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Capítulo 2. Um recorte dos direitos autorais na sociedade da informação

2.1. Novas tecnologias

2.1.3. As formas de criação: barateamento de ferramentas e a ascensão do User

2.1.3.3. Conteúdo derivado por usuários (User-Derived Content) e a cultura do rem

Um tipo de manifestação cultural que se disseminou de forma muito intensificada especificamente por causa do desenvolvimento e barateamento de programas de produção e edição de música e vídeo e se popularizou com as plataformas de UGC é algo que Lawrence Lessig alcunhou de “cultura do remix”. Nas suas próprias palavras (2008, p. 69):

Utilizando as ferramentas fornecidas pelas tecnologias digitais - até mesmo as ferramentas mais simples, geralmente incluídas nos próprios sistemas operacionais modernos - qualquer pessoa pode criar utilizando imagens, músicas e vídeos. Ademais, utilizando as facilidades de uma rede digital livre [a internet], qualquer pessoa pode compartilhar sua criação com quem quer que seja. (...) Estas pessoas

remixam, ou "citam", uma gama de criações preexistentes de forma a produzir algo

novo. Estas "citações", no entanto, ocorrem em diferentes camadas. (...) obras

remixadas sobrepõem citações de diferentes tipos de obras intelectuais umas às

outras: sons são sobrepostos a imagens; vídeos são sobrepostos a textos; textos são sobrepostos a sons. As citações, portanto, são misturadas em conjunto. Este conjunto de citações misturadas gera a obra nova - o "remix"153.

De forma simplificada, o remix consiste na sobreposição de obras preexistentes umas às outras de forma a gerar uma obra nova. O remix pode incluir e misturar várias formas de manifestação artística distintas: como vídeos, imagens e música. GERVAIS (2009, p. 858) classifica este tipo de produção como user-derived content porque, para fins do direito autoral, toda obra que elaborada dentro da lógica do remix é considerada como obra derivada154.

Um processo muito comum de composição de uma obra remixada é o mashup musical. Mashup musical consiste em “remixes caracterizados pela combinação de elementos de duas ou mais fontes em uma nova obra (...) que pode ou não retomar explicitamente essas fontes” (NAVAS apud BUZATO et al, 2013, p. 1196). Estes elementos podem consistir tanto em músicas inteiras quando em samples (pequenos trechos de música), que são editados e sobrepostos de forma a formar uma composição nova155.

153 No original, em inglês: "Using the tools of digital technology—even the simplest tools, bundled into the most innovative modern operating systems—anyone can begin to “write” using images, or music, or video. And using the facilities of a free digital network, anyone can share that writing with anyone else. (…) They remix, or quote, a wide range of “texts” to produce something new. These quotes, however, happen at different layers. Unlike text, (...) remixed media may quote sounds over images, or video over text, or text over sounds. The quotes thus get mixed together. The mix produces the new creative work—the “remix.”"

154 No direito autoral brasileiro, esta classificação se mantém, tendo como base o art. 5, VIII, g:

Art. 5º Para os efeitos desta Lei, considera-se: (...) VIII - obra: (...)

g) derivada - a que, constituindo criação intelectual nova, resulta da transformação de obra originária;

155 Vale dizer que o mashup e o sampling não são práticas nova, tendo sido introduzida em meados da década de

1970 com o advento do hip-hop (POTE, 2010, p. 643). No entanto, são praticas que se disseminaram por causa do desenvolvimento tecnológico relativo à produção musical.

Baixando um programa gratuito de edição de som, como o Audacity156, um indivíduo que nunca tocou um instrumento na vida pode combinar os vocais de 99 Problems do Jay-Z com a base de Helter Skelter dos Beatles e compor uma música completamente nova. Através das mesmas plataformas de compartilhamento, esta mesma pessoa pode compartilhar a obra “remixada” na rede com seus amigos e outros usuários.

Em 2004, o DJ Danger Mouse segue exatamente o exemplo retratado acima e produziu um álbum inteiro de mashup das músicas do disco “The Black Album” do Jay-Z e “The White Album” dos Beatles e batizou-o de “The Grey Album”. O disco, lançado gratuitamente no site de Danger Mouse, foi considerado o melhor de 2004 pela revista Entertainment Weekly157, além de receber críticas extremamente positivas por um grande número de publicações158.

O disco alcançou atenção internacional quando a EMI, gravadora que detém os direitos autorais sobre as músicas do The White Album, enviou uma cease and desist letter ao DJ, solicitando que o disco fosse removido do site sob pena de ação judicial. Isto porque ainda que o disco não tivesse nenhuma finalidade lucrativa, Danger Mouse havia utilizado todas as músicas de Jay-Z e dos Beatles sem autorização dos detentores de direitos autorais.

Em resposta, uma organização sem fins lucrativos voltada à música, a Downhill Battle, organizou um manifesto contra a atitude da EMI no dia 24 de fevereiro de 2004. Neste dia, 170 sites disponibilizaram o disco para download gratuito e 100.000 downloads foram realizados (POTE, 2010, p. 641).

Algo parecido aconteceu em outubro de 2015, desta vez com o estudante Alex Hodowanec, um DJ amador que criou um álbum de mashup combinando canções de Kanye West com faixas da banda Weezer159. O disco foi compartilhado gratuitamente através do YouTube e do Soundcloud, mas foi posteriormente retirado das plataformas sob os mesmos argumentos do “The Grey Album”160.

É exatamente por isto que este terceiro tipo de UGC é o mais controverso dos três com relação ao direito autoral: do jeito que o sistema está estruturado, mashups e a cultura do

156 http://www.audacityteam.org/download/

157 Fonte: < http://www.ew.com/gallery/25-best-music-albums-25-years/2338838_grey-album-danger-mouse-

2004> Acesso em 10 de junho de 2016.

158 O disco tem nota 79/100 na plataforma compiladora de críticas Metacritic, que agrega notas de críticas de

diversas publicações e atribui a determinado álbum uma nota média. Fonte:

<http://www.metacritic.com/music/the-grey-album/danger-mouse > Acesso em 2 de junho de 2016.

159 “Kanye West and Weezer meet on the greatest mashup album of all time” (16/10/16). Disponível em: <

http://www.avclub.com/article/kanye-west-and-weezer-meet-greatest-mashup-album-a-226384> Acesso em 20 de junho.

160 Fonte: <http://musicfeeds.com.au/news/here-is-yeezer-the-kanye-west-weezer-mashup-album/> Acesso em

remix em geral constituem infrações ao direito autoral (HARPER, 2010, p. 418). Com relação ao direito autoral brasileiro, podemos afirmar que a prática viola diversos direitos patrimoniais do autor, como o direito a autorizar “reprodução parcial”161 (e. g. samples) e a produção de obra derivada162. Acrescendo-se a isto, ocorre ainda a violação direta do direito moral do autor de assegurar a integridade da obra163.

Vale lembrar que a lei não diferencia utilizações lucrativas e sem fins lucrativos e muito menos utilizações profissionais de utilizações amadoras, o que elucida um grande problema referente às limitações ao direito autoral. GERVAIS (2009, p. 851) sintetiza o anacronismo existente entre os sistemas de proteção autoral e este tipo de UGC:

Inicialmente, o direito autoral não havia sido concebido para uso rotineiro e individual. Evidência disto é o fato de que as exceções e limitações previstas no

Copyright Act foram elaboradas com criação profissional em mente. Isto explica o

fato de que, em diversas legislações distintas, as principais exceções ao direito autoral podem ser agrupadas em duas categorias distintas: de um lado, o uso privado de obras protegidas - tipo de utilizações consideradas "irreguláveis", as quais o direito autoral portanto abdicava sua autoridade; do outro lado, utilizações específicas realizadas por intermediários profissionais, como livrarias, escolas, tribunais, e até mesmo o próprio governo164.

Ainda não houve nenhuma ação judicial de grande porte referente à violação de direitos autorais por user-derived content e a prática continua sendo bastante disseminada, não se limitando apenas ao mashup, sem contar com os milhares de vídeos no YouTube que utilizam trechos e ideias de obras preexistentes. Pela maneira como o sistema de direitos autorais está estruturado, no entanto, todos estes artistas (e, consequentemente, a própria cultura) ainda criam fora da legalidade. Mais ainda: mecanismos de notificação e retirada, como será visto adianta, permitem com que este tipo de prática seja reprimida antes de ser judicializada. Questionamos, portanto, até que ponto isto não prejudica a função promocional do direito autoral, de estímulo à criação.

161 Art. 29. Depende de autorização prévia e expressa do autor a utilização da obra, por quaisquer modalidades,

tais como:

I - a reprodução parcial ou integral;

162 Art. 29 (...)

III - a adaptação, o arranjo musical e quaisquer outras transformações

163 Art. 24. São direitos morais do autor:

IV - o de assegurar a integridade da obra, opondo-se a quaisquer modificações ou à prática de atos que, de qualquer forma, possam prejudicá-la ou atingi-lo, como autor, em sua reputação ou honra;

164 No original, em inglês: "Copyright was not initially designed for routine individual use, evidenced by the fact that exceptions and limitations in the Copyright Act were written with the professional user in mind. This explains why, in several nations’ laws, the main copyright exceptions can be grouped into two categories: first, private use, which governments previously regarded as “unregulatable" as a practical matter, and where copyright law thus abdicated its authority; and second, specific uses by professional intermediaries such as libraries, schools, courts, and sometimes the government itself"

Tratamos, até agora, de três mudanças paradigmáticas que o desenvolvimento de novas tecnologias no ambiente digital causou no desenvolvimento de obras intelectuais: modificando por completo o suporte em que a obra é fixada, o meio por qual ela é compartilhada e a forma como ela é produzida. Apontamos também as possíveis dificuldades e problemas que estas mudanças podem causar com relação à aplicação e no cumprimento dos direitos autorais.

Todas estas dificuldades não ficaram apenas no plano hipotético. Ao longo dos últimos 20 anos, diversos esforços foram empregados de forma a tentar regular os direitos autorais no espaço digital. A próxima parte deste capítulo analisará as principais reações regulatórias aos problemas retratados acima, buscando avaliar erros e acertos da aplicação do direito autoral na prática.