Os Trechos Solidários são espaços criados pela Teia dos Povos como instrumento pedagógico baseados nos pressupostos teóricos e metodológicos da agroecologia, objetivando difundir as práticas agroecológicas como espécie de experiências exitosas obtidas pelas comunidades no enfretamento aos problemas, numa constante troca, e na formação de consciência mais ativa enquanto atores sociais. Desta forma, o homem cria a cultura, e ao desenvolver novos saberes os transmite adiante em uma espécie de
prática pedagógica; pois, os homens educam uns com os outros, e não um ensina ao outro (FREIRE, 1977). Desta maneira, os Trechos Solidários se caracterizam e se constroem como um modo colaborativo e solidário, fundada nas experiências dos povos onde de maneira itinerante faz-se um giro nas comunidades para conhecer, fortalecer os saberes ancestrais, trocar saberes, apresentar, formar e consolidar a Teia dos Povos às comunidades, bem como despertar nos povos a necessidade de sonhar com um projeto de qualidade de vida que dialoga de forma integrante e integrada o homem, o território e a natureza.
Um dos pilares nos quais se assentam os Trechos Solidários é o constante resgate das oralidades, bem como das práticas de conhecimento e saberes de cada povo, fortalecendo a autonomia de cada comunidade ao utilizar recursos próprios. Essa metodologia é holística e complementar, pois, segundo Viana (2017), ao entender o seu papel como sujeito que pensa, reflete e age a partir da realidade concreta é que a agroecologia se faz como instrumento de transformação, luta e empoderamento dos povos; um modo de viver com os saberes ancestrais, na tentativa de suprir as necessidades do homem, e sua reprodução, numa relação menos impactante na natureza.
Os Trechos se estruturam da seguinte maneira: a chegada à comunidade é feita em formato de festa ao som dos maracás, tambores, atabaques, cantando e bailando com as Guerreiras e Guerreiros, Caboclas e Caboclos, Mikisi, Orixás, Seres de Luzes e Encantados. O segundo passo é a necessidade de uma conversa com os anciões e lideres das comunidades extraindo destas leituras das paisagens, do modo de vida que ali se cultivavam, das formas de organizações, para isso é necessário à roda dos mestres e mestras como a metodologia “prosa dos sábios”. O terceiro passo é ao ouvirem as principais dificuldades das comunidades, ocorre um planejamento participativo que conduzirá as intervenções
práticas, orientadas pela necessidade de construir a autonomia dentro dos territórios a partir da garantia da soberania alimentar e nutricional, como implantação de Sistema Agroflorestais -- SAF, orientandos principalmente pelo escambo na troca de sementes e mudas; criação da rede de sementes crioulas. O quarto passo é a verificação e (re)organização política da comunidade, aonde se estuda a situação das associações, cooperativas reformulando-as caso necessários, além do mapeamento das entidades públicas e privadas e quais as suas formas de atuações. O cuidado com as futura gerações, a partir das diversas dinâmicas de cirandas utilizando a metodologia do aprender brincando com a agroecologia, do Trato com as Mulheres, falando de diversos assuntos ligados a lida da mulher no campo, o papel da autoafirmação das mulheres através da inclusão produtiva e o trato como guardiã e provedora também da família. Trabalham ainda, a existência do processo educativo dentro da comunidade, alinhando estes com as práticas e ações culturais e religiosas nas comunidades; E, por fim, apresentam um leque de oficinas e rodas de conversas nas quais é possível compartilhar experiências advindas de outras comunidades, como forma de superar a exploração causada por um ordenamento e fragmentação do pensamento humano que não se permite pensar em agir em conjunto, fazendo estas comunidades enfrentarem lutas e resistências isoladas a partir de suas causas e problemas. Que segundo Viana (2017), embora para Teia dos Povos, seja preciso entender que educar os povos e as comunidades perpassa por compreender e respeitar a sua história, as suas origens, as suas raízes (processos ancestrais), o seu modo de vida. Dessa maneira, “[...] a Agroecologia é uma ciência integradora de diferentes conhecimentos” (CAPORAL; COSTABEBER, 2004, p. 06).
Desde sua primeira ocorrência em 2013, os Trechos Solidários da Teia dos Povos visitaram cerca de seis Territórios e mais de 20 comunidades diferentes contando com a participação
de quase duas mil pessoas. Ao todo, foram plantados mais de 10.000 árvores nativas e essências florestais do Bioma Mata Atlântica, além de cerca de 50.000 frutíferas, além de 18 hectares de alimentos para a soberania alimentar, e cerca de recuperação de 1000 nascentes pelo processo de recomposição de mata ciliar pelo processo de SAF´s e conservação Produtiva.
Baseada nesta prática, a Teia dos Povos construiu junto com o Consórcio Intermunicipal da Mata Atlântica – CIMA um programa de bem viver com povos e comunidade da Mata Atlântica, Denominado de Recuperação de 200 Mil Hectares de Recuperação de Cacau Cabruca e 200 Mil Hectares SAF´s.
Considerações finais
Ao fim da presente análise, pode-se entender que os Trechos Solidários se fundamentam em uma metodologia especial para construir o processo de autonomia das comunidades. Pois, se baseiam no “relato das experiências” como elementos possíveis e capazes de dialogar saídas para enfrentamento de problemas comuns através dos sujeitos/atores sociais que apresentam em suas oralidades os saberes que um dia foram silenciado, suprimido, preso, encaixotado e guardado pelo processo de exploração do sistema capitalista.
Por sua vez, o que impede a construção do processo de bem viver59 dos povos é o modo capitalista de produção, que, por sua vez, cria a cultura do processo de individualizar os problemas acerca das unidades produtivas, da soberania alimentar, da
59 Aqui entendemos o “bem viver” como a possibilidade do indivíduo ter acesso aos meios de produção para se reproduzir e a sua comunidade, com dignidade e em contato com as bases culturais que o constituíram como parte e meio de um território e identidade.
formação e organização política e das práticas culturais e religiosas que constroem um bem viver do povo, criando dessa maneira como afirmava Marx, atores/sujeitos descolados e desconectados da sua realidade, fortalecendo com isso o processo de exploração do homem pelo homem como algo dado e natural, o que se torna falso com o caminhar dos Trechos Solidários.
Deste modo, ao analisar os resultados da pesquisa entendemos que os Trechos Solidários se caracterizam como uma ferramenta pedagógica da Teia dos Povos na construção do novo homem que busca o bem viver orientado e lastrado pelos princípios e pilares da agroecologia com ciência e prática de vida dentro das comunidades. Nesse sentido, a Teia dos Povos representa a esperança de unidade dos povos, em sua diversidade e pluralidade, a demarcação e garantia dos territórios, recuperação dos biomas devastados, o respeito à autonomia das comunidades, a construção de uma nova matriz econômica, alicerçada na soberania alimentar e na agroecologia. Assim, é preciso resistir para existir.
Referências
ALTIERI, M. A. Agroecologia: bases científicas para uma agricultura
sustentável. Guaíba: Agropecuária, 2002.
CAPORAL, Francisco Roberto e AZEVEDO Edisio Oliveira (Orgs.)
Princípios e Perspectiva da Agroecologia. Brasília, DF: MDA/SAF/
DATER-IICA, 2004.
CAPORAL, Francisco Roberto. Agroecologia: alguns conceitos e princípios.
Brasília, DF: MDA/SAF/DATER-IICA, 2004.
FREIRE, P. Pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1977.
MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. A Ideologia Alemã. 11 ed. São Paulo:
VIANA, Carlos dos Santos. AS JORNADAS DE AGROECOLOGIA DA BAHIA: ESPAÇODE EDUCAÇÃO NÃO FORMAL DA TEIA DOS
POVOS. 2017. 72 f. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em Ciências
Sociais) Universidade Estadual de Santa Cruz, Ilhéus, 2017.
VIANA, Carlos dos Santos, RAMOS, Arlete dos Santos, RAMOS, Diego Pita. As Jornadas de Agroecologia da Bahia: Sob a Ótica da Educação não. In: COLÓQUIO NACIONAL , 12. E COLÓQUIO INTERNACIONAL DO MUSEU PEDAGÓGICO, 5., 2017. Anais... , ia da Conquista: UESB,
2017. p. 361-365. Disponível em: <http://periodicos.uesb.br/index.php/