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I 2 O Meio Humano da Região Centro-Sul de Angola

ENQUADRAMENTO GEOGRÁFICO DO PLANALTO CENTRAL E A SOCIEDADE UMBUNDU

O MEIO FÍSICO E HUMANO DO PLANALTO CENTRAL DE ANGOLA

III. I 2 O Meio Humano da Região Centro-Sul de Angola

A zona centro sul de Angola é uma zona onde se instalaram vários grupos etno- linguísticos, num processo migratório bantu, cujas manifestações culturais são o resultado de um relacionamento, que foram mantendo, com o meio físico e com os recursos naturais necessários à sua sobrevivência. Estabeleceram-se entre o meio geo- físico-biótico (ecossistema) em que as inter-relações estreitas e dinâmicas criadas ao longo dos tempos são as culturas encontradas nesse espaço227. O habitat das populações ovimbundu desenvolveu-se em forma tri-espacial diferenciada entre a aldeia, a savana e a floresta aberta. Em concordância com os valores sociais, as culturas evoluíram assim como as próprias sociedades, sob a influência de um dinamismo interno que afeiçoa, sem interrupção, os valores culturais do passado transformando-os, adaptando-os e completando-os segundo a evolução da própria sociedade.

No século XIX, a sociedade umbundu apresentava-se de forma coesa, com vários subgrupos linguísticos: Wambu, Ndulu, Viye, Mbalundu, Cyaka, Kakonda, Kalukembe, Sambo, Kibala, Ngalangi, Kilenge, com grande incidência para os subgrupos, Viye, Wambu e Mbalundu. O subgrupo do Viye é composto pelas populações: ndulu, Kamakupa, Katabola, Kwemba, Kunyinga, Kwitu, Nyarea, Cingwali que se definem por variantes fonológicas do grande grupo linguístico umbundu.

226 NOGUEIRA, Jofre Amaral - A colonização do Huambo. Nova Lisboa: Gráfica do Planalto, 1953. P. 10.

227 KABALA, Makuta - Rappors entre l’homme et les écosystèmes dans le monde Bantu, roots. 1991, p. 49. Citado por ESTEVES, Emmanuel - O caminho-de-ferro de Bengela e o impacto económico, social e cultural na sua zona de influência, (1902-1952). Porto: [s.n.], 1999. Vol. I. Dissertação de doutoramento em História Contemporânea apresentada à Faculdade de Letras da Universidade do Porto, 1999. P. 19.

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Devemos ter em conta outras línguas faladas pelas populações provenientes de outros grupos etnolinguísticos, nomeadamente, Cokwe e Ngangela, mais a Leste de actual província, no município de Citembo.

A sociedade umbundu é, actualmente, uma vasta comunidade constituída por populações que também habitam o planalto central, o nosso alvo de estudo. Está localizada em Angola, na coordenada centro e sul, isto é de oeste (Bengela, sul do Kwanza-sul) ao planalto central (Wambu, Viye e norte da Wila). Neste território existiam aglomerações populacionais, dispersas pelas terras, constituídas por dez a cinquenta fogos, da população ovimbundu, com uma densidade populacional que oscilava entre 100 a 1000 pessoas o que indiciava uma forte presença demográfica228. No século XIX, observadores atentos, entre os viajantes e os missionários, calcularam essa densidade populacional quando percorreram o interior de África em direcção à costa atlântica. Alguns estimaram esses aglomerados em cerca de dez a doze milhões de

almas (...)229. O viajante Austro-húngaro Ladislau Magyar questionou esses dados quando transitou pela maioria dos territórios umbundu, referindo que (...) o viajante em

África não é capaz de arranjar dados estatísticos de confiança e sobretudo de determinar com alguma confiança o número dos indígenas (...). Apesar de Magyar ter

convivido neste meio, a verdade é que alguns dos dados que ele forneceu foram recolhidos pelos seus pombeiros, familiares e chefes. Por isso insiste em dizer que não são dados totalmente fidedignos. Os dados de Magyar são empíricos, ele elaborou os seus cálculos através de dados fornecidos pelos “indígenas”, mas considerou-os mais fiáveis que os dos outros viajantes. Ele não dominava a língua umbundu, o que sabia de umbundu aprendeu enquanto estudante. A incipiência desse conhecimento forçou-o a inventar conjugações repugnáveis230. Magyar quantificou a população umbundu

228 HENDERSON, Lawrence W. - Angola: five centuries of conflict. Ithaca [N.Y.]: Cornell University Press, 1979.

229 BASTOS, Augusto - Traços geraes sobre a ethnographia do districto de Bengella. Boletim da Sociedade de Geografia de Lisboa. N.º 2, série 27 (Fev.1908) p. 50-51. Citado por ESTEVES, Emmanuel - O caminho-de-ferro de Bengela e o impacto económico, social e cultural na sua zona de influência, (1902-1952). Porto: [s.n.], 1999. P. 19. Dissertação de doutoramento em História Contemporânea apresentada à Faculdade de Letras da Universidade do Porto.

230 MAGYAR prosseguiu a sua descrição estatística quanto aos territórios umbundu e afirmou que as suas indicações se baseavam apenas em conjecturas, apoiadas nas suas observações de longa data. Tomou em conta a forma de construção habitacional das populações e, a partir daí, calculou em conformidade com a média do número de habitantes. Encontrou um grupo denso de povoações, sendo que a média de habitantes por libata, podia ser calculada entre 80 a 160 cabeças excluindo as crianças.

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delimitada no seu território da seguinte forma: (...) são limitados a Leste e Norte pelo

rio Koanza, que corre de sudeste, numa enorme curva, em direcção a Oeste...avalio a área deste território em cerca de 7.300 milhas quadradas (calculando 18 milhas por cada grau), mas a população total em 1.880.000 almas, calculando 256 por cada milha quadrada (...)231. Segundo dados estatísticos recentes, estima-se uma população acima dos 500 habitantes correspondente a mais de um terço da população angolana232.

O Major português Serpa Pinto avaliou “grosseiramente” uma das áreas em 2.500 milhas quadradas, e noutro cálculo, ainda mais “grosseiro”, estimou a sua população em 95.000 habitantes, o que daria 38 habitantes por milha quadrada. Estes dados eram estimativas, cálculos baseados na observação, porque os dados fiáveis viriam a compor-se num estudo científico, ou através do censo populacional que ainda é deficitário em Angola233.

O grupo etnolinguístico ovimbundu é originário da grande família bantu, durante o processo migratório ocorrido em vagas de nordeste a sudeste, que partiram em direcção ao extremo sul do golfo da Guiné a norte do lago Victória234. Vários pesquisadores opinam o mesmo quando referem que seriam os três reinos centrais do

Bié, Bailundo e do Huambo, os três representavam mais de metade da população

231 MAGYAR, Ladislau - Viagens ao Interior de África [Manuscrito]. 1849-58.

232 MALUMBU, Moisés; AREIA, M. L. Rodrigues de - Os Ovimbundu de Angola: tradição, economia e cultura organizativa. Roma: Edizione Vivere In, 2005. P. 47.

233 PINTO, Serpa - Como eu atravessei África. Lisboa: Europa-América, 1998. P. 138.

234 Em 1862, o linguísta alemão Bleek empregou o termo Bantu para marcar a identificação de diferentes variáveis Bantu. Os estudos mais recentes, nomeadamente do CICIBA, incluem-nos nos falantes do grupo A da família bantu. As populações das montanhas dos Camarões começaram a emigrar em direcção ao centro e sul do continente há mais de 2000 ano com um deslocamento feito sobre dois eixos: o primeiro, a Oeste-este, composto de dois grupos étnicos que avançaram em paralelo ao Norte, os Zande e ligeiramente mais ao sul, os bantu. Joseph Greemberg, no seu trabalho, aponta o movimento em três direcções a partir do rio Ogué nos Camarões, entre o lago Tchad e o rio Níger, entrando a noroeste norte e nordeste. Cf. cf. OWONO-NGUEMA, François; CICIBA (Organization) - Facteurs culturels et projets de développement rural en Afrique centrale: points de repère. Paris: L'Harmattan, 1989. P. 99-100. Desde o período das grandes deslocações até ao processo de sedentarização, afastando os Koisan, autóctones do país que actualmente constitui Angola, esta população apresenta a mais elevada taxa demográfica de Angola. Duas razões se prendem com esta causa: primeiro, as terras férteis do sul, o clima, a fauna, a hidrografia e o relevo pouco acidentado; a posição geográfica facilitava o sistema de intercâmbio económico entre vários clãs. Segundo, a superioridade bantu a nível tecnológico, físico, o conhecimento da agricultura e a diversidade alimentar. Podemos acrescentar que durante as razias epidémicas na região, o tráfico de escravos, e mais recente o trabalho forçado no sistema de contrato nas empresas mineiras e agrícolas da região, alterou, em certa medida. Mas a sua localização desfavorecia a fuga massiva destas populações ovimbundu, a fronteira norte era distanciada a sudeste. A zona de fronteira mais próxima era a dos países anglófonos, mas aí, persistia o sistema de apartheid não sendo uma fronteira estável para fuga ao trabalho forçado. Por tal facto o fluxo migratório pela fronteira norte era em escala reduzidíssima. Actualmente continua a ser a população de maior densidade demográfica em Angola.

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ovimbundu, dominavam as pistas de acesso entre as terras orientais, da borracha e o mar235. Atendendo à configuração geopolítica e cultural da região confirmamos a existência de 17 subgrupos etnolinguísticos na área umbundu e as suas fronteiras de intersecção linguística (anexo n.º 3). Num trabalho referente à composição da estrutura política umbundu, antecedemos o fundamento da divisão etnolinguística abrangente aos ovimbundu, na sua globalidade, e suas respectivas chefias políticas correspondentes aos Estados da região. Os referidos subgrupos que compõem a sociedade umbundu em Angola constam no estudo sobre a evolução dos ovimbundu de Bossard e são apresentados na tabela seguinte236:

Kalukembi (Va lukembi) Kañingili (Vañingili) Ngalangi (Va Galangi) Mboim (VaMbwi) N’sele (VaNsele) Mbalundu (VaMbalunu) Cyaka (Va Cyaka) Ndombe (Va Ndombe) Wambu (Va Wambu) Sumbi/Mpinda-VaPinda) Kisanji (Ov Isandji) Viye (Va Viye)

Hanya (VaHanya) Kakonda(VaKakonda) Ndulu VaNdulu Sambu (Va Sambu) Ganda - (Va Ganda

De salientar que, graças à abundância dos rios na zona centro sul, as populações ovimbundu conseguiram desenvolver técnicas agro-pecuárias e criar a rota comercial entre o interior e o litoral, (Luanda- Mpungu-Andongo- Kasanji- Mucende- Ndulu- Viye); (Viye-Kilenge-Ngalangi-Kakonda-Alto-Katombela-Dambas da Maria Cavaco e Corinje-São Filippe de Bengella). Recordamos que esta rota possibilitou a concretização de vários projectos no século XVII. Com a incrementação de fortalezas, fortins, presídios, feiras e Kilombo para venda e armazenamento de escravos passou a ser denominada, a partir de 1780, como zona “tampão” do comércio a longa distância intensificada, entre 1820 e 1890. No início do século XX ficou conhecida por zona da colonização com a instalação nessa linha percorrida da primeira via-férrea de Bengela, da primeira fábrica de descasque de cereais no Kunje, em Viye, (estação do Kunji), da

235 Idem, p. 63-64.

236 BOSSARD, Eric - Précis de parenté et son évolution chez les Ovimbundu. Neuchâtel: Université de Neuchâtel, 1985. P. 176-178.

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cerâmica do Kwitu junto à margem do mesmo rio237. Outros projectos de variada índole foram implementados nesse espaço de tempo, por exemplo, o Centro Laboratorial Hidrográfico do Kwanza, no actual município de Katabola, comuna de Kamakupa, onde se situa a nascente do rio Kwanza, Munbwe, em Soma Kwanza. Não muito distante deste surgiu outro no Wambu, o laboratório biogenético para a investigação dos cereais, nomeadamente, da cultura do milho. A concentração deste cereal, nas estações e apeadeiros desta mesma linha férrea, provocou um fluxo de pessoas nesta zona. Ficou por concretizar a ideia da criação do distrito de Nova Lusitânia, que viria a ser o celeiro de Portugal e um novo Brasil238. Trata-se de um período que antecede a penetração nesta comunidade de imigrantes comerciantes que vão, consciente ou inconscientemente, procurar integrar a referida comunidade. Isto obriga-nos a conhecer, em primeiro lugar, o fundamento dessa sociedade, a vida cíclica das populações ovimbundu e as suas instituições sociais, políticas, económicas e culturais. Os próprios valores culturais são o resultado complexo e evoluído da história e do meio ecológico, económico, social e psicológico.

Na sequência das migrações das populações, os Cokwe, já no século XX, vão dar prosseguimento ao movimento contínuo para o sudoeste de Viye em direcção ao rio Kwanza até ao Kwemba, que foi o ponto de encontro com a população que provinha de Malanji no enclave da baixa de Kasanji. Durante o processo de convivência entre uns e outros, criaram-se relações políticas, o que lhes permitiu indigitarem em conselho de anciãos, um líder do grupo, o primeiro soberano da área do Kwemba, “Sachinemuna”, eleito pelos ngangela e “Lwena” do Kwanza, um titular capaz de assegurar o controlo das suas culturas agrícolas, bem como o direito à construção das aldeias, do exercício nas actividades comunitárias no território transfronteiriço do Kwemba, em Soma Kwanza.

Actualmente a população umbundu, em termos demográficos, não é caracterizada como um grupo étnico, mas como um grupo sócio-cultural. Relembramos que a população umbundu até ao século XIX constituía um grupo homogéneo,

237 NASCIMENTO, J. Pereira do; MATTOS, A. Alexandre de - A colonização de Angola. Lisboa: Typ. Mendonça, 1912. P. 64.

238 ESTEVES, Emmanuel - O caminho-de-ferro de Bengela e o impacto económico, social e cultural na sua zona de influência, (1902-1952). Porto: [s.n.], 1999. Vol. I. Dissertação de doutoramento em História Contemporânea apresentada à Faculdade de Letras da Universidade do Porto, 1999.

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caracterizado por várias entidades políticas (os Estados umbundu), que pertencem e provêm da mesma raíz, tendo o mesmo espaço geográfico, uma língua comum, valores e tradições próprios, uma ascendência comum e o sentimento de pertença ao mesmo grupo. Nesse contexto, com o decorrer dos tempos, a mobilidade das populações provocou a heterogeneidade com a fusão de outras populações, como por exemplo: os ngangela, os lucaze, os mbunda, os lovale, os cokwe e os lunda. Essas populações vão- se concentrar no espaço cultural existente e vão conviver com a população umbundu, assimilando a língua e os traços culturais do grupo encontrado. Entre vários casos a constatar sobre a heterogeneidade cultural, o exemplo concreto é o do município do Citembo, onde se constatou a convivência pacífica entre os três grupos, nas aldeias Ciwanu e Mika, onde principia a grande área sócio-cultural ngangela, mais concretamente nas aldeias de Mutala, Manga e aldeia Mukova, até atingir ao Citembo Mungwe. Segundo os nossos entrevistados Cokwe, Ngangela e Ocimbundu, a área é predominantemente controlada por estes povos. Eles têm a sua autonomia e seguem o provérbio local: Citembo kya laza os de Citembo não são submissos.

A colonização criou políticas para dividir estes povos, que de longa data convivem. Não conseguindo resultados satisfatórios decidiu instalar um posto militar no Citembo. Nesta zona encontram-se as aldeias de Chikala, Kamulonda, Mukunya, a ombala Kañingili, rio Vululu, rio Xisolonga, Kapolo e a aldeia Kanyota. Nesta localidade, a entidade política tradicional é chefiada por Anita Ndongwa, da dinastia Mutumbu, que, segundo disse, entrou na região provinda da Lunda em 2007, e tendo sido nomeada soberana “Na Mutumbu”, da Mukunya e Mutumbu pelas suas qualidades de terapeuta, de parteira tradicional e sacerdotisa. Ela proliferou a omanda, mulembeira (Pterocarpus mellifer Welw de Picalho) para sinalizar as ombala recentes, material essencial do seu trabalho (omanda-entrecasca de árvore). A soberana Anita Ndongwa pertence à comuna do Cikala Colohango, município de Citembo e Mukunya que é uma das olombala da dinastia de Na Mutumbu. Anita Ndongwa é a actual soberana dessa dinastia nas comunas de Mukunya e de Mutumbu do município de Citembo, predominada pela população de origem Cokwe. Contudo, a maior parte da população do município de Citembo é Ngangela à qual, com o decorrer do tempo, se juntou a população cokwe e umbundu. Nesse processo, Citembo tornou-se uma zona multilingue

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porque todos são falantes das três línguas: ngangela, cokwe e umbundu. É uma tradição que vem de longa data.

Sendo uma zona da transição comercial por tradição, a formação dos grandes centros urbanos levou outras populações, de meios mais afastados, a instalarem-se no mesmo espaço, por razões sócio-económicas. O Viye continua a ser o centro das atenções das populações do leste, nordeste e sudeste de Angola, cujo êxodo rural na actualidade é fluído. Esse êxodo foi provocado pela situação de guerra e pelas consequências do pós-guerra. Essa heterogeneidade caracteriza o grupo no fundamento sócio-cultural que já não é étnico mas entra numa compenetração cultural entre vários grupos que partilham o mesmo espaço, falam a língua umbundu, assimilam os valores culturais encontrados que fazem parte da sua convivência239. Apesar dessa heterogeneidade cultural, todos esses grupos se revêm na sua originalidade provenientes da grande família linguística bantu.

239 FORMOSO, Bernard - L'ethnie en question, débats sur l'identité. In SEGALEN, M. (ed.) - Ethnologie. Concepts et aires culturelles. Paris: Armand Colin, 2001. P. 15-30.

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CAPÍTULO II