5 A REGULAMENTAÇÃO NO CPC/1939
5.1 CLASSIFICAÇÃO DOS ATOS DO JUIZ
5.1.1 Despachos interlocutórios, decisões terminativas e decisões definitivas
O CPC/1939 não continha um artigo específico no qual eram enumerados e definidos os atos do juiz, ao contrário do que aconteceu com os códigos de processo civil que lhe são posteriores. Assim, tal conceituação deveria ser buscada na doutrina, verificando-se se a classificação do direito anterior, que dividia as sentenças em interlocutórias (simples e mixtas) e definitivas, ainda persistia.
A obra de João Monteiro, atualizada por J. M. de Carvalho Santos, continuou apresentando entendimento segundo o qual, em sentido lato, as sentenças seriam divididas em definitivas (que julgavam definitivamente a causa) e interlocutórias, que, por sua vez, eram simples ou mistas (com força de definitivas)114.
João Claudino de Oliveira e Cruz também continuava defendendo um posicionamento mais tradicional. Segundo ele, num sentido mais amplo, a sentença era o ato pelo qual o juiz decidia a questão discutida no processo, homologava o acordo feito entre as partes, reconhecia a existência de um fato ou de ume relação jurídica ou alterava uma situação existente. Em seguida, ratificava a divisão tradicional em sentenças definitivas e interlocutórias. subdividindo, ainda, as últimas em interlocutórias simples e mistas115.
Gabriel de Rezende Filho preferia falar em duas categorias de atos do juiz: despachos e sentenças116.
Os despachos, para o autor, eram aqueles atos do juiz que dispunham sobre o andamento do processo e, por isso, eram chamados de despachos ordinatórios ou de mero expediente, como o que determinava a citação do réu, a notificação dos peritos ou a realização
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MONTEIRO, João. Teoria do processo civil. J. M. de Carvalho Santos (atualizador). 6ª ed. Rio de Janeiro: Editor Borsoi, 1956, t. II, p. 584.
115 CRUZ, João Claudino de Oliveira e. Dos recursos no Código de Processo Civil. 3ª ed. Rio de Janeiro: Forense, 1968, p. 94/96.
116 REZENDE Filho, Gabriel José Rodrigues de. Curso de direito processual civil. Benvindo Aires (atualizador). 5ª ed. São Paulo: Saraiva, 1960, vol. III, p. 9.
de alguma diligência117.
Já as sentenças eram as efetivas decisões do juiz e podiam ser divididas em três espécies: interlocutórias, terminativas e definitivas. As interlocutórias seriam aquelas decisões por meio das quais o juiz decidiria algum incidente processual, sem lhe pôr fim. As terminativas colocariam fim ao processo, mas não examinariam o seu mérito, como a decisão que julgasse procedente a exceção de coisa julgada. Por sua vez, as sentenças definitivas seriam as que decidiriam o mérito do processo, no todo ou em parte118.
Percebe-se que essa classificação, como destacava o próprio autor119, era diferente da apresentada na parte inicial deste trabalho, e começava a demonstrar uma maior aproximação classificatória das sentenças que resolviam o mérito e as que não o resolviam, que deixaram de ser tidas como interlocutórias.
Sem negar o avanço conceitual, na visão deste trabalho, a classificação mencionada pecava por ainda incluir, num mesmo grupo (sentenças), decisões com funções processuais distintas; isto é, para além do conteúdo do ato do juiz, defende-se, aqui, que a melhor classificação das decisões deve ter como critério primordial a possibilidade de colocar ou não fim ao processo120-121.
Liebman, por sua vez, dividia as decisões em interlocutórias e finais122, e tratou do tema em dois trabalhos que merecem destaque: nas notas às “Instituições de Direito Processual Civil”, de Chiovenda, e em um seus dos artigos intitulados “Decisão e Coisa Julgada”, publicado no vol. 109 da Revista Forense.
As decisões interlocutórias seriam aquelas tomadas no decurso do processo, sem terminá-lo, e poderiam ser subdivididas em despachos ordinatórios ou de mero expediente e em despachos interlocutórios123.
Os despachos ordinatórios ou de mero expediente seriam aqueles por meio dos quais o
117 REZENDE Filho, Gabriel José Rodrigues de. Curso de direito processual civil. Benvindo Aires (atualizador). 5ª ed. São Paulo: Saraiva, 1960, vol. III, p. 9.
118 REZENDE Filho, Gabriel José Rodrigues de. Curso de direito processual civil. Benvindo Aires (atualizador). 5ª ed. São Paulo: Saraiva, 1960, vol. III, p. 9/10.
119 REZENDE Filho, Gabriel José Rodrigues de. Curso de direito processual civil. Benvindo Aires (atualizador). 5ª ed. São Paulo: Saraiva, 1960, vol. III, p. 16/17.
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Neste ponto, utiliza-se a expressão “fim ao processo” e não “fim a determinada fase do processo”, como se fará em certo momento do exame do CPC/1973. Opta-se pela expressão em virtude de não se falar, no CPC/1939, em processo sincrético.
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José Carlos Van Cleef de Almeida Santos defende que a classificação das decisões, no CPC/1939, tomou como critério principal a finalidade do ato: SANTOS, José Carlos Van Cleef de Almeida. A decisão interlocutória de mérito no processo civil brasileiro: uma visão da perspectiva do procedimento de conhecimento do processo contencioso em primeiro grau de jurisdição. Dissertação (Mestrado em Direito). Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2012, p. 112.
122 LIEBMAN, Enrico Tullio. Decisão e coisa julgada. Revista Forense, Ano 44, vol. 109, 1945, p. 330. 123 LIEBMAN, Enrico Tullio. Decisão e coisa julgada. Revista Forense, Ano 44, v. 109, 1945, p. 330/331.
juiz apenas dispunha sobre a marcha do procedimento, sem decidir nenhuma questão, como o ato que determinava a citação do réu124.
Já os despachos interlocutórios foram definidos como aqueles que decidiam “questões controversas relativas à regularidade e à marcha do processo, sem pôr-lhe fim”125. Exemplo de despacho interlocutório seria a decisão do juiz sobre a legitimidade do autor que resultasse na continuação do processo126.
Já as decisões finais, como o nome sugere, seriam aquelas por meio das quais o juiz fazia terminar o processo, encerrando a sua função. Elas também poderiam ser classificadas em duas espécies: terminativas e definitivas127.
As decisões terminativas colocariam fim ao processo, mas não resolveriam o mérito por um defeito na constituição do processo ou do procedimento ou por qualquer motivo que tornasse impossível a decisão da lide. As decisões terminativas corresponderiam, na antiga classificação, às sentenças interlocutórias com força de definitivas e, na classificação de Chiovenda, às absolutórias da observância do processo128.
Por fim, Liebman defendia que as decisões definitivas eram aquelas que decidiam, no todo ou em parte, o mérito da causa, isto é, a lide e, por consequência, eram as sentenças em
sentido estrito129 ou, como chegou a afirmar, as únicas que poderiam ser chamadas de sentenças130. A lide, para o autor, equivaleria ao “conflito entre os pedidos contrários das partes”, de sorte que decidi-la era se posicionar quanto à procedência ou à improcedência do pedido do autor131.
Moacyr Amaral Santos assumia declaradamente o posicionamento de Liebman e também dividia as decisões em interlocutórias e finais. As primeiras, proferidas no curso do processo e atinentes ao processo, eram subdivididas em: a) despachos interlocutórios simples ou de mero expediente, destinados à marcha do procedimento; b) decisões interlocutórias, também chamadas de decisões interlocutórias mistas, que decidiam alguma questão processual sem pôr fim ao processo (o fato de decidirem alguma questão era justamente o que
124 LIEBMAN, Enrico Tullio. Decisão e coisa julgada. Revista Forense, Ano 44, v. 109, 1945, p. 330/331. 125 Cf. nota de Liebman: CHIOVENDA, Guiseppe. Instituições de direito processual civil. J. Guimarães Menegale (trad.). 3ª ed. São Paulo: Saraiva, 1969, vol. III, p. 30.
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LIEBMAN, Enrico Tullio. Decisão e coisa julgada. Revista Forense, Ano 44, v. 109, 1945, p. 331. 127 LIEBMAN, Enrico Tullio. Decisão e coisa julgada. Revista Forense, Ano 44, v. 109, 1945, p. 330.
128 Cf. nota de Liebman: CHIOVENDA, Guiseppe. Instituições de direito processual civil: a relação processual ordinária de cognição (continuação). J. Guimarães Menegale (trad.). São Paulo: Livraria Acadêmica – Saraiva & Cia Editores, 1945, vol. III, p. 48.
129 CHIOVENDA, Guiseppe. Instituições de direito processual civil: a relação processual ordinária de cognição (continuação). J. Guimarães Menegale (trad.). São Paulo: Livraria Acadêmica – Saraiva & Cia Editores, 1945, vol. III, p. 48.
130 LIEBMAN, Enrico Tullio. Decisão e coisa julgada. Revista Forense, Ano 44, v. 109, 1945, p. 331. 131 LIEBMAN, Enrico Tullio. Decisão e coisa julgada. Revista Forense, Ano 44, v. 109, 1945, p. 334.
as diferenciava dos despachos de mero expediente). Já as decisões finais eram as que colocavam fim ao processo e eram subdividias em duas espécies: a) sentenças terminativas, que não resolveriam o mérito: b) sentenças definitivas, que colocariam fim ao processo resolvendo o mérito, isto é, julgando procedente ou improcedente o pedido, e que, por isso, seriam as sentenças finais por excelência ou sentenças no sentido estrito132.
Cabe ressaltar que o conceito de decisão interlocutória mista, apresentado por Moacyr Amaral Santos, é diferente daquele utilizado pela doutrina na vigência das legislações processuais anteriores. Como o visto nos tópicos anteriores, as sentenças interlocutórias
mixtas eram entendidas como aquelas que prejudicavam o julgamento da questão principal e
que, por isso, tinham força de definitivas133, conceito que corresponderia às decisões terminativas, segundo a classificação de Moacyr Amaral Santos e Liebman.
Apesar de as definições de Liebman e Moacyr Amaral Santos, na visão deste trabalho, serem mais claras do que a de Gabriel de Rezende Filho, percebe-se que as três apresentavam clara convergência no sentido de excluir do conceito de interlocutórias as decisões que punham fim ao processo sem decidir o mérito (antigas sentenças interlocutórias mixtas ou com força de definitivas).
Por consequência, houve certa convergência de sentido no conceito de interlocutórias, voltado, de uma forma geral, à decisão de questões processuais, como a regularidade e a marcha processual, nas palavras de Liebman. Sobre o tema, destaque-se que Gabriel de Rezende Filho e Moacyr Amaral Santos eram silentes quanto à possibilidade de uma decisão interlocutória tratar de parte do mérito. Lopes da Costa e José Frederico Marques iam além e chegavam a afirmar que, no procedimento ordinário, não se falava em interlocutórios de mérito, já que estes só decidiam questões processuais134. Em sentido semelhante, Liebman defendia que a oralidade, característica do CPC/1939, impunha sempre a realização de audiência, que seria uma “garantia essencial e imprescindível de um conhecimento suficiente da causa por parte do juiz”, já que permitiria o debate oral e o desenvolvimento das razões e alegações pelas partes. Por consequência, se o juiz, no momento do despacho saneador,
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SANTOS, Moacyr Amaral. Primeiras linhas do direito processual civil. 4ª ed. São Paulo: Max Limonad, 1971, 3v., p. 29/32.
133 SOUZA, Joaquim José Caetano Pereira e. Primeiras linhas sobre o processo civil. Accommodadas ao fôro do Brasil até o anno de 1877 por Augusto Teixeira de Freitas (Nova edição. Seguida da reforma judiciaria da Justiça local do Districto Federal). Rio de Janeiro: H. Garnier, 1907, p. 215.
134 COSTA, Alfredo Araújo Lopes da. Direito processual civil brasileiro (Código de 1939). Rio de Janeiro: José Konfino, 1946, vol. III, p. 176; MARQUES, José Frederico. Instituições de direito processual civil. Rio de Janeiro: Forense, 1960, vol. IV, p. 149. O termo “procedimento ordinário” esteve presente até a vigência do CPC/2015, que deixou de tratá-lo como espécie de rito e fixou o “procedimento comum” como o de aplicação geral.
julgasse o mérito, a sentença seria passível de anulação por ser intempestivamente proferida, uma vez que inexistiria autorização para a sua prolação sem a realização de audiência135.
Uma visão, de certo modo, oposta era apresentada por Galeno Lacerda, para quem era possível que, por ocasião despacho saneador, o magistrado decidisse questões de mérito, dispensando-se a realização de audiência de instrução e julgamento. Para o autor, “a solução antecipada de tais questões” privilegiaria a economia processual136
.
Com o intuito de combater especificamente os argumentos de Liebman, Galeno Lacerda partia de uma visão teleológica do processo e questionava-se acerca da suposta essencialidade da audiência de instrução e julgamento, apontando três objetivos neste ato processual: provar, discutir e julgar. A finalidade de “prova” não tornaria a audiência essencial porque nem todas as provas eram nela produzidas, somente as inspeções diretas e as orais, de sorte que, quando elas fossem dispensáveis, a audiência seria inútil. Além disso, as partes e o juiz poderiam dispor sobre questões probatórias e, por consequência, a audiência nem sempre seria vital ao processo. O objetivo de “discussão” também não tornaria a audiência essencial, já que tal debate seria um ato sujeito à disponibilidade das partes. Por fim, a finalidade de “julgamento” não daria o caráter essencial à audiência de instrução e julgamento, pois seria dado ao juiz não proferir sentença em audiência quando não se sentisse habilitado para tanto. Além disso, não seria necessária autorização expressa para que fosse possível o julgamento sem a realização de audiência, mas o raciocínio deveria ser o inverso: só por disposição expressa tal conduta poderia ser proibida. Não havendo tal vedação e sendo desnecessária a audiência, o julgamento do mérito por ocasião do saneador deveria ser entendido como lícito137.
Não parece, no entanto, que Galeno Lacerda cuidasse de decisão interlocutória de mérito, tema cujo debate se desenvolveu na vigência do CPC/1973 e foi consolidado expressamente no CPC/2015. As ideias do autor parecem mais próximas do que o CPC/1973 tratou como julgamento antecipado da lide.
Neste ponto, portanto, discorda-se de José Carlos Van Cleef de Almeida Santos, para quem Galeno Lacerda já defendia, em sua obra sobre o despacho saneador, a possibilidade do fracionamento da decisão de mérito138.
Galeno Lacerda não tratou da hipótese de parte dos pedidos depender de instrução
135 LIEBMAN, Enrico Tullio. O despacho saneador e o julgamento de mérito. Revista Forense, Ano 42, v. 104, 1945, p. 218/219.
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LACERDA, Galeno. Despacho saneador. Porto Alegre: Livraria Sulina, 1953, p. 141. 137 LACERDA, Galeno. Despacho saneador. Porto Alegre: Livraria Sulina, 1953, p. 143/146.
138 SANTOS, José Carlos Van Cleef de Almeida. A decisão interlocutória de mérito no processo civil brasileiro: uma visão da perspectiva do procedimento de conhecimento do processo contencioso em primeiro grau de jurisdição. Dissertação (Mestrado em Direito). Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2012, p. 358/361.
probatória em audiência e o restante não a exigir, situação que justificaria falar-se em fracionamento da decisão de mérito. Em sentido contrário, o seu estudo pautou-se nos casos nos quais a audiência de instrução e julgamento seria um ato dispensável para o processo, não cuidando daqueles em que ela seria parcialmente dispensável. Como o dito, Galeno Lacerda objetivava descontruir a tese de Liebman quanto à exigência deste ato em todos os processos e utilizou, para tanto, a demonstração de que há processos nos quais ele é dispensável.
Em verdade, Galeno Lacerda chegou a mencionar a expressão “sentenças interlocutórias de mérito”139, mas para tratar das decisões acerca das “preliminares de mérito”, expressão
criticada por ele, não estudando a expressão sob o enfoque de julgamento de parte dos pedidos.
De fato, o raciocínio de Galeno Lacerda era capaz de fundamentar a tese de que, sendo necessária a instrução apenas quanto a um dos pedidos, seria possível julgar os demais de forma antecipada ou, nos termos do autor, por ocasião do despacho saneador, dando-se origem a um “despacho interlocutório” de mérito. No entanto, o autor não avançou tanto no debate, de sorte que não se pode falar em efetiva discussão sobre o fracionamento do julgamento do mérito na vigência do CPC/1939.
Esta conclusão sobre a falta de debate sobre despachos interlocutórios de mérito (fracionamento do julgamento de mérito) é importante para o desenvolvimento do trabalho, já que havia divergência doutrinária, na época, quanto ao conceito de mérito, sobretudo no que dizia respeito às condições da ação. A discussão trazia sérios impactos na definição do recurso cabível contra a decisão que punha fim ao processo com base em um fundamento que, para uns, não compunha o mérito (decisão terminativa) e, para outros, englobava-o (decisão definitiva).
Neste momento histórico, esta divergência não é muito significante para o trabalho, destinado aos despachos interlocutórios, mas reflete em temas a serem enfrentados, como a natureza jurídica do despacho saneador. Por conta do interesse secundário no conceito de mérito, dado que, neste momento, não se discutia efetivamente o fracionamento do seu julgamento, ele será analisado em conjunto com os demais temas abordados.
Apresentadas as principais definições dos atos do juiz, cumpre partir para o estudo de um ato que, apesar de não ser propriamente uma novidade no direito brasileiro, foi ratificado pelo CPC/1939: o despacho saneador.