de vinho, provavelmente tentando ser uma boa amiga durante seu momento difícil. Ao ver o que estava acontecendo no chão da cozinha, ela havia atacado o agressor, na nuca, com a garrafa.

Mas enquanto Chloe se dava conta de tudo, as coisas mudaram drasticamente. Rhodes abaixou-se para segurar o homem, mas ele já estava recuperado. Quando ela tentou colocar o braço em volta do pescoço dele, ele segurou seu braço e o puxou, agachando-se.

Como resultado, Rhodes acabou caindo em cima da garrafa quebrada e do vinho esparramado.

Chloe tentou se levantar, mas seu corpo estava sem forças. Seus pulmões ainda doíam e sua mente ainda achava que a morte estava muito próxima. O mundo girou em frente a seus olhos e ela quase caiu com o rosto no chão ao tentar ficar de pé.

Enquanto isso, o agressor estava agora atacando Rhodes. Antes que ele a segurasse, Rhodes levantou um joelho. A joelhada

acertou-o o suficiente para que Rhodes pudesse escapar. Mas o homem era muito rápido. Ele voltou a atacá-la, praticamente saltando sobre ela.

Rhodes o parou com um rápido chute no rosto, em um

movimento tão veloz que daria inveja até a um coelho. O golpe paralisou o homem, mas somente por um instante. Ele voltou a atacá-la, e Rhodes repetiu o movimento, dessa vez chutando com as duas pernas. O primeiro chute quebrou o nariz do homem. O seguindo fez surgir um rastro de sangue no rosto dele.

Ele grunhiu e recuou no mesmo instante. Rhodes levantou-se para persegui-lo, mas o homem a acertou com o cotovelo no lado da cabeça. Rhodes cambaleou para trás, caindo na parte de trás do

sofá. Chloe pode ver que alguns estilhaços da garrafa de vinho haviam cortado o braço de sua parceira.

Chloe então viu o agressor recuar até a porta, virando à esquerda para correr pelo corredor. Fine ficou de joelhos, tentando usar o sofá como suporte.

- Chloe, cadê sua arma? – Rhodes disse. – Não trouxe a minha.

- Quarto. Guarda-roupas...

Ela finalmente conseguiu ficar de pé, encostando-se no sofá.

Quando conseguiu levantar-se com o mínimo de força e equilíbrio, Rhodes já havia pegado a Glock no quarto e estava correndo em direção à porta. Chloe tentou falar algo, mas as duas palavras que tinha dito já pareciam ter rasgado sua garganta.

Chloe pode apenas assistir, aos poucos recuperando o ar e a força, quando Rhodes saiu pela porta, indo na mesma direção do homem que tinha tentado matar sua parceira menos de um minuto antes.

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