• Nenhum resultado encontrado

Parte I. Evolução da ocupação histórica do litoral português na época contemporânea:

A) História das representações do litoral

1. O medo do mar e o povoamento da orla costeira

1.2. O povoamento da orla costeira

1.2.1. Ermamento da costa e medidas de povoamento

A orla costeira portuguesa foi sempre povoada e constituiu desde tempos imemoriais um foco de atracção para as populações do interior do país. José Mattoso acredita que, embora as condições de vida fossem difíceis e os ataques de piratas frequentes, o lucro gerado pelos trabalhos ligados ao mar era suficientemente importante para fixar os homens junto daquele82. Contudo, há que discernir de que tipo de litoral se fala, já que a «fachada marítima animada pelo comércio desde os tempos pré-históricos, o território onde [...]cresce[u] Portugal não se organizou [..], até há pouco tempo [século XIX], em função da própria linha litoral, mas aproveitando as vias de penetração constituídas pelos compridos estuários, (...)»83. Este fenómeno não é exclusivamente português, antes caracteriza o tipo de povoamento de toda a costa europeia atlântica. Alain Cabantous refere que, apesar da multiplicação do tráfego comercial e da descoberta de outros mundo além Europa, entre os séculos XVI e XIX, o número de marítimos não aumentou proporcionalmente. Mais, durante este período, as gentes do mar distribuíram-se de forma irregular, evitando os litorais hostis - do Essex,

82 José Mattoso, Op. cit., p. 18.

do Languedoc, da Flandres, da Provença oriental, da costa gaulesa e da Estremadura portuguesa -, fixando-se de preferência nos territórios abrigados, como braços de mar e estuários, que ofereciam locais de implantação seguros e ricos em recursos. A Cornualha inglesa, o Kent, o Sussex, a parte oriental da costa escocesa, a Bretanha, as províncias bascas e a Galiza, são exemplos de espaços protegidos onde a presença humana era relativamente densa. Nos pequenos lugares de contacto estreito entre a terra e o mar predominava a figura do camponês-pescador, que vivia ao ritmo dos trabalhos complementares da agricultura e da pesca. A civilização marítima da Europa moderna desenvolveu-se sobretudo nas cidades portuárias de carácter estuarino, onde se concentravam as actividades de cabotagem e o comércio internacional. Mas, mesmo aqui as gentes do mar eram minoritárias em relação aos restantes habitantes84.

Em Portugal, a situação revela-se muito semelhante: primeiro, a população marítima activa tinha uma expressão numérica diminuta; segundo, a maioria residia em duas grandes cidades – Lisboa e Porto – e em alguns aglomerados urbanos de média e pequena dimensão, que se localizavam em áreas estuarinas e lagunares abrigadas. Terceiro, a existência de pequenas comunidades piscatórias espalhadas pelo litoral exposto esteve sempre sujeita a «constantes fluxos e refluxos populacionais, quer por razões de segurança, quer pela flutuação dos recursos disponíveis»85.

Com efeito, certos trechos da orla costeira (mesmo em zonas abrigadas) mostraram-se particularmente difíceis de povoar, o que levou alguns monarcas portugueses a conceder privilégios àqueles que se quisessem fixar em locais estratégicos do ponto de vista da defesa nacional, do comércio ou da pesca. D. Dinis, ao conceder o foral do antigo porto de Paredes (1282), com o objectivo de defender a costa dos piratas, determinou a instalação de 30 moradores, obrigados a ter pelo menos 6 caravelas preparadas para a pescaria. Já, D. João I, para promover o aumento da população de Castro Marim, em 1421, permitiu que ali pudessem viver 40 homiziados, livres de serem perseguidos pela justiça86. Por carta de Afonso V, de 1478, se sabe «como para defesa do reino do Algarve», este ordenou «de se fazer o lugar de Vila Nova de Portimão e cercar», determinando que aquela terra fosse couto de homiziados87. No reinado de D. João II, saltaram os mouros em terra e saquearam e incendiaram Vila

84 Alain Cabantous, Op. Cit., pp. 54-57. 85 Carlos Diogo Moreira, Op. cit., p. 157 e 161.

86 Augusto Pinho Leal, Portugal antigo e moderno. Dicionário geográfico, estatístico, corográfico..., vol.

II e IV, Lisboa, 1873-1890, pp. 208-210 e 483-484.

87 Humberto Baquero Moreno, “Elementos para o estudo dos coutos de homiziados instituidos pela

Nova de Milfontes, deixando-a quase deserta. Para a defender e amparar, o rei concedeu-lhe, em 1486, o privilégio de couto de homiziados, permitindo-lhes viverem na vila e seu termo, com a condição de ajudarem a rebater as investidas dos mouros – o que foi de grande alcance, porque os principais moradores da vila tinham abandonado as suas casas e procurado domicílio noutras paragens88. Existiram coutos de homiziados em vários pontos da costa: Caminha (1406), Adiça de Almada (1468), Vila Nova de Portimão (1478), Mexilhoeira (1495), Sesimbra (1496), Arenilha (1513) e Silves (antes de 1539)89. A sua existência atesta a dificuldade de povoamento destes lugares em função da sua perigosidade e falta de recursos. É de ressalvar ainda o facto de os coutos se localizarem em zonas marítimas abrigadas, o que quer dizer que nem com homiziados se conseguia gente (também porque não havia interesse nisso) para povoar os litorais abertos.

A pesca e o comércio estiveram na origem da Mexilhoeira da Carregação, junto ao rio Arade, fundada por D. João II, em 1495. O rei, para atrair população, deu privilégio de couto do reino a 12 pescadores que ali viessem estabelecer-se e morar, pelo menos dois meses por ano, com o fim de ajudar o comércio, por ter este sítio grande apetência para o embarque dos géneros da terra e do pescado. Noutras localidades marítimas, os habitantes estavam isentos dos deveres militares, mas tinham a obrigação de defender as praias dos ataques dos piratas, como acontecia na Apúlia e em Afife. Em Alcabideche, os homens eram obrigadosa irem velar uma noite na praia da vila de Cascais e duas ao Castelo dos Mouros em Sintra. Já o povo da freguesia de Boliqueime tinha o dever de vigiar os portos de mar desde o Serro da Vigia até à foz de Quarteira90. Estas e outras medidas de teor semelhante denotam um «relativo desinteresse ou pelo menos uma não atracção espontânea» pela orla litoral91, o que significa que havia locais mais apetecíveis do que outros, em função dos recursos disponíveis, das apetências económicas e dos perigos inerentes (acções de pirataria, condições de acessibilidade do porto/barra, etc.), existindo pois um povoamento muito desigual da costa.

88 Augusto Pinho Leal, Op. cit., vol. IX, pp. 854-859. 89 Humberto Baquero Moreno, Op. cit., pp. 37-63.

90 Augusto Pinho Leal, Op. cit., vol. V, p. 205; I, p. 224; I, pp. 27-28; I, p. 55; e I, pp. 409-410.

91 Carlos Diogo Moreira, Op. cit., p. 165. Sobre as dificuldades de povoamento dos litorais oceânicos ver