Secção V Síntese comparativa
SISTEMA POLÍTICO MOÇAMBICANO
1. O sistema de governo e de órgãos
1.1. O poder executivo
O poder executivo é composto pelo Presidente da Repúblico e pelo Governo.
1.1.1. O Presidente da República
O Presidente é um órgão de soberania, com ampla legitimidade democrática ao nível do ordenamento jurídico moçambicano, pois é eleito numa lista uninominal, por sufrágio universal, directo, igual, secreto, pessoal e periódico206, com direito à reeleição.
É como se estabeleceu, por exemplo, na Constituição norte-americana, pois os autores da Constituição verificaram a necessidade de um Executivo eficiente, individualizado numa pessoa responsável e com iniciativas, uma vez que a câmara legislativa estadual, pelo excesso de discussão de temas, paralisava a administração pública207.
O Presidente da República exerce a função governamental, cumulando com as funções de Chefe do Estado e comando das Forças de Defesa e Segurança.
Nas funções governamentais, o Presidente da República é o Chefe do Governo (art.º 145/3 da CRM), que convoca e preside as sessões do Conselho de
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HAMILTON, Alexander. ―Os departamentos do novo Governo não devem ser separados ao ponto de perderem o controlo constitucional de uns sobre os outros‖, in: O Federalista. Tradução, introdução e notas de Viriato Soromenho-Marques e João C. S. Duarte. Universalia: Edições Colibri, Série ideias, 2003, p. 312.
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Cfr. Art.º 146 da CRM. 207
Ver CAETANO, Marcello apud FIUZA, Ricardo Arnaldo Malheiros. Direito Constitucional
Ministros; nomeia, exonera e demite o Primeiro-Ministro; cria e extingue ministérios e comissões ministeriais; nomeia, exonera e demite os ministros e vice-ministros, os reitores e vice-reitores das universidades públicas, o Governador e o Vice-Governador do Banco Central, os Secretários de Estado e o Secretário de Estado na Província (art.º 159 da CRM).
Nas funções de chefia do Estado, o Presidente da República personifica a unidade da Nação moçambicana, função que advém da confiança popular pela sua eleição directa. Portanto, neste âmbito, ele actua como árbitro; como um poder moderador para assegurar o regular funcionamento dos poderes do Estado, sendo responsável pelas decisões extraordinárias nos tempos de crise institucional e centro de responsabilidade política.
Com efeito, estabelece o artigo 145 da CRM que ―O Presidente da República é o Chefe do Estado, simboliza a unidade nacional, representa a Nação no plano interno e internacional e zela pelo correcto funcionamento dos órgãos do Estado‖. A Constituição arrola nas chamadas competências gerais, no artigo 158, as funções de chefia do Estado, nomeadamente:
- Dirigir-se à nação através de mensagens e comunicações;
- Informar anualmente a Assembleia da República sobre a situação geral da nação;
- Decidir a realização de referendo sobre questões de interesse relevantes para a nação;
- Convocar eleições gerais;
- Dissolver a Assembleia da República, nos casos em que rejeita pela segunda vez aprovar o Programa Quinquenal do Governo;
- Demitir os restantes membros do Governo quando o seu programa seja rejeitado pela segunda vez pela Assembleia da República;
- Nomear o Presidente do Tribunal Supremo, o Presidente do Conselho Constitucional, o Presidente do Tribunal Administrativo e o Vice-Presidente do Tribunal Supremo;
- Nomear, exonerar e demitir o Procurador-Geral da República e o Vice- Procurador-Geral da República;
- Conferir posse ao Governador de Província;
- Demitir o Governador de Província e o Administrador de Distrito, nos termos da Constituição;
- Indultar e comutar penas;
- Atribuir títulos honoríficos, condecorações e distinções.
Incumbe ainda ao Presidente da República, como Chefe do Estado, a orientação da política externa, a celebração dos tratados internacionais, nomear, exonerar e demitir os embaixadores e enviados diplomáticos de Moçambique e receber cartas credenciais dos embaixadores e enviados diplomáticos de outros países, bem como promulgar ou vetar as leis da República (art.º 161 e 162 da CRM).
1.1.2. O Governo
O Governo da República de Moçambique consiste no Conselho de Ministros, que é composto pelo Presidente da República, que a ele preside, pelo Primeiro-Ministro e pelos Ministros (art.º 199 e 200 da CRM).
Por outras palavras, o poder executivo está investido num único magistrado, o Presidente da República, auxiliado pelos restantes membros do Governo, que podem ser por ele substituídos livremente. Portanto, no fim do dia é o próprio Chefe do Governo que responde pela boa ou má execução de qualquer política governamental.
A propósito de um leque de competências conferidas ao Presidente da República, como Chefe de Estado, do Governo e das FDS, alguém escreveu que:
―A pergunta que se nos ocorre é a de saber se é justo para o próprio processo político exigir de um único homem uma capacidade quase equiparável à de um Deus para salvar o Estado do subdesenvolvimento, da miséria, do perigo de desintegração, etc. Seja quem for o titular da Presidência da República o processo político deve esperar que, ainda que
seja beneficiário deste conjunto de poderes, seja ainda um «bom Deus» e se submeta voluntariamente ao controlo dos demais órgãos do Estado‖208.
Para mitigar este facto, a Constituição realizou uma delegação originária de algumas competências ao Primeiro-Ministro, nomeadamente, de convocar e dirigir o Conselho de Ministros, desde que tais sessões não se dirijam à formulação de políticas governamentais, pois estas são dirigidas pelo respectivo Chefe209.
Os membros do Governo podem ser livremente nomeados, exonerados e demitidos pelo Presidente da República, mas em casos de rejeição pela Assembleia da República pela segunda vez do Programa Quinquenal do Governo, a demissão do Governo é obrigatória. Contudo, o Chefe do Executivo, porque titular de uma legitimidade directa, fica incólume (art.º 188 da CRM).
O Governo responde politicamente perante o Chefe do Governo e perante a Assembleia da República.
No primeiro caso, para que o Governo possa responder perante o Presidente da República é preciso fazer uma tarefa de abstracção, supondo-se que o Presidente da República está acima do Governo e, por isso, este presta-lhe contas das suas actividades (art.º 206 da CRM).
A questão que urge colocar é procurar indagar sobre as consequências desta responsabilidade. Na verdade, o regime de responsabilidade é benigno. Em nenhum momento, depois de aprovado o Programa Quinquenal pela Assembleia
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SIMANGO, Américo. Introdução à Constituição Moçambicana. Lisboa: AAFDL, 1999, p. 115.
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Cfr. Art.º 201 da CRM. Portanto, são competências do Primeiro-Ministro: ―1. Compete ao Primeiro-Ministro, sem prejuízo de outras atribuições confiadas pelo Presidente da República e por lei, assistir e aconselhar o Presidente da República na direcção do Governo. 2. Compete, nomeadamente, ao Primeiro-Ministro: assistir o Presidente da República na elaboração do Programa do Governo; aconselhar o Presidente da República na criação de ministérios e comissões de natureza ministerial e na nomeação de membros do Governo e outros dirigentes governamentais; elaborar e propor o plano de trabalho do Governo ao Presidente da República; garantir a execução das decisões dos órgãos do Estado pelos membros do Governo; presidir as reuniões do Conselho de Ministros destinadas a tratar da implementação das políticas definidas e outras decisões; coordenar e controlar as actividades dos ministérios e outras instituições governamentais; supervisionar o funcionamento técnico - administrativo do Conselho de Ministros‖ (art.º 204 da CRM).
da República, o Presidente pode deitar abaixo o Governo. Portanto, em termos de responsabilidade do Governo perante o Chefe do Governo é individual dos seus membros, podendo resultar unicamente na demissão ou exoneração deste ou daquele ministro individualmente e nunca se pode transformar numa demissão de todo o órgão colegial.
Em relação à segunda responsabilidade, que é perante a Assembleia da República (AR), o Governo, através do Primeiro-Ministro, apresenta à AR o Programa Quinquenal (PQG), a Proposta do Plano Económico e Social (PES) e o respectivo Orçamento do Estado (OE); apresenta os relatórios de execução e expõe perante o Parlamento as posições do poder executivo (art.º 205/1 da CRM).
A consequência deste segundo nível de responsabilidade é complexa. Em primeiro lugar, nos casos de início de mandato, em caso de rejeição por duas vezes do PQG, o Presidente pode deitar abaixo o Governo, mas também arrasta a queda do Parlamento (art.º 188). Portanto, está fora de hipótese a situação de o PQG ser reprovado pelo Parlamento pelo facto de o partido do Presidente não tiver maioria na AR, pois nenhum partido político maioritário na AR, mas sem a cadeira de PR, arriscará voltar ao crivo eleitoral só por se recusar a aprovar o PQG.
Em relação ao PES e OE anuais, em caso de rejeição, não há consequências.
Em caso de reprovação do PES e OE, o Governo, no ano seguinte, utilizará os limites orçamentais do ano anterior. Isto é, o PES e OE do ano anterior são reconduzidos até que sejam aprovados novos instrumentos (art.º 198 do RAR).