4. A INSTITUCIONALIZAÇÃO DO MODELO ISO 9000
4.3 O INICIO DA CERTIFICAÇÃO ISO 9000 NAS CONSTRUTORAS DO
4.3.2 O início da ISO 9000 nas construtoras do Estado
As primeiras construtoras que buscaram a certificação ISO 9000 dos seus “sistemas de garantia da qualidade” escolheram especificamente a norma NBR-ISO 9002 e, posteriormente, uma construtora buscou a certificação na norma NBR-ISO 9001, ambas na edição 1994.
No início, o desconhecimento exato do que vêm a ser as normas da série ISO 9000 pelo próprio Sindicon, é explicitado em reportagem sobre o 3° Qualicon. Nela consta que a Lacerda Chaves foi “[...] a primeira no setor da construção civil na América Latina a receber o certificado ISO 9000 [sic] e 9002” (SINDICON, jul. 1996, p. 4).
Em entrevista ao informativo do Sindicon, o diretor da comissão de Qualidade e Produtividade, Mário Vitali Janes, preconiza sobre o processo pelo qual a Lacerda Chaves passou:
Não resta dúvida que é um marco. Uma construtora de São Paulo, de Ribeirão Preto, conseguir esta certificação que foi voluntária, espontânea. A empresa buscou estruturar um sistema de gestão da qualidade e esse sistema foi auditado e certificado. Isto significa que o mesmo processo de construção e mesmo Sistema de Gestão que ela utiliza aqui para produzir um imóvel, alguém que esteja comprando um outro imóvel na Inglaterra, está sendo atendido pelos mesmos [sic] procedimentos e requisitos técnicos (JANES, 1996).
Considera-se que havia um certo equívoco na explanação do diretor, pois as normas ISO 9000 são extremamente genéricas, justamente para serem aplicáveis à qualquer tipo de organização, seja ela industrial, de prestação de serviços ou até mesmo filantrópica. Justamente por isto, a ISO 9000 basicamente exige a implantação de um sistema documentado de gestão da qualidade, sem especificar qualquer tipo de procedimento a ser seguido ou requisito técnico relacionado ao produto.
A garantia da qualidade a que a norma ISO 9000 refere-se visa assegurar apenas o cumprimento dos requisitos especificados no contrato. Portanto, se uma organização se propõe a comercializar um produto de “baixo padrão” 10 de qualidade, desde que
este padrão seja o que foi contratado, não há nada de errado sob a ótica do que a norma exige. Parte desta visão equivocada passada por Janes (1996) pode ser observada no título e no conteúdo de outra reportagem:
ISO 9000
Padronização da qualidade mundial [sic] [...]
Ter um certificado da série ISO, representa muito mais do que um simples status. Representa ter seus produtos e serviços em conformidade com uma qualidade mundial [sic].
Obter um certificado, significa estar oferecendo um produto que passou por um rígido controle de qualidade desde sua elaboração até o resultado final. Tudo devidamente organizado de maneira a não decepcionar o cliente, ao contrário atendendo aos seus anseios (SINDICON, set. 1996, p. 10, grifo nosso).
10 O termo “baixo padrão” é aqui aplicado no sentido de conotar um padrão de qualidade tecnicamente inferior, como, por exemplo no caso do trigo, que de maneira geral, possui dois padrões de qualidade: um tipo superior, branco, para uso doméstico; e um inferior, de tom mais escuro, para uso industrial entre outros, em fábrica de biscoitos.
Percebe-se que a ênfase era dada ao fato de “ter um certificado”, e não ao processo de “implementação”11 do sistema de gestão da qualidade. Esta ênfase se perpetua,
cinco anos depois, no discurso da diretora de Recursos Humanos do Sindicon, ao explicar que o sucesso na adesão ao PBQP-H no Estado está no fato do custo do investimento da empresa ter sido reduzido em função da capacitação pela consultoria ser em grupo: “Nosso objetivo é estimular as empresas a conseguirem o certificado” (REFERÊNCIA NACIONAL EM QUALIDADE, 2001, p. 3).
Interessante como Janes (1996) reforça o fato da Lacerda Chaves ter buscado de forma “espontânea” a certificação, quando questionado se ela era um “exemplo a ser seguido”:
[...] a Lacerda Chaves implementou não como exigência de mercado, já que o consumidor ainda não exige da construtora um certificado deste. A empresa quis dar um impulso, buscando a certificação do Sistema de Gestão da qualidade de forma pioneira. Não só por iniciativa promocional, mas pela importância do certificado (JANES, 1996, p. 4).
Entretanto, para Janes (1996), com o tempo, a certificação deixaria de ser voluntária, conforme se pode observar na sua declaração, ao ser questionado sobre qual prazo o “mercado” passaria a adotar a norma de forma compulsória:
Se as grandes contratantes que são as estatais, passarem a ser privatizadas e consequetemente [sic], a ter uma gestão autônoma tendo a oportunidade de contratar empresas internacionais, isto vai acontecer muito rapidamente. Principalmente se os recursos que vierem através de organismos de créditos internacionais tenha entre as exigências para a liberação o certificado. De uma forma legal esta exigência, ainda não existe no setor público. Mas para você para participar de um grande projeto industrial, executar uma obra em pareceria com grandes empresas, ou com empresas que se privatizou e está com novas estratégias de relacionamento com seus fornecedores, eu tenho certeza que este certificado vai ser exigido num curto espaço de tempo (JANES, 1996, p. 5, grifo nosso).
11 Implementar é o ato de “[...] Levar à prática por meio de providências concretas” (Aurélio, 1975, p. 746). Pode-se dizer que é o ato de implantar com vigor.
Janes (1996) coloca que a exigência da ISO 9000 pode não vir por intermédio de pressões oriundas do mercado imobiliário, mas sim pelas grandes obras e pelos “grandes projetos” industriais, assim:
É a distinção entre a certificação voluntária, feita pela Lacerda Chaves, e a certificação compulsória. Esta por exemplo, já está acontecendo. A Eletrobrás marcou prazo para 97 começar a ter fornecimento de serviços por empresas que já possuam a certificação. A Petrobrás anuncia também, a partir de 98, que as empresas fornecedoras de produtos e serviços vão ter que possuir também o certificado. E como já citei, a partir do momento a privatização for evoluindo, as empresas que vão trabalhar nestes grandes projetos industriais, também passarão a fazer esta exigência (JANES, 1996, p. 5).
O presidente da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC) fazia na época a seguinte recomendação para os construtores, a respeito da certificação ISO 9000:
A certificação de empresas construtoras com o ISO 9000 iniciou recentemente e poucas empresas já possuem esta credencial. No entanto, a tendência é de que mais empresas obtenham esta certificação, que será tão mais importante na medida em que os contratantes passem a exigi-la. Neste ponto, recomenda-se que as construtoras examinem a oportunidade de atingir o quanto antes este novo estágio (SCHUCHOVSCKI, 1996).
Em setembro de 1996, havia no Espírito Santo apenas nove empresas com seus sistemas da qualidade certificados de acordo com as normas ISO 9000: Aracruz Celulose, Carboindustrial, Cimento Paraíso, Samarco Mineração, Inbrac, Flexibrás, Companhia Vale do Rio Doce (CVRD) (SINDICON, set. 1996). Algumas destas empresas tiveram seus sistemas da qualidade implantados com o apoio técnico dos consultores do Instituto Euvaldo Lodi (IEL), ligado Instituto de Desenvolvimento Industrial do Espírito Santo (Ideis), que por sua vez é associado ao Sistema Findes. Assim seria natural que houvesse uma aproximação entre o Sindicon e o IEL.
Nesse sentido, foi notado, na edição de setembro de 1996 do informativo do Sindicon, uma entrevista do superintendente do IEL/Ideies, comentando a respeito da certificação ISO 9000 no Espírito Santo. Também consta um artigo intitulado “Construindo a Qualidade”, assinado pelo coordenador técnico do IEL-ES. Esta
aproximação objetiva o estabelecimento de um acordo de cooperação técnica, firmado entre as duas entidades. Por intermédio deste acordo, o Sindicon pretendia fazer a capacitação técnica de seus associados interessados na certificação ISO 9000 (SINDICON, set. 1996).
Em 1997, preocupado com a repercussão, no mercado imobiliário, da iminente falência da construtora Encol, o Sindicon reuniu-se com seus associados para debater a questão. Atribuindo a culpa ao Governo, consideravam que “[...] a Encol não conseguiu superar o descaso com que o Governo Federal trata o segmento da construção civil, onde não definição de uma política habitacional, nem a injeção de recursos” (SINDICON, ago. 1997, p. 3). Assim, em solidariedade aos mutuários, que não receberiam seus imóveis adquiridos (estimados em cerca de 580 no Espírito Santo, segundo informações do Ministério Público e dados apurados pelo Sindicon na época), a entidade se propôs a formar, junto aos associados, um pool visando concluir os prédios que a Encol tinha em andamento, sem objetivar o lucro. Esta proposta não foi levada adiante, mas serve para ilustrar a preocupação com este fato.
Em novembro de 1997, no balanço das atividades do mesmo ano do Sindicon, o seu presidente, considera que um...
[...] marco de 97 é o início de implantação coletiva da ‘ISO 9000’ na construção civil, que vai nivelar nossas empresas ao mesmo padrão de qualidade de empresas internacionais de igual porte, capacitando-as para enfrentarem a globalização. Onze empresas já estão inscritas e esperamos a adesão de mais (MELLO, 1997, grifo nosso).
Em fevereiro de 1998, A Morar Construção e Incorporação foi a primeira construtora no Espírito Santo a obter a certificação ISO 9002 de seu sistema da qualidade, por meio da auditoria realizada pela certificadora ABS Quality Evaluations Inc.. A Morar foi fundada em 1981, e pode ser caracterizada como uma empresa familiar de médio
porte, conhecida no mercado imobiliário capixaba, por já deter um razoável padrão de qualidade, mesmo antes do processo que culminou na certificação.
A Morar, embora fosse associada ao Sindicon (SINDICON, abr. 1989), não esperou a formação de grupos de empresas pela entidade. Ela contratou a empresa do Consultor 1, quando seu escritório ainda ficava apenas em São Paulo, para realizar o processo de capacitação e desenvolvimento do sistema12.
Decorrida a certificação, o Sindicon realizou a uma solenidade para a entrega do certificado (pela ABS), aberta a todos os seus associados (SINDICON, (?)1998).
Em maio de 1998, o Sindicon noticiava que outra empresa havia obtido a certificação ISO 9002 de seu sistema da qualidade, a Fortes Engenharia. Outras duas estavam quase em vias de solicitar a auditoria de certificação, a Mazzini Gomes Construtora e a Precisão Engenharia e Arquitetura (SINDICON, maio 1998), o que se confirmou posteriormente. Todas as três empresas também foram auditadas pela ABS, e tiverem apoio do Consultor 1. Como existe uma proximidade entre os sócios das três empresas, houve uma empreitada conjunta, com conseqüente rateio dos custos de viagem e estadia de consultores e auditores.13
Assim, e até pela proximidade de datas das certificações, o Sindicon procedeu novamente uma solenidade, nos mesmos moldes da anterior, para a entrega do certificado a estas três empresas (SINDICON, (?)1998).
Neste ano, o Sindicon iniciou um processo de articulação junto a seus associados e empresas de consultoria visando a implantação dos sistemas de qualidade. A metodologia de implantação já era utilizada pelo Centro de Tecnologia e Edificações
12 Fonte: Consultor 1, um dos entrevistados. 13 Fonte: Consultor 1.
(CTE) em São Paulo (pioneiro no desenvolvimento de programas de qualidade na construção, com o Qualihab14, em 1996) e consiste na formação de grupos de
empresas, como forma de minimizar os custos. Nesta metodologia, os treinamentos ocorrem em conjunto, e, posteriormente, os consultores trabalham dentro das organizações, de forma individual. No caso do Espírito Santo, os treinamentos ocorrem na sede do Sindicon.
Em 1998, representantes do Sindicon visitaram o Sindicato da Indústria da Construção do Estado de São Paulo (Sinduscon-SP), o primeiro a implantar um programa setorial da qualidade na construção civil do Brasil, o Qualihab (Programa da Qualidade da Construção Habitacional do Estado de São Paulo). Também acompanharam a visita o superintendente do Instituto Euvaldo Lodi (IEL), entidade que já atuava em consultoria na área de certificação, e um professor da Ufes, do departamento de Engenharia Civil (SINDICON [?] 1998). Este último iria se tornar o representante no Estado do CTE, “parceiro” do Sinduscon-SP e, posteriormente, do Sindicon também.
A aproximação com o IEL, para o processo de capacitação das construtoras, não se concretizou, pois as duas entidades não chegaram a um acordo comercial (informação verbal15). Esse processo de capacitação dos associados do Sindicon,
na implantação de sistemas da qualidade, acabou sendo “acordado” com a empresa
14 Em 25 de novembro de 1996 foi assinado o Decreto Nº 41.337 pelo Governo de São Paulo, que instituiu o Programa QUALIHAB (Programa da Qualidade da Construção Habitacional do Estado de São Paulo) e os acordos setoriais. Desta forma foi implantado o primeiro modelo de qualidade para melhorar o setor. Este acordo envolvia 22 entidades de classe, diversos construtores e fabricantes de materiais, coordenadas pela Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano do Estado de São Paulo (CDHU), responsável pela compra das unidades habitacionais cujas operações englobavam recursos por volta de 1 bilhão de reais por ano (PRADO Fh, 2002).
do Consultor 1 (um dos entrevistados) e, posteriormente, também com o Consultor 2 (outro entrevistado).
Em março de 1999, duas outras construtoras foram certificadas, a Lorenge e a Proeng. Ambas foram auditadas pelo Organismo Certificador Credenciado 1 (OCC1), um dos alvos das entrevistas realizadas. Para o OCC1, que estava recém instalada em Vitória, estas foram suas primeiras construtoras certificadas no Espírito Santo, caracterizando sua entrada neste nicho16. Assim, no fim de 1999, já havia
seis construtoras certificadas no Espírito Santo.