PARTE II OS DIFERENTES CONTEXTOS DA PRÁTICA DOCENTE
CAPÍTULO 8 ARTICULAÇÃO DOS DIFERENTES CONTEÚDOS
8.3 ENSINANDO PROCEDIMENTOS/ATITUDES DE REGISTRO E REFLEXÃO
REFLEXÃO
Por considerar que a aprendizagem é um processo idiossincrático e que procedimentos de registro reflexivo ajudam a compreender pouco a pouco como funciona o pensamento e de que maneira se dá a aprendizagem, além de permitir uma sistematização dos conhecimentos aprendidos ao promover a elaboração de sínteses, no ensino, a professora incentivava a reflexão e o registro a seus/suas alunos/as.
P – Tem gente que gosta mais de escrever, e outras menos ou que não gostam de escrever, não é? A dica que eu vou dar para vocês, eu falo para pular uma linha... a pessoa que ouviu uma informação do colega, ou minha, achou interessante, não conhecia aqueles fatos e quer anotar, registra no seu caderno. (apêndice B, aula, 08 ago. 2002)
Por saber que esse processo é complexo e que é importante dar apoio, a professora enfatizava a necessidade de que cada aluno/a construísse seu texto de forma singular, num exercício criativo. Os esquemas e anotações das aulas serviriam como apoio sobre o assunto ajudando o/a aluno/a na sua reconstrução pessoal do que fora aprendido.
P – Vocês podem responder com as próprias idéias de vocês. O texto, ele é um apoio, o caderno é um apoio. O esquema da planta que eu fiz na lousa, quando a gente ficou duas aulas discutindo de como as plantas se alimentam... Quem lembrar um pouco das etapas da alimentação da planta, o esquema só vai ajudar a lembrar. Então usem essas coisas como apoio. Vocês não vão conseguir respostas bem prontinhas no texto não. Certo? (apêndice, aula 01 out. 2002)
Em suas falas está sempre estimulando a expressão pessoal do pensamento dos/as alunos/as em detrimento da reprodução literal de conteúdos de ensino efetuados por meio de cópias de textos ou de resumos da lousa. A professora explicita um desejo de que os/as alunos/as se mostrem como sujeitos que são e que assumam uma responsabilidade sobre o processo de aprender.
P- O que eu queria colocar para vocês, que vocês não façam cópias do texto, mas interpretem com as próprias palavras para responder. (apêndice B, aula 01 out. 2002)
Uma outra estratégia utilizada com muita freqüência é a análise do trabalho realizado, em conjunto com os/as alunos/as, colocando questões para eles/elas pensarem e que, ao mesmo tempo, sirvam na construção de um esquema de registro e de detalhamento do pensamento como mostra abaixo um trecho do diálogo de uma aula:
P - [...] eu queria que alguns grupos fizessem, alguns já devem ter começado a fazer isso. Nesse esquema de vocês, por exemplo, se vocês desenharam uma árvore, tá, desenhou uma árvore, aqui é um rio, quando cai, a folha da árvore vai para onde?
A1 - Para o rio.
P - Para o chão ou para o rio. O que acontece com essa árvore aqui no chão e no rio? Então vocês vão tentar detalhar um pouquinho, escrevendo no seu esquema, por exemplo à folha, e aí vocês vão tentar indicar o que acontece com essa folha aqui, por exemplo, no chão? A2 - Vira esterco, dona.
P - Vira esterco, então você põe aqui, vira... A3 - Matéria orgânica.
P - Isso, se transforma, essa matéria é matéria orgânica e se transforma com o tempo. Vocês vão colocando do lado de tudo o que vocês fizeram, tá? (apêndice, aula 22/10/2002)
Outro aspecto a destacar é o estímulo permanente para a aceitação da individualização do conteúdo e da forma de pensar. Estimula a diferença existente na classe como uma riqueza que deve ser preservada, como um processo criativo e, portanto, especial.
P – Uma coisa que eu queria que vocês fizessem é dar um toque pessoal na sua redação, ou seja, coloca suas reflexões. Hoje eu vi um trabalho em grupo, eu achei muito interessante. Como o grupo que fez o projeto do rio. Eles contaram as histórias deles com o rio, como com o rio eles viviam, dá para perceber as pessoas falando. Na avaliação, coloca reflexões e opiniões de vocês também, até para fazer diferente. Porque tem gente que faz igual o outro, faz igual com o livro e nunca coloca o que pensa, o que sabe sobre aquele assunto. Então façam diferente, dê a opinião de vocês na avaliação. Eu acho que é importante, coloca um reflexo de vocês. Teve um trabalho de um grupo que colocou uma pergunta assim: Ouvimos que o rio estava poluído. Daí o grupo colocou: Mas de quem é a culpa da poluição do rio? E com isso o grupo virou, quem eles acham que eram os culpados. Isso foi um toque especial do grupo, tá? (apêndice B, aula 01/10/2002)
Além disso, incentiva o senso crítico e a manifestação de suas dificuldades pessoais como forma de desenvolver a auto-avaliação e o autoconhecimento.
P – Vamos ler questão por questão, tem gente que ficou com dúvida... "O primeiro bimestre foi bom por quê?". "Ele seria melhor se..." " Aprendi no projeto do rio que..."
A1 – Mesmo quem não fez?
P - Quem não fez [...] responde sim. Você pode colocar que não participou e explicar o porquê.
P -JU e DAN colocam, não participei porque..., tá? Se teve alguma forma de você aprender com o projeto do rio em sala de aula, coloca, quem aprendeu em aula. Essa aqui (segunda questão de avaliação da disciplina), "minhas maiores dúvidas são..."
A1 - Tudo.
P- Daí você pode por tudo, mas explicar o que é esse tudo, porque se não eu vou olhar para isso, eu quero tentar entender o que é esse "tudo".
P - O quinto, "aprendi em biologia..." Coloca o que você achou que você aprendeu, não precisa copiar nada do seu caderno senão vai dar uma falsa reação para mim e não vai dar para eu avaliar se as aulas tiveram efeito ou não [...] Isso daí pra mim não tem sentido nenhum. Isso daqui também não tá valendo nota para vocês porque se não fica nesse negócio, tudo pode valer nota, não, isso não. Isso daqui é para a gente melhorar a aula. E sexta: "Sugiro no segundo bimestre que..." (fita 2, aula 29 out. 2002)
A2 - Sabe o que é, dona, não sei porque, parece que eu não consigo escrever mais. Num sei escrever, só consigo falar.
P- Porque na hora de escrever você corta as suas idéias. Escreve as suas idéias.
A2- .. eu trabalho e a noite eu não consigo mais escrever, não consigo professora. (apêndice B, aula, 29 out. 2002)
Por entender que somente o registro através da escrita poderia limitar a exploração de conteúdos e a criatividade dos projetos "do rio", a professora introduz uma estratégia diferenciada no meio escolar - produção de um vídeo sobre o tema geral dos projetos.
Ao valorizar o vídeo como produto no currículo da disciplina a professora também contribuía para a expressão de um repertório de saberes dos/as alunos/as.
O SABER DA PROFESSORA
O significado do registro construído pela professora no ensino é bastante reforçado pela sua experiência na pesquisa. Estava num momento de intenso registro de seu processo reflexivo no diário de bordo e com a filmagem das aulas.
Do mesmo modo, o processo vivido durante as primeiras experiências com a docência na sua formação inicial também foi determinante para a consolidação de um saber teórico e prático sobre como desenvolver a formação do pensamento crítico na escola. Para isso tem ciência de que algumas competências e habilidades são necessárias:
- estar atenta às dificuldades e às potencialidades pessoais de seus/suas alunos/as;
- estimular formas diversificadas de registro para auxiliar diferentes formas de pensar;
- realizar ela própria processos de metacognição para saber guiar o processo com seus/suas alunos/as.
Por meio de diálogos sobre um dado conteúdo específico, pelo desenvolvimento de projetos temáticos em grupo e incentivo ao registro das próprias idéias, a professora compunha um clima diferenciado em sala de aula. Alguns desafios estavam colocados e um certo espaço criativo estava sendo costurado na medida em que a professora articulava diferentes conteúdos.
As interações afetivas entre estudantes e professora eram construídas entre recuos, contradições e aproximações no universo dinâmico da sala de aula. Os planos, as tentativas, as negociações e a seqüência de atividades ministradas demonstravam aos/às alunos/as seu envolvimento com a profissão e com a própria aprendizagem. Configurava um caráter de compromisso com o desenvolvimento dos/as alunos/as, incentivando com isso o compromisso destes com seus próprios processos de aprendizagem.
A – Aprendi a gostar mais de ciências que eu não gostava muito. E vi que se nos interessarmos em aprender, aprenderemos muito porque temos uma professora que se interessa em nos ensinar [...] com vontade de passar conhecimentos para seus alunos [...] por isso devemos participar sempre das aulas, porque só vamos obter mais conhecimentos e isso nunca é demais para o ser humano. (relato aluno AUG, diário, 06 jul. 2002, p.106)