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M ETODOLOGIA DO GERAH

Como principais referências metodológicas, o GERAH toma como base Henry Léfèbvre, cujo método regressivo-progressivo inspirou o Grupo, elevando-o, também, a técnica da pesquisa-ação, com proposições de Carlos Brandão, além das teses desenvolvidas pelo Grupo. Assim, segue os princípios da pesquisa-ação, que corresponde à participação, investigação e ações educativas como momentos de um mesmo processo, com ênfase na constante troca de conhecimentos entre os saberes técnico-científico e popular em perspectiva dialógica. Desse modo, as atividades desenvolvidas na área de planejamento, organização e execução do espaço físico dos habitats dos assentamentos rurais, bem como da melhoria e reforma das habitações existentes, são efetivadas a partir de uma construção coletiva e horizontal, onde a participação dos usuários acontece em todas as etapas. Assim, são criados parâmetros para o desenho de assentamentos rurais, enquanto reflexo do vivido e das expectativas de organização do MST, através de um processo de planejamento participativo.

A metodologia desenvolvida pelo GERAH apresenta dois eixos de atuação: implantação do habitat de assentamentos recém-criados; e planejamento da melhoria e da ampliação das moradias dos assentamentos já existentes. Em ambos, atua somente nos assentamentos originários do MST, apesar de realizar palestras e consultorias ao INCRA local e nacional, na direção de política para o Órgão, bem como a outras organizações populares.

A experiência realizada no Assentamento Maria da Paz consiste num exemplo do primeiro eixo. Assim, a metodologia adotada englobou todas as etapas do processo, indo desde o planejamento inicial do habitat e habitação, passando pelo parcelamento do solo do

assentamento como um todo, levando em consideração o planejamento e as práticas ambientais, culminando na construção da casa em regime de autogestão assistida em sistema de mutirão. Também foi agregada a questão do tratamento das águas residuárias. Desse modo, a metodologia empregada compreende as seguintes etapas:

1. Conhecimento da situação local, do vivido, do presente e das expectativas dos assentados.

É a primeira ação executada. A proposta prioriza que esta ação aconteça na época do acampamento, pois neste período as famílias dispõem de mais tempo livre, o que favorece as atividades e discussões. Porém, nada impede que ocorra depois do auto de imissão de posse. Assim, por meio da aplicação de questionários específicos ou realização de entrevistas na comunidade acampada efetivam-se os

estudos relativos ao conhecimento do presente conhecido: da realidade do acampamento, da situação dos assentamentos existentes, da estrutura política do MST, no geral e no local; do vivido pelos segmentos sociais recém (re)agrupados, principalmente em relação a sua forma de vida cotidiana no seu habitat de origem, sua moradia e sua inserção no movimento, seus sonhos e expectativas (BORGES, 2006, p. 60).

2. Concepção das propostas e projetos preliminares

Tomando como base as informações coletadas na etapa anterior, são desenvolvidos estudos preliminares e propostas relativas ao parcelamento do solo do futuro assentamento, contemplando a área de produção; de reserva legal; de preservação permanente; vias de circulação; local de moradia e projetos específicos, visando à construção de habitações, equipamentos de produção e de consumo coletivos.

No mais, também são levadas em consideração para a concepção destas propostas a legislação específica; os princípios do MST, como a questão da organização social; os postulados defendidos na tese “MST: habitats em movimento”; os princípios da Arquitetura e Urbanismo; os procedimentos metodológicos de Henry Léfèbvre para a produção social do espaço e os conhecimentos específicos da área ambiental. Busca-se, também, adaptar as propostas às especificidades da região trabalhada, como as questões ambientais, de conforto e de materiais construtivos. No mais, a localização da infraestrutura existente e a ser instalada posteriormente, bem como os acessos principais ao assentamento, são critérios apreciados.

Para as propostas de parcelamento do solo busca-se a contribuição de outros profissionais, sobretudo aqueles com atribuições específicas, como biólogos, geólogos, dentre outros. Como o GERAH não possui estes profissionais em sua equipe, depende de parcerias. De acordo com

as possibilidades, desenvolve também projetos de educação ambiental, organicidade, técnicas não convencionais da construção civil, entre outras.

No tocante ao habitat busca-se reproduzir a organização social da comunidade em núcleos de família no espaço físico.

Para a concepção da habitação, o Grupo tem o objetivo de utilizar materiais de construção e técnicas construtivas não convencionais, com o intuito de barateá-la, desde que não percam as qualidades definidas pela proposta. A aceitação destas possibilidades ainda está em processo de formulação no contexto das experiências praticadas.

3. Reavaliação do projeto preliminar e redefinição dos consensos

Depois de pré-concebidos, os projetos são levados para serem discutidos com os diversos agentes envolvidos no processo. Os debates acontecem, num primeiro momento, em reunião com as lideranças do assentamento – coordenadores de núcleo e liderança do MST. Num segundo momento, consulta-se a base assentada. Nestas oportunidades, são realizadas oficinas para melhor compreensão por parte da comunidade, com exposição das propostas por meio de desenhos (planta baixa; cortes; fachadas) e maquetes. As adaptações sugeridas, se necessárias, são concretizadas através do consenso. Desse modo, constroem-se propostas de maneira coletiva, considerando-se as especificidades da comunidade, com troca de experiências e respeitando a diversidade de conhecimentos dos envolvidos. Próximo ao momento de sua execução, se ainda persistirem dúvidas, as propostas devem ser reavaliadas coletivamente.

4. Planejamento para o modo de construção das moradias

Depois dos projetos do assentamento - habitat e habitação determinados -, parte-se para a definição do modo de construção da moradia. A sugestão da metodologia corresponde ao mutirão autogerido. No entanto, esta proposta é levada para ser discutida junto à comunidade, que decide por sua utilização.

O mutirão autogerido caracteriza-se pela atuação dos próprios beneficiários na construção da moradia. Os assentados, que não possuem habilidade para trabalhar como pedreiros, desempenham função de servente. Assim, organizados em “brigadas” (grupos) trabalham de maneira coletiva, uns cooperando com os outros no intuito de erguer as habitações. Cada brigada apresenta sua própria dinâmica, com seus pedreiros e serventes. Todavia, fazem parte do conjunto total.

A proposta original consiste em que a construção não seja remunerada, que todos os recursos financeiros disponíveis sejam empregados em favor da moradia. No entanto, esta

sugestão nem sempre é possível no campo, pois os mutirantes interrompem seus afazeres para trabalhar na obra. Quando não há consenso por parte da comunidade, deve-se estabelecer uma remuneração simbólica, como compensação pelas horas de trabalho. Propõe-se que o valor pago à mão de obra seja distribuído pelas etapas da obra, de maneira proporcional ao grau de dificuldade dos serviços executados.

É primordial que a maioria da comunidade se envolva, não importando de que modo aconteça sua contribuição. As atividades de servente, encanador, eletricista, apontador, comissão de compras, dentre outras, podem ser desempenhadas indiscriminadamente pelos assentados, desde que habilitados para tal, sendo prioridade a participação efetiva de todos os integrantes no processo. Quanto à comissão de compras e do almoxarifado, prioriza-se uma pessoa representante por núcleo.

Trabalha-se também a questão do gênero. Desse modo, o trabalho feminino é incentivado, sem preconceitos e dentro de suas possibilidades e desejos.

Assim, a autogestão assistida acontece no momento em que os próprios assentados são os responsáveis pela organização das equipes que irão trabalhar no processo, como a equipe de compras (responsável pela pesquisa de preço e aquisição do material de construção); apontadores (responsáveis pelo controle da freqüência dos trabalhadores) e pedreiros (a força braçal do processo), como também pela estruturação e controle do almoxarifado para a estocagem do material de construção adquirido, dentre outros. Todas estas ações contam com a orientação técnica do GERAH. No mais, os assentados ainda são responsáveis, conjuntamente com os técnicos do INCRA, pela aplicação e gerenciamento dos recursos financeiros disponibilizados.

Para qualificar e capacitar a mão de obra propõe-se a realização de curso de pedreiros ou mutirante. Por meio de aulas teóricas os assentados disponíveis para este trabalho recebem instruções quanto à construção, ao meio ambiente e à organicidade do processo construtivo.

5. Processo construtivo

A sugestão é que a construção aconteça em linha de balanço. Isto significa que em cada brigada todas as casas devem ser erguidas ao mesmo tempo, etapa por etapa. E na medida em que os profissionais vão terminando suas tarefas, podem complementar as dos demais. Desse modo, todos trabalham na casa dos demais, incentivando-se a coletividade. Contudo, como esta proposta não corresponde à construção tradicional que os assentados conhecem no campo, também se utiliza da construção por etapa, em que cada equipe desenvolve etapas semelhantes para um número pré-estabelecido de unidades.

A supervisão diária da mão de obra é realizada pelo mestre de obras ou contramestre. Orientando a todos, há o responsável técnico da obra, arquiteto e urbanista ou engenheiro civil, que se responsabiliza pela condução do processo construtivo, disponibilizando as informações necessárias para a sua adequada efetivação.

Ao final, tem-se a possibilidade de executar sistemas alternativos para o saneamento básico, de acordo com os recursos financeiros disponíveis.

Na seqüência, serão apresentadas as duas experiências que serviram de base de estudo para esta dissertação. A primeira – realizada no Assentamento Eldorado dos Carajás – não fez uso da metodologia do GERAH. No contraponto, a outra experiência estudada, desenvolvida no Assentamento Maria da Paz e considerada como referência, empregou tal metodologia.

4. 1 ASSENTAMENTO ELDORADO DOS CARAJÁS

O Assentamento Eldorado dos Carajás localiza-se em Macaíba. Constitui-se num exemplar cuja implantação do espaço físico do seu habitat adotou a metodologia padrão empregada pelo INCRA em suas práticas cotidianas até início da década de 2000. Desse modo, não seguiu ações sistematizadas e nem existiu a orientação ou assistência técnica de profissionais da área da construção civil, como o arquiteto e urbanista63.