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De como se tentou criar uma “cultura nacional”

Livros RTP – Biblioteca Básica Verbo

2. De como se tentou criar uma “cultura nacional”

“Nada contra a Nação, tudo pela Nação” – o conhecido slogan salazarista inspirava uma conceção de governo segundo a qual o monopólio da força se concentrava no poder executivo que, logo no tempo da Ditadura Militar, procedeu à estruturação institucional do campo cultural no sentido da cria- ção duma “cultura nacional”. Assim viram a luz do dia, em 1932, a Academia Nacional das Belas-Artes e o Conselho Superior das Belas Artes; no ano se- guinte nasceria o Secretariado de Propaganda Nacional, com a vocação de influenciar os vários espaços da produção cultural no sentido da “portugalida- de” (funcionava junto da Presidência do Conselho; Secretariado Nacional da Informação, Cultura Popular e Turismo, SNI, a partir de 1944). Virada para o ensino nasce, em 1936, a Junta Nacional de Educação, de onde sairia o Insti- tuto para a Alta Cultura e, depois, a Academia Portuguesa de História. Sendo o projeto doutrinador em causa sistemático, procurava apropriar-se também de espaços sociais: a Fundação Nacional para a Alegria no Trabalho, de ins- piração alemã, as Casas do Povo (1933) e as Casas dos Pescadores (1937), a Mocidade Portuguesa e a Obra das Mães para a Educação Nacional, entre outros, concretizam esse projeto, respetivamente junto dos trabalhadores e do povo mais humilde, da juventude e das mulheres. Um dos “aparelhos reprodu- tores da ideologia salazarista” (Torgal 1989: 171) que convém aqui evocar são as Bibliotecas das Casas do Povo, um dos pilares da “cultura popular” que o Estado salazarista quis lançar (Torgal 1989 e Melo 2001).6 Quando se pensa

em instrumentos/executores de planificação do Estado Novo, avulta a figura

6 Em 2002, Melo foi Prémio de História Contemporânea da Universidade do Minho por este

Misérias e Esplendores da Tradução no Portugal do Estado Novo

de António Ferro e a sua “Política do Espírito”, da qual se salientam, a partir de 1934, os prémios a “artistas de talentos vários” como objetivação da “intenção de influenciar os diversos ramos da expressão cultural” (Ó 1992: 412).

Tudo indica, porém, que as tentativas de enquadramento do LIVRO falha- ram.7 A respetiva produção sextuplicou em 30 anos (o número de entradas na

Biblioteca Nacional ao abrigo do Depósito Legal, entre 1930 e 1960, passou de 1 000 para 6 500). Também o Grémio Nacional de Editores e Livreiros (criado em 1939), com o seu órgão Livros de Portugal (a partir de novembro de 1940), revela que o seu número de sócios passou de 164 em 1939 para 510 em 1960. Entre 1945 e 1949 as Bibliotecas Ambulantes do SNI tentaram responder ao propósito de integrar as camadas populares, fazendo circular a cultura escrita. Um caso particularmente elucidativo para o nosso assunto são as queixas, na primeira metade dos anos 50, de dirigentes das Bibliotecas das Casas do Povo, acima referidas, quanto à escassez de oferta de livros. No Mensário das Casas do Povo de dezembro de 1954, se por um lado de- paramos com queixas em relação aos editores por nenhum se ter entretanto resolvido a “elaborar o plano de uma colecção de 100, 200 ou 300 volumes para as bibliotecas”, obras “de carácter tradicionalista e nacionalista”, por ou- tro lemos recriminações contra “algumas empresas mais atrevidas” que viviam “de publicar colecções suspeitas de vulgarização doutrinária ou bibliotecas cosmopolitas” (apud Ó 1992: 418 e 420). Trata-se, muito provavelmente, da- quelas coleções mistas e de literatura universal traduzida de que estamos a ocupar-nos, e que já então se salientavam no panorama editorial português, ao ponto de suscitarem um comentário destes, neste contexto. Eis, em pe- quena escala, um exemplo da concorrência de planificações a que acima nos referíamos. Acrescente-se ainda que, no âmbito da campanha nacional contra o analfabetismo, de 1952, o Estado conseguiu imprimir várias séries de títulos originais, que integrou no Plano de Educação Popular. Em 1970 este ainda estava a publicar títulos – veja-se, portanto, quantos anos foram precisos para

7 Outro exemplo interessante de fuga à cultura normalizada vem do teatro: é o testemunho

de um antigo ativista do Teatro Universitário, afeto à Mocidade Portuguesa (bem como à Rádio Universitária, onde se formou uma parte significativa do atual pessoal da Rádio portuguesa). Ali se representaram As Mãos Sujas de Sartre, Os Justos de Camus e O Azul Existe de Ary dos Santos. Ainda um caso significativo foi-nos revelado pelo Colóquio que se realizou em 21 e 22 de novem- bro de 2003, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, sobre “Estaline em Portugal”: pelo menos sete obras de Estaline foram traduzidas e publicadas em Portugal antes de 1974.

Coleções e bibliotecas entre os anos 40 e os anos 70 do século XX

reunir pouco mais de oito dezenas de colaboradores ocasionais e fazer sair um total de 111 obras. Por outro lado, o objetivo de cobrir todas as freguesias não foi atingido, embora o número de criação de bibliotecas (no sentido material) impressione: 350 em 1953, em 1957 já eram 1 181 (Ó 1992: 420s.).

Registe-se o comentário de Ramos do Ó sobre os resultados desta moda- lidade de doutrinação: “o regime, sempre afastado dos centros de produção li- terária e dos sujeitos que os comandavam […] não congraçou qualquer tipo de apoio expressivo, jamais encontrando uma equipa coesa de intelectuais capaz de organizar o corpus literário do nacionalismo.” (Ó 1992: 421). E recorde-se que houve tentativas: em 1938 saiu a primeira edição de Como devo formar

a minha biblioteca, de Albino Forjaz Sampaio, sucessivamente reeditado;8 da

outra tentativa falámos em anterior trabalho, a Ordenação Crítica dos Autores

e Obras Essenciais da Literatura Portuguesa, empreendimento encomendado

a João de Castro Osório pelo SNI em 1947 (Osório 1947 e 1945; cf. Seruya/ /Moniz 2001). Em face destas tentativas, pode ver-se a oferta planificada de literatura estrangeira, clássica e moderna (contemporânea até), como alterna- tiva “cosmopolita” à planificação nacionalista.