Capítulo 5 – Estratégias para a segurança do paciente em serviços de saúde
5 Comitê e Programa da Qualidade e Segurança do Paciente
Mesmo comprometida com a segurança do paciente, a direção dos serviços de saúde não consegue sozinha conduzir as ações de melhoria da qualidade nos serviços de saúde. É necessária a criação de uma instância responsável, denominada Comitê de Qualidade e Segurança do Paciente, Comissão da Qualidade, Coletivo de Vigilância em Saúde ou qualquer outra denominação. Este comitê deverá ser constituído por uma equipe multiprofissional, capacitada em conceitos de melhoria da qualidade e segurança do paciente e em ferramentas de controle da qualidade.
O comitê deve ter uma agenda periódica com a direção, principalmente com a direção médica e de enfermagem e participar de reuniões com as demais instâncias que gerenciam aspectos da qualidade, reguladas por legislação específica, a saber: Comissão de Controle de Infecção Hospitalar (CCIH), Co- missão de Revisão de Óbito, Comissão de Análise de Prontuário, Comissão de Farmácia e Terapêutica (CFT), Gerência de Risco, Gerência de Resíduos e outras.
ASSISTÊNCIA SEGURA: UMA REFLEXÃO TEÓRICA APLICADA À PRÁTICA
A principal tarefa do comitê é elaborar e implantar um Programa de Melhoria de Qualidade e Segu- rança do Paciente e monitorar as ações vinculadas ao programa. O processo de elaboração do programa necessita ser conduzido de forma participativa, com profissionais tanto da assistência, quanto das áreas de ambiente e administrativa. O programa deve ser parte integrante do plano estratégico e basear-se na missão, visão e valores do serviço de saúde. O programa deve dialogar com os planos de recursos hu- manos, de informação, de ambiente, de gestão de resíduos, com o programa de controle e prevenção de IRAS, de gestão de resíduos e outros planos ou programas existentes no serviço de saúde. O programa deve incorporar a participação do paciente na decisão do seu cuidado, sempre que possível.
O programa deve ter como objetivo a redução contínua dos riscos para os pacientes e funcionários, mitigar os eventos adversos dos pacientes e melhorar o desempenho dos serviços de saúde. O risco é a
probabilidade de um incidente ocorrer e precisa ser conhecido e calculado14. Não é possível conhecer os
diversos riscos de um serviço de saúde sem medi-los. O perigo, que no senso comum é confundido com
risco é definido pela OMS como uma circunstância, agente ou ação que pode causar dano15. O risco é o
perigo medido.
Evidentemente esse objetivo amplo não pode ser alcançado apenas pelas atividades do comitê. Deve ser de responsabilidade de todos os setores do serviço de saúde, cabendo ao comitê a coordenação.
5.1 Ações do Comitê de Qualidade e Segurança do Paciente
Existem fatores contribuintes do erro e entendê-los é muito importante. O Comitê precisa avaliar a presença desses fatores no dia a dia do serviço. Muitas vezes as atividades da rotina, sejam clínicas ou do ambiente, ajudam a entender o fator envolvido no erro, como por exemplo, o relatório da CCIH, ou da Comissão de Revisão de Óbito. Outras vezes, só é possível avaliar o fator contribuinte do erro através da realização de uma pesquisa. A pesquisa permite conhecer a realidade local. O comitê deve incentivar e participar de projetos de pesquisa sobre segurança do paciente de forma integrada com os centros de pesquisa do serviço ou de instituições parceiras.
O fator humano contribuinte associado ao maior número de eventos adversos é a falta de comunicação. A falha de comunicação pode ser entre o profissional e o paciente; entre profissionais da mesma categoria
profissional; entre profissionais numa equipe multiprofissional e durante a troca de turno/plantão16. Outro
fator que merece atenção é a exaustão (bornout) que acomete os profissionais de saúde, principalmente,
enfermeiros e cirurgiões 17,18.
O modelo do queijo suíço proposto por James Reason pode ser uma alternativa para nortear as ações do Comitê de Qualidade e Segurança do Paciente. Nesse modelo as barreiras, muitas vezes redundâncias, impendem que o erro contribua para um evento adverso, ou mesmo que o erro aconteça.
A correta identificação do paciente internado é um exemplo de barreira. A princípio, parece simples administrar o medicamento ou a bolsa de sangue certos para o paciente certo, mas não é. Como já men- cionado antes, o cuidado ao paciente se tornou uma atividade complexa. Não é mais um único profis- sional que cuida do paciente, agora é uma equipe. Um mesmo paciente recebe muitas vezes inúmeros medicamentos simultaneamente. Para evitar a troca de paciente a OMS recomenda que o paciente seja
duplamente identificado com uma pulseira e se possível com código de barra19. As barreiras podem ser
propostas pelo comitê ou por outros setores do serviço, inclusive a direção. A maioria das ações de qua- lidade e segurança do paciente será conduzida por outros setores do serviço e o comitê terá um papel de
coordenador e articulador de estruturas, políticas e procedimentos. O comitê deve difundir conhecimentos sobre o tema e capacitar profissionais em ferramentas da qualidade e segurança do paciente.
O papel de coordenador e articulador do comitê será construído no processo de sua legitimação entre os profissionais do serviço de saúde. Os membros do comitê devem ter uma postura ativa, identificando e procurando os vários setores dos serviços de saúde para a discussão das soluções possíveis para os pro- blemas. A seguir vamos comentar alguns exemplos, onde o papel coordenador do comitê é necessário.
A gerência de risco é uma estrutura presente nos serviços de saúde que participam da Rede Sentinela da Anvisa/MS e obtém informações por meio de um sistema de notificações de incidentes, na maioria das vezes, eletrônico. Um papel importante do comitê é o de discutir com os profissionais de saúde a pouca
resposta aos sistemas de notificação de incidentes20. Já foi ressaltado, anteriormente, como é forte a cul-
tura do medo, portanto garantir a alternativa do anonimato de quem notifica é fundamental. O comitê deve também discutir o encaminhamento dos incidentes notificados e em especial promover o retorno de informações aos profissionais de saúde.
Infelizmente, em muitos serviços de saúde as Comissões de Revisão de Óbito são apenas cartoriais. O comitê deve ajudar a rediscutir a importância dessa comissão nos serviços de saúde, além de propor a incorporação da auditoria clínica, com uma perspectiva educacional. O comitê deve capacitar os membros da Comissão de Revisão de Óbito no uso da ferramenta para avaliar as causas dos óbitos evitáveis, como por exemplo, a análise de causa raiz. Todos os óbitos evitáveis deveriam ser encaminhados e discutidos em uma sessão clínica. O comitê deve contribuir para o fortalecimento dos serviços de anatomia patológica e promover a integração desse serviço com a Comissão de Revisão de Óbito.
De todas as comissões da qualidade, a mais reconhecida nas instituições de saúde é a CCIH. Os relatórios dessas comissões devem ser valorizados e utilizados para melhorias tanto estruturais, como de processos.
Uma agenda com a Comissão de Análise de Prontuários e a gerência de informação contribuiria para discutir a melhoria da informação com o objetivo de introduzir barreiras quer sejam eletrônicas ou não. Essas barreiras podem evitar, por exemplo, a prescrição de doses erradas de medicamentos e possíveis interações medicamentosas.
O comitê deve contribuir para ampliar o escopo da Comissão de Farmácia e Terapêutica (CFT), que deve ser composta por farmacêuticos, médicos, enfermeiros e nutricionistas. Ainda, deve definir as várias políticas sobre medicamentos, produtos de higiene e limpeza, produtos para a saúde e saneantes nos ser- viços de saúde, incluindo: a dispensação por dose unitária de medicamentos; a descrição das interações medicamentosas e as de fármacos e nutrientes; a prescrição eletrônica; o aprazamento; o afastamento dos eletrólitos das áreas de cuidado; a reconciliação medicamentosa, a lista de medicamentos com fonética se- melhante; as embalagens parecidas e metodologia de incorporação de novos fármacos na lista padronizada. Com a direção médica, o comitê pode discutir a metodologia de incorporação de novas diretrizes clinicas e com a direção de enfermagem, o detalhamento da avaliação inicial e a inclusão de protocolos (como queda de pacientes, úlcera de pressão e outros) no plano de cuidados.