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1.3 O caminho e o campo

1.3.2 Estrangeiros entre os “nativos”

A pesquisa etnográfica exigia uma observação participante e nessa etapa da pesquisa privilegiamos o que nossos sentidos nos apontavam. Olhamos, escutamos e percebemos os detalhes, as nuances das rotinas de edição do Jornal Hoje e do RedeTV News e fizemos os registros no diário de campo. A etnografia é um método qualitativo e empírico que propicia uma maior riqueza de detalhes do objeto estudado (PERUZZO, 2006), por isso, como uma pesquisadora, estrangeira, precisei me misturar aos jornalistas, nativos, e me colocar em lugares estratégicos da redação e das ilhas de edição para observar, escutar e ver quem, onde, como e por que se fazia o que estava sendo feito.

Na pesquisa junto à equipe do Jornal Hoje da Rede Globo, escutei o seguinte comentário (bem humorado) de uma das editoras antes de entrevistá-la: “estou me sentindo como um rato de laboratório que vai passar por uma experiência científica”; o que me fez lembrar logo de início que, apesar de ser jornalista e de ter trabalhado em edição de telejornais em uma emissora afiliada à Rede Globo, minha condição naquele momento era de pesquisadora, sendo, portanto, uma estranha entre os “nativos” da redação.

Já no RedeTV News da RedeTV o comentário (também bem humorado) que escutei foi dito por uma editora no segundo dia da pesquisa. Assim que cheguei à redação da

emissora para continuar a pesquisa, logo depois do “boa tarde”, escutei o seguinte dela: “quem você vai pegar pra Cristo hoje?” No dia anterior eu havia passado 9 horas ininterruptas ao lado dela acompanhando seu trabalho de edição e, apesar de a editora ter sido bem receptiva, demonstrou com esse comentário que, se eu insistisse em acompanhá-la mais um dia, eu poderia atrapalhar sua rotina e que seria melhor que eu continuasse colhendo informações com outros editores do RedeTV News. E foi o que eu fiz, tendo as observações e os depoimentos dela como referência para a continuação da pesquisa na RedeTV!.

Segundo Peruzzo (2006), o pesquisador se junta à equipe pesquisada, mas não faz parte dela propriamente. Sua condição participante é provisória e dura apenas o tempo que a pesquisa precisa para ser realizada. Entretanto, essa permanência deve durar o tempo necessário para que o observador não seja tomado como um total estranho durante todo o tempo (CASETTI; CHIO, 1999). Nessa etapa, os dados são colhidos por observação sistemática e direta, produzindo o registro simultâneo do que se observa.

O procedimento é necessário para mostrar como se dão os processos sociais de transformação dos fatos em notícia dentro dos limites da cultura profissional jornalística. Essa convivência acaba por construir uma dada familiaridade e naturalidade do observador para com o campo, mas o observador deve, ao mesmo tempo, promover um distanciamento necessário para contribuir para uma etnografia da comunicação (TRAVANCAS, 2009).

Partimos do pressuposto de que o processo de escolha feito pelos jornalistas dos fatos com valor-notícia é subjetivo e arbitrário, pois depende de cada um dos indivíduos, mas também é objetivo (SEARLE, 1995), pois se manifesta a partir do conjunto de valores e experiências vivenciadas pelos editores na seleção das notícias (WOLF, 1987; HOHLFELDT, 2001; VIZEU, 2000). Assim, a pesquisa, baseada no entendimento do jornalismo como um processo de construção social da realidade cotidiana, exigiu uma investigação qualitativa em combinação com uma pequena abordagem quantitativa capaz de indicar o percentual de produção de efeitos de realidade no total de notícias observadas na pesquisa de campo.

Como complemento à observação participante, realizamos a quinta etapa da pesquisa de campo com a aplicação de entrevistas qualitativas, semi-estruturadas, semi-abertas, seguindo um roteiro proposto pelo método sense making (DERVIN, 1986; WAI-YI, 2010) e que permitiu uma abordagem de pesquisa em profundidade (DUARTE, 2009), seguindo os encaminhamentos propostos pelo método etnográfico. Acreditamos que a utilização desse tipo de entrevista foi providencial porque segue uma linha de tempo do micro-momento da construção do sentido (DERVIN, 1986), o que a fez funcionar como um elemento facilitador

ser imaginativo e proporcionar um terreno fértil para a crítica, sem que se perca de vista o rigor do método (THIOLLENT, 1982).

A entrevista sense making se apresentou como um instrumento eficaz na coleta de informações, pois ela é feita com base na técnica de reconstituição e descrição detalhada de tarefas rotineiras de trabalho, abrindo as possibilidades para uma melhor compreensão de todo o processo de produção do sentido das notícias nos dois ambientes estudados (Rede Globo e RedeTV!). O sense making privilegiou a obtenção de informação individualizada a partir da descrição da experiência subjetiva, de uma pessoa, no nosso caso o editor de telejornal, considerando que o processo de produção de sentidos é individual, mas também é objetivo, como resultado da prática de uma cultura profissional (VIZEU, 2007).

Esse foi o momento de entender melhor os porquês das ações das pessoas e do grupo, de reforçar o que havia sido visto, percebido e escutado na etapa de observação. Pretendíamos realizar as entrevistas fora do horário de trabalho para não interferir nas rotinas e evitar interrupções nos depoimentos, pois em uma experiência anterior15, o fato de entrevistar os jornalistas no horário de trabalho atrapalhou as rotinas deles (CABRAL, 2009).

Na Rede Globo, isso não foi possível. Devido à redução do tempo de pesquisa para um dia apenas, as entrevistas foram realizadas durante a edição do telejornal, com várias pausas conforme o que é descrito sobre as rotinas do Jornal Hoje no Capítulo 4 desta tese, o que gerou mais pressa na usual correria diária registrada na redação do telejornal.

Na RedeTV!, por termos recebido uma autorização de uma semana para a pesquisa, as entrevistas com os editores foram realizadas de forma mais tranquila e a percepção que tivemos é que não atrapalharam as rotinas de edição do RedeTV News.

Nos dois telejornais das duas emissoras, utilizei o mesmo modelo de entrevista baseado no método sense making e cujo roteiro é dividido em três partes: 1) Na primeira parte, o entrevistado descreve sua situação, seu perfil, sua rotina e suas principais atividades, como também descreve uma tarefa de edição já realizada; b) Na segunda parte, ele descreve os passos que precisou dar para realizar a tarefa descrita e c) Na terceira parte, ele detalha quem e/ou o que lhe ajudou na realização da tarefa. Constatamos que os questionamentos desse tipo de entrevista foram muito eficientes para responder às perguntas de como os jornalistas estão editando os telejornais com o uso da tecnologia digital e porque estão

15A pesquisa foi realizada em 2009, junto às equipes de edição do JPB I e II na TV Cabo Branco em João

Pessoa-PB, cujos resultados são apresentados no capítulo A travessia do analógico para o digital na TV Cabo Branco – Paraíba, no livro Metamorfoses jornalísticas II: a reconfiguração da forma.

produzindo efeitos e sentidos capazes de construir uma Realidade Expandida nas notícias televisivas (APÊNDICES 2 e 3)

O sense making considera que toda e qualquer situação de uso de informação pode ser caracterizada pela existência de lacunas, responsáveis até por uma visão nebulosa do sistema de comunicação (DERVIN, 1986). Essa sensação nebulosa pode implicar angústia, dependendo da importância da situação vivida pelos editores. Dessa forma, o contexto social, econômico, pessoal e cultural no qual o jornalista se insere assume um aspecto fundamental na produção de sentidos e na sua sobrevivência em meio a essas lacunas. Compreendemos que o sentido depende do contexto comunicativo no qual determinado enunciado está efetivamente inserido (GOMES; GOMES, 2007). No nosso caso, o enunciado das notícias é parte de um processo maior, que são as rotinas de produção e, por isso, os sentidos são produzidos nesse contexto, no mundo de referência (RODRIGO ALSINA, 2009).

Acreditamos que os procedimentos jornalísticos, os colegas de trabalho, as fontes e a própria tecnologia que os editores utilizam diariamente no exercício de sua profissão são os auxiliares que tornam possível a suspensão da dúvida e da angústia causada pela pressão do tempo e pela inovação do digital. Os profissionais se deparam todos os dias com fatos novos para interpretar, mas os enquadramentos jornalísticos tornam possível a transformação dos fatos em notícias no tempo necessário (TUCHMAN, 1983).

Quando diminuem as dúvidas e/ou as indecisões, os editores dos telejornais costumam se mover mais tranquilamente em direção aos seus objetivos. Entretanto, percebemos que muitas lacunas apareciam diariamente nas rotinas dos editores. A ponte necessária para transpor essas lacunas era então definida em função das estratégias empregadas por eles para buscar e utilizar as fontes de informação que precisavam e o conjunto de técnicas e de tecnologias capazes de atender a suas necessidades e encontrar soluções inteligentes para tornar possível uma edição mais criativa dentro do deadline do telejornal.

Após a realização das entrevistas partimos para a transcrição, feita em detalhes, sobre o que foi dito pelos entrevistados bem como as reações e emoções percebidas após a provocação dos questionamentos. Logo em seguida, para fechar os elementos da análise, escolhemos as reportagens produzidas e exibidas na mesma semana da observação participante em cada um dos ambientes pesquisados e que continham efeitos de edição dentro de nossa proposta, quando os editores manipulam as imagens gravadas ou criam imagens no computador para cobrir as matérias e construir uma Realidade Expandida na edição digital. Essa etapa complementou a observação das rotinas: tomamos as notícias exibidas para refinar

a percepção sobre os sentidos produzidos e confrontar as intenções dos editores com o resultado presentes nas matérias levadas ao ar.

Na oitava etapa, partimos para a descrição dos dados obtidos e para a interpretação dos resultados, produzindo um diálogo com os autores mais importantes para a tese a partir do estado da arte construído. Finalmente, na nona etapa, fizemos o cruzamento do que foi proposto com os resultados obtidos no estado da arte e no campo, na verificação das hipóteses levantadas e nos objetivos traçados e alcançados, para enfim apresentar algumas conclusões de pesquisa.