Quadro metodológico
2.4. Culturalismo, multiculturalismo ou multi-individualismo?
Ao longo de todo o texto temos aludido a uma perspetiva de análise do comportamento humano tendo por referência o mundo animal. Não menos vezes tentamos pôr em evidência a dinâmica económica como um correlato da ação concorrencial equivalente à luta sobrevivência empreendida no mundo animal no acesso aos recursos escassos e pela dominância genética. Contudo, para nós humanos a pergunta mantém-se: o que realmente nos distingue dos outros seres?!
Dunbar (2006) refere que o aumento progressivo do neocortex cerebral, sobretudo ao nível dos primatas, permitiu uma evolução do lóbulo frontal, onde se processa a informação relativa à ação social dos animais. Nos humanos esta característica anatómica ter-se-á desenvolvido, proporcionalmente, de uma forma extremamente superior. O que viria a permitir uma aplicação mais complexa daquilo a que chama as “ordens de intencionalidade38” da teoria da mente.
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Conceito desenvolvido pelo filosofo da mente americano Daniel C. Dennett. Segundo a sua perspetiva, as estratégias que mantém qualquer indivíduo pertencente a uma comunidade na qual se encontra congêneres seus – ou, em geral, qualquer indivíduo A que interaja com outro B – dependem da maneira como A considera que sua própria conduta influirá no que faça B. Os cálculos podem chegar a ser tão complicados no vaivém das expectativas como os que realiza um jogador de xadrez antecipando os movimentos.
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Gráfico 5. Nível de intencionalidade dos hominídeos (Dunbar, 2006: 180).
No mundo animal em geral estas ordens de intencionalidade não excedem o segundo nível, enquanto no ser humano podem aplicar-se até um sétimo nível. Este facto assume particular importância uma vez que aparentemente fundamentam todo o edifício mental social que suporta uma eventual ação “cultural” (Anexo 30). Ou seja uma apreensão do mundo e da realidade para além dos automatismos reativos diretos, permitindo uma reflexão e questionamento dos dados observados, permitindo relações e elaborações criativas cumulativas sobre esses aspetos.
Para este processo gradual, teria em muito contribuído a aquisição da capacidade de fala e linguagem. Se buscarmos as razões para que este facto inédito tenha ocorrido na nossa espécie e não nas outras, verificamos que, tal como afirma Dunbar, esta conquista do génio humano terá resultado de uma necessidade de criar mecanismos de convivência social em função do aumento do número de efetivos das comunidades de pertença. Reportando-nos novamente ao domínio animal, sugere ele que, a ação social humana não é tão singular quanto isso. Na verdade, há cerca de 500 000 anos ter-nos-íamos relacionado em termos de comunicação interpares através de comportamentos mais elementares e próximos aqueles que os chimpanzés, nossos ascendentes na linha evolutiva, ainda mantêm. Por incrível que possa parecer, o catamento, seria uma atividade que proporcionava uma exploração das relações sociais, através da interação direta, constituindo uma das sofisticações iniciais do longo percurso racionalizante.
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Gráfico 6. Tempo passado em catamento (Dunbar, 2006: 122).
Nesta ação eram postos à prova as reações antagónicas, mas também as comuns, ou seja, aquelas que permitiam a criação de laços de identidade, partilha e cumplicidade. Esta atividade promovia uma libertação de endorfinas39 que motivam um bem estar resultante desta interação.
A razão pela qual os humanos transformaram este comportamento social em linguagem/fala prende-se com o aumento do número de efetivos de cada grupo. O que à partida implicaria, a necessidade de um período de tempo muito maior para permitir a evolução, uma exploração e coesão intragrupal.
Assim, progressivamente o catamento, foi dando lugar à verbalização, o que permitia uma interação mais rápida e simultânea com vários indivíduos, deixando mais tempo disponível para as necessárias tarefas de caça, recolha e preparação de alimentos. Segundo o autor, em substituição do contacto físico como mecanismos despoletantes de endorfinas ao nível do neocortex cerebral, o ser humano teria desenvolvido o riso e a música. Estes seriam aspetos da vida social, que a par da representação pictórica e pintura revelariam estados de espírito e interpretações individuais e de afinidade entre pares.
39 “A endorfina é um neurotransmissor, assim como a noradrenalina, a acetilcolina e a dopamina, substância química esta utilizada pelos neurônios na comunicação do sistema nervoso e também um hormônio, uma substância química que, transportada pelo sangue, faz comunicação com outras células. Sua denominação se origina das palavras ‘endo’ (interno) e ‘morfina’ (analgésico). A endorfina é produzida em resposta à atividade física, visando relaxar e dar prazer, despertando uma sensação de euforia e bem estar” (Ghorayeb & Barros Neto, 1999, cit. in Yara Perrone, s. d.: 3).
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Assim, o desenvolvimento mais rápido do cérebro dos humanoides terá sido o aspeto preponderante na conquista da singularidade, daquilo que nos distingue da maioria dos outros seres – Cultura40.
No entanto, nos dias de hoje e para a argumentação que desenvolvemos, torna-se pertinente tentar perceber se esta capacidade (produção/registo/transmissão de cultura), expressa a singularidade interpretativa dos indivíduos e se por sua vez ela representa traços identitários e de intervenção de uma coletividade.
A noção de “cultura de origem” é contestável porque participa de uma concepção errónea do que seja uma cultura particular. A cultura não é uma bagagem que alguém possa deslocar consigo ao deslocar-se. Não se transporta uma cultura como se fosse uma Bagagem. Querer ver as coisas dessa maneira seria cair numa reificação da cultura. O que se desloca, na realidade, são indivíduos; e estes indivíduos, devido ao próprio facto de terem migrado, são levados a adaptarem-se e a evoluírem. (Cuche, 2003: 165)
(Anexo 31)
…se nos dispusermos de facto a considerar que não há diferença essencial entre os homens e as culturas, ou seja, que o outro nunca é absolutamente outro, que há mesmo no outro, porque a humanidade é una, o que faz com que a Cultura41 esteja no coração das culturas ou, segundo a expressão consagrada, que o “universal está no coração do particular. (Cuche, 2003: 181)
… ninguém morre por falta de “cultura”…
De facto, em termos globais, na atualidade a noção de cultura, é efetivamente enigmática.
Enquanto que ao nível da economia o processo social se desenrola através da reprodução sucessiva da mesma estratégia (eficiência = lucro), o processo social ao nível cultural, desenrola-se a partir das margens, fundado no confronto da intersubjetividade e ação crítica do(s) “sujeito(s) autor(es)”, do(s) “eu(s) autotélico(s)”.
Enquanto, que o processo de produção e consumo capitalista que degradou e absorveu o projeto da modernidade se debate (devido ao seu sucesso) com as insolvências
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Enquanto dispositivo de transmissão transgeracional de habilidades cognitivas, numa perspetiva de universalidade do grupo humano.
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Tal como o autor utilizaremos o termo Cultura para designar o conceito em termos globais (macro) e
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das externalidades sociais e ambientais, que anunciam a possibilidade de uma eclosão Shumpeteriana, o processo cultural baseia-se numa tensão conflitual entre sujeito e sociedade que, no essencial, e pelo facto de se caracterizar de alguma ciclitude, dá indicações de uma capacidade de perpetuação ad eternum. Assim, a Cultura é o registo em cada presente de diferentes olhares sobre o passado e futuro.
O que distingue o grupo humano dos restantes é, não apenas o desenvolvimento de hábitos e rituais sociais progressivamente mais objetivos e coordenados, os quais também encontramos por exemplo nos chimpanzés, mas sobretudo a capacidade de utilizar a linguagem como reflexo da sua atividade mental, articulada com a capacidade de transmitir e armazenar conhecimento de geração em geração e ainda, de se questionar de forma crítica sobre o mundo que o envolve. Servindo essas reflexões novas formulações.
O processo que se inicia no sujeito, permite a este ir colecionando os apelos e traços culturais, triando-os e ordenando-os de acordo com a sua capacidade reflexiva e crítica. É esse exercício que lhe permite discorrer e situar-se criticamente entre as dimensões Cultura & culturas. Poderemos contrapor que esse processo interpretativo e reflexivo é ele próprio condicionado por uma “cultura de origem” em que o indivíduo cresceu e foi educado. A Questão que aqui se coloca é se esse suposto espartilho “fundador” é uma condicionante positiva ou negativa no processo de aculturação. Vejamos: em termos de Cultura, esse conjunto de referências de origem, de leitura e escrita da realidade será tão mais frutuoso na medida em que a permeabilidade ao exterior permitirá a cada indivíduo reconhecer-se em agregados progressivamente mais vastos, excêntricos e dinâmicos. No fundo, reconhecermos a nossa homogeneidade como resultado de um progressivo confronto e partilha de heterogeneidades, de singularidades geográficas ditadas pelo tecer do fio da história, que gradualmente acompanharam o processo de globalização, sendo recombinadas em outras latitudes. A noção consciente de Cultura é portanto um correlato desse processo de fusão.
Evidentemente que em casos de grupos dominantes e grupos dominados, existe um défice de Cultura em termos absolutos, na medida em que não é reconhecido um requisito básico universal - a equidade. Neste caso, em nosso entender, mais que uma cultura dominante e uma cultura dominada ou contracultura, existem duas subculturas que momentaneamente se confrontam relativamente à interpretação e experimentação de um ou vários aspetos diferenciais de uma Cultura Universal.
A oportunidade de conceção intelectual ao nível individual, constitui assim o cerne de todo o processo cultural. Aquilo que vulgarmente é chamado de Cultura (numa
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perspetiva do normativo, do estático e do adquirido – cultura efetiva), só é possível de aferir-se coletivamente através de consensos de identidade relativamente a um conjunto de aspetos da vida social de caráter genérico, universalista e abrangente. Ou seja aquilo que atrás referimos como, a constatação uniforme.
Porém, a parte marginal do conceito de Cultura, onde reside a subjetividade, a contestação, é fundamental porque é daí que emergem novas reflexões acerca das diferenças e originalidades, que vão reconcetualizando sincronicamente na “flecha do tempo” o conceito de Cultura em termos holísticos (cultura adaptativa).
O mais correto será portanto propor que a noção de Cultura enquanto homogeneidade e norma, se recontextualiza nesses aspetos diferenciais e particulares.
Primeiro que tudo, deve entender-se o ato de comentar assuntos de “cultura”, como o mais democrático e incontroverso. Aquele que, por mais que se debata ou argumente, é sempre consensual na sua irrazoabilidade42. Cada indivíduo é como que um alguidar, um cesto, uma bacia, uma vasilha aberta (Apêndice 8) cabendo-lhe, não obstante das normas (políticas, religiosas, económicas...) a que se obriga, a liberdade de tornar-se um agente da sua identidade e assim definir o seu conteúdo (a sua bagagem/vasilha + conteúdo). De se ir movendo por entre os normativos grupais procurando a sua permeabilidade por forma a permitir-se ir adicionando e reformulando elementos; de se ir adaptando à inconstância e à turbulência cultural que em seu torno ocorre e concorre na reescrita constante da noção de Cultura (enquanto património comum da humanidade).
As “culturas” são de facto relevantes, não tanto na aceção de Cultura (adquirido/constatado), mas de aculturação (proativo/despoletante). É nela que se pode ir tentando responder e refletindo a condição do social. Isto porque, a noção de aculturação encerra uma dupla aceção, dois polos, onde em nosso entender, pode encontrar-se um correlato significante:
Cultura (só existe uma, a Cultura humana) – registo/consenso constatação unânime de traços comportamentais e intelectuais comuns, adquiridos e transmitidos intergeracionalmente pela humanidade ao longo do processo de hominização. É atualizada sincronicamente como produto da aculturação empreendida por todos os indivíduos numa perspetiva contínua/diacrónica. Existe, desde que existe o Homem mas ultimamente tem-se
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“Num famoso trabalho publicado há mais de meio século, dois proeminentes antropólogos culturais americanos, Alfred Kroeber e Clyde Kluckholm, analisaram a literatura existente e concluíram que os antropólogos seus autores tinham usado os termos ‘cultura’ ou ‘cultural’ com pelo menos 160 sentidos diferentes. Não é grande ajuda.” (Dunbar, 2006: 135).
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tornado num processo mais amplo, mais referenciado e coletivamente mais consciente, devido à contração do espaço e tempo global.
Subculturas (da Cultura universal) - culturas - conjunto de interpretações que sincronicamente perpassam determinado individuo ou grupo de indivíduos através de um processo contínuo de aculturação interpares. Poderemos entender as subculturas como o estandarte de uma coletânea de aspetos adotados por um conjunto de indivíduos. No entanto, se atendermos a que cada indivíduo não é meramente uma réplica do seu semelhante, então a unidade elementar de uma subcultura é o próprio indivíduo. Este é a unidade elementar de subcultura, também porque pela sua interação recombina a sua bagagem de forma partilhada, não permitindo que um qualquer autismo condicione o processo de aculturação. O homem é um animal social/político.
Sociedade global = Cultura (nunca totalmente definida, nunca totalmente
estática/Evolutiva e permeável/tende a representar os consensos resultantes das confrontações entre subculturas impulsionadas por motivações de vária ordem (geográficas, étnicas, religiosas, políticas, artísticas, etc... Podendo definir aspetos comuns43 a qualquer indivíduo; ponto de encontro; denominador comum.)
Sujeito(s) local/global/grupo de sujeitos = Subcultura (nunca totalmente definida,
nunca totalmente estática. Influenciam a forma como o indivíduo perceciona e se situa perante as restantes subculturas em que não milita e perante a forma como isso contribui para a inconstância reformuladora da própria Cultura universal. Por si só não define ou representa todos os aspetos da Cultura Universal, mas possui potencial de influenciar esse propósito quando partilhada, embora em alguns casos este processo seja coercivo e imposto).
Assume um caráter mais ativo e a par de outras subculturas, caso a caso, constituem nichos de bagagem aculturante do indivíduo e consequentemente, num processo mais vasto e alargado concorrem para a reformulação (Apêndice 9) do conceito de Cultura Universal)
Há dois aspetos que pretendemos sublinhar e que julgamos fundamentais para enquadrar epistemologicamente estes dois termos nos polos que referimos:
- Utilidade – Como referimos anteriormente num tom mais ou menos irónico, ninguém morre por falta de “cultura”. Esta afirmação desperta normalmente reações politicamente corretas, mas provavelmente acompanhadas de uma perspetiva etnocêntrica
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inconsciente. Ao referirmo-nos a uma suposta cultura, devemos antes de mais lembrar que em estádios anteriores de desenvolvimento, as preocupações básicas do indivíduo (tal como refere o texto inicial – Breve história da economia), cingiam-se à satisfação das necessidades básicas44, alimentação e segurança. A odisseia humana desde África até chegar a todos os pontos do globo conduziu o ser humano a diferentes abordagens e interação com a natureza e com os elementos. O que constituiu o elemento central de desenvolvimento de comportamentos diferenciados e que consequentemente derivou em aglomerados, com traços marcados de singularidade, naquilo a que hoje normalmente chamamos de multiculturas. Ou seja, de um tronco comum emergiram adaptações diferenciadas e inconscientes (em termos holísticos45). Esta conceção de “cultura” enquanto ícone, seria aceitável numa situação de grupos isolados que mantinham traços comuns e diferenciados num contexto em que apenas era possível conhecer-se parte do todo humano. Havia portanto uma comparação inter grupos adstritos a um território, uma realidade local e a costumes particulares conhecidos.
É nessa perspetiva que podemos hoje, conceber estas subculturas de uma Cultura universal que, sabemo-lo cada vez mais hoje, sempre existiu. Se o aspeto unificador da espécie era inicialmente o tronco genético, a diáspora humana encarregou-se de recombinar essa similitude com o espaço geográfico e as realidades que os vários locais ofereciam. Neste longo processo de afastamento do biológico em que o social se desenvolvia de forma progressivamente mais ampla, acabámos por encontrar-nos, buscando novas similitudes. Acabamos por, em certa medida, derrubar alguns dos muros que até então limitavam a nossa conceção de “cultura” amuralhada. Permitindo não apenas a nossa saída de um espartilho conceptual, mas também permitindo e admitindo que o mesmo pudesse ocorrer com outras comunidades de indivíduos.
A revolução dos transportes e ultimamente a revolução das tecnologias de informação disseminaram o todo, e ao fazê-lo uniram e encurtaram os espaços fazendo movimentar as diferenças e as similitudes, sendo que a seleção e apropriação destes aspetos decorre na perspetiva da utilidade46 que encerra para cada sujeito. Ontem os agricultores sedentários trocavam os vegetais e frutos pelo peixe do pescador e pelas peles e carne dos animais do pastor. Pintavam e esculpiam figuras toscas e isso era “cultura”.
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Numa perspetiva de hierarquização de necessidades – Maslow.
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Inconsciente porque à altura dos primórdios da exploração planetária não existia uma perceção do espaço planetário para além do indivíduo e do seu grupo de pertença local.
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Utilidade, representa aqui as necessidades elementares como alimentação e segurança, mas também considerações estéticas, morais e artísticas que sucedem da forma como as primeiras são consideradas.
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Hoje todos somos em simultâneo nómadas quando viajamos, vemos um filme, navegamos na Internet, ouvimos música, comemos o caviar russo, bebemos o champanhe francês ou simplesmente plantamos uma palmeira no jardim… E quase que, nem a dormir conseguimos ser de facto, sedentários. Mesmo que mais confinados a um espaço geográfico mais definido/desvendado, somos no nosso quotidiano mais nómadas que os antepassados que percorriam longas distâncias para experimentar a aculturação.
As nossas necessidades são mais elaboradas e correm de par com a descoberta e mimetismo utilitário que fazemos dos costumes, comportamentos e produtos com os quais contactamos. Seja para atender a uma necessidade fisiológica ou espiritual, ou simplesmente a um prazer ou catarse, vamos incorporando no nosso quotidiano a miscigenação que uma aculturação vertiginosa nos proporciona.
- Unidade/identidade – A “cultura” tradicional de cada uma das comunidades que vivia mais ou menos isolada reagindo e desenvolvendo costumes e tradições de acordo com a interação particular que faziam com as especificidades do território e do clima, deu lugar a um esbatimento gradual das diferenças/particularidade existentes entre cada uma delas47. Neste processo têm grande influencia os meios de comunicação que levam a todo o globo a notícia das intempéries, das conquistas da ciência, dos desastres e preocupações ecológicas, do terror da guerra e da guerra contra o terror... Daqui emerge então uma reconceptualização identitária que deixa de se centrar tanto na esfera local descaracterizada, para se concentrar também numa dimensão global e planetária. Neste exercício ocorre como que um retorno e uma contração. Um retorno (consciente) porque utilitariamente o indivíduo tem que buscar respostas num universo mais vasto que lhe permita responder às suas necessidades de conceptualização e enquadramento identitário das novas dúvidas que exponencialmente vão surgindo. Por vezes já não a apenas meros prazeres ou considerações estéticas, mas sobretudo (atendendo ao rigor, frieza e rapidez com que os factos globais se tornam parte das nossas realidades) às necessidades básicas do homem das cavernas – alimentação e segurança.
Há algum tempo atrás sacrificar-se-iam uns quantos animais e aguardava-se que o divino intercedesse de forma favorável. Hoje porém, o espaço divino tornou-se terreno, ao nível do indivíduo. E por isso, é mais suscetível de se obterem respostas da sua ação, da
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É difícil encontrar-se um esquimó. Mais difícil ainda é encontrar-se um esquimó a deslocar-se num trenó puxado por cães, vestindo os tradicionais casacos de peles de urso e abrigando-se num iglô de gelo. Em seu lugar encontram-se as motas de neve, os casacos com Gore-Tex e Polartech e as habitações com ar
condicionado. produzidos num infindável número de origens distintas do globo. É difícil encontrar uma vaca mirandesa, barrosã ou maronesa a lavrar os campos, ou a puxar as redes de pesca nas praias. Em seu lugar estão os tratores japoneses, americanos, europeus, etc.
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sua capacidade de refletir, mobilizar, atuar e procurar interferir nas relações de causa e efeito.
A contração ocorre, porque a miscigenação de tradições, práticas, costumes e produtos a uma escala planetária diminuiu o espólio da originalidade/particularidade tradicional de cada local e, também porque a velocidade e o acesso à informação tornam, num sentido utilitário e de sobrevivência, necessária uma reflexibilidade de causa efeito à escala global. E aí inevitavelmente resta o Homem, analisando-se e comparando-se a uma escala planetária naquilo em que se reconhece no seu semelhante – Cultura Universal.
Contudo, esta perceção de onde vimos, onde estamos e para onde pretendemos ir não é um ato “pós”. Não ocorre à margem de referências nem desligado de um contexto evolutivo. Por essa razão e ainda que subsistindo essa perceção holística de traços comportamentais, preocupações e desejos, existem ao nível de cada indivíduo, os aspetos que sobejam a esse mínimo referencial comum. Referimo-nos às particularidades, decorrentes da posição de interprete da Cultura universal ocorrer a partir de realidades e contextos que embora embuídos numa dinâmica homogeneizante de contração, são