Chloe e Rhodes estavam sentadas na sala de reuniões, nos fundos da delegacia de Falls Church, tomando café e prestando atenção nos fatos que se seguiram à prisão de Mark Fairchild. As novidades chegavam em forma de ligações de Kim Moxley e da pequena equipe que havia ligado os pontos na noite anterior. Elas também vinham com as visitas de Nolan, que vinha até a sala
quando recebia ligações da imprensa, de advogados e de parceiros da polícia.
Até então, a única notícia importante era que todos os ativos de Mark haviam sido apreendidos em menos de três horas depois de sua prisão. Suas contas bancárias haviam sido congeladas. O
seguro de vida de Jessie fora temporariamente suspenso, e o fundo de cobertura que ele tentara esconder fora dissolvido. Se ele sabia disso tudo, Chloe não tinha certeza. Até onde ela sabia, Mark estava sendo preparado para uma viagem até Washington. Ela não tinha certeza se ele iria com ela e com Rhodes. Não, ele seria levado em um sedan preto, com janelas pintadas, e interrogado durante dias sobre seu envolvimento com Julio Alejos e Mitchell Beck.
Chloe estava na segunda xícara de café quando o desconforto em seu estômago tornou-se algo mais parecido com um palpite. Ela havia sentido o mesmo no dia anterior, quando discutira com
Rhodes sobre Mark ser culpado ou não. Aquela sensação estava de volta agora, quase como um eu-avisei-você.
- Você parece preocupada – Rhodes disse, do outro lado da mesa.
- Estou. Sim, nós pegamos Mark Fairchild em vários crimes
financeiros e vamos poder até usar a lavagem de dinheiro dele para pegar Beck e Alejos, mas nada parece estar ligado com a morte da mulher dele.
- Tem muitas personagens obscuros envolvidos nisso. Agora a lista de potenciais assassinos é grande demais – Rhodes
respondeu.
- Você acha que Mark contratou alguém? – Chloe perguntou.
- Não sei. Se aquelas lágrimas e frustração que ele demonstrou na noite passada eram falsas, o cara é um baita ator. Acho que ele estava... não sei...
- Assustado. Acho que essa é a palavra.
Rhodes assentiu ao mesmo tempo que o telefone de Chloe começou a tocar. Ela viu o nome de Johnson na tela e atendeu imediatamente.
- Você e Rhodes começaram um efeito dominó enorme –
Johnson disse, sem cumprimentos. – Nesse exato momento, Julio Alejos está sendo levado para Washington, acusado de vários crimes financeiros que envolvem Mark Fairchild. Nós vínhamos tentando pegá-lo por qualquer coisa nos últimos três anos, e esse caso de vocês permitiu isso.
- Mas o caso não está terminado – Chloe disse. – Ainda não temos a identidade do assassino de Jessie Fairchild.
- Ainda não. Mas eu te garanto que vamos descobrir nesses interrogatórios. Provavelmente não com Alejos—ele é muito
experiente. Mas provavelmente com um dos caras que trabalham para ele. Acredite, Chloe. Eu já vi isso antes. O caso, até onde você e Rhodes estão envolvidas, está resolvido. Alguém vai entregar o assassino logo, logo.
- Mesmo assim, eu gostaria de continuar no caso por mais um ou dois dias.
- Para que?
- Bom, nós encontramos o telefone que levou a todo esse efeito dominó no escritório dele—um lugar onde ele passa a maior parte do tempo. Eu gostaria de voltar lá e falar com alguns dos colegas de trabalho dele.
- A polícia local já fez isso.
- Sim, senhor. Mas eu não.
Ela ouviu Johnson segurar uma risada. Ele gostava de um pouco de arrogância, mas nunca havia admitido.
- Se você quer tanto, Fine. Mais um dia. Só isso. Eu, na verdade, gostaria que você e Rhodes viessem aqui para interrogar Julio
Alejos. Talvez você possa conseguir tirar algo dele. Você pode
conseguir descobrir quem é o assassino, através de um homem que estava em Nova York quando o crime aconteceu.
- Alguma ideia de quando ele estará aí?
- Por volta das duas, hoje à tarde, eu acho.
- Nos vemos em breve, então.
Chloe encerrou a ligação e viu Rhodes olhando para ela. Tomou um gole do café, pensativa.
- Você acabou de recusar uma chance de dar esse caso por encerrado?
- Sim, desculpe. Mas quanto mais eu penso nisso... alguém tem que ter pressentido alguma coisa nos dias antes da morte dela.
Talvez alguém no escritório de Mark percebeu que de alguma forma ele estava meio ausente.
- Me parece um tiro no escuro.
- Pode ser. Mas nós viemos aqui para resolver um caso de assassinato, e eu gostaria muito de ter certeza de que isso está resolvido... ou, pelo menos, saber que eu fiz meu melhor.
- Ok, ok, vamos lá então – Rhodes disse.
Ela claramente não gostou da ideia, mas já estava se levantando.
Não estava nem de perto tão irritada quanto no dia anterior, o que Chloe considerou uma vitória. Aos poucos, elas estavam
aprendendo a trabalhar juntas. E com aquele caso terminando e cada vez mais perto de acabar em uma grande interrogação, ambas estavam sentindo que o quebra-cabeças ainda estava incompleto.
Aparentemente, estar tão perto da sensação de fracasso serviu para aproximar as parceiras.
***
A Edgebrook Financial parecia um prédio totalmente diferente à luz do dia, com seu estacionamento quase lotado. Quando elas entraram no prédio, até o hall parecia completamente diferente. A luz natural tomava conta do local, passando pelos vidros acima das portas, cada um a cerca de seis metros do chão. Havia pessoas no hall, nas portas, nos corredores e nos elevadores.
O guarda na recepção não era o mesmo da noite anterior. Por ser horário comercial, elas não pararam na recepção, e sim
seguiram diretamente para os elevadores. Ao chegarem no quarto
andar, também encontraram um lugar diferente. O corredor, outrora escuro e vazio, de repente estava cheio de vida.
Chloe e Rhodes pararam na recepção, por onde haviam passado na noite anterior. Uma mulher bonita, de vinte e poucos anos, estava sentada atrás de uma mesa, parecendo ter sido escolhida a dedo para aquele trabalho.
- Olá, senhoras – a recepcionista disse, em um tom alegre. – Posso ajudar?
Chloe mostrou seu distintivo, sem querer causar alvoroço.
- Sou a Agente Fine, do FBI. Gostaria de falar com alguém que trabalhou bem próximo a Mark Fairchild em algum momento nas últimas semanas.
- Ah, tudo bem – ela disse. – Está tudo bem? Percebemos que ele não veio hoje. Ele tentou vir alguns dias, mas vimos que ele ainda não estava bem.
- Sinceramente, não quero falar sobre isso – Chloe disse. – Você tem alguém em mente?
- Claro. Se vocês seguirem pelo corredor e pararem na segunda porta à direita, vão encontrar o escritório de Jason Earhart. Eles estavam trabalhando juntos em um projeto de desmantelamento nuclear até a morte de Jessie.
- Eles já tinha uma relação profissional antes?
- Sim. A polícia já conversou com ele. Jason e Mark eram meio que o time perfeito. Sempre que aparecia um trabalho grande para ser feito, eles eram os escolhidos.
- Obrigada – Chloe disse, ao virar-se e seguir pela direita.
- Você lembra de ter visto o nome de Jason Earhart em algum relatório? – Rhodes perguntou.
- Não. Mas acho que ouvi esse nome na delegacia—talvez em uma conversa entre Nolan e Clifton. Não tenho certeza.
Elas chegaram à porta de Earhart e bateram, ainda que estivesse entreaberta. Uma voz cansada respondeu imediatamente.
- Sim, pode entrar.
Chloe e Rhodes entraram. A sala em questão era praticamente do mesmo tamanho do escritório de Mark, ainda que não tão
arrumada. A mesa era bem mais simples—provavelmente porque não tinha fundos falsos. O homem sentado ali parecia um pouco
mais jovem que Mark. Ele estava um pouco acima do peso, e seu cabelo demonstrava que ele não se importava com sua aparência no trabalho. Sua franja quase tocava sua sobrancelha.
- Posso ajudar? – ele perguntou.
Chloe deu um passo à frente, mostrando seu distintivo. Nesse instante, Rhodes fechou a porta atrás delas.
- Precisamos lhe fazer algumas perguntas sobre Mark Fairchild.
- A polícia já veio aqui e me perguntou muitas coisas – ele disse.
No entanto, não parecia irritado. No máximo, entediado.
- Você, por acaso, recebeu uma ligação dele hoje? Ou talvez sobre ele?
- Não. Por que? Aconteceu algo?
- Será de conhecimento público em breve, então podemos lhe contar. Três horas atrás, Mark envolveu-se em um problema e tanto.
Ele foi preso por vários crimes financeiros e pelo possível envolvimento na morte de sua mulher.
Earhart pareceu verdadeiramente confuso, quase comicamente.
Depois, ele deixou escapar uma risada nervosa e balançou a cabeça.
- Com todo respeito, que besteira. Não tem como. Não é o tipo de homem que Mark é.
- Temos evidências fortes que dizem o contrário – Rhodes disse.
- Ele mesmo confirmou alguns crimes com suas próprias palavras – Chloe acrescentou.
Earhart estava claramente abalado. Ele encostou-se em sua cadeira, com o rosto pálido. Tirou um pouco de cabelo da testa, parecendo de certa forma muito mais velho.
- Senhor Earhart, preciso que você pense em algo. Quero que você pense sobre o comportamento de Mark nas últimas semanas.
Houve algo no jeito que ele vinha agindo ou no comportamento dele aqui no trabalho que você achou estranho? Não importa se for algo que pareça pequeno. Preciso saber tudo que você consiga lembrar.
Earhart suspirou, inclinou-se para frente e colocou os ombros na mesa. Ele parecia uma criança assustada. Quando falou, Chloe pensou que ele fosse começar a chorar.
- Mark nunca foi de ter as portas fechadas. Ele sempre queria estar disponível. Ele só fechava se tinha uma reunião importante ou
uma ligação mais áspera, mas só isso. Mas nas últimas semanas...
ele vinha fechando a porta mais do que o comum. Só que eu não cheguei a achar isso estranho, pelo menos até agora... quando você fez essa pergunta.
- Ele estava aqui na manhã em que Jessie foi morta, certo? – Rhodes perguntou.
- Estava.
- Algo de diferente naquela manhã?
- Na verdade, não. Era sexta-feira, então houve uma reunião geral—mas ele chegou atrasado. Nada de mais. Algumas pessoas sempre se atrasam. Mas não Mark. Ele geralmente era o primeiro.
Sempre brincava que gostava de chegar cedo para pegar os melhores biscoitos.
- Você falou com ele naquela manhã?
- Sim, sobre esse projeto em que nós estávamos trabalhando. E sabe...
Ele parou ali, seus olhos mostrando que ele estava tentando lembrar de algo.
- O que foi, senhor Earhart?
- Ele parecia um pouco distraído. Eu tive que chamá-lo algumas vezes. Ele estava esquecendo nomes e números—o que raramente acontece. Enfim, não foi nada gritante. Eu trabalho muito lado a lado com ele. Outra pessoa provavelmente nem teria notado.
- Você se lembra do que estava fazendo quando ele recebeu a ligação da polícia? – Chloe perguntou.
- Bem, eu só fiquei sabendo uns quinze minutos depois. Eu estava em uma ligação e Kaitlin, a recepcionista, bateu na minha porta. Eu pedi que ela saísse por causa da ligação, que era muito importante. Quando terminei, saí para ver o que ela queria. O andar inteiro estava estranho, muito quieto. Kaitlin me contou que a polícia tinha ligado, procurando por Mark. Eles contaram a ele pelo telefone que a mulher dele tinha sido assassinada. Pelo que eu soube, a polícia veio aqui atrás dele.
- Você sabe se ele conversou com alguém depois de receber a ligação?
- Eu perguntei—assim como a polícia, mas aparentemente, Kaitlin foi a única. E ela disse que ele estava meio que fora.
Processando a informação, sabe? Ele disse a ela de um jeito seco:
minha esposa está morta, e seguiu para os elevadores. Alguém na recepção—um cara que trabalha no segundo andar, disse que
quando Mark saiu do elevador, ele se ajoelhou e começou a chorar.
A polícia o ajudou a sair do prédio.
- Isso é tudo o que você sabe?
- Sim. Só que... eu preciso dizer que se Mark tiver mesmo algo a ver com a morte da mulher dele, eu ficarei totalmente em choque.
- E os problemas financeiros? – Rhodes perguntou.
- Também me surpreende, mas é mais fácil de entender. Mark gostava de gastar dinheiro. De cuidar da mulher. Ele se gabava o tempo todo de poder dar tudo o que ela queria.
Chloe e Rhodes trocaram um olhar de frustração. Nenhuma
novidade havia aparecido naquela conversa, além da descoberta de que Mark gostava de se gabar por Jessie—algo que elas já
imaginavam. Ainda assim, havia o fato de que Mark parecera nervoso e distraído na manhã da morte de sua mulher... aquilo significava que ele sabia o que aconteceria? Todas as ligações feitas a portas fechadas estariam relacionadas com o crime?
Eram perguntas que não seriam respondidas por Jason Earhart nem por ninguém na Edgebrook. Se havia respostas a serem descobertas, elas viriam das salas de interrogatórios, em Washington, horas mais tarde.
- Muito obrigada pelo seu tempo, senhor Earhart – Chloe disse.
Earhart assentiu. Ele parecia querer dizer algo mais, mas acabou ficando em silêncio.
- Claro – ele disse. – Por favor me avisem se eu puder ajudar em algo mais.
Chloe e Rhodes saíram do escritório e caminharam pelo corredor.
No elevador, Chloe encostou-se na parede e baixou a cabeça, suspirando.
- Quanto mais informações nós temos, menos sentido faz isso tudo.
- Eu não consigo deixar de pensar se Mark irritou alguém – Rhodes disse. – Se a morte a mulher dele não foi algum tipo de retaliação.
- Também pensei nisso. Mas ele veio trabalhar naquele dia. E mesmo com todos os problemas financeiros acontecendo, ele nos deu informações por conta própria. Não faz nenhum sentido para mim.
- As pontas soltas serão resolvidas hoje à tarde – Rhodes disse.
Havia esperança na voz dela, mas não muita. Chloe percebeu que estava se sentindo da mesma forma.
- Vamos fazer o que Johnson sugeriu – Chloe disse. – Voltar para Washington e esperar por Alejos. Talvez até lá nós já tenhamos mais informações sobre Mitchell Beck.
- Parecem muitos caminhos. Muitas chances de sermos despistadas.
- Ou todos esses caminhos podem acabar em uma mesma direção – Chloe pontuou.
Rhodes riu.
- Você está sendo meio que ‘do contra’ comigo desde ontem.
Quer compartilhar algo?
Chloe sorriu e respondeu.
- Talvez um dia. Mas por agora, vamos deixar isso para lá e investigar Mark Fairchild.