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EDUCAÇÃO E CIDADANIA: primeiro segmento de EJA e formação de professores

em Goiás numa proposta de Educação do

Campo. UFG/INCRA-PRONERA

Cláudio Lopes Maia37

Ismar da Silva Costa38

O curso de Extensão “Educação e Cidadania: Primeiro Segmento de EJA e Formação De Professores Em Goiás, Numa Proposta De Educação Do Campo”, desenvolvido pela Universidade Federal de Goiás, Regional Catalão, em parceria com o INCRA – Instituto de Colonização e Reforma Agrária SR04 – Goiás, através do Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária, – PRONERA, teve como meta prioritária ofertar o primeiro segmento do ensino fundamental para 900 assentados/ as e acampados/as da reforma agrária em 17 municípios goianos. A escolha dos municípios assistidos pelo Projeto partiu das propostas apresentadas pelos movimentos sociais parceiros do Projeto: MST (Movimento Dos Trabalhadores Rurais Sem Terra), FETAEG (Federação dos Trabalhadores na Agricultura Familiar

37 Professor Associado I da Unidade Acadêmica Especial de História e Ciências Sociais da UFG -- Regional Catalão. Doutor em História. Professor do Programa de Pós-Graduação em História - Mestrado Profissional, da UFG/RC e do Programa de Pós-Graduação em Direito Agrário da UFG.

E-mail: [email protected]

38 Professor Adjunto III da Unidade Acadêmica Especial de História e Ciências Sociais da UFG --b Regional Catalão. Doutor em História. Professor do Programa de Pós-Graduação em História-- Mestrado Profissional da UFG/ RC. E-mail: [email protected]

do Estado de Goiás), TL (Terra Livre -- Movimento Popular do Campo e da Cidade), bem como das orientações postas pelo setor gestor do PRONERA (Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária), do INCRA em Goiás, tendo por base o conhecimento empírico da realidade de cada assentamento e acampamento selecionados.

A proposta de desenvolver um projeto educativo ligado aos assentamentos e acampamentos da Reforma Agrária em Goiás constituiu-se como um desafio para a Universidade Federal de Goiás -- UFG. Desafio este que vem ao encontro da concretização da proposta da UFG, na construção da cidadania junto às populações do Estado, mediante a socialização do saber científico, conforme estabelecido em sua Missão no Plano de Desenvolvimento Institucional (PDI).

As políticas públicas educacionais, que tratam mais especificamente dos diferentes tempos de aprender e das diversas formas de estar em diferentes níveis de escolaridade, vêm sendo tratadas de modo precário e descontínuo, haja vista o número de pessoas, tanto na área urbana quanto na rural, que não têm acesso ao ensino público.

Por sua vez, os programas oficiais que sugerem e encaminham os conceitos instrucionais a partir dos padrões urbanos das escolas formais, que se distanciam da vida desses educando/as e são tomados como valores únicos para a especificidade da Educação de Jovens e Adultos, não conseguem apresentar uma escola com conteúdos aptos para a resolução das necessidades imediatas desses sujeitos. Acrescente-se a isso a distribuição e uso dos tempos que, tanto no cotidiano quanto na escola, novamente, opõem o urbano ao rural, pois, neste último, os fenômenos da natureza comandam seu uso, uma vez que a noção de tempo pauta-se, sobretudo, na relação entre tempo de plantar e tempo de colher.

Conforme a Lei 9.394, de 20 de Dezembro de 1996, das Diretrizes e Bases (LDB), no seu artigo 28, em que aponta direcionamento específico para escola do campo.

Art. 28. Na oferta de educação básica para a população rural, os sistemas de ensino promoverão as adaptações necessárias à sua adequação às peculiaridades da vida rural e de cada região, especialmente:

I - conteúdos curriculares e metodologias apropriadas às reais necessidades e interesses dos alunos da zona rural;

II - organização escolar própria, incluindo adequação do calendário escolar às fases do ciclo agrícola e às condições

climáticas;

III - adequação à natureza do trabalho na zona rural.

Neste contexto, a educação na Reforma Agrária, que, neste projeto se concretizou por ações pedagógicas que tomaram esses homens e mulheres como sujeitos históricos inseridos e partícipes da e na realidade dos assentamentos e acampamentos, é fundamental, no sentido de se comprometer e construir, processualmente, uma realidade outra para a educação do e no campo no Brasil.

O trabalho se pautou, fundamentalmente, nos princípios freireanos, tendo por parâmetro as Diretrizes Curriculares da Educação de Jovens e Adultos, e Diretrizes Operacionais para as Escolas do Campo. Associando a proposta freireana às pesquisas de Educadores/as com relevância para a EJA.

O domínio da leitura e da escrita é uma exigência da contemporaneidade em quase todas as culturas, quer na área urbana ou rural. Desse modo a educação de jovens e adultos, a que se propôs esta pesquisa, buscou inserir, nesse mundo pautado pela escrita e pela leitura, esse segmento da população que, histórica e reconhecidamente, é excluído dos conhecimentos

socialmente construídos, seja nas escolas de ensino regular, seja nas universidades.

Tomar a Educação de Jovens e Adultos como temática não remete, inicialmente, só a pensar na faixa etária que caracteriza esse grupo de homens e mulheres que não concluíram o ensino fundamental na chamada ‘idade correta’, mas também é apreendê-los num determinado contexto cultural. Portanto, as considerações teórico-metodológicas deste projeto basearam nessa compreensão de mundo e desse sujeito no mundo, bem como, nos princípios da educação popular, sendo reconhecida como um processo em constante reflexão-ação sobre a prática, pautando-se na ideia de educação como um diálogo entre educador/a e educando/a, em que o/a professor/a é reconhecido/a como mediador/a do conhecimento socialmente produzido.

A prática educativa com jovens e adultos, de um modo geral, e, nos assentamentos e acampamentos rurais, em especial, tem confirmado em nós a certeza de que há nela uma especificidade que precisa ser conhecida, valorizada e assumida pelos/as educadores/as, pelos próprios educandos/as, pelo sistema educacional brasileiro, que tem relegado, cada vez mais, o atendimento a esses alunos/as.

É de conhecimento de todos que trabalham com EJA que a oferta de classes noturnas de EJA nas cidades apresenta índices elevados de evasão. Isso, dentro de uma expectativa de atendimento da população urbana. Essa realidade, se projetada para atender às demandas advindas dos trabalhadores e trabalhadoras rurais, moradores do campo, resultaria, provavelmente, num fracasso absoluto, haja vista as condições impostas pela natureza, como destacamos acima, que regulam o trabalho no mundo rural, bem como as dificuldades de transportes, alimentação, e mesmo o tempo de deslocamento desses sujeitos. Outro fator que merece destaque são as distâncias dos assentamentos dos centros urbanos,

as condições das estradas, enfim, a ausência de logística e de estrutura para atender a essa demanda específica de escolarização do mundo rural. Seja qual for o motivo, o desafio é o mesmo: Como trabalhar em Educação de Jovens e Adultos a partir da realidade de assentados e acampados?

Portanto, o que propomos com estas considerações é explicar as bases que orientaram nossa prática de EJA, e que, a partir deste projeto, acreditamos, poderão ser aprimoradas e acrescidas com o contato com trabalhadores/as e famílias de trabalhadores/as assentados e acampados no Estado de Goiás. As linhas gerais dos conteúdos que foram trabalhados com os/ as educadores/as e educando/as foram direcionadas para os conteúdos programáticos previstos nas orientações e exigências legais da LDB 9394/96, no que concerne ao conhecimento científico acumulado historicamente e às interfaces deste com a realidade concreta vivida pelos assentados e acampados, conforme prevê as orientações do INCRA/PRONERA.

Os conteúdos curriculares básicos foram trabalhados neste projeto com a preocupação de atender às necessidades da formação dos/as educadores/as, aqui, reconhecidos/as como educadores/ as e multiplicadores/as, aos quais couberam a tarefa de escolarizar no 1º segmento, assentados/as e acampados/as previstos/as em nossa pesquisa. Esses conhecimentos foram mediados pelas experiências dos/a alunos/a numa interação constante com o contexto político, histórico e cultural da realidade do campo no Estado de Goiás.

Foto 01- Montagem de sala de aula no Acampamento Dom Tomás

Balduino/MST – Formosa/Go.

Fonte: Ismar S. Costa.