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CAPÍTULO 4 AS DECISÕES DA CORTE INTERAMERICANA DE DIREITOS

4.1 Análise dos casos brasileiros na Corte Interamericana de

4.1.2 Caso Nogueira de Carvalho e Outro (n° 161)

A Comissão Interamericana de Direitos Humanos recebeu a denúncia em 11 de dezembro de 1997, peticionada pelo Centro de Direitos Humanos e Memória Popular (CDHMP), pelo Holocaust Human Rigths Project e pelo Group of Internacional Human Rigths Law Students, em nome dos pais e da filha da vítima.

Afirmava que a República Federativa do Brasil havia faltado com sua obrigação de garantir a Francisco Gilson Nogueira de Carvalho o direito à vida e também de realizar uma investigação séria sobre sua morte, processar os responsáveis e promover os recursos judiciais adequados.

Francisco Gilson Nogueira de Carvalho era advogado defensor de direitos humanos, trabalhava para a organização não governamental Centro de Direitos Humanos e Memória Popular filiada ao Movimento Nacional de Direitos Humanos.

Dedicou parte de seu trabalho a denunciar crimes cometidos pelos “Meninos de Ouro”, um suposto grupo de extermínio de que fariam parte policiais civis e outros funcionários estatais.

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CORTE INTERAMERICANA DE DIREITOS HUMANOS. Caso Nogueira de Carvalho y Otro vs. Brasil. Sentença de 28 de novembro de 2006. Disponível em:

Em consequência das denúncias apresentadas por Nogueira de Carvalho, diversos integrantes da polícia civil do Estado do Rio Grande do Norte começaram a ser investigados por crimes como homicídios, sequestros e torturas e, em virtude disso, sofreu numerosas ameaças de morte.

Em 20 de outubro de 1996, na cidade de Mocaíba, Estado do Rio Grande do Norte, Gilson Nogueira de Carvalho foi vítima de uma emboscada e foram disparados dezoito tiros contra seu veículo, vindo a morrer com uma hemorragia intracraniana.

Em 9 de junho de 1997, foi feito o pedido de arquivamento do inquérito policial do assassinato mencionado, sob o argumento de que não existiam instrumentos idôneos que possibilitassem a definição da autoria do crime, pedido este acolhido pela juíza da Primeira Vara da Comarca de Mocaíba.

O inquérito foi reaberto depois de uma investigação particular feita pelo amigo da vítima, A. L., que logo em seguida também foi assassinado. Ele afirmava que havia contradições entre alguns depoimentos prestados e elementos que não tinham sido devidamente esclarecidos.

O Instituto Nacional de Criminalística da Polícia Federal concluiu que um cartucho encontrado no local da morte de Nogueira de Carvalho havia sido disparado pela espingarda calibre 12 (doze), marca Remington, apreendida na residência de O.E.M., ex-policial militar.

Assim, o acusado foi julgado pelo Tribunal do Júri de Natal, mas, por cinco votos a dois, o veredicto absolveu o réu.

Em 21 de janeiro de 1998, a Comissão abriu o prazo de noventa dias para o Estado brasileiro se manifestar e informar sobre o ocorrido, porém não houve resposta. Em 21 de agosto de 2000, uma organização não governamental, chamada Justiça Global, foi incorporada como copeticionária.

Em 10 de março de 2004, a CIDH aprovou um relatório, no qual presumiu verdadeiros os fatos alegados, uma vez que não foram contestados pelo Estado (que se manteve silente durante todo o tempo até então).

A CIDH recomendou ao Estado uma série de medidas em razão da violação dos direitos consagrados nos artigos 8° (garantias judiciais) e 25 (proteção judicial) da Convenção Americana.

Ainda encaminhou o relatório ao Estado, dando-lhe dois meses para que informasse sobre as medidas adotadas. Este prazo foi prorrogado por duas

vezes, e, em 10 de agosto e 13 de outubro de 2004, o Estado brasileiro se contentou em informar à CIDH que o Ministério Público havia apelado da sentença do Tribunal do Júri que absolveu o único imputado pela morte de Nogueira de Carvalho e que o governo federal iniciaria negociações com o governo estadual do Rio Grande do Norte para providenciar as indenizações aos familiares das vítimas.

Em 12 de janeiro de 2005, o governo brasileiro enviou à CIDH seu terceiro relatório, informando que as medidas judiciais estavam sendo adotadas pelo Ministério Público para buscar solução dos processos criminais e requereu que o caso não fosse encaminhado à Corte Interamericana.

No entanto, essa demanda acabou sendo submetida à Corte, porque o Brasil deixava de prestar as informações devidas à Comissão e não observava suas recomendações.

Como defesa na Corte Interamericana, o Estado brasileiro apresentou duas exceções preliminares:

a) Incompetência ratione temporis da Corte: o Estado alegou que se estava buscando a sua condenação indiretamente pela violação do artigo 4° da Convenção Americana (direito à vida) e a Corte não teria competência para julgar esse fato, pois o assassinato ocorreu anteriormente ao reconhecimento da competência contenciosa da Corte pelo Estado brasileiro.

Como visto, o Decreto Legislativo n° 89/98 que reconheceu a competência jurisdicional da Corte Interamericana é enfático no sentido de que o Brasil se submeteria a ela pelos fatos ocorridos a partir daquela data, ou seja, a partir de 1998. No entanto, o assassinato de Nogueira de Carvalho fora no ano de 1997.

Este tribunal internacional, seguindo sua jurisprudência, decidiu ser competente para examinar todas as violações de direitos humanos contínuas ou permanentes, ainda que tenham tido início antes do reconhecimento da sua competência.

Por consequência, é competente para conhecer das violações aos artigos 8° e 25 da Convenção Americana, porque até o momento do recebimento da denúncia o Estado não havia assegurado aos familiares das vítimas as garantias judiciais devidas.

b) Não esgotamento dos recursos internos: quando o caso foi submetido à Corte, havia dois recursos na Justiça brasileira pendentes de

julgamento, o recurso especial e o extraordinário, os quais poderiam reverter o julgamento inocentando o suposto assassino de Nogueira de Carvalho.

O Estado também ressaltou que os representantes da vítima (pais e filha da vítima) pediram indenização perante o sistema interamericano, porém nunca procuraram instâncias nacionais para fazer pedido semelhante.

A Corte Interamericana desconsiderou também essa exceção preliminar, alegando que o Estado deveria ter indicado expressamente o não esgotamento dos recursos internos durante o processo de admissibilidade da Comissão Interamericana de Direitos Humanos, momento processual adequado para apresentar essa defesa, conforme as regras do sistema. Como não o fez, presume-se que a tenha renunciado tacitamente.

O processo seguiu seu trâmite perante a Corte e, apesar de todo o ocorrido, no dia 28 de novembro de 2006, por unanimidade, decidiu-se que não foi demonstrado que o Estado brasileiro violou os direitos às garantias judiciais e à proteção judicial.

Conforme observações da Corte, o processo criminal do homicídio de Nogueira de Carvalho foi conduzido de forma regular e observou todos os direitos envolvidos.

Não perdendo a oportunidade de expor suas considerações, a Corte ressaltou ser dever do Estado criar as condições necessárias para o efetivo respeito e garantia dos direitos humanos de todas as pessoas sob sua jurisdição e também ressaltou a necessidade de proteção e de reconhecimento da importância do papel que cumprem os defensores de direitos humanos.

Este foi o único caso brasileiro julgado pela Corte em que a sentença foi de improcedência da denúncia.