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Habermas e a defesa da Teoria Deliberativa

2.3 TEORIAS DA DEMOCRACIA E MOTIVOS PARA A

2.3.10 Habermas e a defesa da Teoria Deliberativa

A Teoria Deliberativa é uma das várias correntes dentro da Teoria Democrática que se apresenta como alternativa para preencher espaços nebulosos ou incompletos deixados pelas demais. Em A Inclusão do Outro, Jürgen Habermas (2004), o principal expoente dessa corrente de pensamento, apresenta o modelo de “política deliberativa”, procedimentalista, como ele mesmo afirma, e que se baseia nas condições de comunicação sob as quais o processo político supõe-se capaz de alcançar resultados racionais justamente por cumprir-se, em todo o seu alcance, de modo deliberativo.

Habermas (2004) diz sugerir o modelo deliberativo a partir da crítica ao peso ético excessivo que se impõe aos cidadãos no modelo republicano. Como vantagem do modelo republicano, ele aponta o fato de se firmar no sentido radicalmente democrático de uma auto-organização da sociedade, pelos cidadãos, em acordo mútuo, por via comunicativa, e não remeter os fins coletivos tão somente a um “deal” (negociação) entre interesses particulares.

Como desvantagem, Habermas destaca o fato de o modelo republicano ser bastante idealista e de ter tornado o processo democrático dependente das virtudes dos cidadãos voltados ao bem comum. Pois a política, segundo ele, não se constitui apenas de questões relativas ao acordo mútuo de caráter ético. O erro reside em uma concepção estritamente ética dos discursos políticos.

Habermas (2004) ressalta que apesar da importância dos discursos de auto- entendimento mútuo cultural e social, também é frequente haver, por detrás de objetivos politicamente relevantes, interesses e orientações de valor que de forma alguma são constitutivos para a identidade da coletividade, e que esses interesses e orientações de valor que permanecem em conflito no interior de uma coletividade sem nenhuma perspectiva de consenso, precisam ser compensados. Para isso, não bastam os discursos éticos. A compensação tem se realizado, explica Habermas, sob a forma do

estabelecimento de um acordo entre práticas que se apóiam sobre potencialidades de poder e de sanções. Mas, critica o fato de o estabelecimento desse acordo não ocorrer sob a forma de um discurso racional, neutralizador do poder e capaz de excluir toda ação estratégica.

Habermas propõe, então, que dois modelos de política - liberal (que ele denomina de instrumental) e republicana (denominada de dialógica) – complementem- se e impregnem-se um do outro, formando uma configuração com características novas – o modelo deliberativo – se as respectivas formas de comunicação estiverem suficientemente institucionalizadas, para entrecruzarem-se no médium das deliberações. Ele frisa que tudo depende, portanto, das condições de comunicação e procedimento que conferem força legitimadora à formação institucionalizada da opinião e da vontade.

Então, Habermas compara este modelo deliberativo aos outros dois – o liberal e o republicano – segundo o critério de formação democrática da opinião e da vontade que resulta em eleições gerais e decisões parlamentares. Segundo o modelo liberal, esse processo apenas tem resultados sob a forma de arranjos de interesse, cujas regras para assegurar a justiça e a honestidade dos resultados através de direitos iguais e universais ao voto e da composição representativa das corporações parlamentares são fundamentadas em princípios constitucionais liberais.

A política, no modelo liberal, é essencialmente uma luta por posições que permitem dispor do poder administrativo. O processo de formação da vontade e da opinião política, tanto em meio à opinião pública como no parlamento, é determinado pela concorrência entre agentes coletivos agindo estrategicamente e pela manutenção ou conquista de posições de poder. O êxito nesse processo é medido segundo a concordância dos cidadãos em relação a pessoas e programas, o que significa números de votos.

De acordo com a concepção republicana apresentada por Habermas, a formação democrática da vontade cumpre-se sob a forma de um auto-entendimento ético; apoiando-se a deliberação quanto ao conteúdo em um consenso a que os cidadãos chegam por via cultural e que se renova na rememoração de um ato republicano de fundação. O paradigma não é o mercado, mas sim a interlocução, para a política que tem como sentido uma práxis de autodeterminação por parte de cidadãos. O embate de opiniões na arena política tem força legitimadora, segundo o modelo republicano. O

poder administrativo só pode ser aplicado com base em políticas e no limite das leis que nascem do processo democrático. A formação democrática da vontade tem a função essencialmente mais forte de constituir a sociedade como uma coletividade política e de manter viva a cada eleição a lembrança desse ato fundador.

A teoria do discurso (Habermas utiliza também essa expressão para denominar democracia deliberativa ou política deliberativa) abarca elementos das duas teorias precedentes, integrando-os em um procedimento ideal para o aconselhamento e tomada de decisões.

Esse procedimento democrático cria uma coesão interna entre negociações, discursos de auto-entendimento e discurso sobre a justiça, além de fundamentar a suposição de que sob tais condições se almejam resultados ora racionais, ora justos e honestos (HABERMAS, 2004, p.286).

A Teoria do Discurso, em Habermas, em consonância com o republicanismo, reserva uma posição central para o processo político de formação da opinião e da vontade, sem, no entanto, entender a constituição jurídico-estatal como algo secundário. Ela conta com processos de entendimento mútuo que se realizam, por um lado, na forma institucionalizada de aconselhamentos em corporações parlamentares e, por outro, na rede de comunicação formada pela opinião pública de cunho político.

A teoria do discurso não torna a efetivação de uma política deliberativa dependente de um conjunto de cidadãos coletivamente capazes de agir, mas sim da institucionalização dos procedimentos que lhe digam respeito. Como no modelo liberal, a teoria do discurso respeita o limite entre Estado e sociedade; mas nesse modelo a sociedade civil, como fundamento das opiniões públicas autônomas, distingue-se tanto dos sistemas econômicos de ação quanto da administração pública.

Essas comunicações sem sujeito, internas e externas às corporações políticas e programadas para tomar decisões, formam arenas nas quais pode ocorrer a formação mais ou menos racional da opinião e da vontade acerca de temas relevantes para o todo social e sobre matérias carentes de regulamentação. A formação de opinião que se dá de maneira informal desemboca em decisões eletivas institucionalizadas e em resoluções legislativas pelas quais o poder criado por via comunicativa é transformado em poder administrativamente aplicável (HABERMAS, 2004, p. 289).

Na visão de Habermas, o procedimento deliberativo tem a função de contribuir para que o poder político modifique seu estado de mero agregado ao ser retroalimentado pela opinião e vontade democráticas que, assim, não exercerão apenas posteriormente o

controle do exercício do poder, mas também participarão de sua programação, sem, no entanto, ter “a palavra final” no jogo decisório. Ele explica que o poder político só pode “agir”, pois é um sistema parcial especializado em decisões coletivamente vinculativas, ao passo que as estruturas comunicativas da opinião pública compõem uma rede amplamente disseminada de sensores que reagem à pressão das situações problemáticas no todo social e que simulam opiniões influentes.

A opinião pública transformada em poder comunicativo segundo procedimentos democráticos não pode dominar, mas apenas direcionar o uso do poder administrativo para determinados canais. (HABERMAS, 2004, p. 290).

A política deliberativa, na concepção de um de seus principais formuladores, Jürgen Habermas, se dá por meio de duas vias: a formação da vontade democraticamente constituída em espaços institucionais e a construção da opinião informal em espaços extra-institucionais. A interrelação entre esses dois espaços asseguraria um governo legítimo.

Mantendo os procedimentos próprios da chamada “teoria hegemônica” – regra da maioria, eleições periódicas, divisão de poderes – a democracia deliberativa acredita que a legitimidade das decisões governamentais tem que estar sustentada pelo exercício da deliberação dos indivíduos racionais em fóruns amplos de debate e negociação (FARIA, 2000).

Como bem coloca Avritzer (2000), desde os anos 70, tem surgido no interior da teoria democrática contemporânea uma tendência de reavaliar o peso da “argumentação” no processo deliberativo. Isso significa o questionamento da centralidade do momento decisório no processo de deliberação e a atenção ao momento argumentativo, entendido como o intercâmbio de razões em público.

A primeira posição, centrada no momento da decisão, foi, desde Rousseau, hegemônica por 200 anos, no interior da teoria democrática, como assinala Avritzer. A partir de teorias de movimentos sociais ou da esfera pública, um segundo significado etimológico de deliberação começa a ganhar força, qual seja, a de um processo de discussão e avaliação no qual os diferentes aspectos de uma determinada proposta são pesados.

Benhabib (2007) defende o procedimentalismo deliberativo como resposta racional ao conflito de valores persistente nas sociedades plurais da atualidade. Ao descartar a “ficção” de uma assembleia de massas realizando suas deliberações nas sociedades modernas, afirma que o modelo deliberativo privilegia uma pluralidade de modos de associação na qual todos os atingidos podem ter o direito de articular seus pontos de vista, seja na forma de partidos políticos, movimentos sociais, ou associações.

A legitimidade, observa Benhabib (1996), é o “bem público” que caracteriza melhor a base normativa dos regimes democráticos, mais do que o bem-estar econômico e um sentido viável de identidade coletiva. Segundo ela, são esses os três “bens públicos” (bens no sentido de que alcançá-los é valioso e desejável pela maioria) que, desde a Segunda Guerra Mundial, as sociedades democráticas complexas enfrentam a tarefa de assegurar. Para ela, a legitimidade precisa ser entendida como resultado da deliberação pública livre e isenta de constrangimentos a respeito de tudo o que se relaciona a questões de interesse comum.

Habermas é analisado por Held (1996) como um dos autores ligados à corrente que abordou a crise de legitimação do Estado, segundo a qual o poder do Estado estaria erodindo diante das demandas crescentes da sociedade. Essas demandas são o resultado inevitável das contradições dentro das quais o Estado está enredado.

Além das críticas dos chamados “empiristas”, há alertas de que essas teorias – participativa e deliberativa - podem configurar formas de cooptação, de desmobilização de movimentos sociais, de legitimação de instituições injustas ou de que não eliminariam as desigualdades naturais ou sociais e econômicas de acesso à fala (MIGUEL, 2005).