• Nenhum resultado encontrado

Da Internação

No documento eca comentado murillo digiacomo (páginas 169-188)

Art. 121. A internação constitui medida privativa da liberdade, sujeita aos

princípios de brevidade, excepcionalidade e respeito à condição peculiar de pessoa

em desenvolvimento

[537]

.

§ 1º. Será permitida a realização de atividades externas, a critério da equipe técnica

da entidade, salvo expressa determinação judicial em contrário

[538]

.

§ 2º. A medida não comporta prazo determinado, devendo sua manutenção ser

reavaliada, mediante decisão fundamentada, no máximo a cada seis meses

[539]

.

§ 3º. Em nenhuma hipótese o período máximo de internação excederá a três

anos

[540]

.

§ 4º. Atingido o limite estabelecido no parágrafo anterior, o adolescente deverá ser

liberado, colocado fim regime de semiliberdade ou de liberdade assistida.

§ 5º. A liberação será compulsória aos vinte e um anos de idade

[541]

.

§ 6º. Em qualquer hipótese a desinternação será precedida de autorização judicial,

ouvido o Ministério Público

[542]

.

537 Vide art. 227, §3º, inciso V, da CF e arts. 6º, 113 c/c 100, caput, segunda parte e par. único (notadamente seu inciso II) e 122, §2º, do ECA. Vide também itens 17.1, letra “b”, 19.1, das “Regras Mínimas das Nações Unidas para a

Administração da Justiça da Infância e da Juventude - Regras de Beijing”: “17.1. A decisão da autoridade competente pautar-se-á pelos seguintes princípios: a) ... ; b) as restrições à liberdade pessoal do jovem serão impostas somente após estudo cuidadoso e se reduzirão ao mínimo possível;” e “19.1. A internação de um jovem em uma instituição será sempre uma medida de último recurso e pelo mais breve período possível”, e item 1 das “Regras Mínimas das Nações Unidas para Proteção dos Jovens Privados de Liberdade”: “1. ... a reclusão de um jovem em um estabelecimento deve ser feita apenas em último caso e pelo menor espaço de tempo necessário” (sobre a necessidade do desenvolvimento

de iniciativas destinadas a reintegrar o jovem privado de liberdade à família e à sociedade, vide itens 79 e 80 destas mesmas Regras). Medida privativa de liberdade por excelência, a internação somente deverá ser aplicada em casos extremos, quando, comprovadamente, não houver possibilidade da aplicação de outra medida menos gravosa (cf. art. 122, §2°, do ECA), devendo sua execução se estender pelo menor de tempo possível.

538 Mesmo tendo decretada sua internação, o adolescente pode, a princípio, realizar atividades fora da unidade socioeducativa, de acordo com a proposta pedagógica do programa em execução e a critério da equipe técnica respectiva,

independentemente de autorização judicial. Para que tais atividades externas sejam proibidas a determinado adolescente em particular, deverá a autoridade judiciária competente (Juízo da sentença ou da execução, a depender da organização judiciária local), assim o determinar expressamente, mediante decisão fundamentada (cf. art. 93, inciso IX, da CF). Desnecessário dizer que, mesmo que a sentença restrinja, num primeiro momento, a realização de atividades externas, estas poderão ser autorizadas, por decisão judicial

posterior, ao longo da execução da medida, inclusive como forma de preparação para progressão de regime ou para o desligamento, valendo neste sentido

observar o disposto nos itens 79 e 80, das “Regras Mínimas das Nações Unidas

para a Proteção dos Jovens Privados de Liberdade”.

539 Vide arts. 94, inciso XIV e 235, do ECA. Uma vez aplicada a internação, sua execução deverá se prolongar pelo menor período de tempo possível, posto que orientada pelo princípio constitucional da brevidade, insculpido no art. 227, §3º, inciso V, da CF, estando sua duração condicionada unicamente ao êxito do

trabalho socioeducativo desenvolvido, e jamais à gravidade da infração

praticada. Importante não perder de vista que o adolescente é penalmente

inimputável e a medida socioeducativa não é e nem pode ser comparada ou equiparada a uma pena, pois do contrário haveria negativa de vigência ao

disposto no art. 228, da CF. Reputa-se inadmissível estabelecer, já na sentença, um prazo mínimo ou máximo para a sua duração e/ou mesmo para reavaliação

da necessidade, ou não, de continuidade da internação, que deverá ocorrer (de

forma automática e obrigatória - inclusive sob pena da prática do crime previsto no art. 235, do ECA) no máximo a cada seis meses. Neste sentido: Habeas

corpus. Aplicação de medida socioeducativa de internação. Estipulação do período de seis meses para a respectiva reavaliação. Correção da sentença para, nos termos do §2º do art. 121 do ECA, esclarecer que seis meses será o prazo máximo para a reavaliação (nada impedindo seja esta realizada com

anterioridade). (TJPR. 1ª C. Crim. HC nº 167.693-3. Rel. Des. Gil Trotta Telles.

Ac. nº 17319. J. em 02/12/2004). Tal reavaliação deverá ser feita por uma

equipe interprofissional (psicólogo, pedagogo e assistente social, que detém

condições técnicas e efetivas para tanto), sendo realizada preferencialmente em períodos curtos (a cada três ou quatro meses, no máximo), ou a qualquer

momento, tão logo se constate que o adolescente reúne condições de ser

transferido para semiliberdade ou para medidas em meio aberto (conforme arts. 113 c/c 99, do ECA). A reavaliação da necessidade ou não da continuidade da execução da medida se constitui num verdadeiro incidente de execução, que deve ser instaurado no momento da chegada do relatório ou laudo respectivo, e tramitar com o máximo de celeridade e prioridade, em especial de modo a evitar que o adolescente permaneça internado por um período superior ao

estritamente necessário (cf. arts. 4º, par. único, alínea “b” e 121, caput,

primeira parte, do ECA e art. 227, §3º, inciso V, primeira parte, da CF). Uma vez instaurado o incidente, deverá ser colhida a manifestação do Ministério Público e da defesa do adolescente acerca do teor do relatório ou laudo (cf. arts. 5º, incisos LIV e LV, da CF e arts. 110 e 111, do ECA). Importante destacar que o

prazo máximo a que se refere o dispositivo é dirigido à autoridade judiciária competente para reavaliação, que até a data-limite do referido prazo deverá

proferir nova decisão, que de maneira fundamentada (cf. art. 93, inciso IX, da Constituição Federal), decidirá se o adolescente, à luz dos elementos técnicos fornecidos, deve ou não ter extinta ou substituída a medida privativa de liberdade em execução por outra (cf. arts. 113 c/c 99, do ECA). Ressalte-se ainda que o referido prazo deve ser computado a partir do momento em que o

adolescente é privado de liberdade, incluindo-se o período de internação provisória, antes da sentença, de forma análoga à detração prevista no art. 42,

do Código Penal. Neste sentido: HABEAS CORPUS. Estatuto da Criança e do

Adolescente. O Paciente foi apreendido pela prática do fato análogo ao crime tipificado no art. 121, §2º, I e II do Código Penal, e a sentença proferida em 01 de julho de 2009 julgou procedente a pretensão punitiva estatal e aplicou a medida de internação (fls. 12/14). Cumpre destacar que o Paciente está internado provisoriamente desde 07 de abril de 2009. O Impetrante obsecra a concessão da ordem para que a reavaliação da medida imposta seja realizada até o dia 07 de outubro de 2009, data em que o Paciente completará 6 (seis) meses de internação. Para tanto, aduz que o período de internação provisória deve ser computado no prazo estabelecido pelo art. 121, §2º, do ECA, em analogia ao disposto no art. 42, do Código Penal. Tem razão o Impetrante. O

art. 121, §2º, do ECA estabelece que a medida de internação não comporta prazo determinado, e sua manutenção deve ser reavaliada, mediante decisão fundamentada, no máximo a cada seis meses. A medida sócio-educativa de internação é o instrumento utilizado pelo Estado para alcançar a ressocialização do adolescente que pratica ato infracional cometido mediante violência ou grave ameaça, ou que se mostra infrator contumaz. Por ser uma medida de exceção, o exegeta deve interpretar a norma que a impõe de modo restritivo. Assim, tal como ocorre com as prisões cautelares previstas no ordenamento Penal e Processual penal, deve incidir na espécie o instituto da detração penal, previsto no art. 42, do ‘Codex’ Repressivo. Ademais, em observância aos princípios da proporcionalidade e razoabilidade, não se pode dar tratamento mais severo ao adolescente infrator do que aquele dispensado ao imputável submetido à pena privativa de liberdade. Precedentes deste Tribunal e do Superior Tribunal de Justiça. CONSTRANGIMENTO ILEGAL CONFIGURADO. ORDEM CONCEDIDA, para determinar que a reavaliação da medida de internação imposta ao paciente ocorra até o dia 07 de outubro de 2009. (TJRJ. 7ª C. Crim. HC nº

2009.059.05605. Rel. Des. Márcia Perrini Bodart. J. em 18/08/2009). Vale também destacar que a gravidade genérica da conduta não pode ser invocada para o decreto ou manutenção da privação de liberdade do adolescente, dadas as normas e princípios, inclusive de ordem constitucional, aplicáveis à matéria, razão pela qual uma vez constatado a possibilidade de substituição da medida privativa de liberdade por outra menos rigorosa, o adolescente deverá ser desinternado. Sobre a matéria, vale colacionar os seguintes arestos: Direito

Processual Penal. Habeas Corpus. Estatuto da Criança e do Adolescente. Ato infracional equivalente ao latrocínio tipo previsto no artigo 157, parágrafo 3º, segunda parte do Código Penal. Medida socioeducativa de internamento aplicada sem prazo mínimo. Parecer favorável da equipe técnica pelo desinternamento. Objetivos da medida alcançados. Manutenção do internamento sem motivação plausível. Falta de justa causa e violação ao princípio da brevidade.

Constrangimento ilegal configurado. Ordem concedida. 1. A medida

socioeducativa de internação não tem qualquer finalidade punitiva e deve durar, por mandamento constitucional expresso, o menor espaço de tempo possível. 2. É elementar que sua duração está unicamente condicionada ao atendimento, com êxito, de seus objetivos sociopedagógicos, atestáveis através de parecer técnico, devendo após o oferecimento deste, ser o menor colocado em liberdade. 3. Tendo o parecer técnico concluído que a medida privativa de liberdade atingiu seus objetivos sócio-pedagógicos e a adolescente ostente condições de ser inserida em medidas que podem ser cumpridas no meio aberto, a mantença da internação configura constrangimento ilegal, por falta de justa causa e ofensa ao princípio da brevidade, remediável via ‘writ’. 4. A decisão repelindo as

conclusões da equipe técnica quanto ao desinternamento da menor, impondo a manutenção - sem qualquer prazo - da medida anteriormente aplicada, não pode permanecer incólume, justificando-se a concessão do ‘habeas corpus’ em favor da paciente, custodiado em educandário para menores. (TJPR. 1ª C. Crim.

HC nº 168.706-9. Rel. Juiz Conv. Mário Helton Jorge. Ac. n° 17584. J. em 10/02/2005); HC. ECA. INTERNAÇÃO. ATO INFRACIONAL CORRESPONDENTE A

HOMICÍDIO (ART. 121, CAPUT, DO CP). ALEGAÇÃO DE AUSÊNCIA DE FUNDAMENTAÇÃO PARA A MANUTENÇÃO DA INTERNAÇÃO. MOTIVAÇÃO SUFICIENTE (ART. 93, IX, DA CF). FIXAÇÃO, EM SENTENÇA, DE PRAZO CERTO PARA CUMPRIMENTO DA MEDIDA. IMPOSSIBILIDADE. VEDAÇÃO EXPRESSA DO §2° DO ART. 121 DO ECA. PLEITO DE APLICAÇÃO DA MEDIDA DE LIBERDADE ASSISTIDA. POSSIBILIDADE. ADOLESCENTE QUE, DURANTE O TEMPO EM QUE ESTEVE INTERNADO, DEMONSTOU COMPROMETIMENTO COM SEU

APERFEIÇOAMENTO PESSOAL, MORAL, EDUCACIONAL E PROFISSIONAL, BEM COMO CAPACIDADE DE SER NOVAMENTE INTRODUZIDO NA SOCIEDADE. PROGRESSÃO DE MEDIDA QUE DEVE SER PAUTADA NA RECIPROCIDADE E NA

CAPACIDADE DO JOVEM EM RESPONDER À ABORDAGEM SOCIEDUCATIVA. LIBERDADE ASSISTIDA QUE, NO MOMENTO, FIGURA-SE MAIS ADEQUADA ÀS NECESSIDADES DO PACIENTE. ORDEM CONCEDIDA. 1. O Estatuto Infanto- Juvenil, pautado na teoria de proteção integral, previu a reavaliação das medidas aplicadas no prazo máximo de seis meses, fazendo com que o tempo de duração da medida aplicada passe a guardar uma correlação com a conduta do educando e com a capacidade demonstrada por ele de responder à

abordagem socioeducativa. 2. A internação não tem caráter punitivo, mas, como todas as demais medidas socioeducativas previstas pela Lei nº 8.069/90, possui intento de proteger, socializar, educar e orientar o adolescente, atentando aos princípios de brevidade, excepcionalidade e respeito à condição peculiar de pessoa em desenvolvimento, aos quais está sujeita (art. 121, ‘caput’, da Lei 8.069/90). 3. A medida de internação é salutar e indicada em casos onde o adolescente necessite de afastamento do meio onde vive, bem como de internalização de valores morais, sociais e de reflexão sobre os atos infracionais cometidos. Entretanto, a internação de forma desnecessária pode ter um impacto negativo na educação e no desenvolvimento do adolescente. (TJPR. 2ª

C. Crim. HC-ECA nº 0571370-2. Rel. Des. José Mauricio Pinto de Almeida. J. em 23/04/2009); AGRAVO DE INSTRUMENTO. ESTATUTO DA CRIANÇA E DO

ADOLESCENTE. ATO INFRACIONAL. ROUBO MAJORADO PELO CONCURSO DE PESSOAS E EMPREGO DE ARMA. PROGRESSÃO DE MEDIDA SOCIOEDUCATIVA DE INTERNAÇÃO COM POSSIBILIDADE DE ATIVIDADES EXTERNAS PARA SEMILIBERDADE. LAUDO AVALIATIVO FAVORÁVEL. MENOR SEM ANTECENTES E COM BOA CONDUTA DURANTE O CUMPRIMENTO DA ICPAE E ISPAE. DECISÃO QUE DETERMINOU A PROGRESSÃO MANTIDA. PRECEDENTES DESTA CORTE. Ainda que se cuide da prática de ato infracional grave, roubo duplamente majorado, o relatório avaliativo recomenda a progressão, uma vez que o menor evoluiu em seu comportamento, não apresentou nenhuma intercorrência disciplinar e cumpriu com todas as condições impostas. Agravo ministerial desprovido, de plano. (TJRS. 7ª C. Cív. A.I. nº 70035649169. Rel. Des. Jorge

Luís Dall’Agnol. J. em 28/05/2010); ESTATUTO DA CRIANÇA E DO

ADOLESCENTE - ECA. HABEAS CORPUS. ATO INFRACIONAL EQUIPARADO AO CRIME DE HOMICÍDIO QUALIFICADO. APLICAÇÃO DA MEDIDA

SOCIOEDUCATIVA DE INTERNAÇÃO POR PRAZO INDETERMINADO. PARECER TÉCNICO OPINANDO PELA PROGRESSÃO DO MENOR PARA SEMILIBERDADE. INDEFERIMENTO PELO JUÍZO MANTIDO PELO TRIBUNAL A QUO. PRINCÍPIO DA EXCEPCIONALIDADE. ARTS. 227, §3º, V, DA CF E 122, §2º, DO ECA.

CONSTRANGIMENTO ILEGAL CONFIGURADO. ORDEM CONCEDIDA. 1. Tratando- se de menor inimputável, não existe pretensão punitiva estatal propriamente, mas apenas pretensão educativa, que, na verdade, é dever não só do Estado, mas da família, da comunidade e da sociedade em geral, conforme disposto expressamente na legislação de regência (Lei 8.069/90, art. 4º) e na Constituição Federal (art. 227). 2. De fato, é nesse contexto que se deve enxergar o efeito primordial das medidas socioeducativas, mesmo que

apresentem, eventualmente, características expiatórias (efeito secundário), pois o indiscutível e indispensável caráter pedagógico é que justifica a aplicação das aludidas medidas, da forma como previstas na legislação especial (Lei 8.069/90, arts. 112 a 125), que se destinam essencialmente à formação e reeducação do adolescente infrator, também considerado como pessoa em desenvolvimento (Lei 8.069/90, art. 6º), sujeito à proteção integral (Lei 8.069/90, art. 1º), por critério simplesmente etário (Lei 8.069/90, art. 2º, ‘caput’). 3. É certo que o magistrado, no momento da reavaliação da medida socioeducativa imposta, não está vinculado a pareceres e relatórios técnicos, podendo, com base na livre apreciação de outros elementos de convicção e motivadamente, dirimir a controvérsia. 4. Entretanto, tem-se como fundamento insuficiente para desconsiderar o laudo técnico favorável à progressão do menor para a medida

de semiliberdade a gravidade genérica da conduta, tendo em vista a própria excepcionalidade da medida de internação, admitida, somente, nas hipóteses legalmente previstas. 5. Ordem concedida para assegurar a progressão do menor à medida de semiliberdade, se por outro motivo não estiver internado.

(STJ. 5ª T. HC nº 105119/PI. Rel. Min. Arnaldo Esteves Lima. J. em 11/09/2008); e MENOR - INTERNAÇÃO - PROGRESSÃO PARA LIBERDADE

ASSISTIDA - PARECERES FAVORÁVEIS. Tanto quanto possível, há de adotar-se postura geradora de esperança na evolução do menor. A internação é medida extrema e deve ser substituída mormente quando a manifestação técnica e a jurídica - do fiscal da lei, Ministério Público - forem favoráveis. Precedentes: Habeas Corpus nº 75.629-8/SP, acórdão publicado no Diário da Justiça de 12 de dezembro de 1997, e nº 85.598-9/SP, acórdão veiculado no Diário da Justiça de 16 de dezembro de 2005, ambos de minha relatoria. (STF. 2ª T. HC nº

98518/RJ. Rel. Min. Eros Grau. J. em 25/05/2010).

540 Vide art. 235, do ECA. Este prazo máximo de duração da medida privativa de liberdade extrema abrange todos os atos infracionais anteriores à sentença que a decretou e ao início de sua execução (ainda que, por uma razão ou por outra, não tenham sido por ela expressamente abrangidos), vez que não há previsão

legal para o “somatório” de medidas socioeducativas. Assim sendo, por exemplo,

independentemente de quantos tenham sido os atos infracionais anteriores à sentença em cujos procedimentos houve o decreto da medida socioeducativa extrema da internação, estará o adolescente sujeito ao máximo de 03 (três) anos de privação de liberdade previsto pelo art. 121, §3º, do ECA (que logicamente não poderá ser previamente fixado na sentença face o disposto no

art. 121, §2º, primeira parte, do ECA, estando sua duração condicionada ao

tempo em que se fizer estritamente necessária, ex vi do disposto no art. 121,

caput, primeira parte do ECA e art. 227, §3º, inciso V, primeira parte, da CF).

Devemos lembrar que a tônica do procedimento para apuração de ato infracional é a celeridade, e se isto não foi respeitado, e o adolescente não recebeu, ao tempo e modo devidos, a intervenção socioeducativa que se fazia necessária na espécie, não pode ser por tal razão prejudicado (mais uma vez devemos lembrar a regra de interpretação contida no art. 6º e o princípio consignado no art. 100, par. único, inciso II, do ECA). Para atos infracionais praticados após o início da

execução da medida ou sua extinção, por outro lado, abre-se a possibilidade de

aplicação de nova medida da mesma natureza, mais uma vez respeitados os parâmetros legais específicos. Assim sendo, novamente a título de exemplo, uma vez aplicada a medida de internação a um determinado adolescente, decisões posteriores, de igual teor (que também venham a aplicar a internação ao mesmo adolescente), porém relativas a fatos anteriores ao início da execução da medida, devem ser consideradas “absorvidas” pela primeira decisão, não podendo permitir seja extrapolado o prazo máximo previsto no art. 121, §3º, do ECA ou mesmo impedir que o adolescente submetido à medida de internação venha a ser beneficiado com a “progressão” para a semiliberdade ou medidas em meio aberto por seus méritos, tão logo tenha condições para tanto (sob pena de violação do princípio da brevidade - vide art. 121, caput, do ECA - e da própria natureza jurídica e finalidade das medidas socioeducativas em geral). O correto, em tais casos, é a reunião dos feitos ainda pendentes para decisão única ou, na pior das hipóteses, a unificação das medidas aplicadas, para fins de execução. Neste sentido, vale colacionar os seguintes arestos: APELAÇÃO. ECA.

ATO INFRACIONAL. ROUBO. GRAVE AMEAÇA (ARMA DE FOGO). AUTORIA E MATERIALIDADE CONFIRMADA. APLICAÇÃO DE MEDIDA SOCIOEDUCATIVA DE INTERNAÇÃO. ADOLESCENTE INTERNADO POR ATO INFRACIONAL ANTERIOR. UNIFICAÇÃO DA MEDIDA. CABIMENTO. Autoria A autoria foi comprovada pela prova oral colhida em juízo. Materialidade Demonstrada pelo registro de ocorrência policial, pelo auto de avaliação indireta e pela prova oral colhida em juízo. Medida Socioeducativa. Caso em que as condições pessoais do

representado e a gravidade do ato infracional praticado indica o acerto da sentença em aplicar a medida socioeducativa de internação sem possibilidade de atividades externas. Extensão de internação anteriormente aplicada Diante do fato de que o adolescente já está internado pelo cometimento de outro ato infracional e diante da procedência da atual representação é cabível a unificação da medida de internação, tendo como marco inicial do cumprimento da medida a data da primeira internação. NEGARAM PROVIMENTO. (TJRS. 8ª C. Cív. Ap. Cív.

nº 70031804610. Rel. Des. Rui Portanova, J. em 17/09/2009); e HABEAS

CORPUS. MEDIDA SÓCIO-EDUCATIVA DE INTERNAÇÃO APLICADA POR FORÇA DE SENTENÇA. SUBSTITUIÇÃO DESTA PELA DE LIBERDADE ASSISTIDA. RELATÓRIO TÉCNICO FAVORÁVEL E CONCORDÂNCIA DO MINISTÉRIO PÚBLICO. DEFERIMENTO. SUPERVENIÊNCIA DE NOVA SENTENÇA, POR FATO ANTERIOR ÀQUELE JULGADO, QUE APLICA MEDIDA DE INTERNAÇÃO. MANUTENÇÃO DA INTERNAÇÃO. INVIABILIDADE. OBJETIVO JÁ ATINGIDO COM A EXECUÇÃO DA MEDIDA POR DECISÃO ANTERIOR. ORDEM CONCEDIDA. Em razão do caráter sócio-educativo da medida de internação e da comprovação, por meio de relatório técnico, dos resultados positivos dela, não se justifica nova aplicação desta medida, decretada por sentença superveniente, concernente a fato anterior àquela aplicada. (TJPR. 2ª C. Crim. HC nº 161.059-7. J. em

26/08/2004). Caso, no entanto, o adolescente, após o início da execução da medida de internação, venha a praticar novos atos infracionais e, em razão deles, seja novamente sentenciado à internação, será possível, a partir desta nova decisão, computar novo período máximo de 03 (três) anos, ex vi do disposto no citado art. 121, §3º estatutário impedindo, por exemplo, que um adolescente já em vias de completar o período máximo de internação, envolvido numa rebelião na unidade onde cumpre a medida, na qual tenha participado da morte de outros companheiros, não possa ser novamente sentenciado à internação por tal conduta.

541 Vide art. 2º, par. único, do ECA. O presente dispositivo se constitui numa das exceções de aplicação do Estatuto da Criança e do Adolescente a jovens entre de 18 (dezoito) e 21 (vinte e um) anos de idade, continuando em pleno vigor apesar da alteração na idade do advento da plena capacidade civil, promovida pelo art. 5º, do Código Civil de 2002. Uma vez atingido o limite etário de 21 (vinte e um) anos, não mais será possível a aplicação e/ou execução de

qualquer medida socioeducativa, devendo ser o jovem desinternado

compulsoriamente, com o máximo de celeridade (vide art. 235, do ECA). O dispositivo, a rigor, também estabelece uma causa de extinção da pretensão

socioeducativa estatal, valendo mencionar que, em momento algum, a Lei nº

8.069/1990 dispõe sobre a “prescrição”. A matéria foi objeto da Súmula nº 338, do Superior Tribunal de Justiça: “A prescrição penal é aplicável nas medidas

sócio-educativas”. Em que pese o disposto na referida súmula, aplicação da

prescrição penal aos procedimentos para apuração de ato infracional praticados

No documento eca comentado murillo digiacomo (páginas 169-188)