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Iter Criminis a) Conceito

No documento Direito Penal Militar Prof. Rodolfo Souza (páginas 37-42)

g) Dever objetivo de cuidado

2.7. Iter Criminis a) Conceito

É o caminho do crime, ou seja, o conjunto de etapas que se sucedem, cronologicamente, no desenvolvimento do delito. Trata-se de instituto exclusivo dos crimes dolosos. De acordo com a doutrina, o Iter Criminis comporta as seguintes fases:

1ª fase – Cogitação (cogitatio), que se passa na mente do agente, quando este define a infra-

ção penal que deseja praticar, representando e antecipando o resultado almejado. Por força do princípio da ofensividade, não pune cogitação, uma vez que o Direito Penal não pode incidir sobre atitudes interiores, que não atingem a esfera jurídica de terceiros.

2ª fase – Preparação (conatus remotus): após decidir pela realização do delito, o sujeito passa

aos atos preparatórios, necessários ao êxito da empreitada criminosa. Assim, o agente provi- dencia os meios, escolhe o local apropriado para realizar o ato etc. Os atos preparatórios, em regra, também não são puníveis, pois o inciso II do artigo 30 do CPM exige início de execução para que seja punida a tentativa.

Entretanto, em algumas hipóteses, o legislador optou por punir de forma autônoma condutas que, a princípio, poderiam ser consideradas atos preparatórios. Por exemplo, no crime de cons- piração, previsto no art. 152, CPM, pune-se antecipadamente a conduta de concertarem-se militares para a prática do crime previsto no artigo 149 (motim).

3ª fase – Execução (conatus proximus), quando o agente ingressa nos atos executórios do cri-

me. Há polêmica quanto à definição do que vem a ser ato de execução, havendo diversas teo- rias que disputam o tema:

• Teoria subjetiva – há execução quando o agente, de modo inequívoco, exterioriza qualquer conduta orientada no sentido de praticar a infração penal. Essa teoria não distingue atos preparatórios dos atos de execução. Nessa linha, por exemplo, haveria tentativa se o sujei- to ficasse de tocaia, à espreita da vítima, aguardando que passasse por determinado local, quando a mesma segue por outro itinerário.

• Teoria objetivo-formal (adotada pelo Código Penal Militar) – ato executório é o comporta- mento descrito no tipo penal objetivo. Todos os atos anteriores, que conduzem à realização da conduta descrita no tipo penal, são considerados atos preparatórios. Assim, a título de exemplo, no homicídio com emprego de arma de fogo, a ação de matar começaria com o acionamento do gatilho da arma de fogo carregada e apontada para a vítima. Já no furto, o ato de execução seria a ação de remover a carteira do bolso da vítima.

• Teoria objetivo-material – atos executórios são aqueles vinculados à conduta típica e que produzem situação de risco para o bem jurídico. Logo, apontar a arma carregada para a ví- tima, já seria ato executório de homicídio.

• Teoria objetivo-individual – para determinar-se a diferença entre atos preparatórios e exe- cutórios, deve-se levar em conta o plano concreto individual do autor. Portanto, a execu- ção inicia-se com a atividade com que o autor, segundo seu plano delitivo, imediatamente aproxima-se da sua realização.

• Teoria da hostilidade ao bem jurídico – ato executório é aquele que ataca efetivamente e imediatamente o bem jurídico, enquanto que ato preparatório é o que possibilita tal ata- que. Assim, deve-se indagar se houve ou não agressão ao bem jurídico.

4ª fase – Consumação (summatum opus): diz-se consumado o crime quando nele se reúnem

todos os elementos de sua definição legal (art. 30, I, CPM). A consumação depende da natureza do delito.

• Nos crimes materiais, culposos e omissivos impróprios, o momento consumativo ocorre com a produção do resultado naturalístico.

• Os crimes formais (ou de consumação antecipada) consumam-se com a prática da conduta descrita no núcleo do tipo, independentemente da obtenção do resultado previsto. Caso este venha a ocorrer, há mero exaurimento.

• Nos crimes de mera conduta, a consumação se dá com a realização do simples comporta- mento previsto no tipo penal, não havendo previsão de resultado naturalístico.

• Nos crimes omissivos próprios consumam-se com a abstenção do comportamento impos- to ao sujeito ativo.

• Nos crimes permanentes, enquanto durar a permanência, o delito estará em consumação, pois essa se prolonga no tempo.

5ª fase – Exaurimento, para maioria da doutrina, é a fase posterior à consumação do delito,

esgotando-o completamente.

b) Tentativa: nos exatos termos do artigo 30, II, CPM, “diz-se o crime tentado, quando, inicia- da a execução, não se consuma por circunstâncias alheias à vontade da agente”. O artigo 30, II, do CPM, é uma norma de extensão que amplia a figura típica, de modo a abranger situações não previstas expressamente no tipo penal. Trata-se de adequação típica mediata, sem a qual seria impossível a punição do agente cuja infração penal não se consumasse.

c) Espécies de tentativa

• Tentativa perfeita (tentativa acabada ou crime falho) – O agente esgota toda a fase execu- tória, empregando, segundo seu entendimento, todos os meios que tinha a sua disposição para alcançar a consumação do crime, que não ocorre por motivos alheios a sua vontade. Ex.: “A”, com dolo de matar, dispara cinco tiros contra “B”, atingindo-o em região letal, po- rém a vítima é socorrida e sobrevive.

• Tentativa imperfeita (tentativa inacabada) – O agente não exaure toda a sua potencialida- de lesiva, ou seja, não realiza todos os atos executórios que entendia necessários ao alcan- ce da consumação. O sujeito é interrompido durante os atos de execução, antes de esgotar todos os meios que pretendia inicialmente empregar para consumar o crime. Ex.: “A”, com dolo de matar, almeja disparar cinco tiros contra “B”, mas após efetuar dois disparos, é in- terrompido por “C”, sendo que a vítima é socorrida e sobrevive.

• Tentativa branca (incruenta) – O agente não consegue atingir o objeto material (a pessoa ou coisa sobre a qual recai a conduta). É preciso pesquisar o dolo do agente para determi- nar o crime tentado.

• Tentativa cruenta – O agente consegue atingir o objeto material, mas não consuma o delito pretendido.

d) Hipóteses em que não se admite tentativa

• Nos crimes culposos não há tentativa, pois não há vontade dirigida à finalidade a causar o resultado lesivo. A tentativa é instituto exclusivo dos delitos dolosos. Contundo, convém atentar para a chamada culpa imprópria, incidente no erro de fato vencível (art. 36, § 1º, CPM), em que o sujeito, embora agindo dolosamente, é punido a título de culpa, em virtu- de de sua falsa representação da realidade.

• Nos crimes preterdolosos há dolo na conduta antecedente e o resultado agravador advém de culpa, logo não há o que se falar em tentativa (lesão corporal seguida de morte – artigo 209, § 3º, CPM).

• Nos crimes unissubsistentes, não havendo fracionamento do Inter Criminis, não há pos- sibilidade de tentativa, pois o crime se realiza num único ato (injuria verbal – artigo 216, CPM).

• Nos crimes omissivos próprios, a simples omissão já configura a consumação. Se o sujeito pratica o comportamento previsto no comando da lei, não pratica fato típico (descumpri- mento de missão – art. 196, CPM).

• Nos crimes de atentado ou de empreendimento, o comportamento típico já inclui dire- tamente a tentativa, que é punida com a mesma pena da modalidade consumada (tentar evadir-se mediante violência contra a pessoa – art. 180, CPM).

• Nos crimes Habituais, segundo o entendimento majoritário, não cabe tentativa, porque o crime se aperfeiçoa com a reiteração da conduta, que, considerada de forma isolada, é um irrelevante penal.

e) Aplicação da pena na tentativa

De acordo com o parágrafo único do artigo 30 do Código Castrense, “pune-se a tentativa com a pena correspondente ao crime, diminuída de um a dois terços, podendo o juiz, no caso de excepcional gravidade, aplicar a pena do crime consumado”.

Conforme se depreende do dispositivo acima, adotou-se a teoria objetiva temperada (ou ma- tizada), pois o Código prevê a causa de diminuição de pena para o crime tentado. Todavia, di- ferentemente do Código Penal Comum, o estatuo repressivo militar adota também a teoria subjetiva, autorizando o juiz, no caso de excepcional gravidade, a aplicar a pena da figura típica consumada ao crime tentado.

f) “Tentativa” qualificada – desistência voluntária e arrependimento eficaz

Dispõe o artigo 31, do CPM, que o agente que, voluntariamente, desiste de prosseguir na exe- cução ou impede que o resultado se produza, só responde pelos atos já praticados”.

• Na desistência voluntária (tentativa abandonada ou “ponte de ouro”), é necessário que o agente já tenha ingressado nos atos de execução e, sem esgotar todos os meios que tinha à disposição para consumar o crime (quadro de tentativa imperfeita), desista voluntariamen- te de prosseguir com a ação. O sujeito não deseja mais o crime, pois mudou de propósito.

Ex.: “A”, com animus necandi, pretende disparar cinco tiros contra “B”. Após efetuar o pri- meiro disparo, fica sensibilizado com os pedidos de clemência da vítima e interrompe a execução, não efetuando os demais disparos que pretendia fazer. Não ocorrendo o resul- tado morte, o sujeito não responde pela tentativa de homicídio, mas somente pelas lesões corporais.

• No arrependimento eficaz, depois de esgotar todos os meios executórios de que pretendia utilizar para chegar à consumação da infração penal (quadro de tentativa perfeita), o su- jeito arrepende-se e atua em sentido contrário, evitando a produção do resultado por ele pretendido inicialmente.

Ex.: após uma intensa discussão, “A” lança “B” ao marpara que morra afogado, eis que não sabe nadar. Pouco depois, arrependido, “A” resolve salvar a vítima, atirando-lhe um salva- -vidas. Se a vítima sofrer alguma lesão corporal, esta será atribuída ao agente, que não responde pela tentativa de homicídio.

A diferença entre a desistência voluntária e o arrependimento eficaz está em que, na primeira, o processo de execução ainda está curso (o agente está diante de uma situação de tentativa imperfeita) e, no segundo, a fase de execução já foi encerrada (quadro de tentativa perfeita). Na desistência voluntária, há uma omissão, pois, o agente deixa de prosseguir na execução. No arrependimento eficaz, há uma ação, já que, esgotada a execução, o sujeito age para impedir o resultado.

Em ambos os casos, se houver a produção do resultado, o sujeito não será beneficiado pelos institutos acima, mas responderá pelo crime consumado. Mesmo tendo desistido de prosse- guir na ação, sua conduta foi apta a produzir o resultado. Mesmo havendo arrependimento e ação no sentido de impedir o resultado, a conduta não foi eficaz. Contudo, essas circunstâncias serão relevantes na análise da culpabilidade, no momento da aplicação da pena-base.

g) Arrependimento posterior

O Código Castrense não contempla o arrependimento posterior como causa obrigatória de re- dução de pena. Diferentemente do previsto no artigo 16 do Código Penal Comum, não há previ- são de diminuição de pena de um a dois terços, pela restituição da coisa ou reparação do dano por ato voluntário do agente antes do recebimento da inicial acusatória.

Registre que a reparação do dano é elencada no artigo 72, III, “b”, do CPM, no rol de circuns- tâncias atenuantes, podendo beneficiar o agente se realizada antes do julgamento. Na parte especial do Código Penal Militar, há previsão de diminuição de pena de um a dois terços, no caso de furto (art. 240, § 2º, CPM), se o acusado é primário e restitui a coisa ou repara o dano

voluntariamente, antes de iniciada a ação penal. O mesmo benefício se repete para os cri-

mes de apropriação indébita (art. 250, CPM), estelionato (art. 253, CPM), receptação (art. 254, CPM) e dano (art. 260, CPM).

No peculato culposo, extingue-se a punibilidade se a reparação do dano precede a sentença irrecorrível. A pena é reduzida da metade, se a reparação é posterior ao transito em julgado (art. 303, § 4º, CPM). O mesmo benefício se repete no Código Penal Comum (art. 312, § 3º, CP).

h) Crime impossível (tentativa inidônea ou inadequada ou quase-crime)

Estatui o artigo 32 do CPM: “quando, por ineficácia absoluta do meio empregado ou por abso- luta impropriedade do objeto, é impossível consumar-se o crime, nenhuma pena é aplicável”. Na mesma linha do Código Penal Comum, o Código Castrense adotou a teoria Objetiva tem- perada, que afasta a punibilidade da tentativa somente quando houver ineficácia absoluta do meio empregado ou absoluta impropriedade do objeto.

Se os meios são relativamente ineficazes e os objetos são relativamente impróprios, há alguma possibilidade de o agente alcançar o resultado pretendido, portanto, pune-se a tentativa. • Se meio é todo recurso empregado pelo agente capaz de conduzi-lo à produção do resul-

tado pretendido, absolutamente ineficaz é aquele meio que não possui a mínima aptidão para produzir os efeitos pretendidos, como, por exemplo, um revólver sem munição ou com munição já detonada, bem como uma falsificação grosseira destinada à obtenção de vantagem ilícita.

• Objeto é a pessoa ou coisa contra a qual se dirige a conduta do agente. Se o objeto é ab- solutamente impróprio, o resultado jamais será alcançado, como, por exemplo, no caso de se atirar num cadáver ou na ingestão de substância abortiva sem haver gravidez em curso. Outro tema que merece lembrança é a hipótese de crime impossível em virtude de flagrante

preparado. (Provocado). Na esteira militar aplica-se o enunciado da súmula 145, STF: “não há

crime, quando a preparação do flagrante pela polícia torna impossível a sua consumação”. O flagrante preparado ocorre quando alguém (agente provocador), de forma insidiosa, provoca o sujeito ativo à pratica de um crime e, ao mesmo tempo, adota providências a fim de que o mesmo não venha não venha a se consumar.

i) Pena agravada pelo resultado

O Código Penal Militar consagrou o princípio da culpabilidade (nullum crimen sine culpa), ao prever que ninguém pode ser punido por um resultado mais grave se não o tiver causado pelo menos a título de culpa.

• Dispõe o artigo 34 do Código Castrense que “pelos resultados que agravam especialmente as penas só responde o agente quando os houver causado, pelo menos, culposamente”. A doutrina desenvolve o tema do crime qualificado pelo resultado, apontando as hipóteses de tipificação complexa, que podem ser:

• Crimes de dupla tipicidade dolosa (dolo + dolo) – Há dolo na conduta antecedente e na ocorrência do resultado agravador (lesões corporais qualificadas – art. 209, §§ 1º e 2º, CPM).

• Crimes preterdolosos (dolo + culpa) – A ação é, ao mesmo tempo típica de rime doloso, em razão de sua finalidade, e de um tipo culposo, em face da violação de um dever de cuidado. O resultado vai além da intenção do agente. Há dolo na conduta antecedente e culpa na consequente (lesão corporal seguida de morte – art. 209, § 3º, CPM e na rixa qualificada – artigo 211, p. único, CPM).

• Crime de dupla tipicidade culposa (culpa + culpa) – Há culpa na conduta antecedente e no resultado agravador (incêndio culposo – crime de perigo comum – com resultado lesão corporal ou morte – art. 269 § 2º c/c art. 277, parte final, ambos do CPM).

3. Ilicitude (antijuridicidade)

3.1. Conceito

Ilicitude é a relação de contrariedade entre o fato humano e as exigências do ordenamento jurídico em sentido amplo, representando uma lesão ou ameaça de lesão a bens jurídicos pro- tegidos.

De acordo com a teoria da Ratio Cognoscendi, adotada pela orientação dominante, a tipicidade exerce uma função indiciária de ilicitude. Assim, verificada a ocorrência de um fato típico, há um juízo condicionado de ilicitude, que se confirmará se não houver incidência de nenhuma das causas de justificação previstas no ordenamento jurídico.

3.2. Causas de exclusão da ilicitude (descriminantes, justificativas ou cau-

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