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Existência de um conceito restrito de «defesa nacional»

No documento Forças armadas na segurança interna (páginas 39-42)

CAPÍTULO II ESTADO DA ARTE

2. Existência de um conceito restrito de «defesa nacional»

O segundo entendimento defende um conceito restrito de defesa nacional, uma concepção tradicional da Europa Ocidental, onde a missão essencial das Forças Armadas é a defesa militar do país contra o inimigo externo.

Segundo Jorge MIRANDA e Rui MEDEIROS a ―defesa nacional não se confunde com a segurança interna, conquanto a separação de águas não seja nítida como foi noutras épocas (…). A segurança interna situa-se na órbita da polícia e destina-se, essencialmente, a garantir a ordem, a segurança e a tranquilidade públicas, a proteger as pessoas e os bens e a prevenir a criminalidade e, portanto, a contribuir para assegurar o normal funcionamento das instituições democráticas, o regular exercício da legalidade democrática. As Forças Armadas apenas aí são chamadas a intervir, nos termos da lei de estado de sítio e de estado de emergência (…). Fora disso, estariam em perigo tanto o papel

42

AMARAL, Diogo Freitas do. ―A Lei de Defesa Nacional e das Forças Armadas‖, ob. cit., [8], p. 14.

43

SANTOS, Loureiro dos. Como defender Portugal – Operações estratégicas. Lisboa: Instituto de Altos Estudos Militares. 1991. p. 60.

institucional das Forças Armadas como o princípio do Estado de Direito Democrático (…)‖44.

Na mesma concepção, escrevem CANOTILHO e MOREIRA que ―O conceito constitucional de defesa nacional articula-se essencialmente à volta de duas distinções: por um lado, entre defesa nacional e segurança interna, estando aquela votada exclusivamente à segurança do país contra ameaças ou agressões

externas - «liberdade e segurança das populações contra qualquer agressão ou

ameaças externas» -; por outro lado, entre defesa nacional em geral, e defesa

militar, em particular, sendo que aquela não se esgota nesta (embora nela tenha a

sua componente principal). Por isso, a defesa nacional pode ser definida como tarefa constitucional do Estado…, nomeadamente por meios militares‖45.

MORAIS, na leitura do texto constitucional português sobre a defesa nacional, entende que ―O decisor constitucional optou por um conceito restritivo de defesa, já que esta foi concebida como instrumento garantístico dos elementos do Estado: soberania institucional (independência nacional); território (integridade do território); e povo (num sentido mais amplo, fala-se de populações). (...) pretendeu-se evitar uma sobreposição entre defesa nacional e segurança nacional, intentando-se, ao invés, direccionar exclusivamente a defesa para o enfrentamento de um «inimigo externo»‖46

.

AMARAL, a propósito do conceito restrito da defesa nacional, explica que:

―… se em termos de defesa nacional uma ameaça interna e a garantia contra esta é institucionalmente confiada às Forças Armadas, como impedir o corolário de que estas devem participar normalmente no desempenho de funções policiais? E como delimitar a ameaça interna

44

MIRANDA, Jorge e MEDEIROS, Rui. Constituição Portuguesa Anotada, Tomo III. Coimbra Editora, 2007 (Comentários ao artigo 273.º), p. 684.

45

CANOTILHO, J.J. Gomes e MOREIRA, Vital. Constituição da República Portuguesa

Anotada, Vol. III. 4.ª ed. revista (reimpressão). Coimbra Editora, 2014, (Comentários ao artigo

273.º), p. 863. 46

MORAIS, Carlos Blanco de. ―Alinhamento sobre o regime da organização e funcionamento da Defesa Nacional e das Forças Armadas‖, ob. cit., [16], p. 41.

senão definindo um «inimigo interno»? E, neste caso, como compatibilizar essa definição com o respeito pelos adversários políticos sem o qual não existe democracia pluralista? E como evitar que em caso de agudização das crises políticas internas as Forças Armadas sejam impelidas a tomar conta do poder, uma vez que institucionalmente se declara pertencer-lhe a salvaguarda da sobrevivência da Nação perante qualquer ameaça interna?‖. Diz este autor que ―Estas dúvidas e reticências levaram o legislador da revisão constitucional a adoptar um conceito mais restrito de defesa nacional e um elenco limitado das Forças Armadas‖47

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O conceito restrito de defesa nacional, embora circunscrevendo a intervenção das Forças Armadas à ameaça externa, admite uma excepção, relativamente ao empenhamento daquelas na segurança interna, nomeadamente, nos casos de estado de sítio e de emergência. ―Quer dizer: em circunstâncias bem circunscritas, admite-se que a segurança interna seja componente da defesa nacional, mas não da defesa militar da República‖48.

Escreve MORAIS que podem ―…, as Forças Armadas, a quem incumbe a defesa nacional, serem utilizadas em missões armadas de ordem interna (nomeadamente se for declarado o «Estado de Sítio» fundado em graves ameaças ou perturbações internas da ordem constitucional democrática) o facto é que esses tipos de missões são subtraídos do objecto material da defesa nacional‖49.

Com efeito, esclarece AMARAL que não se pode pensar, todavia, que ―… a redução do conceito de defesa e da missão primária das Forças Armadas à garantia da independência nacional perante qualquer ameaça externa significa ausência de preocupação pelos aspectos destacados pelos defensores da concepção ampla. (…) é evidente que a noção de defesa nacional – ainda quando circunscrita em função da ameaça externa – não significa de modo nenhum que os órgãos de soberania competentes se possam desinteressar de toda a

47

FREITAS DO AMARAL. Diogo. ―A Lei de Defesa Nacional…‖, ob. cit., [8], p. 18. 48

MIRANDA, Jorge e MEDEIROS, Rui. Constituição Portuguesa Anotada, ob. cit., [44], (Comentários ao artigo 273.º), p. 863.

49

problemática das chamadas «estratégias indirectas», que visam precisamente proporcionar o apoio de uma potência inimiga ao desenvolvimento de acções de carácter interno que minem as capacidades morais e materiais da comunidade nacional, procurando impedir ou enfraquecer a reacção adequada desta a uma ameaça ou agressão externa (…)‖50

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Por fim, sublinha o mesmo autor que ―(…), tal como acontece em todas as democracias pluralistas, também em Portugal se prevê e regula o eventual emprego das Forças Armadas em situações excepcionais de ameaça interna, para além de hipóteses de calamidade pública. Mas tal emprego delimitado, no primeiro caso em função de um perigo para a democracia, enquanto tal, já não cabe no conceito de defesa nacional, este sempre definido em função da ameaça externa. Tratar-se-á, pois, de casos excepcionais em que existem missões das Forças Armadas não incluídas no âmbito da defesa nacional‖51

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No documento Forças armadas na segurança interna (páginas 39-42)