• Nenhum resultado encontrado

Igualdade processual e a condição econômica das partes

No documento Acesso à justiça e carência econômica (páginas 75-78)

Evidente que o princípio da igualdade processual constitui derivação da matriz contida em nível constitucional, a que já nos referimos no item anterior, de modo que todas as considerações que foram feitas se aplicam perfeitamente à seara processual. Notadamente, transpõe-se ao nível processual também a contraposição dos sentidos material e formal da idéia de isonomia.

Por ser tema basilar da ciência processual, o assunto é tratado largamente na doutrina especializada, de modo que seria impossível e até improdutivo aqui reproduzir compilações intermináveis das obras que o mencionam. Abordaremos, por isto, algumas prestigiosas lições, naquilo que seja de mais interesse para o enfoque que pretendemos dar.

Por mais que se proliferem as definições acerca do assunto, há um sentido genérico, lugar comum, de que, se a isonomia na seara Constitucional representa a igualdade perante a lei e igualdade na lei, nos quadrantes da ciência processual representa o paritário tratamento perante o juiz e no processo. Embora desnecessário, há dispositivo no Código de Processo Civil que garante o princípio: art. 125, I186.

É curial para considerações que advirão, observar que a imparcialidade do juiz se manifesta fundamentalmente pela garantia de igualdade entre autor e réu no processo, lembrando-se ainda que o contraditório deita raízes no princípio da igualdade, sendo sua expressão no mecanismo dialético do processo187.

186“Relativamente ao processo civil, verificamos que o princípio da igualdade significa que os litigantes

devem receber do juiz tratamento idêntico. Assim, a norma do CPC 125 I teve recepção integral em face do novo texto constitucional. Dar tratamento isonômico às partes significa tratar igualmente os iguais e desigualmente os desiguais, na exata medida de suas desigualdades” (NERY JUNIOR, Nelson. Princípios

do processo na Constituição Federal. 9. ed. São Paulo: Ed. Revista dos Tribunais, 2009. p. 97).

187COSTA MACHADO, Antonio Cláudio. Código de Processo Civil interpretado. 7. ed. São Paulo: Manole,

2008. p. 122. Ainda no mesmo sentido a lição de José Roberto dos Santos Bedaque: “O princípio constitucional da igualdade reflete-se no contraditório instaurado perante o juiz. A dialética processual implica assegurar às partes, com a maior amplitude possível, a participação em todas as fases do processo, a fim de que sua atividade possa influir na formação do convencimento do julgador. Daí os princípios da ampla defesa e do contraditório, inerentes ao devido processo legal ... Para que se cumpram tais postulados, é imprescindível que ambos os sujeitos parciais tenham assegurada absoluta igualdade de tratamento, não apenas formal, mas também real, competindo ao juiz zelar para que tal ocorra” (in BEDAQUE, José Roberto dos Santos. In: MARCATO, Antônio Carlos (Org.). Código de Processo Civil interpretado, cit., p. 368).

Cintra, Grinover e Dinamarco ressaltam que “a absoluta igualdade jurídica não pode, contudo, eliminar a desigualdade econômica; por isso, do primitivo conceito de igualdade, formal e negativa ... clamou-se pela passagem à igualdade substancial”188.

Geralmente sob os auspícios deste contexto é que são tratadas as ditas

prerrogativas processuais, circunstâncias legalmente previstas em que há diferenciação de

tratamento das partes processuais justamente sob a justificativa de assim procurar-se reequilibrar uma situação de originário desequilíbrio. É o que ocorre, p.ex., com a atribuição de prazo em quádruplo para a Fazenda Pública contestar e em dobro para recorrer (benefício extensivo ao Ministério Público, cf. art. 188 do Código de Processo Civil).

Há diversos outros regramentos neste sentido, e em torno deles há plêiade imensa de questões controvertidas e debates que não nos convém nesta seara tratar, visto que nosso foco limita-se à disparidade econômica das partes.

O que convém seja demarcado é que no processo civil, também têm vazão formas de compensações jurídicas em favor daqueles que merecem proteção especial189.

Em artigo dedicado ao tema ora em estudo, Barbosa Moreira decompõe o princípio da igualdade em algumas facetas relacionadas especificamente ao processo civil190. Primeiramente, lembrando que a ambos os litigantes deve ser proporcionado nutrir esperanças pela vitória e mais, nutrir esperanças por obter a vantagem prática da vitória decorrente, identifica que no processo deve preponderar a igualdade de riscos.

Um dos corolários, ainda segundo o autor, desta faceta é a forma de distribuição do ônus da prova, já que seria iníquo que em qualquer hipótese, apenas ao demandante ou ao demandado incumbisse sempre suportar os riscos do eventual fracasso da atividade probatória.

Há, é certo, exceções com as hipóteses de inversão do tal ônus, que inclusive pode ser legal, derivadas em alguns casos de presunções juris tantum, as quais “frecuentemente

188ARAÚJO CINTRA, Antonio Carlos de; GRINOVER, Ada Pellegrini; DINAMARCO, Cândido Rangel.

Teoria geral do processo, cit., p. 54. Prossegue-se a lição nestes termos: “E hoje, na conceituação positiva

da isonomia (iguais oportunidades para todos, a serem propiciadas pelo Estado), realça-se o conceito realista, que pugna pela igualdade proporcional, a qual significa, em síntese, tratamento igual aos substancialmente iguais ... A aparente quebra do princípio da isonomia, dentro e fora do processo, obedece exatamente ao princípio da igualdade real e proporcional, que impõe tratamento desigual aos desiguais, justamente para que, supridas as diferenças, se atinja a igualdade substancial” (Teoria geral do processo, cit., p. 54).

189GRECO FILHO, Vicente. Direito processual civil brasileiro. 15. ed. São Paulo: Saraiva, 2000. p. 63. 190BARBOSA MOREIRA, José Carlos. La igualdad de las partes en el processo civil, cit., p. 176-185.

se inspiram en consideraciones de equidad, y así en definitiva tienden a hacer prevalecer la igualdad material sobre la igualdad formal”191.

Ainda, seguindo Barbosa Moreira, a isonomia processual significa igualdade de

oportunidades, isto é, às partes há de se garantir o poder de influir igualmente na marcha

processual e no resultado da causa, isto é, as mesmas possibilidades de atuar e as mesmas limitações. É óbvio que algumas diferenças derivam naturalmente da diferença de pólos em que se situam autor e réu, de modo que seja, por exemplo, usual que o encargo de impulsionar o andamento do processo seja mais marcante ao autor192.

A igualdade de oportunidades mantém relação de complementaridade com a garantia do contraditório estabelecido entre as partes193.

Outrossim aos litigantes é garantida a igualdade de tratamento pelo órgão judicial o que exige, antes de tudo, que a conformação do procedimento não fique sujeita ao arbítrio do magistrado, mas se ajuste ao modelo previamente estabelecido pela lei para os processos em geral.

Parece ser fora de dúvida que o fator econômico, conforme já vimos defendendo, reflete indiscutivelmente sobre a relação jurídica processual como elemento de desestabilização das partes. A rigor tal fator implica efeitos daninhos tanto no que concerne ao acesso à Justiça (e aqui utilizamos a letra maiúscula propositalmente, porque nos referimos ao simples ingresso em juízo), como no que respeita ao acesso à justiça (e aqui o minúsculo é indicativo do acesso à ordem jurídica justa, que compreende o desempenho dos ônus processuais necessários para levar a uma perspectiva de vitória)194.

Sobreleva notar que a sorte do processo não deve depender de fatores extra- jurídicos, isto é, o processo não se faz para premiar o litigante mais rico ou mais instruído, ou aquele que tenha condições de contratar o melhor advogado, mas sim ao que tenha o

191BARBOSA MOREIRA, José Carlos. La igualdad de las partes en el processo civil, cit., p. 177.

192O que justifica no ordenamento brasileiro, por exemplo, o regramento do art. 267, III, do Código de

Processo Civil.

193LUCON, Paulo Henrique dos Santos. Garantia do tratamento paritário das partes, cit., 262 p.

194“El factor mas frecuente (y quizás el más grave) de disparidad, entre las partes es, sin dudas, el econômico.

Cuando no le quita simplesmente a uno la disposición para iniciar un proceso, por el temor de los gastos, la carência de médios significa formidable inferioridad frente a un adversário más acaudalado, en muchíssimas situaciones: piensése, por ejemplo, en la contratación de un abogado, en la necessidad de recurrir a los servicios de un detective particular o a otras fuentes de información para obtener pruebas, en la reprodución de documentos, en las diligencias para contactar testigos residentes en lugar ignorado o de difícil aceso ... La duración – casi siempre demasiado larga – del proceso, ya constituye, de por si, una gravísima desventaja para el litigante más pobre, y no pocas veces lo induce a un acuerdo que, normalmente, él no se inclinaria a aceptar” (BARBOSA MOREIRA, José Carlos. La igualdad de las partes en el processo civil, cit., p. 179).

direito invocado195. Ou seja, o processo não deve ser encarado como um jogo, em que o mais capaz se sagre vencedor, mas um instrumento de justiça, em que prevaleça o titular do direito debatido196.

Há quem debite esta defasagem na perseguição dos direitos de que padece o desvalido financeiramente à parcialidade dos próprios juristas, que na maioria dos países civilizados sentem-se como servidores e representantes das classes abastadas197.

Aponta-se ainda a formação de uma complexa e inchada estrutura de administração da justiça, cercada por “abogados, notários, escribanos y otras personas”198. É óbvio que a formação de tal aparato contribuiu enormemente para a maior eficiência do sistema no atendimento da demanda também crescente. Ressalta-se, contudo, que as instituições custosas e complicadas beneficiam sobretudo aos ricos e cultos.

Ademais, numa sociedade marcada pela supervalorização do ganho, que tem no lucro o móvel da esmagadora maioria de suas empreitadas, não se há de estranhar que as funções gratuitas daquele aparato complicado se desempenhem de forma ruim e vagarosa. Deste modo, a obrigação de prestação gratuita de serviços, embora forjada com o fim de reprimir desigualdades, acaba sendo a mais sensível preterição das classes necessitadas199. Tristemente, o que se nota é que “la mediación del abogado a veces producirá más bien el efecto de agravar que el de ablandar el desequilibrio”200, quando em verdade deveria atuar o causídico como intérprete entre o cidadão e o juiz.

No documento Acesso à justiça e carência econômica (páginas 75-78)