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Efeito devolutivo

No documento Manual de Recursos.pdf (páginas 101-111)

Efeitos dos Recursos

1. Efeito devolutivo

condicionado) 4. Efeito substitutivo 5. Efeito expansivo 5.1 Efeito expansivo objetivo 5.2 Efeito expansivo subjetivo (ou extensão subjetiva dos efeitos do julgamento) 6. Efeito translativo 7. Efeito suspensivo 7.1 Efeito suspensivo ope legis vs. periculum in mora 8. Execução provisória

1. Efeito devolutivo

O vocábulo “devolutivo” remonta de suas origens históricas, de quando a atividade jurisdicional era delegação do monarca a delegados seus, e em que os recursos interpostos das decisões destes devolviam, no sentido próprio do termo, ao monarca, o exercício do poder delegado196.

Terá efeito devolutivo o recurso que devolver o processo para a apreciação de órgão competente. O efeito devolutivo do recurso tem por finalidade levar o processo à nova apreciação.

O efeito devolutivo pode ser analisado sob dois prismas: a

extensão e a profundidade.

A extensão consiste em definir o que se submete, mediante recurso, ao julgamento do órgão ad quem. É definir a exata medida em que a

decisão será impugnada, podendo sê-la total ou parcialmente. Já a profundidade

é determinar com que material o órgão ad quem apreciará a matéria impugnada197.

196

DIDIER JR., Fredie; CUNHA, Leonardo José Carneiro da. Curso de direito processual civil: meios de impugnação às decisões judiciais. 5ª.ed. Salvador: JusPodivm, 2008. p. 80.

197

BARBOSA MOREIRA, José Carlos. Comentários ao código de processo civil. 11. ed. Rio de Janeiro: Forense. 2004, v. 5, p. 445 apud SILVA, Márcio Henrique Mendes da. “Tentativa de sistematização do efeito devolutivo dos recursos: perspectiva de interpretação instrumental”. Aspectos polêmicos e atuais dos recursos cíveis e assuntos afins. v. 11. Nelson Nery Júnior e Teresa Arruda Alvim Wambier (coord.). São Paulo: Revista dos Tribunais, 2007. p. 208.

O efeito devolutivo pode ser tido como decorrência do princípio

dispositivo (art. 2º198), e da vedação do julgamento ultra petita (arts. 128199 e 460200), especialmente no que se refere ao seu plano horizontal (extensão). O CPC adotou o critério do tantum devolutum quantum appellatum. É o que se extrai do art. 515, “caput”/CPC, ao enunciar que “a apelação devolverá ao tribunal o

conhecimento da matéria impugnada” em conjunto com o art. 505, que dita: “a sentença pode ser impugnada no todo ou em parte”.

A despeito destes artigos se referirem à apelação, eles se aplicam aos demais recursos, porquanto permeiam a teoria geral dos recursos, valendo os ensinamentos deles revelados para os recursos em espécie, transcendendo assim, a aplicação somente ao apelo (como está no código), motivo pelo qual sua interpretação e seus efeitos serão neste momento abordados. 201

Portanto, somente será devolvido ao tribunal o que for impugnado pelo recorrente – ressalvadas as matérias de ordem pública – sendo que as

matérias que não forem impugnadas não poderão ser apreciadas pelo tribunal,

uma vez que protegidas pelo manto da coisa julgada. Exige-se, assim,

requerimento (princípio dispositivo) do recorrente, que é feito através do

recurso.202

198

Art. 2º/CPC – “Nenhum juiz prestará a tutela jurisdicional senão quando a parte ou o interessado a requerer, nos casos e forma legais.”

199

Art. 128/CPC – “O juiz decidirá a lide nos limites em que foi proposta, sendo-lhe defeso conhecer de questões, não suscitadas, a cujo respeito a lei exige a iniciativa da parte.”

200

Art. 460/CPC – “É defeso ao juiz proferir sentença, a favor do autor, de natureza diversa da pedida, bem como condenar o réu em quantidade superior ou em objeto diverso do que Ihe foi demandado.”

201

Cabe aqui chamar a atenção, embora o dispositivo supra conste do Capítulo referente à apelação, é ele aplicável a todos os demais recursos. É o que se extrai da lição de Scarpinella Bueno: “A apelação é tida como o “recurso por excelência”. Certamente por força de suas razões e desenvolvimento histórico, é a partir dela que a própria teoria geral dos recursos foi e pode ser construída. O Código de Processo Civil brasileiro, aliás, embora distinga as normas gerais (arts. 496 a 512) sobre recursos de suas variadas espécies, inclusive no que diz respeito à apelação (arts. 513 a 521), parece, por vezes, esquecer-se desta sua proposta e prever uma série de regras, claramente afetas à teoria geral,

exclusivamente dentro do Capítulo dedicado à apelação.” (BUEENO,Cassio Scarpinella. Curso

sistematizado de direito processual civil. v.5.: recursos, processos e incidentes nos tribunais, sucedâneos recursais: técnicas de controle das decisões jurisdicionais. São Paulo: Saraiva, 2008. p. 114)

202

NEGRÃO, Theotonio. GOUVÊA, José Roberto F. com a colaboração de BONDIOLI, Luis Guilherme Aidar. Código de processo civil e legislação processual em vigor. 41. ed. – São Paulo: Saraiva,

A propósito, com relação às matérias de ordem pública, ainda que o recorrente não as tenha alegado – ou o recorrido, nas contra-razões – nada impede que sejam apreciadas pelo tribunal ex officio, ou seja, independentemente de requerimento da parte. Ex. matérias do art. 267, §3º e art. 301, §4º, ambos do CPC203-204.

Reforçando tal argumento, Rodrigo Barioni afirma que cabe

exclusivamente ao apelante delimitar as matérias que serão objeto de julgamento pelo órgão ad quem – em virtude da ampla aplicação do princípio dispositivo no plano dos recursos –, salvo aquelas que, por sua natureza, possam ser apreciadas ex officio. As questões dispositivas que deixaram de ser impugnadas na apelação escapam, do ponto de vista da extensão, ao âmbito de cognição do tribunal.205

Com efeito, terá sempre o tribunal possibilidade de examinar questões pertinentes aos pressupostos processuais e às condições da ação, pois são manifestações de matérias de ordem pública, cuja inexistência impede a formação e desenvolvimento válido do processo, bem como a análise jurisdicional de mérito.

Nessa ordem de idéias, o acórdão deverá observar os limites do pedido do recorrente, acolhendo ou rejeitando estritamente o que fora objeto do recurso, v.g,. se houve requerimento de reforma parcial, não poderá haver a 2009. pág. 700/701, nota 2: “A apelação transfere ao conhecimento do tribunal a matéria impugnada, nos limites dessa impugnação, salvo matérias examináveis de ofício” (RSTJ 128/366 e RF 359/236). No mesmo sentido: RSTJ 145/479; STJ-1ª T., REsp 7.143-0-ES, rel. Min. César Rocha, j. 16.6.93, negaram provimento, v.u., DJU 16.8.93, p. 15.955.

203

Art. 267, § 3º/CPC – O juiz conhecerá de ofício, em qualquer tempo e grau de jurisdição, enquanto não proferida a sentença de mérito, da matéria constante dos ns. IV, V e Vl; todavia, o réu que a não alegar, na primeira oportunidade em que Ihe caiba falar nos autos, responderá pelas custas de retardamento.” Art. 301, § 4º: “Com exceção do compromisso arbitral, o juiz conhecerá de ofício da matéria enumerada neste artigo”.

204

Neste sentido, a lição de Rodrigo Barioni: “Na apelação, o art. 515 e seus respectivos parágrafos não limitam o conhecimento das matérias de ordem pública apenas em relação aos capítulos impugnados. Não houve, portanto, intenção do legislador em vincular o conhecimento das questões de ordem pública à “matéria impugnada”. Sem que haja norma limitadora, parece- nos razoável entender que se opera a devolução integral das matérias de conhecimento oficioso, ainda que parcial o recurso.” BARIONI, Rodrigo. Efeito devolutivo da apelação civil – recursos no processo civil – São Paulo: RT, p. 76

205

BARIONI, Rodrigo. Efeito devolutivo da apelação civil – recursos no processo civil – São Paulo: RT, p. 64, 2009.

reforma total, se pediu apenas para excluir juros, não se poderá cancelar correção monetária ou multa.206

Para completar, imagine-se que apenas uma parte do dispositivo (art. 458,III) tenha sido afrontada pela apelação, na hipótese o juiz dá pela procedência de dois pedidos e o recorrente apela apenas quanto a um. Só o conhecimento deste e de todos os seus fundamentos é transferido ao tribunal.207

Em seu plano vertical, tem-se a profundidade. Como já dito, consiste ela na determinação de com que material o órgão ad quem apreciará a matéria impugnada, ou seja, quais os fundamentos e questões que foram, ou não, analisados pela decisão recorrida e que agora poderão ser (re)apreciados pelo juízo ad quem.

A sede da profundidade no CPC encontra-se no seu art. 515, §1º e §2º e no art. 516, que assim dispõem:

Art. 515/CPC – “[...]

§1º Serão, porém, objeto de apreciação e julgamento pelo tribunal todas as questões suscitadas e discutidas no processo, ainda que a sentença não as tenha julgado por inteiro.

§2º Quando o pedido ou a defesa tiver mais de um fundamento e o juiz acolher apenas um deles, a apelação devolverá ao tribunal o conhecimento dos demais. [...]”

Art. 516/CPC – “Ficam também submetidas ao tribunal as questões anteriores à sentença, ainda não decididas.”

Ao contrário da extensão, que é delimitada pelo recorrente, a

profundidade há de ser a mais ampla possível. Todas as questões suscitadas e

discutidas no processo poderão ser reapreciadas pelo juízo ad quem para o reexame (tão-só) da matéria impugnada (extensão), ou seja, poder que só poderá

ser exercitado dentro dos limites objetivamente definidos pelo caput “matéria impugnada”.208

206

Exemplos de THEODORO JÚNIOR, Humberto. Curso de direito processual civil. v.1. Rio de Janeiro: Forense, 2009. p. 659.

207

Cf. MACHADO, Antônio Cláudio da Costa. Código de Processo Civil Interpretado. 8.ed. São Paulo: Manole, 2009, p. 646.

208

Cf. MACHADO, Antônio Cláudio da Costa. Código de processo civil interpretado: artigo por artigo, parágrafo por parágrafo; 6 ed. rev. e atual. Barueri: Manole, 2007. p. 647.

Essas “questões suscitadas e discutidas no processo” do art. 515, §1º/CPC (questões de fato), para que possam ser apreciadas pelo tribunal, à exceção dos casos de pedido com fundamentos sucessivos ou subsidiários (art. 515, §2º/CPC, que será examinado abaixo), é indispensável que a sentença as

tenha apreciado, ainda que em parte, conforme a 2ª parte do dispositivo em

análise.

Aliás, se cabia ao juiz apreciá-las na sentença e não o fez, é caso de omissão, que poderia ter sido remediada pela parte via embargos de declaração; no entanto, pelo fato de o dispositivo não autorizar o tribunal a (re)examinar algo que não foi apreciado (o dispositivo indica que a sentença não

tenha apreciado por inteiro), os autos serão remetidos para o juiz de primeiro grau

para que profira julgamento quanto à essa questão. Somente a partir daí o tribunal estará autorizado a apreciá-la, a não ser na hipótese do §3º do mesmo artigo, adiante estudado.

Assim, todas as questões provocadas que podem interferir no acolhimento ou rejeição do processo devem ser relevantes à apreciação do tribunal. À guisa de exemplo, numa ação que discute indenização por perdas e danos causadas por acidente de veículo, o autor alega culpa do réu por dirigir em a) estado de embriaguez, b) em alta velocidade, e c) que avançou o sinal vermelho, se o juiz admitir apenas uma delas, o tribunal poderá adentrar às outras (o juiz não deixou de apreciar os fatos, apenas não os apreciou por inteiro porque não viu necessidade, entendendo que apenas um deles seria o suficiente para o correto julgamento da causa209-210, então o tribunal, ficará livre para adentrar aos outros, voltando ao exemplo, aos temas indicados nas letras “a”, “b” e “c”).

209

Até mesmo porque o juiz não está obrigado a apreciar todos os fatos e teses a ele endereçadas, mas está apenas e tão somente adstrito aos pedidos, não podendo deixar nenhum deles sem apreciação. Neste tema, aduz Luiz Orione Neto que: “Para tanto – doutrina Amir José Finocchiaro Starti – cumpre repelir desde logo, a idéia equivocada de que a sentença deve, obrigatoriamente, examinar todas as questões. Não é assim. O art. 458 absolutamente não diz isso. Ele manda que o juiz analise e resolva “as questões”, mas não necessariamente todas as questões. Com efeito, por que perder tempo com questões irrelevantes ou que se tornaram irrelevantes, em vista do rumo tomado na construção da sentença? (Cf.ORIONE NETO, Luiz. Recursos cíveis. 2. ed. São Paulo: Saraiva, 2006. p. 252/253). Destarte, “o juiz não está obrigado a responder todas as alegações das partes, quando já tenha encontrado motivo suficiente para fundar a decisão, nem se obriga a ater-

O §2º do art. 515 (questões de direito) diz respeito àqueles casos em que o pedido (petição inicial211 ou defesa212) baseia-se em mais de um fundamento, sendo que, acolhido um, dispensa-se a apreciação dos demais, posto que suficiente para a procedência, ou improcedência, do pedido.

Ex. 1. litígio que envolva dívida no valor de trinta mil reais. O réu, na contestação, alega prescrição e, subsidiariamente, pagamento. Qualquer dos dois fundamentos é suficiente, por si só, para a improcedência do pedido do autor, que é aquilo que o réu pretende. Durante a instrução, o juiz verifica a ocorrência da prescrição, decidindo, assim, pela improcedência, sem a necessidade de apreciar se houve, ou não, pagamento. Caso o credor recorra, todos os fundamentos alegados serão devolvidos ao juízo ad quem, de tal modo que o tribunal poderá analisar não só se houve prescrição, mas também verificar se houve ou não o efetivo pagamento.213-214

se aos fundamentos indicados por elas e tampouco a responder um a um todos os seus fundamentos” (RJTJESP, 115/207).

210

“Não se exercita a jurisdição para responder questões abstratas ou puramente teóricas” (TFR, 4ª Turma, Ac. 42.250, rel. Min. Bueno de Souza.

211

V.g. Infração contratual, violação de dever conjugal, esbulho, fraude contra credores, simulação no negócio jurídico – 282, III). Costa Machado. Código de Processo Civil Interpretado. 8.ed. São Paulo: Manole, 2009, p. 647.

212

V.g. Inexistência ou nulidade de contrato, pagamento, prescrição – art. 303. MACHADO, Antônio Cláudio da Costa. Código de Processo Civil Interpretado. 8.ed. São Paulo: Manole, 2009, p. 647. 213

No mesmo sentido as considerações e exemplo de José Roberto dos Santos Bedaque: “Existe, é verdade, o problema da prescrição e da decadência, que constituem defesas de mérito. Eventual apelação contra sentença que as acolher nem sempre proporcionará a devolução das demais questões deduzidas pelo réu, se em relação a elas for necessário o desenvolvimento de atividade probatória ainda não realizada. Nesses casos, afastada a decadência ou prescrição, alternativa não há, senão o retorno dos autos á origem, para que todo o conteúdo de mérito seja suficientemente debatido.Mas, se todas as questões inerentes ao mérito já foram submetidas ao contraditório e encontram-se suficientemente instruídas, inexiste razão para devolvê-las ao juízo de 1º grau. Como o pronunciamento sobre prescrição e decadência implica exame da relação jurídica material para reconhecer a inexigibilidade do direito (CPC, art. 269, IV) a apelação devolve toda a matéria de mérito (CPC, art. 515, §§ 1º. e 2º.). O mesmo se dá a hipóteses em que, afastada a prescrição, a controvérsia não envolver matéria fática. In Apelação – admissibilidade e efeitos, capítulo do livro Aspectos polêmicos e atuais do recursos cíveis e de outros meios de impugnação às decisões judiciais. Coord. Nelson Nery Jr. e Tereza Arruda Alvim Wambier. São Paulo: RT, 2003, p. 460.

214

“Não é pacífica (nem mesmo dominante) a posição aqui defendida, segundo a qual o tribunal pode, desde que já haja condições para tal, afastando a prescrição ou a decadência, apreciar as demais questões de mérito. Neste sentido, entre outros, Barbosa Moreira, Comentários ao Código de Processo Civil, vol. V, PP. 394-395. Contra, defendendo a posição dominante, segundo a qual, uma vez afastada a prescrição ou a decadência, deve o tribunal remeter os autos de volta ao juízo de primeiro grau para que aprecie o pedido de demandante, Theodoro Júnior, curso de Direito Processual Civil, vol. I, p. 566; Sálvio de Figueiredo Teixeira, Código de Processo Civil Anotado, 6ª ed. São Paulo: Saraiva, 1996, p. 349. A posição dominante foi adotada também pela jurisprudência, como se vê no acórdão do STJ proferido no REsp. nº 6.643-SP, 4ª Turma, um., in

Cabe aqui, todavia, a ressalva que, para a apreciação da matéria, as questões inerentes ao mérito já devem ter sido submetidas ao contraditório e encontram-se suficientemente instruídas, e por tais motivos não há razão para devolvê-las ao juízo de 1º grau. Como o pronunciamento sobre prescrição e decadência implica exame da relação jurídica material para reconhecer a inexigibilidade do direito (CPC, art. 269, IV) a apelação devolve toda a matéria de mérito (CPC, art. 515, §§ 1º. e 2º.). O mesmo se dá a hipóteses em que, afastada a prescrição, a controvérsia não envolver matéria fática.215-216

Ex. 2: julgados procedentes pedidos declaratório de paternidade e de petição de herança, apela o réu somente da parte que atribuiu ao autor o direito à herança. Ora, se o autor é filho, logicamente tem direito à herança. Se não devolvido ao órgão ad quem o exame sobre o capítulo prejudicial (paternidade), a apelação do réu estaria fadada ao improvimento. Por conseqüência, tem-se que a apelação do réu necessariamente deverá devolver ao órgão ad quem ambos os capítulos (prejudicial e prejudicado), apesar de a impugnação se dirigir apenas contra o último.217-218

RSTJ 26/445. Não nos parece, porém, data vênia dos que a defendem, que esta seja a posição mais acertada (FREITAS CÂMARA, Alexandre. Lições de Direito Processual Civil. 15. Ed. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2008, vol II, p. 82 – sem destaque no original).

- Ainda no mesmo sentido: “Imagine-se, por exemplo, a situação da ação de cobrança, em que o réu, em sua defesa, sustenta a prescrição da pretensão do autor, a ausência de prova da dívida e a compensação de créditos; supondo-se que o juiz, na sentença, rejeite o pedido por entender prescrita a dívida e que o autor apele dessa decisão, pelo efeito devolutivo do recurso poderá o tribunal examinar, não apenas a questão da prescrição, mas também (e desde que a instrução do processo, havida em primeiro grau o comporte, porque tenha sida completa) as demais defesas sustentadas pelo réu. Dentro dos limites do pedido de revisão formulado, pode o tribunal examinar todas as questões dessa lide. Obviamente, se a apelação se limitasse a discutir a questão da sucumbência, ou a taxa de juros aplicável ao caso (se houvesse a pretensão condenatória sido acolhida), somente nos limites desses pedidos de revisão é que as questões seriam devolvidas – todas as questões relativas à sucumbência, ou todas as questões atinentes aos juros -, ficando o restante fora do campo de apreciação judicial”.(Cf. MARINONI, Luiz Guilherme; ARENHART, Sérgio Cruz. Manual do processo de conhecimento. 5ª ed. São Paulo: RT, 2006, p. 541).

215

Cf. Bedaque, op. cit. p. 460. 216

NEGRÃO,Theotonio. GOUVÊA, José Roberto F. com a colaboração de BONDIOLI, Luis Guilherme Aidar. Código de processo civil e legislação processual em vigor. 41. ed. – São Paulo: Saraiva, 2009. pág. 700/701, nota 6C “Se a sentença deu pela improcedência da ação, nada obsta a que, em apelação, ela seja julgada prescrita, porque “é integral, em profundidade, o efeito da apelação: não se cinge às questões efetivamente resolvidas na instância inferior; abrange também as que poderiam tê-lo sido” (RSTJ 75/396).

217

Exemplos de BARIONI, Rodrigo. Efeito devolutivo da apelação civil – recursos no processo civil – São Paulo: RT, p. 85/86.

Sob o risco da insistência, mas a fim de ilustrar com situações fáticas a complexa matéria codificada, é válida a utilização dos exemplos de José Roberto dos Santos Bedaque219:

Ex. 3: Nessa medida, deduzidos três pedidos na inicial

(ressarcimento de despesas médicas, lucro cessante e danos morais), se a sentença acolher apenas o primeiro e o autor apelar tão-somente quanto a um dos dois não atendidos (lucro cessante), aquele capitulo não impugnado (danos morais) torna-se imutável e a pretensão respectiva estará definitivamente rejeitada. Em relação a ele não haverá devolução, sendo inadmissível seu exame em sede recursal.220 Agora, se o autor e o réu deduziram vários fundamentos para o pedido ou a defesa e o juiz acolher apenas um para julgar procedente o improcedente, a apelação de qualquer deles devolverá ao Tribunal toda a matéria suscitada em 1º grau. Exemplificando: o autor pretende a declaração de nulidade

218

Carreira Alvim, J. E. Considerações sobre a reforma dos arts. 515 e 555 do CPC pela Lei 10.352/2001 in Estudos em homenagem ao ministro Sálvio de Figueiredo Teixeira. Coordenadores Eliana Calmon e Uadi Lammêgo Bulos . São Paulo: Saraiva, 2003, págs. 298 e 299, indica mais um exemplo: “Suponha-se que o autor invoque dois fundamentos para o pedido – a condição de herdeiro ou legatário – e o juiz julga procedente a demanda com base em um deles (herdeiro); a apelação do réu devolve ao tribunal o conhecimento do outro fundamento (legatário). Se o tribunal entender correta a conclusão da sentença, mas que se trata, na verdade, de legatário, deve mantê- la, corrigindo o fundamento erroneamente acolhido pela sentença a quo. Igualmente, se o réu funda a sua defesa na qualidade de herdeiro ou legatário, vindo o juiz a dar pela improcedência da demanda por considerá-lo herdeiro, ainda que na eventual apelação do autor, venha o tribunal, entendendo correta a conclusão da sentença, considerá-lo legatário , confirmá-la-á, corrigindo o fundamento errôneo adotado. Tais julgamentos tornam-se possíveis exatamente em face do diposto no § 2º do art. 515, que dispensa a parte vencedora de interpor recurso para ver prevalecer fundamento que tenha sido rejeitado (Barbosa Moreira)”.

219

In Apelação – admissibilidade e efeitos, capítulo do livro Aspectos polêmicos e atuais do recursos cíveis e de outros meios de impugnação às decisões judiciais. Coord. Nelson Nery Jr. e Tereza Arruda Alvim Wambier. São Paulo: RT, 2003, p. 460.

220

NEGRÃO, Theotonio. GOUVÊA, José Roberto F. com a colaboração de BONDIOLI, Luis Guilherme Aidar. Código de processo civil e legislação processual em vigor. 41. ed. – São Paulo: Saraiva, 2009. pág. 702, nota 6: “Todavia, esse efeito translativo de que se fala é sempre limitado pelos capítulos do decisório objeto de recurso (arts. 505 e 512, in fine). A cognoscibilidade de ofício da matéria não alarga a dimensão horizontal do efeito devolutivo. Por exemplo, se uma demanda com pedidos de indenização por danos materiais e morais é julgada integralmente procedente e o réu apela apenas para impugnar a ocorrência dos danos morais, o reconhecimento pelo tribunal de que o autor é carecedor de ação não alcança a parcela da sentença que deliberou sobre os danos

No documento Manual de Recursos.pdf (páginas 101-111)