A v etusta E scola Teológica repeliu esse conceito; porque fez o D ireito provir do céu, com o ideia inata, inscrita nas alm as pelo próprio Deus N enhum jurista a
EDITO DO PRETOR I NTÉRPRETES E COME NTADORE S
57 - O Direito propriam ente nacional, o ju s civile, aplicava-se, em R om a, ex clusivam ente aos cidadãos. D ilatado o dom ínio sobre toda a Itália e outras regiões, tornou-se necessário condicionar as relações juríd icas oriundas do novo estado de coisas. Ao lado do ju s civile, de princípios rígidos e form as severas, em ergiu um conjunto de verdades e norm as gerais, reconhecidas pelos povos civilizados. Eis a origem do ju s gentium, aplicável, a princípio, só aos estrangeiros (peregrini)', mais tarde, tam bém aos litígios entre estes e os cidadãos rom anos.
Entretanto, ainda ficou dem asiado restrito o cam po legislativo quanto às re lações individuais; m uito se cuidava do Direito Público; quase nada, do Privado54 (1). O rem édio surgiu pouco a pouco. H avia dois m agistrados, n a C idade E tem a, eleitos por um ano: o P retor U rbano (Proetor Urbanus), que decidia as dem andas entre cidadãos da República; e o Peregrino (Proetor Peregrinus), ju iz dos litígios entre estrangeiros, ou entre estes e os rom anos: o prim eiro teve sem pre m aior im portância e prestígio que o segundo. A fim de evitarem a coim a de parcialidade e arbítrio no exercício do cargo e assim se subtraírem às intercessões dos tribunos
da plebe, publicavam os m agistrados, ao assum ir o exercício do cargo, m inuciosa
exposição do m odo com o aplicariam a lei aos casos ocorrentes, ou supririam as lacunas dos textos; fixavam regras sobre D ireito Substantivo e outras relativas à m archa dos processos; esse edito era gravado em tabuinhas de m adeira pintadas de branco e exposto na praça pública, no Forum, a princípio; depois no local onde o m agistrado dava audiência (2).
58 - Cresceu paulatinam ente o núm ero de editos: com eles os pretores abran davam o rigor da lei; tam bém a com pletavam e até corrigiam 55 (1). Fora costum e,
54 57 - (1) Giovanni Pacchioni - Corso de Diritto Romano 23 ed., 1918, vol. I, p. 176-177; Charles Maynz - Cours de Droit Romain, 5§ ed., vol. I, p. 221-222.
(2) C. Accarias - Précis de Droit Romain, 4 a ed., vol. I, ns 19; M ackeldey - M anuel de Droit
Romain, trad. Beving, 3§ ed., p. 14-15.
55 5 8 - ( 1 ) Pacchioni, Prof. da Universidade de Turim, vol. I, p. 175-176 e 185; Maynz, Prof. da Uni versidade de Liége, vol. I, n25120-121; Accarias, Prof. da Universidade de Paris, vol. I, n2 20. Ordenavam, em 1772, os Estatutos da Universidade de Coimbra, liv. II, tít. III, cap. VIII, § 12: "M ostrará (o professar) as alterações, que sobre esta matéria houve nas diferentes idades, e Estados do povo romano: Já pela mitigação do rigor das Leis, com que as aplicavam os
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a princípio, darem A pulilit iditde um <o pot ano, e dividido ent títulos e rubricas; depois apareciam tantos qiinulo’. ».e loiiiiivittii necessários para atender á mnllipli cidade dos casos concretos, dilu llim os de prever, () m agistrado não ficava adstrito ao que estabelecera: poderin deeiilu diferentem ente; e até publicar novas disposi ções derrogatórias da primeira.
Daí resultaram abusos e reclam ações; pelo que se criou o edito perpétuo, nome que não indicava eternidade na duração, e, sim, inalterabilidade durante o exercício do cargo. Nem esta restrição foi sem pre observada; posto que, em geral, os m agistrados só se servissem do seu poder c o m o m aior escrúpulo, sem objetivos pessoais, e m uito atentos aos princípios universalm ente consagrados, aos ditam es da equidade e aos reclam os da opinião pública. P rolongava-se a eficácia anual dos bons dispositivos; porque o novo P retor se apressava a consolidá-los, em bora com alterações convenientes e oportunos, retoques, do que resultava o ju s translatiliiiin. ao lado dos edicta nova, originários da m ente do m agistrado em exercício ( .’ ) Tam bém se conhecia o edito repentino (edictum repentinum), sem o caráter gcial e com plexo do perpétuo, e provocado por um a circunstância isolada e im prevista.
O conjunto de tantas disposições form ou um repositório opulento de norm as utilíssim as, o D ireito Pretoriano, que adquiriu, n a prática, m aior im portância do que a própria L ei das D oze Tábuas e as que a esta se seguiram (3).
59 - O C ódigo Civil francês consolidou, no art. 5o, a doutrina m oderna, ins pirada, aliás, pelo princípio de M ontesquieu: “N ão podem os ju izes pronunciai se, por m eio de um a disposição geral e regulam entar, sobre as causas subm etidas ao seu julg am en to ”56 (1). Hoje, ainda se exige mais: o m agistrado não prejulga, nao declara de antem ão com o se pronunciará em determ inado caso; guarda reserva dis ereta, só em ite o seu parecer em espécie, isto é, quando a tese aparece no prclói m concretizada num feito que se enquadra na sua ju risdição e com petência.
60 - N a própria R om a o fenôm eno juríd ico acim a referido desapareceu in sensivelm ente; tornou-se patente o seu eclipse desde a segunda m etade do terceiro século da era cristã. A faculdade de expedir editos e o po der independente dos jurisconsultos pareceram incom patíveis com a desm edida irradiação da autoridade imperial. C onstantino suprim iu, em term os expressos, a prerrogativa de mitij>.ai.
Pretores romanos; pelas novas cores, que esses Magistrados davam aos negócios; e p rl.r. ficções, que inventavam para iludir a força das Leis debaixo da aparência de quererem sem pie conservá-la, e já por outros princípios, e causas, que também influíam nas decisões." (2) Pacchioni, vol. I, p. 1HS Int.; M .iyn/, vol. I, n“ 120-122; Accarias, vol. I, n" I 1). (3) Maynz, vol. I, n" 170, A< < .o Ias, vol I, n" l<), p. /|l).
Mi 59 - (1) Eis o texto IraiK iu. "Ai l V i // e\( ili^rndii tnix ju g es de prononcer, par vote tle i//•./«>
46 Hermenêutica e Aplicação do Direito | Carlos Maxlmlllano
pela exegese, o rigor das leis57 (1). Valentiniano e M arciano foram um pouco além. A final Justiniano, o grande codificador, pretendeu cortar toda a autonom ia dos m agistrados e jurisconsultos em face do D ireito escrito: ao soberano, e só a ele, incum bia fazer e interpretar as leis (2). O im perador ju lg av a com pleto o Corpus
Juris, capaz de oferecer solução pronta para todos os litígios possíveis no presente
e no futuro; p or isso não adm itia os Com entários, nem outros quaisquer trabalhos elucidativos. Se acaso surgissem dúvidas na prática, deveriam os ju izes dirigir-se ao soberano para que este ditasse a exegese com petente; as regras de H erm enêuti ca, espalhadas pelo D igesto, deveriam apenas guiar o intérprete oficial e legislador, e não o aplicador, ou expositor, do D ireito (3).
Justiniano logrou elim inar o Edictio do Pretor, porém não conseguiu, nem sequer durante o seu reinado, im pedir toda a interpretação doutrinai e substituí-la p ela autêntica, isto é, pela única perm itida, em anada do próprio soberano (4).
N apoleão revelou tam bém horror aos com entadores que ele ju lg av a sim ples deform adores de códigos e estatutos fundam entais, com o ainda hoje pensam igna ros zom badores da ciência do Direito (5).
61 - A prática de recorrer ao poder im perial para obter a exegese fixa dos
textos perpetuou-se m ais do que se deveria esperar do progresso da cultura políti ca. A Lei da B oa R azão ordenava aos m agistrados que, em surgindo controvérsia acerca da inteligência de um dispositivo, suspendessem o julgam ento e levassem o caso ao conhecim ento do Regedor, a fim de que este, observado u m processo pelo m esm o propósito estabelecido, determ inasse, por um A ssento com força obrigató ria, a interpretação definitiva58 (1). N o B rasil-Im pério, apesar de viger, segundo a letra do estatuto básico, a doutrina de M ontesquieu, ao G overno ped ia o Judiciário
57 60 - (1) “ Inter oequitatem ju sq u e interpositam interpretationem nobis solis e t oportet e t licet
inspicere" (Código liv., 1, tít. 14, frag. 1) - "som ente a nós incumbe e é lícito apurar a interpre
tação interposta entre a equidade e o Direito".
No frag. 9 está o que determinaram Valentiniano e Marciano.
(2) Carl Schmitt - Gesetz und Urteil, 1912, p. 25; Savigny, vol. I, p. 289-292.
(3) “S i quid vero ut supradictum est am biguum fu e rit visum : hoc ad im periale culmen p e r ju-
dices referatur, et auctoritate Augusta m anifestetur, cui soli concessum, est leges, et condere et interpretari" (Justiniano, apud Código, liv. 1, tít. 17, frag., ou Const. 2, § 21 in fin e) - "se,
em verdade, conforme acima foi exposto, algo parecer ambíguo, seja submetido pelos juizes ao trono imperial e esclarecido pela Augusta autoridade, só à qual é permitido estabelecer e interpretar as leis".
(4) Paul Oertmann - Gesetzesw ang und Richterfreiheit, 1909, p. 32; Bernhard Windscheid -
Lehrbuch des PandeM enrechts, 8 a ed., vol. I, p. 95.
(5) Edmond Picard - Le Droit Pur, 1910, p. 154.
Quando Bonaparte soube do aparecimento da primeira glosa doutrinai, exclamou: "Vão es tragar o meu Código!"
58 61 - (1) Lei de 18 de agosto de 1769, ou - da Boa Razão, §§ 3 a 6, in "Auxiliar Jurídico", de Cândido Mendes de Almeida, 1869, p. 448-450.
1 1 I n <I . I n 1'ietiM l l l t é l | l i e l e ‘. e ( o i n e n t . l d o i e ' . 47
ii exegese das disposições lepais < • ninl iiiiieiiçou prcjuclicnr lambóm a prática do regim e republicano, apesai de i.eiem nerile uinis pronunciadas a divisão e indepen dêneia dos poderes; pelo i|tie n l ei n" 2 ', de Ml de outubro de 1X91, prescreveu, no art. 9", § 2". “Os Avisos não poderão versar sobre interpretação tle lei ou regula mento, cuja execução estiver exclusivam ente a cargo do Poder Judiciário.”
A ssim evitaram que se perpetuasse o uso im perial de intervir o Executivo nas deliberações dos tribunais, com lixar exegese por m eio de Avisos do M inistro da Justiça (2).
(2) 0 Código Civil do Uruguai preceitua que, em surgindo dúvidas sobre a interpretarão ou aplicação dos textos, o comuniquem os tribunais ao Poder Executivo, a fim de que este inii le perante as Câmaras uma exegese autêntica, ou novas disposições sobre o assunto; entretanto, nem por isso ficam os magistrados libertados do dever impreterível de decidir em m aléiia da sua competência, apesar do silêncio, obscuridade ou insuficiência das leis; representam, ex põem a necessidade do remédio legislativo; mas não suspendem o julgamento (arts. I " e I '.) lem, no Brasil, atribuição semelhante o Procurador-Geial da República (Decreto n" U)H4, 'I'' ü de nov. de 1898, Primeira Parte, art. I I / , <( t").