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A CEGUEIRA PARA A ESCOLHA COMO UM ESTILO DE VIDA A cegueira para a escolha pode ser devastadora na vida cotidiana.

No documento Truques Da Mente (páginas 180-185)

Que a força esteja com você: a ilusão da escolha

A CEGUEIRA PARA A ESCOLHA COMO UM ESTILO DE VIDA A cegueira para a escolha pode ser devastadora na vida cotidiana.

Você já foi vítima daquele tipo de propaganda enganosa em que acredita estar comprando uma coisa mas chega em casa com outra?

Se você de fato tivesse livre-arbítrio, a propaganda e a conversa dos vendedores não surtiriam qualquer efeito. Por exemplo, quando Steve era pesquisador pós-doutoral e dividia o tempo entre dois laboratórios, ele precisava de um carro para circular entre a Faculdade de Medicina de Harvard, em Boston, e o Laboratório de Cold Spring Harbor, em Long Island. Assim, comprou um Dodge Intrepid ES preto, novo e reluzente, com teto solar, assentos reguláveis com revestimento de couro, rodas especiais, sistema de som In initi e controles automáticos de temperatura. Era um automóvel caro para o salário dele e foi um dreno em seus recursos, mas Steve racionalizou sua decisão, dizendo tratar-se de um carro incrivelmente seguro, com air bags laterais (que eram uma novidade, na época), controle de tração, sistema de freios automáticos e outros itens avançados de segurança. A inal, os longos trajetos entre Massachusetts e Nova York

exigiam uma medida adicional de segurança, certo?

É claro que sim. A decisão de Steve nada teve a ver com ele achar que as garotas gostam de carros chiques.

Para sermos justos, ele realmente foi à revendedora de automóveis com uma lista de itens de segurança desejados. Chegou ao estacionamento movido por um forte senso de responsabilidade. O vendedor deu uma espiada na lista, percebeu que os modelos mais caros eram os únicos que vinham de fábrica com as características que ele queria e, em seguida, explorou o fato de seu cliente ser um homem solteiro, com necessidades movidas pela testosterona. Steve poderia ter encomendado um modelo menor, mais simples e mais barato, com o mesmo equipamento de segurança, e esperado dois ou três meses pela chegada do carro novo. Mas o vendedor o forçou (no sentido em que a palavra é usada pelos mágicos), em vez disso, a comprar o carro de luxo.

No mundo ocidental, escolhemos nossos parceiros, certo? Os casamentos arranjados e os casamenteiros pro issionais foram fazer companhia à arte dos cercos militares e à alquimia na lixeira da história, não é? Talvez. Em tese, podemos crescer e nos multiplicar com quem bem entendermos, desde que haja um acordo recíproco. Somos livres, e, para todos os fins e efeitos, o número de nossas escolhas parece infinito.

Na prática, entretanto, quase todos temos tantas restrições à escolha de parceiros quanto um jovem oriental a caminho de um casamento arranjado. Considere o fato de que, na verdade, temos de conhecer e interagir com a pessoa com quem formamos um par. Com isso, em geral icamos restritos à mesma localização geográ ica, status socioeconômico, religião, idade, situação atual de disponibilidade e a um nível similar de atrativos. Na realidade, é di ícil encontrar um parceiro que atenda a todos esses parâmetros, sobretudo depois que concluímos o ensino médio e a faculdade. Nem chega a ser surpresa que tanta gente se case com os namorados desses períodos de estudos.

Então, até que ponto somos mesmo livres? Não muito. As práticas orientais de arranjo de parceiros são bem inteligentes, se considerarmos que as escolhas são feitas por pessoas (quase sempre os pais) que se importam com o casal, têm uma visão duramente conquistada de todo o curso da vida, das carreiras e da função parental, e levam em conta todos

os aspectos listados acima em seu processo decisório. Além disso, com notáveis exceções em algumas áreas isoladas do mundo, hoje em dia os “namorados” costumam ter, no mínimo, o poder de veto.

No Ocidente, encontrar um bom parceiro (e alguém cuja bagagem vitalícia seja tolerável – você tem ouvido boas piadas de sogra nos últimos tempos?) exige muita sorte, mas dá a impressão de ser algo completamente livre. “Eu faço minha sorte”, dizem as massas esclarecidas e capacitadas. “Acredite que você conseguirá o que deseja”, diz O segredo, de Rhonda Byrne, livro de autoajuda campeão de vendas, “e isso se manifestará.” Esse enfeitiçamento das massas é um dos maiores truques de ilusionismo inventados em todos os tempos.

Por que nossas escolhas parecem tão livres e ilimitadas? Uma das respostas está em um princípio psicológico chamado dissonância cognitiva. Ela ocorre quando duas ideias, condutas, realidades ou crenças rivais entram em con lito no cérebro. Um modo comum de o cérebro conciliar o con lito é modi icar sua atitude, suas crenças ou seus comportamentos, para colocar em destaque uma das ideias dissonantes. Os mágicos adoram a dissonância cognitiva, já que ela leva os espectadores a ter a impressão de haverem tomado suas decisões livremente e por si sós.

Um exemplo disso veio no encontro anual de 2009 da Sociedade de Neurociências, em Chicago, em que organizamos uma apresentação para ilustrar o poder do ilusionismo e sua utilidade potencial no laboratório. Nossos colegas Apollo Robbins, o Ladrão Cortês, e o mentalista Eric Mead demonstraram vários truques e princípios da mágica a mais de 7 mil neurocientistas reunidos em um enorme salão de festas.

Na noite anterior ao grande evento, vimos a dissonância cognitiva em ação quando Mead fez um truque de mágica em uma recepção oferecida pelo presidente da Sociedade, Tom Carew. Havia inúmeros neurocientistas reunidos em sua luxuosa suíte de hotel, formada por vários aposentos com vista para o lago Michigan.

Em determinado momento, Mead fez um cientista escolher uma carta em um baralho e lhe pediu que espalhasse aleatoriamente todas as cartas sobre uma área grande no chão. Só o cientista sabia qual tinha sido a carta escolhida. Então, Mead pegou uma ponta de um guardanapo de linho, entregou outra ao cientista e, esticando-o bem, arrastou o sujeito em volta das cartas espalhadas. Mead gabou-se de que detectaria alterações minúsculas na tensão do guardanapo e, dessa forma, leria sinais inconscientes da mente do cientista para descobrir a carta correta. Após

um minuto, o mágico descobriu a carta.

O interessante a respeito desse truque6 foi que, depois da recepção,

enquanto as pessoas trocavam risinhos na descida de elevador até o nível da rua, o cientista que havia participado do número externou a opinião de que Mead devia saber de antemão que carta ele escolheria. Essa conjectura foi recebida com uma negativa rápida de outra cientista, uma especialista mundial no campo de controle motor, que disse não ter havido truque algum. Na mente dela, Mead tinha claramente usado o feedback neuromuscular do guardanapo para encontrar a carta. A cientista sabia que o mágico não izera mistério sobre tratar-se de um truque, mas, ainda assim, ali estava ela, defendendo algo muito menos provável. Arrebatada pelo momento, sua dissonância cognitiva a havia ludibriado, fazendo-a enveredar por um maravilhoso caminho mágico.

Quando a pessoa toma uma decisão entre duas opções que parecem equivalentes, é comum a dissonância cognitiva entrar em ação. O indivíduo eleva o valor de sua escolha pela simples razão de se tratar de sua opção. Algum dia você já teve um chefe que tomou uma decisão idiota que se transformou em uma política imutável muito depois de ele se dar conta de que estivera errado? Dissonância cognitiva. Algum dia você mesmo já tomou uma decisão tola em relação a seus ilhos mas depois se manteve irme para “ser coerente”? Dissonância cognitiva. Já olhou com desdém para moradores da cidade de um time de futebol rival, sem outra razão senão o fato de o código postal deles situá-los no campo inimigo? Dissonância cognitiva.

A dissonância cognitiva acontece porque o nosso livre-arbítrio não é de fato livre; ele é extremamente cerceado por nosso contexto e nossa história. Isso se aplica tanto aos pensamentos e atos potenciais que nos povoam a mente como a culturas e nações: a escolha vencedora orquestra a emoção, a linguagem e a memória, para se transformar na escolha inevitável e infalivelmente correta. Na verdade, todas as decisões comportamentais nada mais são do que um re lexo da nossa história genética e ambiental.

Muita gente se aborrece quando os neurocientistas e os ilósofos a irmam que o livre-arbítrio é uma ilusão. Os que acreditam que a mente é inteiramente separada do cérebro – suposição que recebe o nome de dualismo – tendem a crer que o livre-arbítrio é uma propriedade fundamental da mente. Segundo essa visão, o livre-arbítrio é uma

qualidade distinta e numinosa do ser, que não está sujeita a leis ísicas e não é redutível à química nem a circuitos neurais.

No campo da neurociência, entretanto, não há um cisco de comprovação do dualismo. A mente é o que o cérebro faz. A consciência e a mente são produtos do cérebro.

Como é possível? Você tem a sensação de exercer pleno controle de sua mente. É claro, o cérebro executa muitas tarefas sem que você se conscientize delas. Você volta para casa dirigindo no piloto automático. Põe xícaras na máquina de lavar louça enquanto mantém uma conversa interessante. Mas e quanto a tomar decisões importantes? Então a vida mental não depende do fato de você ser livre para escolher entre diferentes cursos de ação possíveis? Seu processo decisório parece ser movido por sua volição. E essa impressão se ajusta ao seu senso de justiça e de responsabilidade moral.

Examinemos algumas linhas de comprovação da ideia (nós nos atreveríamos a dizer do fato) de que o livre-arbítrio é uma ilusão. Na década de 1970, Benjamin Libet, neuro isiologista da Universidade da Califórnia em San Francisco, fez uma série de estudos que foram os primeiros a questionar a ideia de que tomamos decisões de maneira livre e consciente. Libet pediu que os sujeitos experimentais itassem um cronômetro semelhante a um relógio, em torno de cuja periferia uma bola se movimentava a cada três segundos. Eles tinham de apertar um botão com o indicador da mão direita toda vez que sentissem vontade de fazê-lo e depois dizer a Libet onde estivera a bola (que horas eram) no momento em que decidiram fazer esse gesto. Dois aparelhos de teste – um EEG (eletroencefalógrafo) e um EMG (eletromiógrafo) – registravam sua atividade cerebral e a atividade elétrica de seus músculos. Libet constatou que os participantes tiveram a sensação consciente de querer fazer o movimento cerca de trezentos milissegundos depois de iniciada a atividade muscular. Além disso, o EEG mostrou que os neurônios da parte do córtex motor em que os movimentos são planejados se ativaram um segundo inteiro antes que se pudesse medir qualquer movimento. Existiria a possibilidade de supor que a demora se devesse ao tempo de condução entre o cérebro e os músculos. Mas um segundo inteiro? De jeito nenhum. Decididamente, havia algo interessante acontecendo ali.

Os resultados obtidos signi icam que o cérebro toma, de maneira inconsciente, a decisão de fazer o movimento muito antes de termos consciência disso. Em outras palavras, o cérebro, e não a mente consciente,

toma a decisão. Isso não combina com nossa experiência, mas é como a mente de fato trabalha. Antes que você se sinta desconcertado, saiba que há um lado positivo: embora as decisões sejam inconscientemente preparadas de antemão, você ainda pode vetar seus atos. De acordo com Libet e outros especialistas, você pode não ter livre-arbítrio, mas tem “livre recusa”.

No documento Truques Da Mente (páginas 180-185)