Capítulo 7. Desenvolvimento ao “sabor” do turismo? O caso Serra da Estrela
7.6 Que caminhos percorrer ao “sabor” do turismo para estimular o consumo de PAR?
8.2.4 Consumo turístico de PAR
Tal como no ponto anterior, a fim de avaliarmos a importância do consumo turístico de PAR locais na RTSE, recorremos não só à opinião colhida nas entrevistas realizadas, mas também ao inquérito por questionário aplicado. Também neste ponto, acreditamos que algumas das limitações
da nossa investigação interferiram com a profundidade das nossas conclusões. Efectivamente, apesar de termos concluído quanto à possibilidade de ampliação do mercado dos PAR pelo estimulo ao seu consumo junto da indústria turística, continuamos com algumas dúvidas quanto à actual dimensão deste mercado, já que as variáveis que escolhemos analisar nos deixaram reservas quanto à significância das suas respostas.
Referindo-se à despesa turística realizada em lojas, as entidades entrevistadas constatavam que esta era expressiva apenas numa área geográfica muito limitada: no eixo Covilhã – Seia. Efectivamente, no que às lojas respeita, a quando a selecção dos estabelecimentos a inquirir, foi neste eixo que encontrámos a maior abundância de estabelecimentos. No mesmo sentido, recordamos, o estudo do PETUR onde era referido um baixo nível de despesa turística em PAR. No entanto, boa parte das entidades reconheceu estar a processar-se na RTSE uma intensificação da ligação entre os PAR e o turismo ao nível da restauração, reconhecendo o potencial do canal turístico como forma de escoamento dos PAR, principalmente para as pequenas produções, onde as dificuldades em aceder às grandes superfícies são superiores. Contudo, apesar daquela tendência, a maioria das entidades referia que a ligação actual ainda é pouco importante. Como justificação foram apontados factores como: a existência de uma massa turística não sensibilizada e não esclarecida para as diferenças entre os produtos genuínos e os não genuínos; a falta de poder de compra associada ao elevado preço dos PAR; a falta de escala de produção na maior parte dos PAR; a falta de ética na oferta turística, que vende como genuínos produtos que não o são; a falta de fiscalização; a falta de um sistema de certificação de origem na restauração; a falta de lojas de venda de PAR na maior parte dos concelhos; a falta de hábitos regionais de consumo de produtos locais; e a falta de volumes turísticos que estimulem a ligação entre a oferta turística e os PAR.
Recordando o apontado por alguns autores (e.g. Meyer et al., 2004; Torres, 2003), aqueles factores indicados pelas entidades entrevistadas como penalizadores da ligação entre os PAR e o TER na região parecem-nos de grande consistência com o indicado por outros estudos. Com efeito, entre outros factores associados à oferta indicados por aqueles estudos, são referidas as condições tecnológicas da produção de PAR, com interferência no seu nível de preços. Quanto aos aspectos associados à procura, entre outros, são apontados o tipo de turista e a maturidade da indústria turística, sendo em indústrias muito maduras o preço considerado como o factor de decisão mais importante, o que parece estar a suceder localmente, segundo as entidades. Note-se o fenómeno interessante que parece estar a ocorrer na RTSE, onde assistimos a um turismo claramente em fase de maturidade, o excursionismo, (associado à época de Inverno) e um outro tipo de turismo, aparentemente em ascensão, um turismo mais qualificado associado à natureza e à cultura. A evolução futura deste segundo tipo de turismo parece-nos pois fundamental para a evolução dos próprios PAR.
No que se refere ao nosso inquérito, os resultados obtidos foram indiciadores de um bom nível de despesa turística em PAR (média de 40,89%). No entanto, pela dificuldade em estabelecer correlações estatisticamente significativas entre esta e outras variáveis que lhe deveriam estar associadas, bem como pelo facto de se tratar de um indicador certamente não aferido na maior parte dos estabelecimentos, ficámos com algumas dúvidas quanto à significância das respostas obtidas. No entanto, relembrando as opiniões das entidades entrevistadas, bem como as baixas taxas de ocupação hoteleira que tivemos oportunidade de verificar não só ao nível da região (capítulo 6), mas também no nosso universo de análise (35,6%), independentemente do peso da despesa turística em PAR, a própria despesa turística, poderá não ser significativa de um mercado com grande expressão, essencialmente pela actual falta de um volume turístico expressivo na maior parte do ano. Por outro lado, se considerarmos a reduzida presença de estabelecimentos de alojamento e restauração, na maior parte dos concelhos fora do maciço central, parece-nos que a importância do canal turístico como escoamento dos PAR, dependerá não só do peso dos PAR na despesa turística actual, mas essencialmente da evolução futura do turismo na região.
Também considerámos relevante a distribuição da despesa pelos PAR. E, tal como concluímos anteriormente, também a este nível se assistia a uma grande concentração das respostas em torno dos PAR ovinos e caprinos, fumeiros e queijos, deixando uma grande parte dos PAR locais sem expressão.
Aqueles elementos, sugeriram-nos que a importância actual do turismo enquanto mercado de PAR é ainda baixa, em especial para uma grande parte dos PAR e para as regiões fora do maciço central. Pelo que a importância deste mercado em termos futuros dependerá grandemente da evolução do próprio turismo e de um maior nível de divulgação da totalidade dos PAR existentes na RTSE.
Procurámos ainda auscultar a opinião das entidades entrevistadas relativamente à diversidade de PAR existentes na região, parecia-nos fundamental a existência de uma oferta diversificada para o interesse turístico por tais produtos e para sua contribuição para a riqueza gastronómica local. Efectivamente, a lista informada172 foi diversificada e abundante e incluía um grande número de
produtos certificados, naturalmente, com algumas diferenças de região para região. No entanto, também nos foi transmitida a ideia de alguns de tais produtos se encontrarem em risco de desaparecimento, principalmente, pelas exigências legais cada vez mais pesadas a eles associadas, com implicações também no distanciamento da imagem que existe no imaginário das pessoas em torno destes produtos e a realidade da oferta que resiste às novas imposições legais. Outro dos aspectos essenciais com que nos preocupámos foi a avaliação da efectiva proveniência dos produtos indicados pelos respondentes como PAR, aspecto essencial para aferir da actual ligação entre a Indústria turística e os PAR locais. As conclusões que retirámos a partir do inquérito aplicado permitiram concluir quanto a um bom nível de fidelização da indústria turística aos PAR locais. Efectivamente, foi informado um peso médio de 40% das compras de PAR nas compras totais (associadas à alimentação), bem como a origem local da maior parte das compras. Os produtos onde encontrámos uma maior ligação à região foram (por esta ordem): o pão, os produtos de fumeiro, os queijos, a doçaria, e os ovinos e caprinos. Pelo contrário, os produtos onde esta ligação era menor foram: as frutas, as azeitonas, as leguminosas e o azeite, produtos em que a região também é generosa. Também procurámos averiguar quais os PAR que, com maior frequência, eram substituídos por produtos não locais. As respostas apontaram para as frutas, o azeite, os legumes e hortícolas e o cabrito ou borrego. Pareceu-nos relevante o facto de o borrego ou cabrito surgir nesta lista, já que este é precisamente o produto mais procurado e destacado na gastronomia local, aspecto que enfraquece a ligação entre os PAR e o turismo. As razões que com maior frequência foram apontadas para aquela substituição foram (por esta ordem): serem difíceis de encontrar, mais caros, os fornecimentos serem irregulares, não serem normalizados e não cumprirem as normas de higiene. Relativamente ao local de abastecimento dos PAR, a maioria dos inquiridos indicou empresas locais, ocupando as grandes cadeias de distribuição um menor peso nas respostas, aspecto que é favorável à origem local dos produtos. No entanto, e uma vez que alguns dos respondentes se referiram ao facto de ser difícil conhecer a proveniência dos produtos adquiridos, para uma análise mais profunda, seria importante realizar um novo estudo junto dos fornecedores de PAR indicados pelos nossos inquiridos.
Em suma, concluímos quanto à existência de uma oportunidade no estímulo da ligação entre os PAR e a indústria do turismo. Em especial, pela ainda reduzida presença na oferta de alguns PAR de origem local, como as frutas e o azeite, e pela possibilidade de redução da substituição, por produtos não locais, de PAR como o cabrito e o borrego. Por outro lado, acreditamos que o interesse turístico em torno dos PAR detectado no ponto anterior será favorável às potencialidades futuras deste mercado. No entanto, a sua importância para os PAR dependerá significativamente da confirmação da tendência de aumento de um turismo de qualidade focada por algumas entidades entrevistadas, bem como da sensibilização e educação de tais fluxos turísticos para a diversidade e verdadeiras características dos PAR. Só assim este mercado se poderá constituir como um efectivo lobby, que Tibério e Cristóvão (2005) concluíam ser necessário para a defesa destes produtos.