Capítulo 2. Um recorte dos direitos autorais na sociedade da informação
2.2. Reações às novas tecnologias
2.2.4. Reações de Mercado
2.2.4.1. Lojas de Música Digital e Plataformas Legais de p2p
Como visto nas seções anteriores, as respostas da indústria fonográfica às novas tecnologias foi juridicamente e tecnologicamente hostil, fruto de suas intenções conservadoras em tentar manter o modelo de distribuição tradicional de música via comercialização em suporte físico. O controverso Napster, no ano 2000, ofereceu às gravadoras a oportunidade de monetizar a plataforma a partir de um serviço premium, onde seria cobrado um valor mensal aos usuários, e 80% deste valor seria repassado a elas (FISHER, 2004, p. 115). As gravadoras recusaram e o processo seguiu como descrito anteriormente.
Lojas de download de música digital começaram a despontar pouco antes da explosão do Napster, com a loja de mp3 eMusic surgindo em janeiro de 1998, com modesto catálogo de músicas. As transferências eram realizadas por download central (client/server), a partir dos servidores da eMusic ao computador do usuário. Assim como para as plataformas de p2p, a compressão dos arquivos de música digital era absolutamente essencial para sua viabilização, uma vez que a velocidade da internet do usuário comum à época tornava inviável o download de um arquivo na qualidade de uma gravação de CD.
A primeira empreitada de sucesso, no entanto, surge apenas 5 anos depois, em 2003, com a criação da iTunes Music Store (iTMS) da Apple. A plataforma vende faixas individuais por US$0,69-0,99 e discos por cerca de US$9,99, e seu catálogo inicial contava com artistas de grandes gravadoras como EMI, Universal, Sony e Warner. A aquisição é feita através de download e a faixa fica armazenada no computador do adquirente. Cinco dias após seu lançamento, a plataforma vendeu mais de um milhão de faixas individuais e foi considerada
um sucesso para a indústria283. Outras plataformas legais, como o Amazon Music e a Zune Marketplace despontaram na trilha do sucesso da iTMS.
Em paralelo a isto, houve um esforço das grandes gravadoras em competirem diretamente com plataformas p2p, utilizando seu mesmo modelo. As plataformas legais de p2p consistiam em redes fechadas e pagas que permitiam o mesmo tipo de compartilhamento de plataformas como Kazaa e LimeWire, só que sob controle dos detentores de direitos autorais (MIZUKAMI, 2007, p. 163). A Qtrax foi uma plataforma que adotava esta estrutura284. O modelo não vingou e a estrutura da iTMS prevaleceu de forma que a plataforma, em 2013, já havia vendido 25 bilhões de faixas ao redor do mundo285.
É indispensável notar, no entanto, a peculiaridade principal das plataformas de download de música digital: a maior parte delas se utilizou amplamente das já mencionadas tecnologias de DRM e audio file formats específicos em suas faixas, de forma a impossibilitar seu uso sem restrições, vinculando-as a determinados softwares ou aparelhos específicos para sua reprodução (ERICSSON, 2012, p. 1800; MIZUKAMI, 2007, p. 161). Exceção a este modelo era a eMusic, que desde sua concepção vendia suas músicas no formato .mp3.
Em 2004, a distribuição de música via plataformas digitais representava cerca de 2% da receita advinda do mercado de música global286 (IFPI, 2008, p.6), e o número subiu discretamente para 5% em 2005 e 11% em 2006. Enquanto isso, houve uma queda drástica na venda de CDs no mesmo período, queda esta que não foi amenizada pelas vendas digitais. O gráfico abaixo representa um panorama do mercado fonográfico estadunidense entre 2000 e 2012.
283 “Apple's Online Music Store Makes Strong Debut” (5/5/2003). Fonte:
<http://www.wsj.com/articles/SB105214495077652700> Acesso em 7 de maio de 2016.
284 “Qtrax Launches: Free and Legal Music Downloads Have Arrived” (26/1/08). Fonte:
<http://readwrite.com/2008/01/26/qtrax_launches_free_and_legal_1/> Acesso em 6 de maio de 2016.
285 “Apple Press Release: iTunes Store Sets New Record with 25 Billion Songs Sold” (6/2/2013). Disponível em:
< https://www.apple.com/pr/library/2013/02/06iTunes-Store-Sets-New-Record-with-25-Billion-Songs-Sold.html > Acesso em 7 de maio de 2016.
286 Vale dizer que o relatório do IFPI aponta 3 principais fontes de receitas da indústria fonográfica: vendas
FIGURA 6 – Comparação Mercado de Música Física x Digital nos EUA em bilhões de dólares (2000-2009)
Fonte: Adaptado de TSCHMUCK (2014)
Esperava-se que, com as respostas regulatórias legislativas, judiciais e tecnológicas da indústria da música contra compartilhamento ilegal de faixas em plataformas p2p, o ambiente estivesse propício não apenas para o crescimento da distribuição digital de músicas, como o crescimento da indústria como um todo (ARDITI, 2014, p. 413). No entanto, como aponta o gráfico acima, a venda de álbuns físicos sofreu uma queda drástica ao longo da década de 2000, enquanto as vendas digitais, apesar de constantemente crescentes, não impediram a queda nas vendas de forma geral.
Algumas razões podem ser apontadas para justificar o baixo crescimento das vendas digitais a partir de lojas de download de música:
(i) As tecnologias de DRM presentes nas faixas vendidas, que impediam a livre utilização dos arquivos e tornavam os downloads ilegais ainda mais atraentes aos consumidores;
(ii) Uma grande parcela do mercado de venda de música digital estava concentrada em uma única plataforma, a iTMS, que compõe cerca de 32% do mercado em 2014287 (ARDITI, 2014, p. 417); e
287 Isto gerou diversos problemas de direito concorrencial para a Apple, acarretando no processo In re Apple iPod iTunes Antitrust Litigation. Como o objeto deste trabalho não é o direito concorrencial na internet, ele não
(iii) Porque, no final das contas, o modelo de negócio proposto pelas lojas de música digital via download proporcionava exatamente o mesmo produto que poderia ser adquirido pela vias ilegais de forma gratuita, a única diferença é que este ocorre dentro da legalidade. Aliás, como apontado, o produto legal é muitas vezes inferior ao pirata, desde a qualidade do áudio até as travas de DRM. Com isto, é difícil compreender qual seriam as vantagens, para o consumidor, em adquirir suas músicas a partir de lojas oficiais.
MIZUKAMI (2007, p. 159) descreve o sentimento geral dos estudiosos de direito autoral sobre as soluções de mercado neste primeiro momento de forma clara:
Querer “competir” com o compartilhamento de arquivos é um erro. (...) É possível falar-se em não perder consumidores dentre os compartilhadores de arquivos, mas não competir com o compartilhamento. O principal problema nesta empreitada, entretanto, é o de que os produtos e os serviços fornecidos pela indústria do conteúdo são alternativas inferiores à distribuição por compartilhamento. Sistemas de DRM e TPMs, como já afirmado, funcionam de modo a viciar os produtos e serviços por elas afetados (...).
Mal imaginavam eles que, em meados da década de 2010, a indústria encontraria uma forma de impulsionar o mercado se utilizando de uma tecnologia não tão recente, cobrando valores fixos de seus consumidores e, ainda por cima, se utilizando de mecanismos de DRM e TPM para proteger as obras.