2. HISTÓRIA ABERTA DESDE AS POSSIBILIDADES DE RECONSTRUÇÃO
2.1. O PROCESSO DE ESCRITA DO TEMPO
2.1.4. História do tempo presente
Ao decidir construir/revisitar a história das políticas educativas do RS e seus impactos formativos no professorado de Educação Física, desde a perspectiva da história do tempo presente, acredito também ser necessário reiterar algumas das definições já previamente
explicitadas, em especial, o interesse em alargar o espectro do presente de modo que este dê conta de abarcar uma ideia de contemporâneo. Logo, isso implica em também reconhecer os efeitos das políticas educativas como resultado de promessas e significados anteriores, e perspectivas à posteriori que já produzem sentidos. O presente, portanto, representa um espaço de experiência que comporta memórias, perspectivas, saberes e fazeres também de tempos cronologicamente outros.
O conceito de tempo presente aqui formalizado, me permite demarcar o presente, como o período compreendido desde a promulgação da mais recente Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei nº. 9.394/96) até o presente momento. O conjunto de políticas que este período abrange é marcado, em nível global, por características como performatividade, princípios de gerencialismo curricular e profissional e pela influência de organismos multilaterais na indução de agendas (BALL, 2010; BALL, 2013). No âmbito estadual, estamos diante de um tempo marcado por reiteradas mudanças oriundas basicamente das diferentes políticas e princípios ideológicos nos quais se assentavam os diferentes governos do período.
Embora a história do tempo presente, segundo Dosse (2012), apresente algumas limitações, como por exemplo, o desconhecimento natural do destino temporal dos fatos estudados, ou ainda, como alerta Sirinelli (2014), a difícil tarefa de neutralizar os perigos de se observar as consequências ainda em curso, esta alternativa epistemológica também engendra possibilidades diferentes das tradicionais, se comparadas a historiografia de viés estrutural, por exemplo. Entre estas, ainda destaco a possibilidade de desfatalização da história, ou seja, a quebra do curso dos acontecimentos ancorada em uma relação de causa- efeito. Ao criticar o fatalismo das análises, os autores identificados com esta perspectiva, fundamentam-se em uma ideia de história que opera em diferentes temporalidades, sendo o presente o tempo responsável pela condição de leitura de passados e futuros, sejam eles possíveis ou potenciais.
O principal esforço teórico e hermenêutico da chamada História do tempo presente (HTP), segundo Chartier (2006), é compreender a presença incorporada do passado no presente. Ela permite, ainda, reconhecer as condições de produção e a validação do saber tornado histórico. Para Bédarida (2006), por sua vez, a HTP tem como principal virtude e como grande inovação teórico-metodológica, oferecer aos historiadores uma união inextricável entre o passado e o presente. A verdade da história, para Bédarida (2006), provém da interface entre os componentes do passado que chegam ao nosso presente, os seus rastros,
e o interesse e compromisso do investigador/historiador em reconstruí-los à luz do contemporâneo, configurando um caráter hermenêutico ao objeto, sem que esse apresente inteligibilidade apenas ao presente, mas ao que existe de passado também no contemporâneo. Dessa forma, “a história do tempo presente é necessariamente inacabada” (BÉDARIDA, 2006, p. 229), uma história em movimento e, porque não, do movimento do tempo. Ao inverter a lógica natural (cronológica) do tempo, o historiador desta perspectiva historiográfica, se dedica a procurar produzir um presente ampliado e não apenas um ponto intermediário e fugaz entre um passado que insiste em se sobrepor ao que acontece e um futuro que continua ainda a não ser.
Para Dosse (2012) a HTP se coloca na intersecção entre o tempo presente e o de longa duração, pois o olhar e as ferramentas privilegiadas nos conduzem a problemática sobre como o presente é construído no tempo. Mesmo em se tratando de fenômenos de longa duração, para Berstein e Milza (1999), estes ao serem reconhecidos e analisados como questões do presente, podem inclusive se modificarem. Abre-se, segundo os mesmos autores, a condição para que se revolva desde um passado novos objetos de estudo, estes inevitavelmente “manchados pelas mãos” do presente. Isso de alguma forma indica que independente da origem e das temporalidades cronológicas, os acontecimentos podem ser redimensionados em suas espessuras, ganhando dimensões novas e significados surpreendentes se comparados aos seus entendimentos tradicionais. Segundo Rémond (2006), a distância temporal, se considerarmos as análises historiográficas de longa duração, nem sempre é garantia de verdade, mas de uma racionalidade que nunca esteve, para o autor, presente verdadeiramente na história que se procura enredar, construir, contar...
Para Dosse (2012), a verdadeira singularidade da noção de história do tempo presente reside na possibilidade da criação de modelos hermenêuticos que expliquem a contemporaneidade do não contemporâneo, diante de uma nova espessura temporal, que parta do presente – tempo da ação – para reconhecer outras temporalidades imbricadas. A indagação do historiador, assim, extrapola naturalmente o seu tempo, o instante em que narra, garantindo ao presente uma espessura nova e própria. O conceito, segundo Dosse (2012, p. 11) “[...] remete em sua acepção extensiva ao que é do passado e nos é ainda contemporâneo, ou ainda, apresenta um sentido para nós do contemporâneo não contemporâneo”. Essa noção de “tempo presente” se torna nesse contexto um meio de acesso ao passado, ao que hoje é cristalizado como certezas, tornando seus elementos contestáveis. A concepção evoca, assim, a importância da contingência e do fato. Para Remónd (2006), a história é feita de surpresas,
mais do que de certezas. A história do tempo presente é uma precaução, um meio de impedirmos que o passado assuma uma racionalidade que ele não possui, haja vista o seu caráter necessariamente contingente e relacional.
A partir de algumas metáforas bastante esclarecedoras, Rioux (1999) representa a HTP como uma espécie de vibrato, que desde o presente mobiliza todo um passado. Trata-se de um presente que, nestes moldes e condições, afasta-se de seu “autismo”, garantindo a possibilidade de inteligibilidade, também fora das possibilidades já percorridas. O autor aposta na HTP como estratégia a reviver o passado desde o presente, dando-lhe sentidos novos, muitos deles possíveis a partir do que este tem revelado, criando uma aliança tensa por sua contingência e efemeridade entre os dois tempos.
Segundo Dosse (2012, p. 168), a história deste tempo presente,
[...] não envolve apenas uma abertura de um período novo, mas o muito próximo, que se abre ao olhar do historiador; ela também é uma história diferente, que participa das novas orientações de paradigma que se busca na ruptura com o tempo linear único e linear, e que pluraliza os modos de racionalidade.
No interior desta perspectiva historiográfica é preciso que o investigador seja suficientemente competente para relatar o passado e realocá-lo em melhores condições no tempo presente. É papel do historiador compreender o presente; citar, trazer, nomear o passado (BENJAMIN, 2013) e os seus arquitetos marginais, sobretudo aqueles cujas vozes e ações, silenciadas e desconsideradas, não foram acolhidas pelos discursos históricos de caráter continuísta, homogeneizador e totalizante. Um passado, em que aquele que hoje pode falar, escuta os ecos ainda presentes naquelas pessoas e cenários que por si mesmos já não podem, já não dizem (mais) (quase) nada.
Uma compreensão da história que procure valer-se das premissas de um tempo presente alargado, exige também uma reflexão apurada acerca de quem a escreve. Para Dosse (2012) cabe, no interior desta perspectiva, assumir e reconhecer a importância da subjetividade intrínseca ao papel do historiador que vive, escreve e significa os acontecimentos que a ele são contemporâneos. Assim, é indispensável para a história do presente, conhecer o historiador e o seu lugar de enunciação, pois em grande medida, é esse lugar que conduz sua investigação, implicando diretamente na sua forma de orientar a intriga, entremear os fatos. Em suma, a história narrada/ construída, é muito da história do historiador. O historiador, ao ser levado a dizer de onde fala, ao desvelar suas intenções e as suas
ferramentas, não deve, porém, deixar-se consumir pela tensão de pesquisar o tempo enquanto o vive, evitando tanto se limitar a uma curiosidade nostálgica, como também à celebração de um anacronismo produtor de indiferença e de estranheza para com o passado.
É imperativo ao historiador do tempo presente, diminuir a distância entre a compreensão que ele tem de si mesmo e a dos atores históricos, modestos ou ilustres, cujas maneiras de sentir e de pensar ele reconstrói. Esse elemento, reiterado por Chartier (2006), é provocador a medida que eu, contemporâneo do objeto de investigação e dos colaboradores, inevitavelmente teço e interpreto preliminarmente todo o escopo da pesquisa, desde a seleção das temáticas consideradas mais prementes, aos métodos de análise destacados, ou até mesmo alguns possíveis resultados. Mais do que uma “contaminação dos dados”, ou uma demasiada subjetividade, essas características, conforme aponta Remónd (2006), nos afasta decisivamente do positivismo das análises, nos lembrando que a história não está apenas nos dados, mas na capacidade do historiador (ou dos que assumem essa tarefa, como no meu caso), em construí-los.
A outra importante singularidade da História do tempo presente é a importância de testemunhas, herdeiros, pessoas que viveram a sua construção. Quando um fato, um acontecimento basilar, ainda preserva testemunhas, suas falas e vidas devem ser tratadas com o devido esmero e responsabilidade. Segundo Delgado e Ferreira (2014), a história do tempo presente promove uma revitalização da história política, a partir da ampliação do uso de fontes, assumindo a oralidade, por exemplo, como ferramenta heurística.
Segundo Ferreira e Amado (2006), as fontes orais nos possibilitam compreender melhor o passado que foi o presente dos atores, reconhecendo suas vozes e também a importância do seu testemunho na composição da história nos dias de hoje. Além disso, a proximidade entre experiência e narração permite aos colaboradores, diante do acontecimento (físico e emocional), melhores condições de produção de memórias, produzindo estranhamento e distanciamento essenciais para a construção do conhecimento histórico. Essa coexistência entre quem cria a intriga da história, e aqueles que a viveram – e que da intriga serão personagens, representa uma forma de garantir algum controle sobre os acontecimentos, desde a voz das próprias testemunhas.
Para Meihy e Holanda (2015), a História Oral – metodologia que empregarei neste estudo e a qual tecerei maiores e melhores explicações em momento oportuno – permite o registro de narrativas que sedimentam memórias pessoais e coletivas. Os atores, por meio
destas, relatam suas experiências de vida. O material produzido, se torna objeto de crítica e de análises. A heterogeneidade dos relatos é bem-vinda, pois complexifica o campo de análise.
2.2. HISTÓRIA ABERTA DESDE OS ACONTECIMENTOS E DOS RASTROS DA