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Os novos sujeitos sociopolíticos e o poder do Estado

3.1 VISÃO GERAL DA INSTITUCIONALIZAÇÃO DA PARTICIPAÇÃO

3.1.5 Os novos sujeitos sociopolíticos e o poder do Estado

Segundo Gohn (2010), no novo século, novos sujeitos sociopolíticos e culturais entraram em cena, como os movimentos sociais globais, anti ou alterglobalização, movimentos transnacionais, entidades civis modernas, fóruns, conselhos e câmaras de participação; lutas sociais se internacionalizam rapidamente, novos conflitos sociais eclodiram, abrangendo temáticas como biodiversidade, biopoder, demandas étnicas;

houve o retorno das lutas religiosas e se intensificou a questão do imigrante - na Europa e nos Estados Unidos – e, na América Latina, a retomada das lutas indígenas; tudo isso tem alterado a forma e as estruturas do associativismo da sociedade civil e suas relações com o Estado. Ainda segundo Gohn (2012), não se trata mais de contrapor os “novos” movimentos sociais – nucleados em torno de questões identitárias, tais como sexo, etnia, raça, faixa etária, etc – aos “velhos” movimentos, dos trabalhadores.

Nesse cenário, ganha ênfase a participação de atores sociais - integrantes de movimentos, organizações não governamentais e outras associações, em formas de participação política institucionalizada, como conselhos e comitês.

A ordem política na atualidade, como observa Held (1996), não é alcançada pelos sistemas de valores comuns, pelo respeito geral à autoridade do Estado ou legitimidade, e nem, ao contrário, pela simples força bruta. É, de fato, resultado de uma rede complexa de interdependência entre instituições políticas, econômicas e sociais e atividades que dividem os centros de poder e criam múltiplas pressões. Assim, o poder do Estado é um aspecto central dessas estruturas, mas não é a única variável chave. Para o autor, a precariedade do governo na contemporaneidade está associada aos limites do poder do Estado no contexto de condições nacionais e internacionais e ao isolamento, desconfiança e ceticismo em relação aos arranjos institucionais existentes, incluindo a efetividade da democracia representativa liberal. Essas instituições, como afirma, permanecem cruciais para o controle formal do Estado, mas é notável a desconexão entre as agências que possuem o controle formal e aquelas com o controle real, entre o poder que é reivindicado para as pessoas e seu limitado poder de fato, entre as promessas dos representantes e sua performance (HELD, 1996, p. 333-334).

Assim, a percepção dessa disjunção tem contribuído, segundo Held (1996), para a formação de um número significativo de movimentos sociais poderosos, incluindo o das mulheres, o ambiental e o anti-nuclear ou o movimento pela paz, que pressionam por esferas maiores de autonomia e accountability na política. Esses movimentos também fornecem ímpeto para outras forças com objetivos relacionados – de segmentos dos movimentos trabalhistas a inovadores braços de partidos políticos.

Bonavides (2011) afirma que o século XX reconhece sociedades, grupos, classes e partidos como substrato da vida política em substituição dos antigos mitos do cidadão soberano e da vontade geral, tão usuais na abstrata teoria do Estado que veio da herança liberal. Desse modo, a democracia social, diz o autor, não exprime a vontade do homem

empiricamente insulado, mas referido a uma agregação humana, a cujos interesses se vinculou. Na democracia pluralista, acredita ele, esses interesses parcialmente coletivos e em busca de representação, servem-se de dois canais para chegarem ao Estado: os partidos políticos e os grupos de pressão, ou essas duas instâncias podem estar associadas. Na opinião do autor, os grupos de pressão são, no Estado contemporâneo, o que as facções foram em épocas menos recentes: poderosas condensações de interesses particulares e egoísticos, em disputa com o interesse geral. Então, distinguem-se das facções, como ressaltou Bonavides, pela espontaneidade com que surgem e se desfazem, à medida que vencem as questões propostas ou adiantam os interesses em causa, embora haja vários exemplos de grupos de pressão que tendem cada vez mais a institucionalizar-se à sombra do Estado, em competição com o poder oficial, “navegando em águas profundas, quase sempre submersos e invisíveis” (BONAVIDES, 2011, p. 464).

O surgimento de um mundo sem polaridade é a principal característica do século XXI na avaliação de Haas (2008), ou seja, é um mundo dominado não por um ou dois, ou mesmo vários Estados, mas sim por dezenas de atores que têm a posse e o exercício de vários tipos de poder. Isso representa “uma mudança tectônica” em relação ao passado, como argumenta o autor. Haas explica que o século XX começou claramente multipolar. Mas, depois de quase 50 anos, duas guerras mundiais, e muitos conflitos menores, emergiu um sistema bipolar, de confrontação entre Estados Unidos e União Soviética. Com o fim da Guerra Fria e o desaparecimento da União Soviética, a bipolaridade de poder deu lugar à unipolaridade – um sistema internacional dominado por uma energia, neste caso, os Estados Unidos. Hoje, entretanto, observa ele, o poder é difuso, e o aparecimento da “nonpolarity” levanta uma série de questões importantes, porque um sistema internacional apolar é caracterizado por numerosos centros com poder significativo.

De fato, afirma Haas (2008), uma das características fundamentais do sistema internacional contemporâneo é que os Estados-nação perderam seu monopólio de poder e, em alguns domínios, de sua preeminência também. E os Estados estão sendo desafiados a partir de cima, por organizações de âmbito regional e global; abaixo, por milícias; e de lado, por uma variedade de organizações não-governamentais (ONGs) e corporações.

De acordo com Slaughter (2009), vive-se atualmente em um mundo conectado em rede. E este mundo conectado em rede do século 21 existe “acima do Estado, abaixo do Estado e através do Estado”. Nesse mundo, acrescenta ela, o Estado, com a maioria das conexões, será o jogador central, capaz de estabelecer a agenda global e destravar a inovação e o crescimento sustentável. Mas esse mundo de conexões em rede é o espaço de possibilidades para organizações conquistarem posições de poder. Slaughter cita casos de organizações não governamentais que têm percebido o poder da conexão e se organizado em rede para conseguir alcançar suas metas. Cita como exemplo a Campanha Internacional para Banir Minas Terrestres, iniciada em 1991 como uma coalizão de seis ONGs da América do Norte e Europa que cresceram, chegando a abranger 1,1 mil grupos em 60 países. Com essa amplitude, veio o poder. Após ganhar o Prêmio Nobel da Paz em 1997, a rede conseguiu levar a um bem-sucedido tratado internacional para banir o uso de minas terrestres.

Em análise extraída da Conferência em Participação Organizacional e Política Pública realizada na Princeton University, em setembro de 1981, sob a coordenação do Centro de Estudos Internacionais, Black e Burke (1983) buscam mostrar que a participação política por meio de grupos e coletividades na defesa de interesses perpassa a história, ou seja, interesses organizados constituem um fenômeno universal: nas sociedades tribais, em que os conflitos entre autoridades centrais e grupos eram decididos em conselhos; na formação dos estados centrais em que grupos específicos confrontaram os monarcas (clero, nobreza, moradores de cidades, camponeses, comerciantes, advogados etc); no império otomano, onde interesses organizados desempenharam um papel formal, e a autoridade política do sultão era contrabalançada por uma hierarquia de autoridades teológicas e judiciais; na Rússia, em que a extensão da participação tem variado consideravelmente no tempo, dependendo da cultura política do país; nas democracias contemporâneas - europeia, americana, e japonesa – onde as formas organizacionais de participação estão aumentando em significado.