FUNDAMENTAL À RAZOÁVEL DURAÇÃO DO PROCESSO E DA EFETIVIDADE JURISDICIONAL?
5.7 A experiência estrangeira: case management
5.7.3 Circuitos adequados
No direito processual francês, da forma como trata Enrico Andrade, o processamento das causas perante os tribunais de instâncias superiores não é definido previamente na legislação processual. São previstos três circuitos procedimentais diversos, denominados circuit long (arts.763 a 787 do CPC italiano), circuit moyen (art.761 do CPC do italiano) e circuit court (art.760 do CPC italiano).340
Segundo Enrico Andrade os circuitos são estabelecidos em função da complexidade da causa. Alguns deles não clamam por maiores indagações probatórias, outros
339 ANDRADE, Enrico. As novas perspectivas do gerenciamento e da “contratualização” do processo. Revista de Processo,
v.193., mar. 2013, p.167.
340ANDRADE, Enrico. As novas perspectivas do gerenciamento e da “contratualização” do processo. Revista de Processo,
necessitam de provas (mas não periciais) e outros são os mais complexos, os quais demandam instrução probatória completa.
Essa variedade de percursos é estabelecida em função da complexidade da causa nos seguintes termos: (a) para o “circuito curto” se encaminham as causas muito simples e que, após a resposta do réu (ou mesmo na sua falta), comportam decisão imediata, sem maiores indagações probatórias; (b) ao “circuito médio” se encaminham as causas que não podem ser decididas de imediato, logo após a defesa do réu, razão pela qual designa-se uma segunda audiência, com troca de articulados defensivos entre as partes, sem necessidade de produção de provas mais complexas, como testemunhal e pericial; (c) já para o “circuito longo” deságuam as causas complexas
que demandam instrução probatória, mediante aquisição de provas constituendas.341
A escolha do circuito adequado (curto, médio ou longo) costuma ocorrer na primeira audiência, ocasião em que o juiz tem contato com as partes, e em conjunto com os seus advogados, define o melhor circuito para a causa. É a maior ou menor complexidade do litígio que comanda a orientação procedimental. Por meio desse instrumento, o juiz exerce verdadeiros poderes gerenciais do processo, uma vez que lhe cabe personalizar o ritmo processual de cada uma das causas, de acordo com suas características peculiares.
Se houver alteração no curso do processo, com simplificação ou complicações, ou seja, se observado que o circuito adotado não é o mais adequado, o sistema processual deve permitir a “instituição de pontes de passagem de um procedimento a outro, ou de um tipo de circuito a outro, a fim de que o procedimento possa ser reorientado para o circuito ou procedimento adequado, sem que tudo tenha de voltar ao começo”.342
No mesmo formato, no direito inglês o apontamento do necessário procedimento de acordo com as peculiaridades do caso recebe o nome de tracks que podem ser adotados pelo juiz, de acordo com o valor econômico e a complexidade de cada causa: small claims track, fast track e multi track.343
Portanto, além do conjunto de alteração e da modernização legislativa em curso no direito processual brasileiro, é preciso também alinhar o Poder Judiciário brasileiro às novas tendências de eficiência e economicidade do processo com o intuito de vencer a morosidade do Poder Judiciário brasileiro e dar proteção ao tempo do processo, nos termos preconizados no art.5º, LXXVIII da Constituição Federal.
341ANDRADE, Enrico. As novas perspectivas do gerenciamento e da “contratualização” do processo. Revista de Processo,
v.193., mar. 2013, p.167.
342 ANDRADE, Enrico. As novas perspectivas do gerenciamento e da “contratualização” do processo. Revista de Processo,
v.193., mar. 2013, p.167.
343ANDRADE, Enrico. As novas perspectivas do gerenciamento e da “contratualização” do processo. Revista de Processo,
6 CONCLUSÃO
Atualmente, a jurisdição é completa quando prestada com efetividade e, por efetividade, no processo civil contemporâneo, não se espera apenas a declaração do direito, mas sim a sua concreta e satisfatória efetivação com a entrega ao vencedor do processo tudo aquilo que lhe é de direito em um prazo razoável.
A prestação da tutela jurisdicional em prazo razoável é um direito fundamental assegurado na Constituição Federal e, diante do fato de que o processo deve ser analisado a partir da Constituição Federal, não pode este ter uma desarrazoada duração.
Por razoável duração não se concebe a ideia de prestação de tutela jurisdicional célere a qualquer custo. A celeridade para o cumprimento do direito à razoável duração do processo requer a aplicação conjunta de outros princípios basilares do processo civil, a exemplo do contraditório, da ampla defesa e do princípio do devido processo legal.
Como não poderia ser diferente, o Código de Processo Civil brasileiro não traz uma disposição legal a respeito de qual seria o razoável prazo de duração do processo, uma vez que cada um deles possui particularidades e características próprias. Assim, o prazo razoável de cada processo terá como variável a sua complexidade, as condutas das partes e das autoridades envolvidas.
Desde a década de 1990, o direito à razoável duração do processo está presente em nosso ordenamento. Inicialmente, com a promulgação do Pacto San José da Costa Rica e, em 2004, com a Emenda Constitucional nº45, ocasião em que foi assegurado como um direito fundamental de todo cidadão (art.5º LXXVIII da Constituição Federal).
Sob essa perspectiva, o Estado já sofreu condenações dos Tribunais Pátrios, bem como da Corte Interamericana de Direitos Humanos em razão da morosidade do Poder Judiciário brasileiro. Entretanto, pela experiência estrangeira, a ideia de condenação do Estado como forma de garantir o cumprimento do direito fundamental à razoável duração do processo está longe de ser uma efetiva solução.
O direito à razoável duração do processo é um direito objetivo e subjetivo. Por ser um direito subjetivo, poderá o jurisdicionado fazer uso de mandado de segurança para fazer valer seu cumprimento, quando demonstrado que a duração do processo é mesmo desarrazoada.
No campo objetivo, o legislador de direito processual civil tem conferido prestígio à duração razoável do processo relacionando-a diretamente ao anseio de efetividade
processual, criando assim, institutos com o intuito de garantir que o jurisdicionado não fique prejudicado em razão da morosidade e do congestionamento do Poder Judiciário.
São exemplos destes institutos a tutela antecipada, criada pelo legislador com a finalidade de mitigar os riscos de perecimento do direito derivada da demora da cognição exauriente, em que há produção das provas necessárias para o juiz formar seu convencimento. Essa alternativa reconhece, expressamente, os danos causados por uma excessiva duração do processo.
O procedimento monitório, com a incorporação de técnicas relacionadas ao processo de conhecimento e de execução, também consiste em mais uma alternativa do sistema processual para tornar o processo mais célere e efetivo.
A fim de auxiliar para o descongestionamento dos Tribunais Superiores, as súmulas vinculantes e a adoção do rito dos recursos repetitivos na esfera infraconstitucional consistem também em técnicas para acelerar a tramitação e contribuir para a efetivação do princípio da duração razoável do processo e para a segurança jurídica.
A flexibilização dos procedimentos, seja para inverter a ordem dos atos, inserir ou excluir atos processuais, ampliar prazos rigidamente fixados, estabelecer audiência preliminar com possibilidade de conciliação e o saneador compartilhado também são formas de dar cumprimento ao direito à razoável duração do processo.
Os meios alternativos de resolução de conflito (conciliação, mediação e arbitragem) também contribuem para amenizar a morosidade do Poder Judiciário. Por sua vez, o processo eletrônico em fase de adaptação no sistema vigente diminui o tempo despendido na realização dos atos processuais, amenizando o problema das “etapas mortas” do processo, típicas do processamento de papel.
Conforme analisamos, os institutos acima elencados contribuem para a concretização do direito fundamental à razoável duração do processo. No entanto, além deles, é preciso que as partes colaborem para a prestação de uma tutela jurisdicional efetiva em um tempo razoável.
As paralisações indevidas e o comportamento abusivo das partes devem ser alvo de análise do juiz, podendo este, com amparo na legislação, condenar os partícipes que não têm sua conduta pautada na boa-fé e no intuito cooperador de encontrar a melhor solução para o conflito.
É neste contexto que entra em cena o ativismo judicial que consiste na adoção de uma postura proativa do juiz na condução do processo, dirigindo-o como um verdadeiro
diretor, ou melhor, gestor, que em cooperação com as partes prestará uma tutela justa e efetiva.
Com base nessa ideia de ativismo, percebe-se que o juiz na condução do processo deve tomar algumas atitudes a fim de alcançar um processo célere, justo e de duração razoável. Primeiramente, a determinação da produção de provas de ofício coopera com a solução do caso. Os atos contrários ao bom andamento do feito devem ser repelidos imediatamente, sem a necessidade de manifestação das partes, com a cominação das penalidades de litigância de má-fé previstas expressamente no Código de Processo Civil.
Como trabalhado ao longo desta dissertação, não é aceitável que o juiz tenha poderes ilimitados, devendo assim qualquer pronunciamento judicial ser devidamente fundamentado. Por haver a necessidade de fundamentação é que, subsidiariamente, entende-se ser legítimo o juiz agir no processo para fazer valer os valores e objetivos da República Federativa do Brasil na ausência de lei.
A possibilidade de inovar no ordenamento é acompanhada do embate entre o ativismo e o garantismo processual. No entanto, na medida em que a Constituição Federal não assegura somente a ampla defesa, o contraditório, a imparcialidade do juiz e todas as demais garantias decorrentes da cláusula do devido processo legal, parece válida a atividade do juiz com o objetivo de assegurar outras garantias fundamentais.
Nesse contexto, o ativismo judicial pautado na hermenêutica constitucional, livre de arbitrariedade e discricionariedade, propicia a realização do direito fundamental à tutela jurisdicional prestada num tempo razoável com celeridade na sua tramitação (art.5º, LXXVIII, da Constituição Federal).
A preocupação com a razoável duração do processo, bem como a cooperação entre partes e o juiz são bastante relevantes no sistema atual. Tanto é assim que o Novo Código de Processo Civil (Projeto de Lei nº8.046/10) prevê na parte inicial, que trata dos princípios fundamentais do processo civil, a duração razoável do processo (art.5º) e o dever de cooperação entre todos os seus partícipes (art.6º).
Além do conjunto de alteração e da modernização legislativa em curso no direito processual civil brasileiro, a atividade do juiz na condução do processo é bastante significativa para a concretização da cláusula constitucional da duração razoável do processo. Assim, deve o juiz, na condução do processo, utilizar os poderes conferidos pela própria legislação para reprimir atitudes e atos processuais com o intuito de retardar a resolução do litígio.
Além disso, o juiz, com fundamento no princípio da cooperação, para bem prestar a tutela jurisdicional, na condição de gestor do processo, está autorizado, por disposições legais, a cooperar com as partes na busca da melhor solução para o caso.
Como conclusão, verificamos que os atos e condutas apontados não são exaustivos, mas ilustram a postura a ser adotada pelo juiz na condução do processo. São condutas como estas – livres de arbitrariedades, na medida em que sempre devem ser fundamentadas, atentas às garantias constitucionais, principalmente do direito à razoável duração do processo e efetividade processual – que contribuirão para a prestação de uma tutela jurisdicional mais célere, efetiva, justa e sem demora excessiva.
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