CAPÍTULO 4 – A CRISE DO VALOR E DO DIREITO
4.1 A crise da formação social do valor
Anselm Jappe, em seu trabalho de síntese da nova crítica do valor e do trabalho com base em farta e pertinente análise de textos, mostrou que Marx traçou ao menos duas importantes e distintas teorias de crises capitalistas. Mormente no terceiro volume dO
Capital, Marx teria analisado as crises cíclicas do capitalismo enquanto forma normal do
funcionamento deste, uma vez que mesmo a prosperidade possível no interior deste modo de produção era dinâmico e não estático. Mas Marx teria teorizado também, em especial nos Grundrisse, sobre uma possível “crise final” do capitalismo, e teria insistido nela até o final da vida. Escreveu este crítico:
Para Marx, a coincidência essencial entre capitalismo e estado de crise não é apenas resultante de incoerências quantitativas entre os diferentes factores da economia capitalista (incoerências que faziam as delícias da teoria do subconsumo, florescente na época keynesiana). A tendência do capitalismo para a crise é algo que já está contido na estrutura da mercadoria com a respectiva separação fundamental entre a produção e o consumo, entre o particular e o universal. Cada nova etapa da crise mais não faz do que desdobrar uma vez mais este potencial de crise (JAPPE, 2006, pp. 133-134).
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Jappe termina por demonstrar que em Marx a teoria crítica do valor está em uma
unidade com a teoria da crise, em especial nesta segunda acepção (2006, p. 134). O
desenvolvimento pleno da lógica do valor coincide com o declínio e colapso das formas institucionalizadas das sociedades produtoras de mercadorias emuladoras e realizadoras derivadas desta mesma lógica. Ou, nas palavras deste autor, “...Marx prevê o desmoronamento da produção do valor precisamente como consequência do desenvolvimento da lógica do valor” (2006, p. 135). Uma das consequências mais visíveis deste limite interno absoluto da (i)lógica social do valor, tratado por Marx nO Capital é a tendência declinante da taxa de lucro. Não se pode, contudo, ver na tendência declinante da taxa de lucro a única manifestação dos limites internos absolutos do capitalismo, é apenas uma das mais visíveis140.
Jappe mostra também que o desenvolvimento da sociedade mercantil, cujo metabolismo é forçosamente submetido à lógica do valor, atingiu a proximidade de seu limite absoluto, sobretudo a partir do advento da expansão da microeletrônica141. É por conta disso que o Marx analista e crítico dos limites sócio-categoriais do capitalismo ainda é plenamente pertinente. Em suas palavras:
A esperança de que o capitalismo acabasse por desaparecer porque um proletariado sempre mais numeroso, mais miserável, mais concentrado, mais consciente e mais organizado o viesse abolir terminou antes ainda de chegar ao fim o capitalismo. Nestas circunstâncias, é a outra parte da teoria da crise de Marx que se torna actual: aquela parte da teoria em que Marx antecipou no plano lógico a crise final. O único erro de Marx foi considerar crises finais as crises de sua época, que de facto não eram mais do que crises de crescimento, e nem sequer das mais graves. Foi necessário ainda mais um século para se chegar ao ponto em que a autocontradição inerente ao capitalismo começa a impedir o respectivo funcionamento e em que a máquina entra em aceleração vertiginosa. O que vem hoje à luz do dia é uma crise muito mais profunda do que as que no passado desencadeavam desproporções quantitativas momentâneas. A contradição entre o conteúdo material e a forma valor conduz à destruição do primeiro (2006, p. 137).
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Cf. a nota 69 desta tese.
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A crise estrutural do capitalismo, vista assim, tem o sentido de uma deterioração da realidade social material pela imposição da forma valor à atividade humana (na forma da abstração trabalho) e ao intercâmbio social (na forma de mercadoria portadora de valor) no interior desta realidade.
O avanço tecnológico, em especial na microeletrônica, não só livra as sociedades das necessidades do trabalho em geral como do trabalho considerado produtivo do ponto de vista capitalista – a saber, o trabalho passível de gerar mais-valia que retroalimenta a reprodução do capital (2006, p. 145). A cada inovação tecnológica realizada para se aumentar a produtividade do trabalho em face dos imperativos da concorrência, mais se escasseia os meios de extração de mais-valia do sistema, numa espiral descendente que ruma a um limite – embora existam sempre poderosas tendências contrárias a operar.
É nesse contexto preciso que devemos situar o chamado neoliberalismo como fase do desenvolvimento do sistema produtor de mercadorias. Não se trata nem da inabilidade nem de má gestão política ou empresarial, muito menos de um golpe ou complô destes atores para saquear ou desmontar o bom e velho estado keynesiano. “Pelo contrário, o neoliberalismo era a única maneira possível de prolongar ainda um pouco mais o sistema capitalista” (JAPPE, 2012, p. 49).
Tendo esta contradição lógica, que pode ser desenvolvida no plano do pensamento a partir do conceito de mercadoria e de valor, se realizado historicamente, resta àqueles que movimentam o “sujeito automático” emular artificialmente as circunstâncias de valorização do valor não mais possíveis pelos meios tradicionais. Vem daí a ascensão, no último quartel do século XX, da financeirização profunda do capitalismo que redunda em agudos colapsos no novo século142.
O impacto das economias produtoras de mercadoria e de valor com seu limite absoluto, entretanto, não resulta em uma pacífica, gradual e racional transição rumo a um outro modo de metabolismo e de intercâmbio social. Antes, esse limite é ele próprio
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Para estudos recentes acerca da “financeirização” do capital, Cf. dentre outros (MAGDOFF & FOSTER, 2008, p. 20 e ss.) e (CALLINICOS, 2010, p. 77 e ss.), além do já clássico (CHESNAIS, 1998).
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naturalizado e pensado como uma barreira a ser transposta em uma nova etapa da “fuga para a frente” do capital143. Para a Nova Crítica do Valor, com a revolução microeletrônica, todavia, as possibilidades destas fugas para a frente atingem um inelutável limite e a contradição de base da mercadoria alcança sua maturidade histórica.
Essa crise agravou-se infinitamente por via da revolução informática. Esta revolução já não instaura um novo modelo de acumulação: desde o início, a informática torna inúteis – ‘não rentáveis’ – enormes quantidades de trabalho. Diferentemente do que se passou com o fordismo, a informática provoca essa inutilidade a um ritmo tal que já não há extensão de mercado que seja capaz de compensar a redução da parte de trabalho contida em cada mercadoria. A informática corta definitivamente o laço entre a produtividade e o dispêndio de trabalho abstrato incarnado no valor. Ela põe a girar o “circulo vicioso” a que temos vindo a assistir de há vinte anos a esta parte (JAPPE, 2006, pp. 147- 148).
Com isso, as diversas modalidades de emulação fictícia, artificial e especulativa de capital se transformaram no único modo de sobrevida de um sistema de intercâmbio social “zumbi”, para usar uma expressão de Chris Harman (2009). A “lógica” da mercadoria e do valor, tornada obsoleta e socialmente irracional por seu próprio desenvolvimento, passa a ser imposta em detrimento das potencialidades materiais e sociais que este desenvolvimento mesmo propiciou. Não se trata apenas de uma crise econômica, mas de uma crise civilizatória, que culmina em diversas crises distintas:
As diferentes crises – económica, ecológica, energética – não são simplesmente “contemporâneas, nem estão apenas “ligadas”: são a expressão de uma crise fundamental, a da forma-valor, da forma abstracta, vazia, que se impõe a qualquer conteúdo numa sociedade baseada no trabalho abstracto e na sua representação no valor de uma mercadoria. É todo um modo de vida, de produção e de pensamento, que tem pelo menos duzentos e cinquenta anos de idade e já não parece capaz de assegurar a sobrevivência da humanidade. (...) A mercadoria e o trabalho, o
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Para Jappe a “fuga para a frente” do capitalismo é a suspensão de suas próprias leis para garantir seu funcionamento (2006, p. 146) levando ao esgarçamento irrevogável das condições de possibilidades de sua reprodução.
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dinheiro e a regulação estatal, a concorrência e o mercado: por trás das crises financeiras que se repetem desde há mais de vinte anos, cada vez mais graves, perfila-se a crise de todas estas categorias; categorias que – é sempre bom lembra-lo – não fazem parte da existência humana, desde sempre e em toda a parte (JAPPE, 2012, pp. 54-55).