3 DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL E SÓCIO REGIONAL À LUZ DA
3.3 A CARACTERIZAÇÃO JURÍDICA DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL
3.3.1 O direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado como direito humano
Existem várias conceituações de direitos humanos e direitos fundamentais170. Adota-se, nesse momento, a concepção defendida por Pérez Luño, segundo a qual os direitos humanos são conceituados como um conjunto de faculdades e instituições que, em cada momento histórico, concretizam as exigências da dignidade, da liberdade e da igualdade humanas, as quais devem ser reconhecidas positivamente pelos ordenamentos jurídicos em nível nacional e internacional171.
Nesse caso destaca-se que o termo “direitos fundamentais” surgiu inicialmente na França no ano de 1770 em meio ao movimento político e cultural que culminou com a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão no ano de 1789. Logo em seguida a expressão começou a ganhar relevo na Alemanha, quando se articulou ao sistema de relações entre o indivíduo e o Estado, como fundamento de toda a ordem jurídico-política. E é por este fato que grande parte da doutrina passou a entender que os direitos fundamentais são aqueles direitos humanos positivados nas Constituições estatais172.
Entretanto, deve se ter em mente que “os direitos do homem, por mais fundamentais que sejam, são direitos históricos”, que nasceram em determinadas circunstâncias, “caracterizados por lutas em defesa de novas liberdades contra velhos poderes, e nascidos de modo gradual, não todos de uma vez e nem de uma vez por todas”173
. Enfatiza- se, assim, o caráter histórico-político da questão, que sempre terminará por envolver aspectos como as ideias, as mentalidades, o imaginário, a ideologia dominante, a consciência coletiva, a ordem simbólica e a cultura política da época174.
Dessa forma, uma conceituação estritamente formal, que caracteriza os direitos fundamentais tão somente como aqueles reconhecidos expressamente no texto constitucional, mostra-se insuficiente inclusive para o caso brasileiro, tendo em vista que a Constituição
170Destaca-se a dificuldade em definir um conceito sintético e preciso acerca dos direitos fundamentais,
essencialmente pela sua grande ampliação e transformação ao longo do tempo, problemática que é ainda mais acentuada diante das diferentes expressões utilizadas para a sua designação, tais como direitos naturais, direitos humanos, direitos do homem, direitos individuais, direitos públicos subjetivos, liberdades fundamentais, liberdades públicas e direitos fundamentais do homem (Sobre essa questão: SILVA, José Afonso da. Curso de
Direito Constitucional Positivo. 12 ed. São Paulo: Malheiros, 1996. p. 174; BONAVIDES, Paulo. Op. cit., p.
560-562.).
171
PÉREZ LUÑO, Antonio Enrique. Derechos Humanos, estado de derecho y Constitución. 5ed. Madri: Tecnos, 1999. p. 48. (tradução livre)
172 Ibidem, p. 30-31. (tradução livre) 173
BOBBIO, Norberto. A Era dos Direitos. Rio de Janeiro: Elsevier, 2004. p. 5.
174Nesse sentido: CANOTILHO, José Joaquim Gomes. Estudos sobre Direitos Fundamentais. Coimbra:
Federal de 1988 admite expressamente a existência de outros direitos fundamentais que não aqueles integrantes do catálogo (Título II, que trata dos direitos e garantias fundamentais na CF)175, seja no próprio texto constitucional, seja fora deste, bem como pelo fato de que tal conceituação nada revela sobre o conteúdo (isto é, a matéria propriamente dita) dos direitos fundamentais176.
De maneira geral é possível utilizar o termo direitos fundamentais para caracterizar aqueles direitos dos seres humanos reconhecidos e positivados na esfera do direito constitucional positivo de Estado específico, enquanto que a expressão direitos humanos estaria relacionada aos documentos de direito internacional, por fazer referência àquelas posições jurídicas reconhecidas ao ser humano como tal, independentemente de sua vinculação com uma ordem constitucional específica, e que, desse modo aspiram à validade universal, para todos os povos e tempos, revelando um caráter supranacional177.
Adverte-se que a reserva do possível, que aparece constantemente como uma cláusula restritiva dos direitos fundamentais, pelo fato de limitar aquilo que o individuo pode razoavelmente exigir da sociedade, não tem como consequência natural a ineficácia do direito, mas expressa simplesmente a necessidade de ponderação deste direito178. Situação de ponderação que, como já mencionado anteriormente, necessariamente irá acontecer no caso do desenvolvimento sustentável, que visa compatibilizar interesses aparentemente contraditórios, como garantir o crescimento econômico respeitando a proteção do meio ambiente para as gerações presentes e futuras e promovendo a equidade social.
Nesse cenário, apesar de não existir um consenso doutrinário acerca da temática, por questões metodológicas a definição e a diferenciação entre Direitos Fundamentais e Direitos Humanos não será mais aprofundada, limitando-nos a compreender que o desenvolvimento sustentável é um valor que deve possuir total eficácia em nosso ordenamento jurídico, sobretudo do ponto de vista dos Direitos Fundamentais, tendo em vista que a garantia a um meio ambiente ecologicamente equilibrado consiste em um direito fundamental dos seres humanos, valor esse tutelado expressamente pela nossa Carta Magna179.
175 BRASIL. Constituição Federal de 1988. Brasília, 1988. Art. 5º, §2º: “Os direitos e garantias expressos nesta
Constituição não excluem outros decorrentes do regime e dos princípios por ela adotados, ou dos tratados internacionais em que a República Federativa do Brasil seja parte”.
176 SARLET, Ingo Wolfgang. A Eficácia dos Direitos Fundamentais. 5 ed. Porto Alegre: Livraria do
Advogado, 2005. p.89.
177
Ibidem, p. 35-36.
178 ALEXY, Robert. Teoria dos Direitos Fundamentais. 2 ed. São Paulo: Malheiros, 2011. 179 BRASIL. Constituição Federal de 1988. Brasília, 1988. Art. 225, caput.
Ademais, é de grande valia destacar a amplitude da dimensão dos direitos fundamentais, que cumprem essencialmente uma função de direitos de defesa dos cidadãos, possuindo uma dupla perspectiva segundo Joaquim Gomes Canotilho, visto que “constituem, num plano jurídico-objectivo, normas de competência negativa para os poderes-públicos, proibindo fundamentalmente as ingerências destes na esfera jurídica individual”, e por outro lado, “implicam, num plano jurídico-subjectivo, o poder de exercer positivamente direitos fundamentais (liberdade positiva) e de exigir omissões dos poderes públicos, de forma a evitar agressões lesivas por parte dos mesmos (liberdade negativa)”180
.
E esses direitos fundamentais passaram a manifestar-se na ordem institucional em três gerações sucessivas, traduzindo verdadeiro processo cumulativo e qualitativo que gerou uma nova universalidade material e concreta dos referidos direitos181.
Os direitos de liberdade são os direitos de primeira geração, abrangendo os direitos civis e políticos, possuindo como titular o indivíduo, e sendo oponíveis ao Estado, caracterizados como direitos de resistência ou de oposição ao poder estatal. Os direitos de segunda geração, por outro lado, abarcam os direitos sociais, culturais e econômicos, bem como os direitos coletivos ou de coletividades, tratando-se de garantias institucionais. Enquanto que os direitos de terceira geração, os direitos de fraternidade, vem à tona diante da necessidade do surgimento de novos valores para tutelar a nova dinâmica mundial, sobre esses direitos muito bem asseverou Paulo Bonavides182:
Dotados de altíssimo teor de humanidade e universalidade, os direitos de terceira geração tendem a cristalizar-se no fim do século XX enquanto direitos que não se destinam especificamente à proteção dos interesses de um indivíduo, de um grupo ou de um determinado Estado. Têm primeiro por destinatário o gênero humano mesmo, num momento expressivo de sua afirmação como valor supremo em termos de existencialidade concreta. Os publicistas e juristas já os enumeram com familiaridade, assinalando-lhe o caráter fascinante de coroamento de uma evolução de trezentos anos na esteira da concretização dos direitos fundamentais. Emergiram eles da reflexão sobre temas referentes ao desenvolvimento, à paz, ao meio ambiente, à comunicação e ao patrimônio comum da humanidade.
Desse modo, o desenvolvimento e a proteção ao meio ambiente consistem em direitos de terceira geração, que se encontram englobados nos denominados direitos de fraternidade, que se destinam ao gênero humano como um todo. Nesse sentido, é de
180 CANOTILHO, José Joaquim Gomes. Direito Constitucional. 6. ed. Coimbra: Livraria Almedina, 1993. p.
541.
181 BONAVIDES, Paulo. Curso de Direito Constitucional. 16. ed. São Paulo: Malheiros, 2005. p. 563-570. 182 Ibidem, p. 563.
fundamental importância considerar que assegurar um meio ambiente ecologicamente equilibrado para as gerações presentes e futuras, além de ser um direito fundamental, caracteriza-se acima de tudo como uma garantia de respeito à melhoria da qualidade de vida de todos os cidadãos brasileiros, tratando-se, portanto, de verdadeiro desdobramento da aplicação do princípio da dignidade da pessoa humana183, noção basilar do Estado Democrático de Direito184.
A partir da constatação de que os recursos ambientais não são inesgotáveis, torna- se inadmissível que as atividades econômicas desenvolvam-se alheias a esse fato, devendo ser almejado, dessa maneira, a coexistência harmônica entre economia e meio ambiente. Permite- se o desenvolvimento, mas de forma sustentável e planejada, para que os recursos hoje existentes não se esgotem ou tornem-se inócuos no futuro185.
Nesse caso, pode-se afirmar quer o princípio do desenvolvimento sustentável tem por conteúdo a manutenção das bases vitais da produção e reprodução do homem e de suas atividades, garantindo igualmente uma relação satisfatória entre os homens e deste com o seu ambiente, para que as futuras gerações também tenham oportunidade de desfrutar os mesmo recursos que temos hoje à nossa disposição186, despontando como verdadeiro direito fundamental em nosso ordenamento jurídico.
3.3.2 A necessidade de observação da noção tríplice do desenvolvimento sustentável: