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3 Procedimentos Metodológicos

3.3 Categorias de análise

A partir da exposição da abordagem de diversos autores, foi possível perceber a convergência de muitas das definições sobre habitabilidade, qualidade residencial e adequação habitacional. Diante das especificidades de uma condição de centralidade histórica,

34 Apesar de não ser objeto desta pesquisa, é importante ressaltar que observadores e participantes

foram delimitadas algumas categorias para a análise da condição de habitabilidade. O primeiro conjunto de categorias está relacionado à escala urbana, às condições da área do entorno da unidade habitacional e faz referência aos fatores comentados a seguir.

Disponibilidade de infraestrutura e serviços públicos, tais como distribuição de água e tratamento de águas servidas, distribuição de energia elétrica, coleta de lixo e serviços de manutenção, limpeza e segurança urbana.

Localização e inserção na trama da cidade, que permitem o acesso cotidiano a outros bens e serviços urbanos. Estão relacionadas também com as condições de mobilidade a pé e por meios motorizados, tanto por transporte coletivo quanto individual, com o tempo e a qualidade da viagem. Nesse sentido, é importante considerar a densidade da cobertura das linhas de transporte coletivo e as condições do mobiliário urbano de suporte a ele, bem como as possibilidades de estacionamento para o transporte individual.

Qualidade do ambiente no que se refere às características das ruas, vias e espaços livres, considerando-se as condições de limpeza, manutenção, conforto acústico, térmico e lumínico, de vegetação e arborização.

Presença e possibilidade de acesso ao comércio, serviços e equipamentos públicos complementares ao uso habitacional, respeitando a escala local, tais como os serviços de saúde, educação, cultura, lazer, culto e áreas verdes, bem como a presença de comércio e serviços de vizinhança tais como lojas, supermercados, restaurantes, bares e vida noturna, levando em conta a densidade, a diversidade e a qualidade das opções.

Como foi mencionado anteriormente, a localização habitacional é o meio pelo qual se tem acesso a um sistema de bens, serviços e oportunidades no espaço urbano. É importante ressaltar que a condição urbana em que está inserida a habitação pode dificultar ou facilitar tal acesso e propiciar ou inibir práticas sociais saudáveis nos espaços públicos e de uso coletivo. De igual maneira, os equipamentos e os espaços públicos ofertados podem atrair usuários em uma escala maior do que a da vizinhança e falhar em atender às necessidades da população local. O comércio e os serviços disponíveis podem oferecer produtos complementares ao uso habitacional ou, ao contrário, ter especificidades que atraem consumidores de outras partes, gerando incômodos para os residentes, sem que sejam atendidas as demandas da população que habita a área.

Nesse sentido, ressalte-se a importância de avaliar a capacidade de cada uma das categorias expostas de atender às necessidades habitacionais. Quando se trata,

especificamente, da unidade habitacional, considera-se importante analisar os fatores relacionados a seguir.

Características da tipologia habitada em relação ao dimensionamento e à distribuição dos ambientes internos, de acordo com as necessidades do uso e com a flexibilidade da edificação (versatilidade, convertibilidade e expansibilidade da unidade) para atender às necessidades habitacionais. Esse fator está relacionado também com as condições de conforto ambiental da edificação: (i) conforto térmico, que se refere à temperatura, à umidade relativa e às condições de renovação do ar no interior da edificação, sujeito à orientação, tamanho e localização das janelas e às características térmicas dos revestimentos; (ii) conforto acústico, que diz respeito ao isolamento da unidade habitacional em relação a ruídos originados no exterior, relacionado tanto a fontes de ruído quanto aos materiais de revestimento, que determinam as condições de transmissão ou propagação do som, e (iii) conforto lumínico, relativo à iluminação natural dos diferentes recintos internos, condicionado à radiação solar exterior e ao tamanho, à localização e orientação dos elementos translúcidos, ao formato do ambiente em relação ao ponto de captação de luz e às características de reflexão, absorção e transmissão de luz dos elementos de revestimento.

Estado de conservação e condição física do imóvel em relação à segurança estrutural, segurança contra o fogo, acidentes e invasões, considerando-se a durabilidade e as necessidades para a sua manutenção. Tem relação com (i) a proporcionalidade entre os rendimentos do morador e os custos com as despesas básicas da habitação (contas e tributos) e com os reparos de manutenção preventiva do imóvel. Decorre também da relação entre (ii) a necessidade, o custo e a durabilidade das intervenções físicas e o horizonte temporal de permanência do morador.

Privacidade e segurança no que diz respeito ao sentimento de segurança contra intrusões indesejadas e de isolamento da unidade no que se refere à possibilidade do morador (i) de se reservar dos acontecimentos da rua, (ii) de ter uma vida privada sem que os vizinhos tomem conhecimento dos acontecimentos de dentro de casa.

Custo da moradia e disponibilidade de financiamento para a aquisição e/ou reforma do imóvel a fim de adaptá-lo às necessidades do novo morador. Tem relação com as limitações e as exigências das instituições bancárias tanto em relação ao imóvel quanto àquele que solicita o financiamento.

As categorias de análise aqui elencadas passaram por uma redefinição por motivos operacionais para se adequarem aos instrumentos de coleta de dados, sendo reduzidas a apenas oito categorias, das quais quatro fazem referência ao entorno da vivenda e quatro às peculiaridades da edificação. As categorias resumidas são citadas no item 5.1 do Capítulo 5.

Considerou-se, ainda, que nenhuma das categorias expostas pode ser tomada isoladamente. A avaliação sobre a condição de um imóvel de abrigar o uso habitacional se dá muitas vezes a partir de uma forte carga cultural e emocional, que determina a capacidade de uma vizinhança ou imóvel de atender às necessidades e às expectativas habitacionais, diante das limitações e motivações para a escolha, no momento em que se processa a escolha pela residência. A carga subjetiva foi, portanto, considerada durante o processo de análise, interpretação, reflexão e elaboração de conclusões.

Imagina-se que algumas das dificuldades para o uso habitacional na área de estudo, referentes à condição urbana e dos imóveis, coincidem com problemas perceptíveis em contextos de centros históricos de outras cidades. No entanto, é sabido que cada contexto demanda uma análise específica que considere a forte carga cultural que motiva a opção e a valorização habitacional. Assim, mesmo que essa abordagem metodológica possa ser aplicada em outros contextos, as conclusões obtidas fazem referência a esse contexto específico, em suas condições atuais.

No Capítulo seguinte, tratar-se-á das transformações de funcionalidade do núcleo inicial de ocupação do Recife, desde a condição inicial em que ele representava a totalidade da cidade até hoje, quando compartilha a função de centralidade urbana com outras partes da cidade. Alguns processos, ilustrados no campo teórico e normativo nos Capítulos 1 e 2, contribuíram para a compreensão da construção e desconstrução do centro histórico do Recife como lugar de moradia. O papel do centro histórico na dinâmica habitacional e o processo de construção e desconstrução da habitabilidade do Sítio Histórico da Boa Vista são tratados sob uma perspectiva histórica, o que permitiu compreender os impactos das diversas intervenções sobre o valor de uso habitacional da área. Caracteriza-se, em seguida, a condição urbana e do estoque edificado passível de uso habitacional.

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Construção e desconstrução da habitabilidade no centro histórico