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Institucionalização do Turismo em Portugal

Durante a segunda metade do século XIX, no seguimento de algumas transformações decorrentes da Segunda Revolução Industrial, que resultou no direito ao repouso, ao tempo livre e às férias, assistiu-se a uma crescente vontade e gosto de viajar, tornando o turismo numa atividade económica. Por outro lado, e de acordo com Licínio Cunha, “a ideia de promover o desenvolvimento do turismo em Portugal surge pela necessidade de resolver problemas financeiros com que o país se depara já desde finais do século XIX e início do século XX”168. É nesta altura que se fazem ouvir algumas vozes que veem no turismo uma forma de ultrapassar alguns dos graves problemas que o país enfrenta. Apesar do crescimento económico verificado a partir de meados do século XIX, ligado principalmente às obras levadas a cabo por Fontes Pereira de Melo, o défice orçamental e o endividamento externo criaram uma situação débil. No entanto, o turismo contribuiu, positivamente, para o saldo comercial em alguns países europeus e, nesta ocasião, os políticos portugueses viram aqui uma oportunidade de poderem desenvolver esta atividade em Portugal.

Esta crise profunda de 1891 resulta, de acordo com Cunha, “na falência de bancos, na suspensão da amortização da dívida pública e no colapso da balança de pagamentos, que leva os credores externos a exigirem ao governo o respeito dos seus compromissos”169, provocando

uma estagnação do crescimento da riqueza170. Segundo Luís Aguiar Santos, “o que, porém, modelou toda esta nova conjuntura pós-Regeneração foi a assunção pelo Estado português do papel de alocador de recursos e investimentos: os chamados melhoramentos materiais”, como, por exemplo, a construção de redes telegráficas, ferroviárias e rodoviárias, que foram assumidos pelo Estado como investimentos por si geridos com recurso ao endividamento interno e externo171.

168Cunha, Licínio (2010b), op. cit., p. 131.

169Cunha, Licínio (2010b), op. cit., p. 130.

170Santos, Luís Aguiar (2001), “A crise financeira de 1891: uma tentativa de explicação”, Análise

Social, XXXVI, pp. 158-159.

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Em Portugal, a institucionalização do turismo começou em 1906 quando foi fundada a Sociedade de Propaganda de Portugal (SPP), também designada por Touring Club de Portugal. Segundo Licínio Cunha “a criação da SPP é uma das iniciativas mais admiráveis do princípio do século XX e aquela que mais influenciou o despertar do Turismo em Portugal”. Criado pelo ilustre ferroviário, Leonildo Mendonça e Costa (1849-1923), jornalista e diretor da Gazeta dos

Caminhos de Ferro, este estava decidido a projetar a imagem de Portugal além-fronteiras

através da promoção turística.

Sendo um organismo privado, sem capacidade legal ou económica para gerar investimentos, os seus objetivos principais seriam, por um lado, incentivar, junto da população, uma recetividade que apoiasse ações de promoção e, por outro lado, publicitar o turismo e o património português, tanto a nível nacional como internacional. O seu plano de trabalhos incidia na propaganda nacional, bem como no desenvolvimento de ações que promovessem o turismo e criassem uma consciência coletiva sobre a sua importância, melhorando as condições de atração interna172.

O desenvolvimento das ligações ferroviárias com o centro da Europa, e das marítimas com o continente americano, foi uma das principais ações da Sociedade de Propaganda de Portugal. O objetivo de transformar Lisboa num centro de tráfego internacional entre ambos os continentes vinha já de Fontes Pereira de Melo, mas a crise atrasou esse processo. A SPP tomou, então, várias iniciativas nomeadamente o estabelecimento de ligações diárias com Paris, pelo comboio “sud-express”, equipado com carruagens-cama, na atracação de barcos transatlânticos ao cais de Lisboa dos vapores da Booth Line e no estabelecimento de carreiras regulares entre Lisboa e Nova Iorque pelo paquete Sant’Ana da Fabre Steam Ship Co.

O objetivo era transformar Lisboa na plataforma das relações entre o centro europeu e o continente americano173. Esta situação é confirmada com o primeiro cartaz editado em 1907 e distribuído pela Europa, afirmando que Portugal seria: “(…) the shortest way between America

and Europe”. Em 1906, a SPP aprova o regulamento que cria delegações com o objetivo de

organizar e divulgar o inventário de todos os monumentos, riquezas turísticas, curiosidades e lugares pitorescos. A propaganda era entendida como um meio essencial para a promoção turística do país. Para o efeito, a Sociedade levou a cabo um conjunto de ações, a nível nacional

172 Cunha, Licínio (2010b), op. cit., p. 132. 173 Pina, Paulo (1988), op. cit., pp. 13 -19.

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e internacional. Entre várias atividades, organizou visitas de estudo a jornalistas e escritores estrangeiros e editou o Guia Sociedade Propaganda de Portugal174.

Dedicando especial atenção às relações externas, a Sociedade envia um representante ao II Congresso Internacional de Turismo, realizado em 1909, na cidade espanhola de San Sebastian, conseguindo que fosse aprovada a sua integração na Federação Franco-Hispânica dos Sindicatos de Iniciativa e Propaganda, transformada, então, em Federação Franco-Hispano- Portuguesa. Esta filiação veio a ser decisiva para a institucionalização oficial do turismo em Portugal175.

Na sequência de várias medidas, assiste-se então à criação, em 1911, da Organização Oficial do Turismo Português. Aos poucos, a criação do organismo oficial vai absorvendo a missão que a Sociedade se havia proposto realizar e a sua ação vai-se desvanecendo numa desmobilização crescente.

Em 1920, a reorganização dos serviços do Ministério do Comércio e Comunicações levou à criação de uma Administração Geral das Estradas e Turismo na dependência da Secretaria Geral desse Ministério. Esta era constituída por uma Repartição de Turismo que integrava o Fundo de Turismo e as Comissões de Turismo e de Iniciativa. Segundo Maria João Castro, em 1927, a pasta do turismo passou para a competência do Ministério do Interior, “graças ao receio por parte do Estado das más influências vindas do exterior e ao desejo de um maior controlo institucional”176.

Em 1928, o jogo ficou ligado ao turismo e criou-se a Repartição de Jogos e Turismo integrada no Ministério do Interior. Passaram a existir duas zonas permanentes na Madeira e no Estoril e algumas temporárias em Viana do Castelo, Espinho, Curia, Praia da Rocha, Figueira da Foz e Sintra. Foi, da mesma forma, objeto de regulamento o licenciamento para estabelecimentos hoteleiros e proteção alimentar na restauração. Em 1929, foi criado o Conselho Nacional de Turismo, que absorveu funções na área da propaganda turística no exterior. No ano seguinte, assiste-se à criação da Comissão da Propaganda do Turismo de Portugal no Estrangeiro, em 1931, e criam-se as primeiras delegações das Casas de Portugal, que passaram a agrupar a propaganda comercial e do turismo nos respetivos países onde se

174 Cunha, Licínio (2010b), op. cit., p. 133. 175 Pina, Paulo (1988), op. cit., p. 17.

176Castro, M. J. (2014), “Traços de viagem: A institucionalização do turismo na primeira metade do

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implantaram. Porém, segundo Licínio Cunha, “o seu papel de aglutinadora e mobilizadora de vontades apaga-se na voragem das transformações”177.

Ainda na década de trinta, assiste-se à criação do Secretariado de Propaganda Nacional (SPN), através do Decreto-Lei n.º 23:054, publicado no número 218 do Diário do Governo de 25 de setembro de 1933, I Série. No sumário do texto legislativo afirma que “todos os países novos ou renascentes têm sentido a necessidade de organizar e centralizar a propaganda interna e externa da sua atividade”178. De acordo com Maria Cândida Cadavez, e contrariamente à Itália

e Alemanha, “um Secretariado pareceu bastar para integrar os portugueses no pensamento moral que deve dirigir a Nação, isto é, o regime entendeu que esta repartição seria instrumento suficiente para divulgar as lições sobre Portugal que Salazar pretendia que nacionais e estrangeiros aprendessem”179.

Este secretariado tinha como objetivo, de acordo com o Decreto que o criou, “coordenar toda a informação relativa à ação dos diferentes Ministérios, de modo a que, pela sua organização sistemática e oportuna difusão, possa evidenciar-se, no país e no estrangeiro, o espírito de unidade que preside à obra realizada e a realizar pelo Estado Português”180. Segundo

Maria João Castro, tendo em conta os objetivos desta estrutura de promoção turística, “fizeram do SPN um órgão extremamente politizado e daí que se tenha apostado fortemente no turismo nacional como instrumento valioso de equilíbrio financeiro e projeção externa”181. De acordo com Cadavez, “a principal atenção do Decreto-Lei que estabelecia o SPN estava focado na propaganda nacional e nos instrumentos que deveriam ser usados de forma a torná-la eficaz”182.

Em 1936, no seguimento do 1.º Congresso Nacional de Turismo tinha como objetivo de “fomentar a economia através do turismo com recurso às paisagens, ao clima e à hidroterapia”183 e incluiu sessões que abordavam temas como a escassez quantitativa e

qualitativa do parque hoteleiro, a formação profissional, a importância atribuída pelo novo regime político à preservação e à divulgação do património nacional cultural e imaterial, ou ainda a falta de diversificação de produtos turísticos. Na vertente hoteleira, foi discutida uma nova proposta para o setor: as pousadas, que seguiam o exemplo dos Paradores espanhóis, que

177 Cunha, Licínio (2010b), op. cit., p. 134.

178 Diário do Governo, Decreto-Lei n.º 23:054, de 25 de setembro de 1933. 179Cadavez, Maria Cândida (2013a), op. cit., p. 98.

180Diário do Governo, Decreto-Lei n.º 23:054, de 25 de setembro de 1933. 181Castro, M. J. (2014), op. cit, pp. 41-55.

182 Cadavez, Maria Cândida (2013a), op. cit., p. 98.

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se traduzia, segundo Susana Lobo, na “possibilidade de serem aproveitadas construções antigas, desde que oferecessem condições de adaptabilidade às exigências atuais do conforto e de vida sem lhes tirar o seu cunho ou as deformar”184. Aqui, torna-se visível a influência espanhola no

desenvolvimento do turismo nacional, um país da península ibérica que tinha, claramente, uma influência direta em Portugal.

O SPN, a partir de 1944, passa a chamar-se de Secretariado Nacional da Informação, Cultura Popular e Turismo (SNI), e que concentrou os Serviços de Turismo, os Serviços de Imprensa, a Inspeção dos Espetáculos, que incluíam o exercício da censura, os Serviços de Exposições Nacionais e os Serviços de Radiodifusão. Na dependência deste Secretariado foram ainda criados o Fundo do Cinema Nacional e o Fundo do Teatro Nacional, em 1948 e em 1950, respetivamente.

Em 1960, o Secretariado Nacional de Informação passou a dispor de duas Direções de Serviço185, a de Informação e a de Turismo. A constituição do Comissariado do Turismo, em 1965, facilitou os contactos desta entidade com outras direções-gerais ligadas ao sector turístico. O SNI foi extinto em 1968, tendo os respetivos serviços transitado para a Secretaria de Estado da Informação e Turismo, da Presidência do Conselho de Ministros186.

Com objetivo de compreender o percurso nacional no que diz respeito à institucionalização e desenvolvimento do turismo na primeira metade do século XX, de acordo com Maria João Castro, verifica-se que “Portugal se posicionou entre os primeiros países do mundo a adotar ações concretas para desenvolver do sector turístico”187. O surgimento do primeiro organismo de turismo surgiu na Áustria (1909), seguida da França (1910); Portugal ocupa o terceiro lugar (1911). Concertando o setor público e privado no sentido de orientar políticas ligadas à identidade nacional, que levassem a cabo um desenvolvimento ligado, este período, ou seja, o da primeira metade do século XX, tornou-se crucial para que Portugal, na última parte do século, fosse incluído em circuitos turísticos internacionais.